Ter esse impacto cultural em mente nos ajuda a entender como é importante a chegada de Indiana Jones e o Grande Círculo ao Switch 2. Frequentemente citado como o melhor jogo já feito do herói, o título da MachineGames acumulou elogios desde a sua estreia no PC e no Xbox Series X|S em 2024, e, agora, chega ao console da Nintendo para apresentar sua premiada aventura a um novo público. Será que a missão foi cumprida? Pegue seu chapéu e chicote, caro leitor, e confira a seguir em nossa análise.
Descobrindo (e resolvendo) um mistério maior do que o esperado
Indiana Jones e o Grande Círculo apresenta uma história original de Indiana Jones, que ocorre entre os eventos dos filmes Os Caçadores da Arca Perdida e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989). Isso significa que o jogo se passa em 1937, quando o nosso herói, Henry Jones Jr., vive uma rotina relativamente tranquila, atuando como professor de arqueologia na prestigiada Marshall College.
Porém, em uma fatídica noite, tudo está prestes a mudar. Enquanto faz hora extra, Jones começa a escutar estranhos murmúrios em latim vindos do museu da faculdade. Ao decidir investigá-los, o professor se depara com nada menos do que um homem gigante na seção, que, demonstrando não estar nem um pouco a fim de conversar, rapidamente o nocauteia assim que interpelado.
Na manhã seguinte, ao despertar do sono forçado, o herói percebe que o ser misterioso não apenas invadiu o museu, como também roubou uma das peças da sua coleção — uma múmia de gato, para ser mais preciso. Felizmente, ao fugir, o gigante acabou deixando para trás uma pista: uma estranha medalha com o símbolo do Arquivo Secreto do Vaticano.
Logo, pressentindo haver algo maior por trás da invasão ao museu e do roubo da múmia, Jones decide arrumar as malas e viajar à casa da Santa Sé em busca de respostas. Assim, começa a aventura da MachineGames, que pouco a pouco revelará uma conspiração muito maior do que a prevista e um segredo que pode inclusive mudar o mundo, se o jogador, como Indiana, não agir a tempo.
Socando nazistas e resolvendo puzzles, mas não necessariamente nessa ordem
Na prática, Indiana Jones e o Grande Círculo é um jogo de aventura em primeira pessoa que se passa em localidades semiabertas. Assumindo o papel do mais astuto arqueólogo do mundo, devemos cumprir diferentes missões em locais como o Vaticano, Giza e Sucotai, seguindo a narrativa e desvendando o grande mistério por trás do roubo da múmia de gato.
De longe, o ponto mais controverso do game, a perspectiva em primeira pessoa, de fato, pode causar estranheza em um primeiro momento — principalmente quando analisamos jogos de proposta parecida, como os das séries Uncharted e Tomb Raider. Porém, a boa notícia é que, na prática, a decisão funciona, muito devido à experiência da MachineGames com a série Wolfenstein (que também é em primeira pessoa) e à imersão naturalmente proporcionada por esse estilo de câmera.
Sim, mais do que qualquer outro jogo do personagem até hoje, Indiana Jones e o Grande Círculo faz com que o público realmente se sinta no controle do arqueólogo. Em partes, isso se deve à direção artística impecável do game — a meticulosidade na criação dos cenários e ambientes da aventura é verdadeiramente impressionante —, mas também à jogabilidade, que usa a perspectiva intimista para proporcionar algo próximo a um “simulador de Indiana Jones”.
Portanto, ao longo das mais de 20 horas necessárias para concluir a campanha (pode dobrar esse número, se quiser encontrar todos os colecionáveis e finalizar todas as missões secundárias), você irá socar nazistas, espantar cães de guarda, se infiltrar em ambientes muito bem vigiados e resolver enigmas de crescente complexidade para prosseguir. Muito distante das adaptações ruins que costumavam marcar a transição dos heróis das telonas para o mundo dos games nos anos 1990 e 2000, a obra da MachineGames é como um bom filme jogável — a ponto de nem ser necessário ser fã de carteirinha do Dr. Jones para se divertir com ela.
Um verdadeiro playground para fãs e novatos
Afirmo isso porque Indiana Jones e o Grande Círculo confere bastante liberdade ao jogador no que tange à maneira de concluir os objetivos. Por exemplo: se uma missão exige que você escape de uma escavação vigiada por inimigos, é possível fazer isso tanto de modo furtivo — chamando o mínimo de atenção dos guardas —, quanto partindo para a ação, indo para a briga com as ferramentas que estão à disposição.
Falando em briga, o combate foi um dos aspectos do jogo que mais me impressionou e divertiu. Além de desferir ganchos e cruzados com os gatilhos ZL e ZR, Jones pode usar seu fiel chicote para atordoar e derrubar inimigos e também pegar objetos do cenário para atacar ou se defender. Claro, há armas tradicionais no jogo, mas convenhamos: qual é a graça de usar um revólver comum quando você pode usar um violão ou uma vassoura para nocautear o seu adversário?
A liberdade na hora de decidir como encarar os vários problemas apresentados me agradou bastante, a ponto de eu já planejar rejogar o Grande Círculo em uma dificuldade maior. Há cinco opções predefinidas nesse sentido, e também é possível configurar individualmente a agressividade dos inimigos e a dificuldade dos puzzles, atendendo tanto quem busca um desafio digno de simulador quanto quem só quer conferir a história sem muita dor de cabeça no processo.
