“No início, o Universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia.” É assim que começa o livro “O Restaurante no Fim do Universo” (1980), o segundo livro da icônica série O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adam. Decidi iniciar esta análise assim porque, tal como o Universo, nossa história começa em 1993, no auge da era de prata dos jogos. Toda empresa estava ansiosa para ter uma fatia do mercado gamer e, assim, diversos mascotes surgiram para o gênero plataforma. Gambás, morcegos, esquilos e até um certo calango foram candidatos a emplacar como novos ícones dos jogos.
E nenhum deles conseguiu atingir a mesma fama (ou melhor, infâmia) que Bubsy the Bobcat, um lince bonachão criado pela Accolade e que simplesmente não sabia calar a boca. Para preparar o terreno para o surpreendentemente aguardado Bubsy 4D, a Atari e a Limited Run lançaram Bubsy in: The Purrfect Collection, reunindo praticamente todos os jogos do personagem e um pouco mais. Sem mais delongas, venha comigo por essa viagem doida.
A besta laranja
A coletânea é dividida em quatro jogos. Em Bubsy in: Claws Encounters of the Furred Kind (1993) — este disponível no Nintendo Classics (SNES) —, aliens conhecidos como Woolies planejam roubar toda a lã do planeta. Detentor da maior coleção de lã do mundo, Bubsy não fica nada feliz com o esquema maligno e parte para derrotar os vilões esquisitos. Na sequência, Bubsy II (1994), o empreendedor cruel Oinker P. Hamm planeja abrir um enorme parque de diversões baseado em fatos históricos, para os quais está usando viagem no tempo a fim de roubar e deixar a mostra apenas em seu empreendimento. Temendo não conseguirem entrar no parque na estreia, os sobrinhos gêmeos de Bubsy, Terry e Terri, entram no local de penetra e são sequestrados pelo porcalhão, dando início à missão de Bubsy e seu amigo neurótico, Arnold, o Tatu, para resgatarem as crianças e, talvez, derrotar o porcão.
Em Bubsy in: Fractured Furry Tales (1994), Bubsy está em uma missão para trazer ordem a Fairytaleland, o universo das histórias de carochinha e contos de fadas. No passado, era um lugar paradisíaco, governado justamente pela Mamãe Ganso, mas que fora corrompido quando a monarca foi sequestrada por João e Maria. Por fim, temos Bubsy 3D (1996), em que Bubsy é sequestrado pelas rainhas dos Woolies, Poly e Ester, e levado ao planeta natal dos aliens, Rayon. Determinado a voltar para casa, Bubsy começa a explorar o planeta, causando terror aos habitantes, que não suportam sua presença e o querem morto.
Como dá para perceber, as tramas dos jogos são do mais fino do suco absurdista, trazendo pouco sentido em si e focadas especialmente em criar uma marca maluca para a série, o que funciona muito bem. Bubsy é um personagem insuportável, que não cala a boca e tem um olhar cheio de marra e audácia, mas que, ironicamente, funciona para criar um charme irritante, porém simpático. É um paradoxo interessante que o torna um dos protagonistas “B” mais icônicos dos jogos, porque, amando ou odiando, é impossível esquecê-lo. No primeiro jogo, sua voz é de Brian Silva, ex-funcionário da Accolade. Em Bubsy 3D, ele tem a voz da lendária atriz Lani Minelli. E, por fim, em Bubsy II e em um bônus da coleção, o lince tem a voz do lendário Rob Paulsen, uma das minhas inspirações principais para atuação de voz.
Emaranhados de lã
Em questão de qualidade, não vou mentir para você, caro leitor: os jogos de Bubsy variam de decentes para abomináveis. A performance e o carregamento são bons; os gráficos não são surpreendentes, mas são simpáticos e cartunescos, incrementando a personalidade caricata do lince, acompanhados de uma trilha sonora simples, porém eficiente. Bubsy pode correr, e correr ainda mais rápido quando pega momentum, pular (sua única forma de ataque, comum aos personagens de plataforma do passado) e usar a habilidade natural dos linces para planar por um tempo antes de voltar ao chão.
As versões de console do primeiro jogo, Bubsy II e Furry Tales, têm controles relativamente bons e um certo desafio no level design, que deixa divertida a exploração e o objetivo simples de chegar ao final das fases. Por outro lado, é inegável que a versão portátil do segundo jogo seja bem medíocre, com comandos difíceis de lidar e, honestamente, entediante de jogar por sua linearidade, música irritante e por ser uma versão reduzida do jogo de console.
