Análise: Caves of Qud é um roguelike tão complexo quanto cativante no Switch

Após grande sucesso no PC, o clássico cult finalmente chega às plataformas da Nintendo.

em 27/02/2026
Definido como um RPG de fantasia científica com elementos roguelike, Caves of Qud finalmente chegou ao Nintendo Switch, meses após seu anúncio no Indie World Showcase de 2025. Apesar de alguns problemas na conversão para o console da Nintendo, sua proposta complexa e cativante ainda se destaca, resultando em uma aventura recomendável para quem não se incomoda com a estética simples e ocasionais problemas de interface.

O mais novo capítulo de uma jornada de mais de quinze anos

O caráter complexo de Caves of Qud pode, em partes, ser explicado pelo seu longo desenvolvimento, cujos primeiros passos foram dados em 2007. Três anos depois, o jogo fez sua primeira aparição pública em versão beta, e em 2015, a Freehold Games lançou o título no Steam sob o programa Acesso Antecipado, visando contar com o feedback e o apoio do público na construção da obra.

Com atualizações e adições frequentes de conteúdo e mecânicas, Caves of Qud chegou à sua versão 1.0 no final de 2024 e rapidamente alcançou o status de clássico cult no PC, encantando uma legião de jogadores na plataforma ao longo dos anos com sua proposta de sobrevivência em uma simulação de mundo rica em cultura, biodiversidade e ameaças.

Apesar de o hype ser sempre traiçoeiro, aqui ele se mostrou justificado graças às possibilidades oferecidas pela aventura. Dando forma à experiência, elementos de RPG (como níveis e equipamentos), mecânicas roguelike e uma jogabilidade tática em turnos adicionaram variedade e complexidade ao game, resultando em uma obra que pode ser facilmente jogada dezenas de vezes antes de apresentar sinais claros de repetição.

Agora, tudo isso chega ao Switch, prometendo ocupar horas do tempo livre dos jogadores nintendistas. No entanto, como mencionado anteriormente, a conversão de um título pensado desde os primórdios como um jogo de PC acabou sofrendo um pouco em sua estreia no console da Big N, comprometendo, nesse processo, parte do apelo da experiência.

Sobrevivendo turno a turno

Antes de falarmos sobre as características desta adaptação, convém explicar mais a fundo que tipo de jogo é Caves of Qud, dado seu flerte com diferentes gêneros e estilos. Basicamente, temos aqui um RPG com mecânicas roguelike e uma forte ênfase na exploração; preso em um mundo tão exótico quanto vivo, o objetivo principal do jogador é sobreviver para desbravar a história ligada às antigas civilizações milenares do universo.

Para isso, há missões fixas, mas também outras que são geradas aleatoriamente para cada nova partida. Como esperado de um verdadeiro roguelike, morrer significa voltar ao marco zero. Em todos os modos disponíveis (são quatro no total, incluindo um voltado para a história e outro focado no desafio diário), não espere upgrades entre tentativas ou melhorias permanentes; cada partida tem o objetivo de ser verdadeiramente única, tornando a vitória, quando finalmente conseguida, absolutamente merecida. 

Onde Caves of Qud brilha mais do que outros títulos de proposta similar é na quantidade de possibilidades oferecidas. Ao criar um personagem, por exemplo, você pode escolher entre dois genótipos diferentes — Mutated Human ou True Kin —, e todo o resto, das habilidades aos atributos, é personalizável, impactando diretamente a sua campanha.

Por exemplo: um personagem que consegue voar e atacar à distância (como o Gunwing, um dos presets disponíveis no game) certamente terá abordagens diferentes de um mutante que possui uma armadura natural e emite gases soníferos, como o Dream Tortoise (outro preset do jogo). Essas diferenças não se manifestam apenas nas situações de combate, mas também durante toda a exploração; paredes, por exemplo, podem ser quebradas de diversas formas, com picaretas, explosivos, gases corrosivos ou lava — tudo se resume a quais recursos estão à disposição do jogador na partida.

Curiosamente, inimigos e NPCs em Caves of Qud são tão detalhados quanto o protagonista, com níveis, habilidades e equipamentos dando margem para interações diferentes a cada nova rodada. Logo, assim como em Divinity: Original Sin 2 e outros CRPGs, a chave para triunfar muitas vezes está na criatividade em usar os recursos à mão e do cenário para desenhar soluções — e testemunhar esse mar de possibilidades se abrindo conforme se explora o mapa rapidamente permite ver por que o jogo da Freehold Games goza de uma ótima reputação no PC.

Mas e no Switch?

