Análise: Fallout 4: Anniversary Edition é um port competente que acerta e erra em quesitos cruciais

A edição completa do clássico pós-apocalíptico chega ao Switch 2 com sangue, radiação e bastante ferrugem.

A guerra. A guerra nunca muda. Esta é a frase central de Fallout, a épica saga do futuro pós-apocalíptico, quando a raça humana destruiu o planeta com o holocausto nuclear, deformou a biosfera das piores formas possíveis e, mesmo assim, consegue achar motivos fúteis para continuar se matando.


Após o lançamento tímido da série na Nintendo com Fallout Shelter em 2018 (o que justificou a adição de Vault Boy como roupa para o Mii em Super Smash Bros. Ultimate), a franquia finalmente chega com força total nas terras da Big N com Fallout 4: Anniversary Edition, celebrando os dez anos da icônica aventura com todas as expansões e alguns extras do Creative Club. Sem mais delongas, venha comigo nesta jornada radioativa pelo testamento da humanidade.

I don't want to set the world on fire

Estamos em 2077. Tensões entre os crescentes Estados Unidos da América (pouco após a tomada agressiva do Canadá) e o aumento do poderio militar da China deixaram o mundo em uma fina nova guerra fria. Em Sanctuary, Boston, vive nosso casal de protagonistas (cujos nomes padrões são Nate e Nora), vivendo alegremente com seu filho recém-nascido. Porém, o inevitável aconteceu: em 23 de outubro, as bombas nucleares começaram a ser lançadas e, com isso, a família rapidamente foi evacuada para o Vault 111, criado pela megacorporação Vault-Tec para comportar boa parte da população estadunidense em caso de guerra nuclear.

Dentro do abrigo, o casal e alguns vizinhos são colocados rapidamente em animação suspensa até que a terra fosse habitável de novo. Porém, em algum momento no longo sono, criminosos invadem a instalação, roubam o bebê de nosso protagonista e matam nosso parceiro (se escolhemos Nate, Nora é morta e vice-versa). Enfim, em 2287 (se passando dez anos após os eventos de Fallout 3), acordamos de fato do sono criogênico, sendo o único sobrevivente do Vault, com todos tendo morrido por ataques inimigos e falhas da criogenia.

Com isso, descobrimos a terra desolada que uma vez foi nosso lar e, após ajudar um sobrevivente chamado Prescott, que faz parte da nobre sociedade Minutemen, partimos em uma jornada para encontrar nosso filho, vingar nosso cônjuge e tentar se adaptar e sobreviver ao inferno na Comunidade, a grotesca mescla de Boston com partes de New England.

Maravilhoso novo mundo

Tal como minha análise de Skyrim, o que eu acabei de escrever é um mero resumo da trama principal, expandida com incontáveis missões que exploram ainda mais a Comunidade e o mundo arruinado de Fallout, habitado por uma vasta coleção de personagens carismáticos, lore complexa e histórias emocionantes de sobreviventes e vítimas da violência sem sentido.

E que mundo violento que vivemos: infestando as terras desoladas temos os brutos Supermutantes, os tráficos Necróticos, robôs que podem ou não ser amigáveis, e os simples humanos, mas divididos em diversas gangues menores de heróis, ladrões e pessoas comuns que só querem viver com o pouco que lhes resta. Igualmente variadas estão sua fauna e flora, de cachorros e milhos normais a aberrações da natureza como tomates radioativos e vacas sem pele de duas cabeças, dando mais vida ao mundo à beira da morte. E, tal como em seu lançamento original, a inteligência artificial dos inimigos é excelente, pensando rápido diante ao ataque e reagindo com disparos precisos como desarmar ao levar um tiro na mão ou ser aleijado com uma batida forte nas pernas.

Mas a principal variedade jaz nas lembranças do país esquecido: em toda parte que andamos, podemos coletar lixo que um dia já foi material comum como câmeras, ursinhos de pelúcia, garrafas de Nuka Cola, ventiladores de mesa e tantas outras quinquilharias que agora são cruciais para a sobrevivência. Antes meros objetos do cotidiano, sucata inútil agora é ouro na melhoria de armas, armaduras, comidas e drogas, contendo uma seleção bastante extensa do que criar e aperfeiçoar, contanto que você tenha os ingredientes certos. Em comparação com a série irmã The Elder Scrolls, a customização é bem maior, mesmo que a variedade de armas não seja tão extensa quanto a saga medieval e o mundo pareça bem menor, além de ser igualmente divertida de gerenciar.

O grande diferencial de Fallout 4 com seus irmãos é a mecânica de Assentamentos. Começando por Sanctuary e expandindo para mais fazendas e estabelecimentos onde algum habitante precisa de ajuda. Quando concluímos a tarefa, somos retribuídos com a generosidade local e podemos pegar qualquer coisa na região (anteriormente vista como roubo), trocar itens com os nativos e, principalmente, aperfeiçoar a locação com defesas, lojas e outras customizações para ajudar a trazer vida à Comunidade. Não é uma mecânica obrigatória para progressão, mas cria um sentimento de que o mundo está vivo e se recuperando da radiação, o que é muito legal.

