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Análise: Agatha Christie — Hercule Poirot: The First Cases (Switch) transporta o jogador para um livro da Rainha do Crime

Esta história inédita e original poderia ter sido escrita pela autora britânica.

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Agatha Christie morreu em 1975 e, junto com ela, sua maior criação: o detetive Hercule Poirot. Porém, em Agatha Christie — Hercule Poirot: The First Cases, podemos acompanhar um Poirot mais jovem, no início de sua carreira como detetive particular, quando é contratado para investigar o mistério por trás da família Van den Bosch. Mesmo que a história tenha sido criada exclusivamente para o jogo, a trama conta com todos os elementos presentes nas narrativas da autora britânica, para a alegria dos fãs.

Entre amigos e conhecidos, quem é o inimigo?

Tudo começa quando Hercule Poirot, então ainda oficial do Exército Belga, é chamado repentinamente por Elizabeth para investigar o sumiço de um bracelete na residência dos Van den Bosch. Alguns anos depois, já atuando como detetive particular, o jovem recebe uma carta de Angeline Van den Bosch pedindo para que ele investigue um misterioso e enigmático caso de chantagem. A herdeira da família Van den Bosch acredita que o chantagista é um dos dos presentes em seu jantar de noivado, pretexto para convidar o detetive, mas essa é apenas a ponta do iceberg.

A chantagem logo se transforma em um caso de assassinato, cujo perpetrador também está presente nessa ocasião tão especial, e as coisas começam a ficar mais complicadas. Será o assassino a mesma pessoa por trás da chantagem? Cabe a Poirot desvendar o caso e, acima de tudo, descobrir o segredo da família Van den Bosch.


Colocando as células cinzentas para funcionar

Antes de analisar a jogabilidade como um todo, preciso informar que encontrei um bug no jogo logo no início do capítulo 3 e não consegui progredir para além disso na trama, composta por nove capítulos ao todo. No entanto, a desenvolvedora já está trabalhando em um patch corretivo, que deve ser aplicado em breve; no mais, esse contratempo não afetou a experiência que tive até então.

O grande atrativo de The First Cases é a forma como o game se apresenta. Ele não pode ser considerado 100% aventura, mas também não é apenas uma visual novel, e conta ainda com elementos de point-and-click e puzzles. Em suma, se podemos dizer que os livros de Agatha Christie trazem um emaranhado de casos em cada trama, então é válido classificar o que temos aqui como um emaranhado de gêneros.

No controle de Poirot, o jogador precisa investigar os cenários, interrogar os personagens e coletar pistas. Para avançar na história, que é linear, e desbloquear novas áreas, conversações e até mesmo novas pistas, deve-se ligar as informações obtidas em diferentes mapas mentais, cada qual com um objetivo, em um esquema de macro/micro.



Como exemplo, citarei o capítulo 3. O mapa mental maior (macro) e objetivo principal do capítulo é descobrir quem é o assassino de um dos convidados para o jantar, mas uma mesma pista pode estar presente em outros mapas mentais menores (micro), tal qual o modo como o crime foi cometido ou a intenção do assassino. Inclusive, às vezes é necessário chegar a uma conclusão nesses micros para desbloquear novas informações no macro.

As pistas variam de informações que os personagens deram durante os diálogos a interações com objetos nos cenários. De início, esse esquema de mapas mentais pode assustar os jogadores, mas o próprio jogo informa quando novas ligações estão disponíveis. Contudo, isso não quer dizer que o método de tentativa e erro não esteja presente, mas ele não chega a ser maçante ou pouco interessante, pelo menos não no meu caso.

É válido dizer que The First Cases incita o raciocínio lógico e a capacidade de dedução do jogador, que muitas vezes precisa enxergar além do que está informado na pista; saber ler as entrelinhas é fundamental para avançar na trama. Além disso, fui surpreendida positivamente ao perceber que até mesmo possibilidades óbvias demais devem ser levadas em consideração desde o início da investigação.

