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Análise: Master Key traz uma experiência retrô de qualidade para o Switch

O jogo busca inspiração da era 2D de Zelda para criar o seu próprio mundo aberto cheio de segredos.


Nas palavras do seu próprio criador, Master Key é um “Zelda-like fofo de 1-bit focado em exploração e liberdade”. Apaixonado pelo visual da pixel art composta por apenas duas cores de Minit de 2018, o estilo conhecido por 1-bit, Achromi apostou em um Kickstarter em 2022 e passou o resto do seu tempo desenvolvendo o título sozinho.

Com inspiração nos tempos em que assistia a sua avó jogando SNES, o desenvolvedor sentiu a necessidade de criar sua própria aventura seguindo os moldes do que ele mesmo chama de “Nintendo Hard” — a dificuldade típica dos velhos títulos de consoles da Big-N. O resultado é um jogo que nunca segura a sua mão e traz de volta a sensação de liberdade (e ocasional confusão) dos Zeldas da era 2D.

It’s dangerous to go alone…


É perigoso se aventurar sozinho, é melhor levar uma chave. É a partir dessa ideia que a jornada de Master Key tem início. Você, no papel de uma raposa protagonista sem nome, aparece em uma caverna escura e logo encontra uma grande chave que também funciona como uma espécie de espada.

Se você conhece os primeiros jogos da série The Legend of Zelda, principalmente Link's Awakening para o Game Boy, a movimentação e o combate irão parecer bastante familiares. O estilo de câmera visto de cima facilita o foco em exploração desde os tempos em que Link andava por um mundo aberto em 8-bits, e o mesmo acontece agora quando controlamos a raposa anônima.

Inicialmente, um botão utiliza a espada, outro mostra o mapa e o último abre o menu do jogo. Quando você caminha para fora do limite da tela, uma nova irá aparecer. Diferentes inimigos irão passar pelo seu caminho em meio a uma grande quantidade de arbustos, pedras, pequenos obstáculos, baús e entradas para cavernas. Uma grande cidade bem no meio do mapa reúne itens compráveis que permitem progresso e alteram a jogabilidade. Nada disso é comunicado com palavras ou de forma clara, tudo está por sua conta.


Master Key é um jogo de mundo aberto das antigas. Existem pouquíssimos facilitadores durante o seu progresso e ficar perdido pode ser considerado quase uma regra da experiência. Quatro dungeons principais escondem as chaves que permitem o avanço da narrativa, porém elas estão longe de serem os únicos objetivos e pontos de interesse espalhados pelo mapa.

O título reúne e apresenta segredos de uma forma especialmente nostálgica e bastante rara de ser vista nos dias de hoje. O sentimento de liberdade é brutal, chegando ao ponto de ser desconcertante em certos momentos. Imagino que muitas pessoas terão problemas com a progressão, especialmente os que não estão muito acostumados com essa filosofia retrô de game design.

A sensação de descobrimento é realmente impressionante, provando que há algo muito especial em poder explorar um universo de videogame totalmente sozinho. O mapa não guarda pontos de interesse e não existe qualquer tipo de resumo de objetivos ou seta que aponta a direção certa. Você precisa andar por aí e pensar sozinho no que será preciso para avançar de um ponto para o outro. Em geral, um novo item ou habilidade pode mudar completamente a forma que você interage com locais já visitados muitas vezes no passado. 


O dinheiro acaba sendo uma das principais mecânicas de progresso, senão a mais importante de todas. A maior parte dos baús e pequenas recompensas entregam “apenas” alguns trocados para a raposa, no entanto, essas moedas possuem um grande poder transformativo na experiência como um todo. 

É normal passar um bom tempo simplesmente voltando para a cidade para comprar um novo item ou upgrade, muitas vezes que você nem tem ideia do que é ou o que faz, e testar a sua utilidade em algum canto do mapa, como uma pedra ou um arbusto com um visual diferente do comum. A sua carteira, ou a quantia máxima de dinheiro que você pode carregar, também precisa ser melhorada constantemente para permitir que esse progresso monetário continue.

Esta forma mercadológica de apontar a progressão acaba sendo extremamente efetiva como uma maneira orgânica de orientar o jogador, permitindo que exista algum tipo de ordem no meio do caos da desinformação inicial do jogo. Este foco no dinheiro lembra um pouco o meu Zelda estilo 2D favorito, A Link Between Worlds de 3DS — um título que faz um ótimo trabalho de criar um mundo aberto que vale a pena ser explorado no seu próprio ritmo. O poder está nas suas decisões e na sua carteira, e é sempre interessante tentar coletar o máximo de moedas durante as suas diversas visitas às mesmas partes do mapa. 


