Análise: Destroys All Humans! é o retorno aceitável de Crypto-137, mas ocasionalmente surdo e mudo

Clássico do PS2 retorna com seu humor afiado e mecânicas divertidas, mas falha na entrega técnica.

Datando do século II, História Verdadeira (de Luciano de Samósata) é considerada a primeira história de ficção científica. Cruzando alguns séculos, os contos de alienígenas e invasores interestelares se infiltraram na cultura popular por meio de romances, filmes e, no tópico de hoje, jogos. Em 2005, surgiu a franquia Destroy All Humans!, colocando os jogadores no controle de um soldado alien em meio à humanidade e gerando uma tímida, mas amada, série cult de jogos.


Em 2020, a franquia retornou com o remake do primeiro Destroy All Humans!, chegando ao Switch em 2021 e aterrissando no Switch 2 neste ano. Sem mais delongas, agarre seu melhor raio mortal, vista seu melhor traje de caipira e venha comigo: vamos estudar esses primatas irracionais de perto.

A Ameaça Veio do Espaço

Estamos em 1959. Na base secreta Área 42, Novo México, um teste espacial é interrompido quando um OVNI é atingido por um protótipo de foguete. Em seus destroços, um estranho homem pequeno, de olhos rubros opacos, cabeça grande e pele cinza, arrasta-se para fora dos escombros e cai desacordado diante do exército. Este era Cryptosporidium-136, um soldado do vasto império Furon, glorioso por sua tecnologia avançada, mas à beira da extinção devido à escassez do código genético, causada pela esterilidade provocada por radiação e pela insuficiência de DNA Furon puro nos bancos de clonagem.

Determinado a resgatar seu irmão-clone, Crypto-137 é enviado à Terra sob ordens e vigilância de seu superior, Orthopox-13, com a missão adicional de coletar o DNA Furon puro que jaz escondido dentro da espécie dominante do patético planeta azul: humanos. Após abduzir vacas, erradicar uma feira inteira, sondar algumas pessoas e causar confusão em massa, a agência secreta Majestic fica no encalço dos invasores, criando uma guerra fria entre as forças humanas e os alienígenas. O grande prêmio? Soberania total.

Destroy All Humans! não tem uma história complexa, mas o que não lhe falta é charme. O afiado humor (muito bem traduzido para o português brasileiro) do universo, a atuação de voz impecável de J. Grant Albrecht como Crypto e de Richard Horvitz como Pox (claramente inspirado em seu papel como Zim, no desenho Invasor Zim), e a ambientação parodiada e absurdista dos Estados Unidos na década de 50 criam um ar único para o jogo. São bem escancaradas as referências à cultura da época, como os filmes B sobre alienígenas, a paranóia com os comunistas e o zeitgeist dos EUA sob o Terror Vermelho. 

Certas referências e piadas podem ser consideradas ofensivas, mas o jogo faz questão de afirmar que o remake preza por preservar a história do produto original, criando (acidentalmente) uma metanarrativa ultrapassada sobre a apreciação de conteúdos que podem ser vistos como insensíveis, tal como muitos filmes e desenhos que, pelos padrões atuais, podem ser vistos com maus olhos, especialmente aqueles da década em que o jogo se passa.

Os Bárbaros Invadem a Terra

Ao todo, temos seis áreas para explorar: Fazenda Turnipseed, Rockwell, Santa Modesta, Area 42, Union Town e Capitol City, cada uma baseada em algum arquétipo de filmes sci-fi ou da cultura cinquentista (fazendas com vacas para abduzir, cidades pequenas com drive-in, bases do exército…). Cada região é diferente o bastante das outras para criar uma boa variação de biomas e dificuldades, com certas áreas mais protegidas que outras. O fluxo de game segue uma linha bem direta: temos a opção de fazer a missão e prosseguir com a história ou explorar livremente a área selecionada.

As missões são simples, variando entre destruir e matar tudo ao redor ou apenas investigar a sociedade com algum disfarce humano. São 23 missões ao todo (com uma missão extra em comparação ao lançamento original, cortada no desenvolvimento, o que é sempre muito bem-vindo), sendo que algumas contêm objetivos opcionais para cumprir, deixando a jogabilidade mais interessante em certas ocasiões. E, se por algum motivo, a miscelânea não foi cumprida, é possível refazer a missão. Completar 100% de certas missões desbloqueia roupas muito legais para Crypto, algumas sendo referências inteligentes, como o visual clássico de PS2 do alien, outra baseada no filme B Palhaços Assassinos do Espaço Sideral e até mesmo uma de certo Cavaleiro Pálido que está sob a asa da THQ Nordic, a mesma publicadora do remake.

No modo livre, temos a liberdade de explorar as regiões como bem entendemos, atentando apenas às limitações do mapa e às forças humanas, estas ficando mais fortes conforme o nível de procurado de GTA e aumentando com nossa presença a olho nu e atos vis como explodir prédios e matar cidadãos. É inegável o prazer visceral de tocar o terror como um homenzinho cinza, seja a pé, estourando a cabeça dos cidadãos e coletando cérebros, seja queimando tudo com o OVNI. Essa liberdade é um dos pontos altos de todo o jogo. Armado com quatro opções diferentes de armas e três dispositivos no OVNI, é uma seleção limitada, mas poderosa e icônica, para causar caos e confusão entre os terráqueos.

