Nos videogames, certos jogos beberam diretamente dessa fonte para executar suas ideias como Back to the Dawn, Pathfinder: Wrath of the Righteous e, no tópico de hoje, Citizen Sleeper, cuja estação espacial já passou por nosso sistema e agora chega com uma versão de Switch 2 fresquinha. Eu sei que você acabou de acordar, mas venha comigo, vamos fazer algumas escolhas pontuais.

Uma nova vida com grilhões
Você acorda em um lugar estranho, uma estação espacial no meio do vazio galáctico. Você foi salvo por um sucateiro chamado Dragos, que revela que você é na verdade um Sleeper, a cópia de uma mente humana implantada em um robô para servidão e, dada a sua situação, parece que você fugiu de seus senhorios. Após retribuir o favor com Dragos de ter salvo sua pele sintética, você descobre que está na Erlin's Eye, uma mega estação espacial anteriormente de uma empresa poderosa que, ao falir, caiu nas mãos corruptas de um sindicato e de uma gangue.Com isso, recaem em seus ombros as escolhas para sobreviver a este novo ambiente hostil, seja vivendo na Erlin’s Eye ou tentando a sorte e fugindo das engrenagens do destino, sozinho ou com a ajuda de outros desafortunados na estação. Todos os caminhos levam para algum lugar e a escolha é sua e, no geral, Citizen Sleeper entrega muito bem seu universo porque essas escolhas importam. À disposição do Sleeper, temos um leque de personagens como o já mencionado Dragos, a mercenária Ankhita, o segurança Fang, pai e filha Lem e Mina e outros atores com seus próprios problemas e histórias nas ruínas do colapso capitalista.
São com esses personagens carismáticos e seus interesses que jaz as escolhas de Citizen Sleeper, oferecendo tramas sobre dever, esperança, dívida de sangue e ganância. Acompanhados de um estilo artístico muito legal misto, com os personagens desenhados como personagens de quadrinhos e todo o ambiente em CGI escuro e decorado com luzes para ilustrar a base; e uma trilha sonora bem imersiva com sintetizadores e longos momentos de silêncio emanam muito bem as sensações de isolamento e eventuais suspiros de levidade na situação difícil que o Sleeper se encontra.
Vibes interestelares
Uma boa proposta não se sustenta com visuais bonitos e personagens carismáticos, no entanto, e Citizen Sleeper consegue entregar bem a proposta de ser um tipo variado de RPG de mesa. Antes do jogo começar, temos a opção de escolher entre três categorias de jogador: Extractor, escolhendo força e condicionamento físico em troca de inteligência; Machinist, focando na capacidade de cumprir tarefas de reparos e tendo a capacidade de conseguir mais lixo e recursos para vender em troca da proatividade de resolver problemas adjacentes; e Operator, utilizando habilidades de hackeamento e programação para lidar com as situações, ao passo de ter uma condição física mais frágil no começo do jogo. Estes pontos podem ser melhorados com o passar do jogo, pois, ao cumprir as tarefas dadas pelos personagens, ganhamos um ponto de habilidade para aperfeiçoar o Sleeper, inclusive reverter o ponto negativo inicial.São classes simples que conseguem trazer prós e contras para qualquer escolha e ajudam o jogador a pensar nas ações que vão tomar. Em todo começo de ciclo (equivalente a dia e noite), recebemos dados que variam do número um ao seis para executar ações. Número 1 tem chance de 50% ação neutra e 50% ação negativa, enquanto seis é garantido 100% de sucesso nas ações, com os outros números variando de forma balanceada entre estes valores. Com sua classe, certas ações poderão ser mais fáceis ou mais difíceis. Exemplo: no começo do jogo, você escolheu ser Operator e tem que pagar sua dívida com Dragos. Você pode optar em ajudar nas negociações ou no trabalho braçal. Como você escolheu Operator, naturalmente você está mais frágil no começo e pode ser mais arriscado fazer ações relacionadas a corpo a corpo, então, não importa se você colocar um número seis para ter certeza que a ação vai dar resultado ótimo, ela vai reduzir em um número para valor cinco, diminuindo as chances de sucesso absoluto.
Alternativamente, você pode usar estes mesmos dados para fazer algum hackeamento e, graças ao seu conhecimento cibernético, é factual que a ação terá uma chance melhor. É um sistema prático e simples, mas que funciona e começa a progredir de forma bem natural. Especialmente com outras adversidades que acometem o Sleeper como sua data de validade imposta no momento que ele foi criado (saciada com remédios) e a fome que sente (saciada com comida). Não é algo que tem cada movimento ditado de forma minuciosa e direta como em Back to the Dawn, mas que funciona para colocar o jogador na linha e dar um norte para não ficar à toa no espaço.
É ainda interessante ver a outra opção para usar estes dados: ao apertar X, podemos acessar o cerne virtual da estação, vendo pontos de conexão que podem ser conectados com os dados e, assim, extrair dados e informações. Esta parte é crucial para certas histórias como a de Fang, mas tem que tomar cuidado com Hunter, uma inteligência artificial perigosa que caça IAs ambulantes, colocando um risco interessante para esta mecânica.
Polido, bonito e sem novas atualizações
Infelizmente, a versão Switch 2 comete alguns erros que persistem desde o original. Para começar, o jogo está completamente em inglês e, em um produto como um RPG, a quantidade de texto pode ser sufocante, especialmente quando eles começam a ficar cada vez mais longos e a decisão só aparece depois, deixando algumas progressões meio cansativas. Fica ainda mais chato com a ausência de um compendium para revisarmos sobre os personagens e o mundo, uma vez que a breve explicação das tarefas pode amontoar os afazeres, além de que seria legal ter um menu para checar as mecânicas do jogo, algo que está inexplicavelmente ausente na parte de opções, além do sistema de salvamento relegado exclusivamente a saves automáticos.A versão Switch 2 chegou com a promessa de melhores resoluções e performance, seja na TV ou no portátil e sim, a performance está impecável. Tudo roda muito bem e, exceto por um breve carregamento no começo do jogo, não existe nenhuma interrupção. Por outro lado, seria legal a adição ao suporte mouse do Switch 2, o suporte a tela tátil do console (algo estranhamente ausente até da versão original) e, como mencionado antes, suportes faltantes no núcleo do jogo como salvar a qualquer hora ou compendium.
Em análises passadas, eu disse que todo relançamento que se preze deve incluir rascunhos e desenvolvimento de seus jogos, para fins de preservação e curiosidade. Esse meu pensamento se estende inclusive para ports de remakes e novas edições, como Citizen Sleeper – Nintendo Switch 2 Edition. Pode ser mesquinho de minha parte mencionar este ponto aqui, mas considerando o lançamento do artbook Design Works e da ação serializada Helion Dispatches que conecta este com o próximo jogo, seria legal algumas adições assim. Pelo menos as expansões gratuitas FLUX, REFUGE e PURGE estão inclusas no jogo.
Nova vida, mesmo corpo, ainda de alta qualidade
Mesmo com as adições nada alarmantes para o novo hardware, Citizen Sleeper – Nintendo Switch 2 Edition é como se for comparar sorvete de chocolate de picolé com sorvete de chocolate de massa: é exatamente o mesmo produto, só entregue de forma diferente. Citizen Sleeper é ainda um jogo muito bom, com mecânicas bem feitas, personagens carismáticos e ambientação impecável.É um androide com uma bela casca, mas que realmente poderia usar de alguns novos brinquedos para atingir seu potencial absoluto. Jogamos os dados e deu um 4: nada mal, mas poderia ser muito além.
Prós
- Universo interessante, com personagens carismáticos, temas inteligentes e ambientação bastante imersiva;
- Ótima trilha sonora, evocando bem os sentimentos de futuro e isolamento;
- Performance impecável e sem problemas visuais;
- Visualmente lindo, distante, mas imersivo;
- Mecânicas de dados útil e que faz o jogador pensar;
- Contém as expansões gratuitas FLUX, REFUGE, PURGE.
Contras
- Ausência de localização PTBR pode deixar os textos cansativos;
- Ausência inexplicável de salvar manualmente, revisitar dicas e compendium sobre o universo;
- Sem adições realmente significativas para o Switch 2.
Citizen Sleeper – Nintendo Switch 2 Edition — Switch 2 — Nota: 8.0
Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fellow Traveler

