Análise: Menace from the Deep: Complete Edition é um fascinante deckbuilder lovecraftiano

Enfrente ameaças sobrenaturais enquanto coleciona cartas neste divertido título.

em 02/06/2026
Se você acompanha com frequência os lançamentos de jogos independentes, provavelmente já deve estar cansado de ver os termos “roguelite deckbuilder” sendo mencionados. E não é para menos: afinal, para cada Slay the Spire, Balatro ou outro jogo verdadeiramente inventivo do gênero que surge no mercado, é fácil achar dezenas, quiçá centenas, de outros que simplesmente usam essa combinação para entregar experiências repetitivas e facilmente descartáveis.


Felizmente, não é o caso de Menace from the Deep: Complete Edition, obra da Flat Lab que chega ao Switch e demais consoles pouco mais de um ano após sua elogiada estreia no PC. Unindo o fator replay esperado de um roguelite a divertidas mecânicas de construção de baralho, este título se destaca principalmente por sua inspiração no horror cósmico de H. P. Lovecraft, responsável por criar um cenário tão opressor quanto fascinante para cada nova partida. Confira nossa análise!

Conhecendo segredos profundos 

Estados Unidos, década de 1920. O estimado senhor Grum está nas etapas finais de aquisição do Museu de Innsmouth, decadente cidade portuária localizada em Massachusetts. Por mais que a instituição esteja em condições extremamente precárias, o investidor está ansioso para finalizar logo o acordo.

Isso porque a isolada cidade de Innsmouth esconde inúmeros segredos, como o costume local de realizar rituais dedicados a misteriosas criaturas marinhas e o fenômeno conhecido como “Lua de Sangue”, no qual o corpo celeste assume uma intensa coloração vermelha. Como “conhecimento é luz”, nada mais justo do que investigar esses mistérios a fundo, não acha?

Pois é isso que Grum e seus companheiros, membros de uma sociedade secreta dedicada ao conhecimento do oculto, farão. Tornando o antigo museu sua base de operações, o grupo se propõe a investigar o que está acontecendo em Innsmouth, e a descoberta de um antigo monólito submerso prova que há segredos perigosos colocando em risco não somente a cidade, mas também o mundo. Pronto para descobri-los?

Saindo em busca de respostas

Menace from the Deep possui dois modos de jogo: há o “personalizado”, em que todos os personagens e recursos estão à disposição desde o início, e é possível ajustar vários parâmetros de uma campanha antes de começá-la; e o “história”, no qual acompanhamos a sociedade secreta liderada pelo senhor Grum enquanto desvendamos uma trama inspirada no clássico livro A Sombra de Innsmouth, de H. P. Lovecraft. 

Em ambos, somos convidados a mergulhar na interessante construção de baralhos que o título oferece. Seguindo a cartilha do gênero, Menace from the Deep concede ao jogador um deck inicial de acordo com o personagem escolhido; superar desafios de crescente dificuldade rende cartas melhores ou upgrades para aquelas já existentes no baralho.

Com as campanhas comuns divididas em três partes (todas guardadas por um chefe), o objetivo é sempre chegar ao final do último ato e sobreviver à batalha derradeira. Como esperado, essa tarefa é mais fácil na teoria do que na prática, devido à geração aleatória dos cenários e inimigos, somada à imprevisibilidade característica dos roguelites.

No entanto, Menace from the Deep consegue se destacar positivamente mesmo em um gênero progressivamente saturado. O primeiro motivo para isso está em sua atmosfera lovecraftiana, que, honrando a genialidade do autor americano, consegue causar, ao mesmo tempo, medo e fascínio a cada novo encontro ou acontecimento descoberto. De moradores possuídos a criaturas marinhas fantásticas, todo inimigo encontrado parece estar em uma situação mais favorável do que o jogador — e isso torna o ato de derrotá-los ainda mais divertido.

O segundo motivo está no correto entendimento do que constitui um bom deckbuilder. Os quatro personagens disponíveis — Detetive, Cientista, Cultista e Abominação — são distintos tanto visualmente quanto nas cartas que utilizam, ampliando significativamente o número de estratégias disponíveis para dominar. Da mesma forma, embora o modo padrão de Menace from the Deep não entregue um mapa propriamente dito (e sim um tabuleiro), o jogador está sempre no comando do próximo passo da campanha, devendo escolher um de três eventos aleatórios disponíveis (também representados em cartas) para vivenciar.

Junte a isso mecânicas mais específicas, como a presença de 128 relíquias e 76 equipamentos que alteram significativamente os poderes dos protagonistas, além de consumíveis que podem ser encontrados em eventos ou após batalhas e usados durante as partidas, e temos a fórmula perfeita para a criação de combos tão caóticos quanto poderosos. Um exemplo disso é que, em uma de minhas campanhas para esta análise, consegui equipamentos com o atributo “vampirismo”, que me permitiam recuperar como vida parte do dano causado aos oponentes.

A partir daí, abdiquei de investir em cartas de defesa para criar combos voltados ao ataque, abordagem que rapidamente me carregou até o desafio final. Encontrar, perceber e montar as várias combinações possíveis é algo muito gratificante em deckbuilders, além de ser algo que motiva o jogador a continuar explorando mesmo após uma campanha concluída. Felizmente, Menace from the Deep não desaponta — muito pelo contrário — nesse quesito crucial.