Além disso, no modo livre, Crypto pode participar de quatro minijogos espalhados pelo mapa, variando entre Corrida (perseguir uma sonda Furon e coletar o DNA que ela solta antes do tempo acabar), Carnificina (matar o máximo de seres usando alguma técnica específica, como afogamento ou explosão), Armageddon (destruir tudo com o disco voador) e Abdução (jogar conteúdos específicos no raio abdutor da Nave Mãe no tempo estabelecido). São minigames divertidos até certo ponto, mas cuja repetição pode ser enjoativa a longo prazo. 

Tanto os minigames quanto as missões recompensam o jogador com DNA, a moeda do jogo, sendo úteis no laboratório de Pox para comprar melhorias tanto para Crypto quanto para seu OVNI, melhorando as defesas, ataques e exploração no geral. (Dica: repita bastante a Carnificina de Santa Modesta e use a Extração Cerebral em massa.) Além disso, estão escondidas sondas defeituosas que podem ser coletadas tanto no meio das missões quanto no modo livre, recompensando 100 DNA por sonda e desbloqueando artes conceituadas na galeria Furonigami. São muito legais de se ver, mas é bizarro que as artes sejam somente relacionadas ao remake, ignorando completamente a galeria do jogo original — com rascunhos, comentários de desenvolvimento e até os vídeos de animatic da apresentação original.

Half Human

Em comparação ao seu lançamento original, o remake mantém a jogabilidade, mas amplia-a com melhorias pontuais que tornam a experiência melhor e mais acessível. Crypto agora pode planar enquanto dispara alguma arma, além de poder, simultaneamente, carregar algo com a telepatia enquanto atacar ou pular, deixando a ação mais dinâmica e fluida, especialmente com a adição do P.A.T.I.N.S. (um propulsor que torna Crypto mais rápido). 

Visualmente, o jogo está indubitavelmente mais bonito que o original, indo em uma direção ainda mais cartunesca e satírica do período. Em comparação entre o Switch e o Switch 2, a performance no console mais recente representa um grande salto. Enquanto o Switch original apresenta longos carregamentos e texturas que demoram a aparecer, a versão para Switch 2 corrige bem estes erros, reduzindo o tempo de carregamento e o tempo para as texturas surgirem (mesmo que esse problema ainda persista e os detalhes no cenário que brotam ao se aproximar). Tive apenas dois crashes inexplicáveis no meio da jogatina, que nunca mais se repetiu.

O maior problema, no entanto, está na direção sonora. O remake, por si só, já omite diversas falas de NPCs, unidades inimigas (os robôs agora estão completamente mudos), a dublagem japonesa e outros efeitos sonoros. Ambas as versões para Switch, contudo, sofrem com a total ausência de efeitos sonoros — como tiroteios, propulsão da jetpack e falas de NPCs — e até mesmo a música em diversos momentos, como na luta final e em todas as sessões das fases Área 42, Union Town e Capitol City. Isso deixa bastante incômoda a sensação de jogar e ver explosões e ação sem qualquer impacto sonora.

Plano 9 dos Vampiros Zombie

Vindo direto de Proxima Centauri, Destroy All Humans! é um remake competente que finalmente traz a primeira odisseia de Crypto à Nintendo (anteriormente, a série apareceu no título de Wii Big Wily Unleashed), oferecendo uma jogabilidade simples, mas refinando o que era ultrapassado pelos padrões atuais.

No entanto, sua apresentação técnica precisa de sérios ajustes para poder, no mínimo, justificar o preço alto que cobra (inclusive sem opção de upgrade gratuito para o Switch 2, apenas com o valor do jogo reduzido pela metade para quem já possui a versão anterior). Não é um jogo ruim; realmente se apresenta como um produto da Sexta Geração: divertido, ousado e cometendo erros técnicos ultrapassados. A invasão foi um sucesso, mas poderia ter sido mais barulhenta.


Prós 

  • Jogabilidade simples, mas que responde bem, com adições pontuais que melhoram ação e a exploração;
  • Ciclo de jogo livre extremamente divertido;
  • Senso de humor afiado e ultrapassado nas melhores doses, condizente com o pano do jogo;
  • Excelente tradução em português brasileiro;
  • Evolução de performance no Switch 2 em comparação com a versão de Switch;
  • Boa variedade de níveis, e a adição de missão cortada é bem-vinda, além da possibilidade de repetir missões e completar objetivos extras.

Contras 

  • Apesar de visualmente bonito, apresenta engasgos de texturas e falta de detalhes do ambiente à distância;
  • Repetição dos minijogos pode se tornar enjoativa;
  • Galeria Furonigami bem composta por artigos do remake, mas inexplicavelmente ignorando todo o conteúdo original;
  • Direção sonora horrível, com efeitos e músicas simplesmente ausentes na reta final do jogo.
Destroy All Humans! – Switch/Switch 2 – Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pelo próprio redator
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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