Dito isso, é hora de falar da adaptação para o Switch. Como um jogo pensado originalmente para mouse e teclado, houve um grande esforço para tornar Caves of Qud jogável com um controle (o que também beneficiou o Steam Deck, diga-se de passagem). A boa notícia é que o resultado final, que você pode conferir no vídeo abaixo, envolve uma certa curva de aprendizado, mas é funcional — ainda que a ausência de suporte ao modo mouse do Switch 2 (há somente suporte à tela de toque) incomode bastante.


O que não se sai tão bem, na minha opinião, é a interface, especialmente no modo portátil do console — com sua estética ASCII, Caves of Qud se apoia em textos e diálogos para desenvolver sua narrativa, lembrando um pouco jogos de texto, como Roadwarden. O problema aqui é que os escritos ocupam grande parte da tela no modo portátil, reduzindo o espaço destinado a outros elementos importantes e prejudicando a experiência.

Para piorar a situação, a fonte pequena acaba prejudicando a legibilidade longe da TV e levando o jogador a gastar um tempo desnecessário para encontrar simples informações. Não foram poucas as situações, por exemplo, em que me peguei apertando os olhos para entender uma linha de texto — e olha que joguei Caves of Qud no Switch 2, que tem uma tela maior; no Switch, há motivos para que a situação seja ainda mais drástica.

No mais, na versão utilizada para esta análise, há crashes ocasionais (que já estão sob investigação dos desenvolvedores) e a notável ausência (para o nosso público) de localização em PT-BR, algo que prejudica bastante as partidas, considerando a complexidade inata ao jogo e à narrativa. Pelo menos, sabemos que os desenvolvedores estão estudando a possibilidade de tradução, embora ainda não exista qualquer previsão de lançamento para uma versão em português.

Assim, recomendar Caves of Qud em sua forma atual no Switch é algo que infelizmente precisa de ressalvas. De um lado, temos um roguelike bastante interessante e criativo que traz a liberdade característica dos CRPGs tradicionais em um formato cativante. Do outro, temos um port que se prova um pouco abaixo das expectativas e difícil de recomendar para quem prefere jogar no modo portátil e não tem intimidade com o inglês.

Por fim, também vale mencionar que a estética simplória do jogo (um de seus maiores diferenciais) é do tipo “ame ou odeie” — a roupagem ASCII definitivamente não é unanimidade como a pixel-art quando o assunto é prover experiências retrô. Logo, são pontos para se levar em consideração antes de decidir se aventurar pelos mapas gerados aleatoriamente em Caves of Qud.

Um clássico que poderia ser ainda melhor no console da Nintendo

Caves of Qud é um clássico cult nos PCs por vários motivos. No Switch, a maioria do seu charme se conserva intacta, mas a ausência de PT-BR, os crashes ocasionais e os problemas de interface (sem falar na falta de melhorias específicas para o Switch 2) o impedem de revelar seu potencial máximo ao público nintendista. 

No mais, entusiastas de mecânicas roguelike e da estética ASCII que estejam buscando algo novo certamente se divertirão com a obra da Freehold Games. Para todos os outros, vale esperar uma possível localização para o nosso idioma ou melhorias adicionais no modo portátil. Afinal, explorar e conquistar os mapas deste fantástico universo é algo que merece ser feito da melhor forma possível.

Prós

  • Com uma mistura pouco convencional de gêneros como RPGs, roguelikes e survivals, e apostando na complexidade e liberdade de ações, se destaca da multidão de roguelikes no Switch, fazendo valer seu status de clássico cult mesmo fora do seu habitat natural no PC;
  • A narrativa intrigante, apresentada de forma parecida com jogos-texto, agradará quem curte a temática de fantasia científica;
  • A adaptação dos comandos de mouse e teclado para o controle (um dos grandes desafios para este lançamento) foi bem-sucedida;
  • Desconsiderando os crashes (que estão sendo investigados pelos desenvolvedores e devem ser corrigidos em uma atualização futura), não apresenta problemas de performance no console da Nintendo.

Contras

  • A estética ASCII é do tipo “ame ou odeie”;
  • Sem localização em PT-BR;
  • Na versão atual, não apresenta melhorias para o Switch 2, sendo que o modo mouse serviria como uma luva para a jogabilidade;
  • Texto pequeno e interface mal dimensionada no modo portátil prejudicam a experiência quando o console está fora da dock.
Caves of Qud — PC/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch

Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Kitfox Games
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Alan Murilo
é publicitário e copywriter que aprecia um bom jogo tanto quanto um bom café. Gamer desde que segurou um controle de Super Nintendo pela primeira vez, tem um apreço especial pelos títulos independentes e pelas diversas franquias da Big N.
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