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Em dados momentos, Poirot precisa confrontar os personagens para obter informações cruciais para a solução do caso e, para tal, o jogador deve escolher a melhor forma de abordagem presente nas opções, levando em consideração a personalidade de quem está sendo interrogado. Como fã dos livros da Agatha Christie, fiquei muito satisfeita ao ver que o modus operandi do detetive, baseado nos aspectos psicológico e comportamental dos personagens, foi seguido à risca.

Qualidade como um todo

The First Cases cativa pelos seus gráficos, mesmo que modestos e simples se comparados aos de outras obras, dada a atual geração de consoles. As músicas e efeitos sonoros também condizem com a qualidade artística e ajudam a transportar o jogador para a época na qual a história se passa, no início do século XIX.

O jogo conta com dublagem total para as cutscenes e diálogos, e os dubladores escolhidos conseguem entregar um ótimo resultado, especialmente se levarmos em consideração a variedade de sotaques, que conferem ainda mais personalidade aos personagens. Acessibilidade é outro ponto forte de The First Cases, que conta com dublagem em inglês, francês e alemão, mas o que mais chama a atenção é a possibilidade de jogar com textos em português brasileiro, com uma tradução bem competente.

Esta aventura inédita pode ser aproveitada tanto no modo TV quanto no modo portátil do Switch sem comprometimento de performance ou gráficos. No entanto, minha experiência foi melhor ao jogar com o console conectado à TV, pois é mais fácil de acompanhar os textos, sobretudo nos mapas mentais, devido ao tamanho da fonte usada — e talvez esse seja um dos pouquíssimos problemas do jogo.


Infelizmente, ele sofre com a visão isométrica dos cenários. Às vezes, é necessário posicionar Poirot de maneira bem específica para que ele possa interagir com determinados objetos, já que não é possível rotacionar a câmera, apenas aproximá-la e afastá-la do protagonista.

A história não deixa a desejar e é um prato cheio para os fãs de romances policiais como um todo, mas pode causar estranheza àqueles que não são familiarizados com a obra de Agatha Christie. Por mais que seja uma trama criada exclusivamente para o jogo, ela segue o estilo narrativo da escritora, em especial o modo como os acontecimentos se desenvolvem e a lógica de Poirot.

Ordem e método

Agatha Christie — Hercule Poirot: The First Cases traz uma história inédita e original, mas digna de ser uma homenagem à Rainha do Crime. Com uma jogabilidade e trama interessantes e envolventes que exercitam o raciocínio lógico, é difícil não se sentir na pele de um jovem, porém excêntrico detetive Hercule Poirot, cujo método para resolver os crimes é explorado fielmente. Talvez seja um jogo que agrade mais aos fãs da escritora, que já estão acostumados com o estilo narrativo da britânica, mas ele pode ser apreciado por todos os fãs de romances policiais.

Prós

  • Narrativa e jogabilidade envolventes, imersivas e interessantes;
  • Ótima apropriação do estilo narrativo de Agatha Christie;
  • Apresentação audiovisual condizente com a ambientação do início do século XIX;
  • Estímulo para o raciocínio lógico do jogador;
  • Diversas opções de idiomas, tanto para textos quanto para dublagem, inclusive português brasileiro.

Contras

  • Dificuldade de interação com objetos devido à falta de rotação da câmera;
  • Textos extremamente pequenos no modo portátil do Switch;
  • Jogabilidade pouco intuitiva no começo;
  • Mais recomendado a fãs de Agatha Christie.
Agatha Christie — Hercule Poirot: The First Cases - PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch - Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Microids

Também conhecida como Lilac, não consegue viver sem música. Livros e quadrinhos fazem parte de sua biblioteca. Adora filmes, jogos, animações e experiências culinárias, sobretudo doces. Prefere ser chamada por Ju.


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