Com tanta variedade no mercado, talvez seja fácil não prestar muita atenção em LumenTale: Memories of Trey. Porém, não se engane: embora deslize em alguns aspectos, a obra do Beehive Studios é um dos melhores RPGs recentes de captura de monstros, a ponto de merecer uma recomendação para todo apreciador do gênero. Confira nossa análise!
Quem sou eu? De onde vim?
LumenTale se passa no território de Talea, uma enorme região habitada por humanos e Animon, criaturas mágicas de origem desconhecida. Apesar de suas diferenças naturais, no passado, a cooperação entre eles levou à construção de um próspero Império.
No entanto, a paz não perdurou. Devido a vários conflitos internos (cujos detalhes se perderam no tempo), o Império Antigo caiu. Um grande embate então separou o povo de Talea em Norte e Sul, fazendo com que os habitantes dos dois lados passassem a se odiar e cortassem todos os laços que ainda persistiam.
Nesse complexo cenário político, você é Trey, um humano com partes mecânicas que é encontrado desacordado em uma floresta por Ales. Coincidentemente, o jovem que o encontra é sobrinho do Professor Kapan — um dos mais renomados pesquisadores de Talea e referência nos estudos sobre o Império.
Sem quaisquer memórias sobre seu passado ou o que você deveria fazer, mas uma notável aptidão para ser um Lumen (como são conhecidos os treinadores de Animon), começa então sua jornada em busca de respostas. Pouco a pouco, você desvendará um mistério que pode afetar o mundo inteiro e, principalmente, solucionar a divisão que atualmente assola a terra de Talea. Pronto para a tarefa?
Indo em busca de respostas
Embora o clichê do protagonista amnésico já esteja mais do que batido e soe pouco criativo, a narrativa de LumenTale felizmente se torna mais interessante conforme a aventura se desenvolve. Mais importante, ela funciona bem como desculpa para explorar a fundo a região de Talea, capturando o maior número possível de Animon pelo caminho.
É isso mesmo: caso ainda não esteja claro, Memories of Trey é fortemente inspirado na série Pokémon, mais especificamente na quinta geração da franquia (Black & White, Black 2 & White 2). Tal influência abrange desde o visual do jogo — que mescla elementos gráficos em 2D e 3D, como era comum na época do Nintendo DS — até a jogabilidade em si, que envolve capturar, treinar e batalhar com os Animon, percorrendo vários locais para que Trey se torne um Lumen cada vez melhor.
No entanto, ao contrário de uma cópia barata, LumenTale se prova bastante divertido e uma fácil recomendação para os apreciadores do gênero. Um dos motivos é seu sistema de batalhas, que segue o padrão de turnos, porém inova ao apostar em um formato de quatro contra quatro (4x4) simultaneamente.
Basicamente, cada um dos seus Animon na tela pode atacar qualquer uma das criaturas do oponente a qualquer momento, e vice-versa. Na prática, isso significa que, ao contrário da série da Nintendo — na qual ter um único Pokémon forte no time na maioria das vezes já é o suficiente para concluir a campanha —, aqui é imprescindível montar um time equilibrado, já que quatro dos seis integrantes da party (sim, o limite foi mantido) estarão no campo ao mesmo tempo, dividindo a atenção inimiga.
Para ficar ainda melhor, a inteligência artificial de LumenTale não está para brincadeira: frequentemente, você verá os oponentes focando seus golpes no elo mais fraco do seu time para derrubá-lo rapidamente, o que torna os confrontos contra Animon e oponentes mais fortes bastante desafiadores (mas nunca injustos). Como entusiasta de combates por turnos, logo me vi “fisgado” pelo sistema criado pelo Beehive Studios, tentando montar o melhor time possível para enfrentar os Chefes de Acampamento (personagens com funções similares aos líderes de ginásio) e outros adversários pelo caminho.
Tentando ser o melhor Lumen que já existiu
Outro ponto em que LumenTale acerta é no design caprichado dos Animon. Jogos de proposta similar frequentemente pecam nesse quesito, mas não é o caso aqui: criaturas como Ozelash, Almyuna e Kinedge, por exemplo, poderiam facilmente passar como Pokémon (ou Digimon) novos, o que torna a tarefa de capturá-las e treiná-las ainda mais divertida.