E, óbvio, é impossível falar de Bubsy sem mencionar Bubsy 3D, um dos primeiros jogos de plataformas 3D, inclusive lançado antes de jogos como Super Mario 64, e comumente selecionado para listas de piores jogos da história. Visualmente tenebroso, com péssimas músicas, o maior aspecto negativo dessa criatura jaz no próprio Bubsy. Ainda mais barulhento, irritante, mas sem charme, Bubsy apresenta controles horríveis em estilo tank e, como mencionado em todo artigo sobre o jogo, uma câmera atroz, principalmente ao posicionar-se acima de Bubsy para, em teoria, ajudar a saber onde ele vai cair, mas atrapalhando muito mais do que ajudando.
Um estranho carinho
Apesar de todas as críticas até agora, é surpreendente como esta é uma coleção bem afiada, que tenta tornar Bubsy mais acessível e tragável. Para começar, praticamente todas as aventuras do lince estão no pacote, todos contendo um sistema de rewind para corrigir erros e salvamento prático ao clicar o botão R3, bem similar a Gex Trilogy, deixando essas aventuras medianas mais divertidas. Somente estão faltando no pacote a versão para PC do primeiro jogo e os jogos The Woolies Strike Back (2017) e Pawns on Fire! (2019). Considerando que o jogo de 2017 está preso ao PS4 e o de 2019, apesar de ter sido lançado para Switch, não está acessível na eShop brasileira, teria sido legal se ambos tivessem sido adicionados.
De qualquer forma, é uma coleção bem forte, especialmente pelo fato de esta ser a primeira vez que Furry Tales foi lançado para outro console além do Atari Jaguar, e como a versão japonesa de Bubsy in: Claws Encounters of the Furred Kind também está incluída no pacote. Talvez a maior surpresa, no entanto, seja Bubsy 3D: Refurbished Edition, uma versão extremamente modificada de Bubsy 3D, com controles mais fluidos e câmera mais fácil de usar, transformando um produto atroz em algo decente. É um nível de carinho desnecessariamente bonito, verdade seja dita.
Em análises passadas, eu disse que todo relançamento que se preze deve incluir rascunhos e desenvolvimento de seus jogos, para fins de preservação e curiosidade. Esse meu pensamento se estende inclusive para ports de remakes, e Bubsy in: The Purrfect Collection é, mais uma vez, um ótimo e surpreendente exemplo de preservação. Além dos típicos manuais, músicas e artes que são comuns para relançamentos, há também anúncios, entrevistas e até o piloto da animação cancelada do lince, ao qual foi a estreia da maioria dos amigos de Bubsy (como Arnold, os gêmeos e até dois personagens que irão aparecer em Bubsy 4D). Infelizmente, a coleção não tem localização para o português brasileiro, mas é inegável que foi colocado bastante carinho nesse acervo.
O que poderia dar errado deu certo
Bubsy in: The Purrfect Collection é uma eficiente coletânea de jogos que variam entre decentes para uma das maiores abominações midiáticas dos últimos 100 anos. Mesmo com alguns títulos ausentes e a qualidade duvidosa de seus jogos, é muito legal ver que Bubsy, de tantos personagens moderadamente icônicos, recebeu uma coleção acessível e feita com esforço.
O bordão do lince no passado era “What could pawssibly go wrong?” (traduzido livremente como “O que pataria dar errado?”), e, genuinamente, muito pouco deu errado. Não que daria para piorar com Bubsy 3D em sua biblioteca, mas que foi algo decente, isso é verdade.
Prós
- Versão base dos três primeiro jogos muito bem portadas, sem bugs e rodando muito bem;
- Bubsy é o tipo de protagonista irritante com charme;
- Adições como rewind e salvamento são muito bem-vindas que fazem jogos medianos se tornarem tragáveis;
- Excelente galeria de conteúdo bônus de relançamento, músicas, anúncios e piloto cancelado;
- A existência de Bubsy 3D: Refurbished Edition é um carinho desnecessariamente belo.
Contras
- Sem legendas em PT-BR;
- Ausência de Bubsy 1 para PC e dos jogos mais recentes não fazem desta uma coleção definitiva;
- Sem recursos de rewind, os jogos tornam-se entediantes e nada surpreendentes;
- Bubsy II no Game Boy é ruim, enquanto Bubsy 3D pode ser considerado um novo pecado capital.
Bubsy in: The Purrfect Collection — PC/PS5/Switch/XSX — Nota: 7.0Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator



