A franquia Rhythm Heaven sempre ocupou um espaço único no catálogo da Nintendo. Desde sua estreia no Game Boy Advance, a série se destacou por sua abordagem minimalista e muito charmosa para jogos de ritmo: minigames que duram poucos minutos, controles simples e uma estética de desenhos animados sem intenção nenhuma de fazer sentido. Após mais de uma década desde o último lançamento, Rhythm Heaven Groove chega ao Nintendo Switch como um dos últimos lançamentos first party para o console híbrido original. E a pergunta que fica é: será que o jogo sustenta o peso dessa responsabilidade?
A fórmula clássica, ainda eficiente
O único Rhythm Heaven a chegar em um console de mesa foi o Fever, lá no Nintendo Wii. Na ocasião, fazia bastante sentido manter a simplicidade de apenas dois botões para os minigames, considerando as limitações do Wii Remote. No entanto, Groove mostra que essa continua sendo a assinatura da série, mesmo em um console com mais capacidades, como o Switch.
São dezenas de minigames musicais, cada um com sua própria premissa, nos quais o jogador precisa apertar um ou no máximo dois botões no ritmo de uma música original do jogo. Isso torna a experiência bastante acessível, exigindo mais uma noção rítmica do que complexidade de comandos. A estrutura também é familiar: grupos de quatro minigames, seguidos por um "Remix" que os combina em uma única faixa.
Os minigames de Groove são, em sua maioria, competentes. Alguns são genuinamente divertidos e trazem aquela criatividade visual e sonora que tornou a série famosa: como um jogo em que você precisa usar os músculos de um personagem para rebater frutas que vêm na sua direção, ou outro em que você é um robô na linha de produção de uma fábrica de pudim.
O design de som é ótimo, fazendo com que o jogador possa facilmente sentir o ritmo. Tudo tem um sinal sonoro bem claro, então este é um jogo que, com boa prática, você pode fechar os olhos e ainda conseguir as melhores classificações.
Uma aparição tímida no console mais popular da Nintendo
Além de se adaptar ao ritmo de cada jogo, em Rhythm Heaven você também costuma precisar lidar com distrações no cenário. Porém, em comparação com os jogos anteriores da série, Groove parece um pouco mais contido. Como comentei, existem sempre sinais sonoros muito claros. Além disso, Rhythm Heaven Fever, por exemplo, era mais ousado em tirar a referência visual do jogador de propósito.
Minigames como Flock Step e Monkey Watch simplesmente chegavam ao ponto de sumir com seu personagem da tela e te forçar a usar apenas a música para lembrar quando apertar o botão. Em Rhythm Heaven Groove, nenhum vai tão longe, apesar de ainda, de vez em quando, colocar seu personagem atrás de alguma pequena barreira ou diminuir um pouco a iluminação do cenário. Faltaram aqueles momentos de puro desespero, em que um erro na batida poderia gerar uma sequência completamente fora do ritmo.
Parte disso talvez possa ser explicado por duas questões técnicas do jogo: input lag no modo dock e atraso no som ao usar fones sem fio. E esses problemas são reconhecidos pelos próprios desenvolvedores, já que o jogo abre com um aviso indicando para o jogador optar por fones com fio e que, caso queira jogar na TV, primeiro seria melhor tentar configurá-la com ajuda do jogo para tentar diminuir o input lag.
A diferença entre jogar direto na tela do Switch e na TV é bem notável. Fica muito mais fácil atingir pontuações melhores no modo portátil, ainda que pela TV também seja possível pelo menos concluir os minigames, já que o jogo exige uma pontuação no mínimo boa para desbloquear o próximo. No fim, mesmo com o auxílio da configuração, é uma dificuldade que não é bem resolvida.
Essa parece ser a razão para os minigames principais serem mais “guiados” do que de costume. Sem contar que Rhythm Heaven Groove está chegando no console mais popular da Nintendo, então muitos jogadores que nunca tiveram contato com a série estarão conhecendo-a agora, e uma progressão mais simples talvez fosse o ideal.
Falando especificamente do Brasil, existe algo que, infelizmente, atrapalha um pouco a acessibilidade: a localização. Não tem a opção de português brasileiro, sendo que existem pelo menos duas opções tanto para inglês (EUA e Inglaterra), espanhol (Latam e Espanha), francês (Canadá e França) e chinês (tradicional e simplificado), mas nenhuma para o nosso idioma. Mesmo que os comandos sejam bem simples, as dicas que aparecem em cada introdução podem ser bem úteis e são todas por texto, então ainda é um ponto contra.
Conteúdo que vai além
Ainda assim, o que Rhythm Heaven Groove faz para expandir o conteúdo da franquia é ótimo. Há muitos minigames extras após o conteúdo principal, além de dezenas de atividades multiplayer, tanto cooperativas quanto competitivas, sem contar o Beatspell, o “modo RPG” do jogo.
O grande desafio de Groove era justamente o fato de que sua fórmula já foi amplamente explorada, não só pela própria série, mas por jogos independentes que a usam como referência. Felizmente, o jogo encontrou fôlego novo nesses dois modos extras.
Beatspell consiste em batalhas contra monstros em que você lança feitiços conforme aperta combinações de botões no ritmo. É uma ideia divertida que se desenvolve bem ao longo de um simples modo história, que acerta em não estender demais e perder a graça ou ficar muito complicado.
Já o modo multijogador é o grande destaque: todos os minigames, sejam os cooperativos ou competitivos, são originais, o que significa que nada do conteúdo principal é simplesmente reaproveitado para criar um multiplayer. Serão novas experiências dentro do jogo que valem a pena conhecer, sem contar que alguns minigames de Rhythm Heaven Groove conseguem ser mais simples que jogos como Mario Party, facilitando juntar amigos e família que não estejam acostumados com party games.
Um jogo para novos e velhos fãs
Pensando no primeiro ano do Switch, quando tivemos Arms, 1-2-Switch, Snipperclips e Flip Wars acompanhando Zelda, ver Rhythm Heaven chegando para (supostamente) fechar a biblioteca de lançamentos da Nintendo para o console é simbólico e combina com a característica “fora da casinha” do Switch quando ele surgiu.
Rhythm Heaven Groove é, sem dúvida, o título mais recheado da série em termos de conteúdo. Há muito o que desbloquear, muitos desafios para os jogadores mais dedicados e uma experiência central que ainda diverte, mesmo que já não surpreenda como antes.
A apresentação visual segue o padrão da série: traços simples, animações fluidas e uma paleta de cores vibrante que nunca cansa. Os cenários e personagens carregam aquele carisma único que faz a franquia ser tão memorável. Portanto, para quem está começando agora na franquia ou busca um jogo acessível e divertido para curtir com a família, Rhythm Heaven Groove é uma excelente pedida. Para os fãs mais antigos, pode ser um reencontro agradável, mesmo que agridoce.
Prós
- Bastante conteúdo extra, tanto single player quanto multiplayer;
- Minigames do multiplayer são todos originais e variam entre cooperativos e competitivos;
- Beatspell é um interessante modo alternativo para os jogos de ritmo;
- Minigames continuam acessíveis e com o estilo visual característico da série.
Contras
- Falta de tradução para português brasileiro;
- Problemas com input lag na TV e com fones de ouvido sem fio atrapalham acertar o timing dos botões;
- Minigames menos ousados do que títulos anteriores da série.
Rhythm Heaven Groove — Switch — Nota: 8.0
Revisão: Vitor Tibério
Análise feita com cópia digital cedida pela Nintendo