Master Key em geral faz um ótimo trabalho em recriar a sensação de vastidão e mistério dos tempos do Game Boy. Os gráficos simples permitem que o jogador possa imaginar esse mundo da sua própria forma enquanto explora os cenários bicromáticos (que podem ser alterados em uma boa quantidade de paletas diferentes no menu do jogo), e o mapa sem muitos detalhes pelo menos mostra o mínimo de informação necessária para que você se oriente o suficiente.

Na verdade, o jeito que o mapa se apresenta acaba incitando o jogador a realmente interpretar, entender e até decorar o mundo que o rodeia. É difícil se lembrar de jogos mais modernos que consigam reproduzir esse sentimento de uma forma tão efetiva, então a experiência com certeza será bastante válida para quem estiver disposto a aprender o que o título de Achromi procura ensinar de forma natural. O aprendizado realmente acontece em um passo de cada vez. Você e a raposa descobrem os mistérios dessa realidade juntos e a todo o momento.


Tudo isso não quer dizer que o processo não seja doloroso certas vezes. Quando a raposa morre em combate, ela sempre retorna para um checkpoint que você tem que ativar manualmente pelo mapa, e as opções são bastante limitadas e espaçadas entre si. Consigo lembrar de um bom número de vezes que eu precisei explorar alguma área mais afastada do mapa e os inimigos mais fortes impediam o meu progresso constantemente — me levando de volta para um ponto muito distante no processo. A importância de achar os checkpoints é quase tão grande quanto encontrar um item-chave (ou literalmente uma chave) para o progresso real da história.

As mecânicas em si são bastante simples. O combate, por exemplo, é um tanto travado e sem quase nenhuma opção além de atacar e carregar o botão de ataque. Alguns outros itens também liberam opções de movimentação diferentes, como botas que habilitam correr e um gancho que permite que você prenda em um lugar e se transporte para o outro lado, assim como o clássico Hookshot de Zelda.

No entanto, não espere por uma enorme gama de itens e habilidades diferentes por que você não irá encontrar esse tipo de coisa por aqui. Antes de tudo, Master Key é sobre se perder e tentar se encontrar com as poucas ferramentas à sua disposição — e o processo pode ser bastante divertido, ainda que frustrante às vezes. Este é o cerne da jogabilidade do título. Estar perdido é o comum, o importante é como você interpreta esse estado de existência. 


Para um jogo indie feito por apenas uma pessoa, a quantidade de segredos e puzzles disponíveis neste mundo de duas cores e poucos detalhes é consideravelmente grande. Quem gostar da fórmula não terá dificuldades em se entreter por um bom tempo. Master Key sabe recompensar a sua curiosidade e trabalho duro de forma eficiente, mas também sabe ser um tanto sádico em seus meios.

Concluindo o pacote, o desenvolvedor simplesmente adicionou 150 fases de um modo de jogo totalmente não relacionado à campanha principal, que é basicamente um Picross gratuito. Posso dizer que passei um bom tempo com esse modo alternativo inesperado que vem como um fortuito presente desnecessário para justificar a existência do jogo na sua biblioteca do Switch. Quem não gosta de Picross? Eu apoio que todos os jogos iniciem essa mesma prática a partir de agora.

A chave-mestra


Master Key
entrega a chave, mas faz questão de esconder a fechadura desde o começo. A sensação de liberdade total em um mundo visualmente simples pode ser desesperadora para alguns, mas também consegue ser bastante rica e recompensadora para quem estiver disposto a encarar o desafio. Cabe a você decidir se vale a pena encontrar a porta e seguir para a aventura.

Prós

  • Uma bela homenagem visual e mecânica a uma velha era dos videogames;
  • Incrível sensação de liberdade e experiência de exploração;
  • Muitos segredos espalhados pelo mapa;
  • Um modo adicional de Picross bastante divertido.

Contras

  • É bastante fácil ficar muito perdido desde o começo e não há nenhum tipo de texto ou indicação de objetivo para seguir na campanha;
  • Dificuldade pode ser alta, principalmente graças ao mundo aberto;
  • Combate mecanicamente simples;
  • Poucas habilidades ou itens que alteram a jogabilidade.
Master Key - Switch/PC - Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch 
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Achromi

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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