Mergulhando no horror

Menace from the Deep também consegue atender tanto os jogadores que buscam uma aventura um pouco mais tranquila quanto àqueles que querem realmente testar os limites (seus e do título). O modo história — o mais indicado para os novatos — faz com que mesmo as eventuais derrotas contribuam para a progressão geral, graças a um sistema de upgrades baseado em materiais coletados durante as partidas. Com ele, é possível aumentar definitivamente os pontos de vida dos protagonistas, adicionar novas cartas ao pool de aparições possíveis nas campanhas e assim por diante.

Já o modo personalizado traz uma série de parâmetros configuráveis, que entregam desde um modo infinito até a presença de ninguém menos que Cthulhu como chefe final. Por padrão, o conteúdo do DLC A Fratura da Sanidade — vendido separadamente no PC, mas incluído na edição de Switch — está ativado; contudo, também é possível desativá-lo, se o jogador assim desejar.

Além disso, há uma série de outras particularidades em Menace from the Deep, como um sistema de combustível (usado para calcular até onde os protagonistas podem viajar em suas campanhas), a possibilidade de personalizar os nomes e visuais dos heróis e até uma mecânica de sanidade, que pode comprometer a capacidade de um personagem agir diante dos crescentes horrores cósmicos encontrados em uma run.

Falar a fundo sobre todos esses subsistemas certamente tornaria esta análise extremamente longa; por isso, prefiro deixar para você descobrir sobre eles e sobre os detalhes mais sórdidos de Innsmouth, na prática. Mas não se preocupe: sem entrar no campo dos spoilers, o que posso afirmar é que Menace from the Deep oferece conteúdo para facilmente justificar dezenas de horas investidas, se você for um fã do gênero. Sem exageros, este é um título que pretendo manter instalado no meu Switch 2 por um longo tempo, até (pelo menos) alcançar os 100% de conclusão — e, para a longevidade de um deckbuilder, acredito que não há testemunho melhor do que esse.

Um deckbuilder que acerta na apresentação, mas erra (em partes) na adaptação para o console

Dito isso, é preciso lembrar que Menace from the Deep não é um jogo perfeito. Apesar dos visuais e da sonoplastia merecerem elogios (prepare-se para ouvir muitos gritos e sons que ajudam a trazer à vida a assustadora ficção de Lovecraft), a adaptação para consoles, infelizmente, deixou a desejar em alguns pontos.

Talvez o mais gritante deles seja a interface: apesar de ser esteticamente agradável e conversar bem com a temática, navegar por ela usando um controle é confuso e impreciso. Com muitas janelas e menus diferentes na tela, provavelmente você gastará um tempo precioso para escolher a opção desejada, e ainda há o risco constante de cometer um erro nessa seleção, dado que é difícil saber quando um item está realmente marcado ou não.

Sobre isso, a realidade é que nem sempre as interfaces pensadas originalmente para PC se adaptam bem aos consoles, e este é um claro exemplo desse fato. Para piorar a situação, não há qualquer suporte à tela de toque do Switch ou ao Modo Mouse do Switch 2, recursos que, com certeza, remediariam essa incômoda situação.

Falando especificamente do console da Nintendo, há ainda outro problema: o texto pequeno no modo portátil, que compromete a legibilidade para quem pretende jogar o título nos primeiros modelos do Switch, já que a versão OLED e o Switch 2 possuem telas ligeiramente maiores. Ao menos, a localização para português brasileiro se faz presente, o que ajuda a entender os efeitos das cartas, relíquias e demais itens, garantindo o aproveitamento do título pelo nosso público.

Uma aventura que merece ser jogada por fãs do gênero

Menace from the Deep: Complete Edition é um excelente deckbuilder que merece ser conferido por fãs do gênero e entusiastas da vida e obra de H. P. Lovecraft. Embora sua conversão para o Switch não tenha sido imune a falhas, a obra do estúdio Flat Lab permanece recomendada no console da Nintendo, graças à sua jogabilidade divertida e à ambientação ímpar. Por isso, coragem: há segredos profundos à sua espera em Innsmouth — e vale a pena visitá-los.

Prós

  • Em um gênero um tanto quanto saturado, se sai como um divertido deckbuilder, com bom número de estratégias e combinações possíveis para exploração e domínio;
  • A temática lovecraftiana é um diferencial bastante positivo;
  • A presença de um modo história e de um modo personalizado, repleto de opções ajustáveis, garantem uma experiência agradável tanto aos novatos quanto aos veteranos;
  • A inclusão do DLC A Fratura da Sanidade eleva o valor do pacote e justifica a alcunha “Complete Edition”;
  • Localizado em português brasileiro.

Contras

  • A interface difícil de usar com controles põe em xeque a adaptação para consoles;
  • Ignorando as maneiras possíveis de contornar os problemas da interface, não conta com suporte à tela de toque do Switch ou nem ao Modo Mouse do Switch 2;
  • O texto pequeno no modo portátil compromete a legibilidade para quem prefere jogar longe da dock.
Menace from the Deep — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Feardemic
Siga o Blast nas Redes Sociais
Alan Murilo
é publicitário e copywriter que aprecia um bom jogo tanto quanto um bom café. Gamer desde que segurou um controle de Super Nintendo pela primeira vez, tem um apreço especial pelos títulos independentes e pelas diversas franquias da Big N.
Este texto não representa a opinião do Nintendo Blast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).