Ao todo, são 140 Animon entre comuns e lendários presentes no jogo, divididos em treze tipos que vão desde os esperados (elétrico, pedra, água, fogo) até as criações próprias (vírus, demoníaco, anomalia). Cada um dos tipos possui fraquezas e resistências que ajudam a tornar as batalhas mais equilibradas, e, em caso de dúvidas durante um confronto, é possível gastar um turno para escanear os oponentes e revelar seus pontos fracos.
Acertar golpes super efetivos em sequência pode, inclusive, render um turno bônus ao time atacante — uma mecânica simples, mas letal, que visa recompensar os jogadores que buscam dominar o sistema de batalha. Para chegar lá, também é necessário ficar de olho nos golpes de cada monstrinho, já que novos movimentos podem ser aprendidos ao subir de nível e é preciso ajustá-los manualmente.
Com isso, temos em LumenTale: Memories of Trey um jogo que se destaca por seu sistema de batalha, sua narrativa e pelas criaturinhas bastante carismáticas, além de várias atividades secundárias que reforçam sua originalidade — há até um sistema próprio de cartas colecionáveis e itens de decoração espalhados pelo mundo que remetem às Secret Bases vistas em Pokémon Ruby, Sapphire e Emerald. Porém, infelizmente, os problemas técnicos presentes na versão do console da Nintendo retiram parte do brilho da experiência. Vamos a eles.
Uma versão que claramente se beneficiaria de um pouco mais de tempo no forno
Como mencionado anteriormente, LumenTale: Memories of Trey opta por um estilo gráfico bastante interessante, que usa elementos 2D e 3D e mudanças frequentes na perspectiva da câmera para entregar um visual original e nostálgico. Porém, tal decisão acaba sendo acompanhada de quedas notáveis na taxa de quadros em algumas situações no console da Nintendo.
O mais bizarro é que isso também ocorre no Switch 2, indicando uma falta de otimização preocupante para quem pretende jogar o título no primeiro Switch. Outra coisa que me incomodou bastante foi o pop-in severo — elementos gráficos simples e decorativos como pedras, vasos de plantas e caixas podem aparecer e desaparecer da cena mesmo quando o protagonista está apenas a um passo de distância deles.
Junte a isso uma interface pouco intuitiva, bugs visuais e erros de ortografia na localização para o português brasileiro, e temos uma série de fatores que acabam quebrando a imersão e levantando a questão se LumenTale não precisava de um pouco mais de tempo no forno. Como o título só chegará às lojas no dia 26 de maio (um pouco depois da publicação desta análise, portanto), há esperança de que um patch de correção acompanhe o lançamento, mas o alerta permanece.
No mais, o fato do aspecto técnico atual de LumenTale: Memories of Trey não impedir sua recomendação completa é um testemunho da qualidade geral do jogo. Como fã do gênero e da quinta geração de Pokémon, confesso que a obra do Beehive Studios me cativou tanto quanto as melhores obras recentes do estilo. Logo, vale a pena conferi-la — nem que seja somente pelas batalhas e para escutar a trilha sonora magistralmente composta pelos italianos Tiziano Bellu, Giovanni Santolla e Lorenzo Varriano. Ouça uma amostra abaixo:
Atenda seu chamado, Lumen
Muito mais do que uma imitação barata, LumenTale: Memories of Trey faz jus às suas influências, entregando uma aventura digna de estar na coleção de todo fã de jogos de captura de monstros. O fato de nem mesmo seus problemas técnicos atuais impedirem sua recomendação é prova de que o Beehive Studios conseguiu criar algo realmente especial desde sua campanha no Kickstarter. Então, levante, Lumen — é hora de recuperar e criar memórias na aventura que te aguarda em Talea.
Prós
- Entrega uma divertida aventura que, fazendo jus às suas influências, merece ser conferida por fãs de jogos de captura de monstros;
- A presença de mais de uma centena de monstrinhos capturáveis e treináveis aumenta o fator replay;
- Sistema de batalhas divertido, que usa bem o formato 4x4;
- Apresenta um visual interessante e nostálgico, que mescla elementos 2D e 3D como na época do saudoso Nintendo DS;
- Trilha sonora memorável;
- Localizado em PT-BR.
Contras
- Infelizmente, apresenta quedas na taxa de quadros mesmo quando jogado no Switch 2, colocando em xeque a otimização e a qualidade da experiência no primeiro Switch;
- Outros problemas técnicos, como bugs visuais e erros de tradução, ocorrem frequentemente e comprometem a imersão.
LumenTale: Memories of Trey — PC/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Team17