Estrada da fúria

Agora vem a grande pergunta: como está Fallout 4 no Switch 2, tendo sido inicialmente lançado para a oitava geração lá em 2015? Em seu relançamento na Anniversary Edition, o jogo contém novas opções de performance, de 30, 40 e 60 fps para melhor atender às demandas do hardware, com a Bethesda prometendo atualizações futuras para adicionar DLSS às opções de 40 e 60 fps. No geral, Fallout 4 roda muito bem no Switch 2, apresentando pouquíssimos bugs de performance e textura até em 60 fps. Os gráficos podem ser datados para os padrões atuais, mas eles contêm um certo ar nostálgico em par com a ambientação do jogo. Por outro lado, seu tempo de carregamento é um tanto abusivo, demorando até 30 segundos para meramente carregar o jogo entre saves, algo inexistente quando comparado com o lançamento de Skyrim no Switch 2.

Em comparação com Skyrim, os menus são bem mais amigáveis e não são tão intimidadores, podendo se localizar bem no computador pessoal Pip-Boy. Contudo, certas funcionalidades ausentes fazem uma grande falta, sendo estas o recurso mouse e especialmente a mira de giroscópio. Ambas ajudariam muito na exploração e no combate. Espero que estas sejam adicionadas no futuro, bem como algum suporte a amiibo, considerando os bônus legais de The Legend of Zelda em Skyrim.

Ferrugem e radiação

Como seu irmão de armadura e espada, Fallout 4 traz alguns bônus de aniversário com 150 criações do Creations Club, variando de novas armas, opções de raças para nosso fiel e amado cachorro Dogmeat, missões, pinturas para armamentos e até fliperamas para jogar nos Assentamentos. Isso sem contar a inclusão das seis expansões do jogo base: Automatron (trazendo a ameaça do misterioso Mecânico e seu exército de máquinas), Wasteland Workshop (a opção de criar jaulas para capturar a vida silvestre do jogo), Far Harbor (adicionando um novo mapa para explorar, a Mount Desert Island), Contraptions Workshop (ainda mais variedade de customização no jogo base), Vault Tec Workshop (a opção de construir seu próprio Vault à la Shelter) e Nuka Cola World (trazendo uma aventura no parque de diversões).

Infelizmente, Fallout 4: Anniversary Edition comete quatro erros crassos em seu lançamento final, impedindo a glória que uma vez foi atingida com Fallout 3 e New Vegas. Como Skyrim, a falta de opção de passar saves antigos da geração anterior pode afugentar velhos jogadores que buscam poder continuar suas histórias agora no Switch 2, ponto parecido que eu apresentei com o lançamento de Skyrim.

Em sua jogabilidade, por mais aberta que seja, ela também é mais restritiva em aspectos básicos como poder abrir trancas, hackear e na própria árvore de habilidades. A satisfação de evolução é muito lenta e, enquanto em Skyrim é possível se desafiar e tentar destrancar um baú com uma alta dificuldade e ter o gosto da vitória em conseguir tal feito, isso é impossível em Fallout até alcançar dado nível na árvore de habilidades, criando uma barreira invisível no que o jogador pode ou não fazer que é bem frustrante.

Em análises passadas, eu disse que todo relançamento que se preze deve incluir rascunhos e desenvolvimento de seus jogos para fins de preservação e curiosidade. Esse meu pensamento se estende inclusive para ports de remakes, e Fallout 4 Anniversary Edition, assim como Skyrim, falha muito nesse quesito. Com um mundo tão interessante, rico e bem construído como a Comunidade, é um tanto desapontador que não exista nenhum registro palpável do desenvolvimento do jogo ou até mesmo da história da franquia, considerando que ela nunca esteve tão popular graças à série televisiva da Amazon.

Até agora, eu comparei Fallout com The Elder Scrolls, mas tem um ponto que as séries diferem: Fallout 4 está traduzido e isso seria algo muito bom… se a tradução não fosse ruim. Erros de tradução atrozes (logo ao iniciar o jogo, no menu, o botão B, que em inglês é “Back”, está traduzido “Andar para trás”. Sem contar traduzir “All right” para “Já chega”, por exemplo, quando se consegue abrir uma trava), letras faltando em certas palavras, palavras têm letras maiúsculas em algumas descrições e em outras têm letras minúsculas, palavras cortadas na própria descrição e colocar os mods em armas e armaduras antes do tipo do objeto, criando uma quebra de leitura confusa e irritante, como se a radiação tivesse deformado o bom português.

Dream sweet in sea major

Fallout 4: Anniversary Edition é uma boa porta de entrada oficial da franquia nos campos rubros da Nintendo, contendo o renomado jogo com todas as suas expansões, boa performance e um pouco mais.

Mas erros absurdos de português, ausência de recursos que usam a capacidade total do Switch 2 e certas limitações na liberdade podem frustrar sobreviventes do apocalipse. É como diz o ditado: Bethesda. Bethesda nunca muda.

Prós

  • História bem escrita e missões secundárias cativantes;
  • Personagens complexos e inimigos inteligentes criam um mundo extremamente vivo e complexo;
  • Boa performance, seja no portátil ou na televisão;
  • Vasta quantidade de customização de armas, armaduras e afins;
  • Mecânica de Assentamentos é interessante e única para a série;
  • Traduzido em português brasileiro.

Contras

  • Tradução com erros crassos;
  • Carregamentos demorados;
  • Ausência de bônus de relançamentos para preservação, como making of;
  • Ausência de recursos como suporte a mouse e giroscópio;
  • Árvore de habilidades frustrante causa corte na sensação de liberdade;
  • Impossibilidade de carregar saves de plataformas antigas pode afastar velhos jogadores.
Fallout 4: Anniversary Edition — PS4/PS5/XBO/XSX/Switch 2 — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Nintendo Switch 2
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bethesda Softworks
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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