E, claro, como em quase todo jogo AAA desta geração, também há uma série de melhorias possíveis para Jones. Aqui, elas existem na forma de livros espalhados pelo mundo. Encontrá-los e lê-los confere diferentes bônus ao protagonista, como a possibilidade de causar mais dano em combate ou um aumento permanente na sua barra de vida ou de vigor, motivando e recompensando a exploração para além da rota principal.
Tais melhorias são inclusive guardadas para um eventual “Novo Jogo +”, recurso que não estava disponível na estreia original no PC e Xbox, mas que chega ao Switch 2 já no lançamento. Ou seja, para quem se importa com a duração e o fator replay de uma campanha, a obra da MachineGames é um pacote bem robusto, que, apesar de não contar com o DLC A Ordem dos Gigantes incluído, chega sem qualquer corte de conteúdo ao console da Nintendo.
Mas e no Switch 2, como fica?
Se você leu esta análise até aqui, certamente quer saber como Indiana Jones e o Grande Círculo roda no console da Nintendo. Esse é um questionamento muito válido (principalmente quando verificamos os requisitos no PC e o fato de o game só estar disponível para a atual geração), e a resposta é que há pontos positivos e negativos na adaptação, mas o resultado final é, sim, impressionante.
Começando pelos pontos positivos, Indiana Jones e o Grande Círculo no Switch 2 preserva o esplendor visual que marcou seu lançamento em 2024. O grande destaque está na tecnologia Ray Tracing (traçado de raios), que permaneceu implementada na conversão para o console da Nintendo e entrega reflexos e iluminação de altíssima qualidade em ambientes fechados ou quando há fontes de luz dedicadas, como velas e tochas, nas cenas.
O resultado é francamente surpreendente — a obra da MachineGames certamente já figura entre os títulos mais bonitos do console até agora —, mas não é impecável. Ocorre que, para manter grande parte dos efeitos visuais vistos em outras plataformas, a taxa de quadros foi cortada pela metade, então os jogadores terão que se contentar com 30 fps (que não são fixos) no Switch 2.
Sim, embora a taxa de quadros se mantenha estável em ambientes fechados, explorar locais mais abertos — como as praças do Vaticano — invariavelmente causa quedas e lentidão. No modo portátil, achei a fluidez um pouco maior nesses cenários, mas, em contrapartida, o downgrade visual é rapidamente perceptível (se os gráficos importam muito para você, o recomendado aqui é jogar com o console conectado à TV).
A boa notícia é que nenhum desses problemas chega a comprometer a experiência, muito pelo contrário. Apesar da perspectiva em primeira pessoa, Indiana Jones e o Grande Círculo é um jogo que não exige muitos reflexos, com a maior parte da jogabilidade ocorrendo de forma lenta, seja ao resolver puzzles, seja ao explorar catacumbas. Logo, rapidamente me acostumei aos 30 quadros por segundo e passei a admirar o fato de termos um jogo deste calibre em formato híbrido.
Ajuda, também, o fato de a MachineGames ter feito questão de usar todos os diferenciais do Switch 2, como o Modo Mouse, o giroscópio e até o HD Rumble 2, que torna simples atos como socar nazistas e escalar paredes ainda mais imersivos. E, já que estou tocando na parte técnica, convém citar a excelente localização completa em português brasileiro, com destaque para Marcelo Pissardini reprisando o papel exercido em Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023).
Assim, no geral, Indiana Jones e o Grande Círculo se sai como um port realmente impressionante e mais uma demonstração de que o Switch 2 consegue rodar as melhores experiências da atual geração. Por mais que um futuro patch ou dois focados na performance se façam desejados, se você possui o console da Nintendo, não há motivo para preocupação: esta é uma ótima forma de jogar a mais recente aventura do Indiana.
Uma aventura digna dos cinemas, agora no console da Nintendo
Indiana Jones e o Grande Círculo chega ao Switch 2 em um port surpreendentemente bem-feito, que, apesar de um ou outro problema de performance em cenários mais abertos, prova que a plataforma da Nintendo possui, sim, fôlego suficiente para renderizar as experiências da atual geração com qualidade.
Como resultado, esta jornada digna de um dos maiores ícones do cinema se sai como recomendada também em sua versão nintendista. Portanto, arrume suas malas e prepare seu passaporte, caro leitor — há uma bela aventura te esperando ao lado de ninguém menos que Henry Jones Jr. no Switch 2.
Prós
- Oferece uma aventura digna do rico legado cinematográfico e cultural de Indiana Jones, apreciável até mesmo por quem não conhece muito do herói;
- A perspectiva em primeira pessoa, embora alvo de controvérsia, torna a jogabilidade bastante imersiva;
- A campanha com dezenas de horas de jogo e o modo Novo Jogo +, juntamente com a liberdade oferecida ao jogador para resolver os problemas, aumentam o fator replay e o valor da experiência;
- Graças à manutenção de tecnologias gráficas como o Ray Tracing, é uma adaptação que promove um verdadeiro showcase técnico para o console da Nintendo;
- O uso de recursos como Modo Mouse, giroscópio e HD Rumble 2 é um diferencial desta versão e demonstra carinho com a adaptação;
- Localização impecável em PT-BR.
Contras
- Por mais impressionante que o port seja, o título apresenta quedas na taxa de quadros em ambientes abertos, como as praças do Vaticano;
- Os 30 fps e a ausência de um modo focado na performance podem incomodar quem esperava mais nesse sentido;
- O downgrade gráfico significativo no modo portátil faz com que a melhor forma de jogar o game seja com o Switch 2 conectado à TV, o que pode frustrar quem prefere jogar longe da dock.
Indiana Jones e o Grande Círculo — PC/Switch 2/PS5/XSX — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bethesda










