Nos últimos anos, alguns títulos focados em construir uma aventura totalmente cooperativa, com direito à jogatina local, têm aparecido no mercado e conseguido cavar um grande nicho. Orbitals é mais uma excelente adição a esta lista, e que oferece algo extra: uma apresentação fortemente inspirada em animes dos anos 1980 e 1990. O resultado é um jogo divertido e, principalmente, unicamente estiloso.
Vasculhando pelas estrelas
A trama de Orbitals começa no passado e no espaço. Acompanhamos os protagonistas, Maki e Omura, como crianças enfrentando uma enorme calamidade espacial que afeta a espaçonave lar de todo seu grupo social. Graças a artefatos capazes de preservar suas almas, eles conseguem sobreviver ao desastre, mas o trauma continua.
Quinze anos depois, já jovens adultos, ambos terão que desbravar este cosmos pós-apocalíptico em busca de dispositivos capazes de aumentar a proteção da base de sua tripulação, temendo um novo desastre. Guiados por Toguen, o capitão, a dupla deve utilizar uma pequena nave para descobrir os mistérios e rastros deixados por estes ambientes cósmicos.
A história de Orbitals pode parecer confusa de início — o jogo pouco explica o contexto da premissa e da missão dos protagonistas. Contudo, no decorrer da progressão, seus desdobramentos tornam-se simples e óbvios o suficiente para entender, tornando o maior elemento de destaque da narrativa a interação e o carisma dos personagens.
Maki e Omura funcionam bem como dupla, ambos tendo personalidades distintas o suficiente e que são agradáveis de ver. Suas interações com objetos e até outros personagens da espaçonave realçam seu carisma — e até nos deixam com um gostinho de quero mais, afinal, por exceção de Togen e Kinakoko, pouco os vemos interagir de forma mais profunda com o restante da simpática tripulação.
Duas mentes pensam melhor que uma
Assim como It Takes Two e Split Fiction, a jogabilidade de Orbitals é obrigatoriamente cooperativa com dois jogadores. Há várias formas para que duas pessoas consigam aproveitar a jornada, e isso é um grande mérito. Entre as opções, podemos jogar localmente; dividir telas via GameShare; ou até jogar em conjunto via internet — vale lembrar que os desenvolvedores até disponibilizam um passe de amigo por cópia para facilitar este processo.
Durante a campanha, ambos os jogadores terão que navegar pelo espaço com sua nave e aventurar-se por locais desconhecidos resolvendo puzzles e desafios de plataforma. A tela fica dividida em maior parte do tempo, e as mecânicas funcionam de forma assimétrica, o que significa que é comum que cada personagem tenha sua própria tarefa única a resolver. Um exemplo claro é a nave, em que um personagem fica a cargo de controlá-la e o outro deve apossar-se de suas armas para conseguir defendê-la de inimigos ou objetos cósmicos — o que ressalta a ajuda mútua em batalhas especiais.
Apesar disso, Orbitals garante que a experiência seja honesta e tranquila para ambos os jogadores. Durante minhas sessões, raramente sentia que a dificuldade estava elevada e que, por exemplo, a resolução de um puzzle era enigmática demais.
Por um lado, isso ocasionalmente causa pouca fricção e uma sensação de que a aventura está lhe guiando pelas mãos, o que pode desagradar alguns jogadores. Isso é notável em elementos como a navegação da nave, que é linear ao ponto de não conseguirmos controlar o eixo Y de sua movimentação na maior parte do tempo.
Por outro, a experiência é criativa o suficiente para te manter, assim como seu parceiro, vidrado no que está acontecendo. Ao explorar os cantos do espaço, normalmente cada personagem pode manusear algum tipo de arma ou mecanismo, que pode variar de uma espécie de pistola até um chicote. Além de garantir uma variedade nos desafios, os gadgets também tornam a cooperação entre os jogadores mais inventiva, graças a seus diversos tipos de uso.
Um dos destaques é um momento em que um personagem pode utilizar um dispositivo que possui espíritos ou objetos. Enquanto um jogador utiliza-o para possuir um pequeno robô capaz de atravessar lava — mas que anda automaticamente adiante —, o outro deve subir em uma plataforma que o robô está carregando, desviando da lava e fazendo com que ambos consigam chegar ao outro lado.
Mesmo inventivos, ocasionalmente os desafios evidenciam a carência de exploração do título. Raramente encontraremos alguma recompensa ou algum caminho escondido ao explorar os cantos deste espaço sideral. Com exceção de passatempos a desbloquear para sua nave, que servem como pequenos minigames cooperativos, infelizmente não há muito o que encontrar que esteja fora do seu próximo objetivo, sempre telegrafados com ícones de interesse.
Charme irresistível
Em compensação, o que realça toda a jogabilidade de Orbitals é o conjunto de sua apresentação visual. Os desenvolvedores abraçam totalmente a estética de animes mais retrô, especialmente aqueles da década dos anos 1980 e 1990, e isso é notável de diversas formas. Logo ao começar, a animação ao movimentar Maki e Omura já demonstra uma quantidade de frames mais baixa — mas sem perder a responsividade —, que dão a sensação de uma movimentação mais cadenciada, comum em animações mais antigas que possuíam maior limitação na quantidade de quadros.
Os designs dos personagens, sejam dos protagonistas, da tripulação ou até de alguns NPCs, também saltam aos olhos, com características muito fortes — seja a cabeça com linhas rígidas ou os olhos grandes. Toda a animação do mundo eleva ainda mais o charme: durante a aventura, Maki e Omura poderão interagir com diversos objetos e criaturas, e o resultado é sempre algo que nos faz esboçar um pequeno sorriso — como, por exemplo, quando brincam com seu gatinho alien de estimação.
O jogo divide sua progressão em episódios e também conta com cutscenes animadas em um estilo de animação japonesa antiga, o que dá a sensação de estarmos experienciando e ao mesmo tempo assistindo um desenho ao lado de um amigo. Vale notar que o título está totalmente traduzido para o português brasileiro, e ainda contém configurações extras de áudio, permitindo que você, por exemplo, mantenha a legenda em português mas coloque o áudio em japonês — quase como a experiência clássica de assistir a um anime legendado.
Fechando o pacote de apresentação artística, ainda temos as músicas, que embora estejam presentes em pouca quantidade e repitam-se muito, complementam o ambiente e a aventura. Como destaque, temos a presença de uma música-tema muito viciante, cantada por Mami Ayukawa, artista que também canta a primeira abertura da clássica animação Mobile Suit Zeta Gundam.
Or-bi-tals! ♬
Orbitals é uma aventura cooperativa curta e bem simples. Em diversos momentos, senti que podíamos ter aproveitado um pouco mais deste mundo cósmico criado, talvez justamente por sua construção realizada com tanto esmero, que deixa um gostinho de quero mais.
As animações e estética geral elevam todo o pacote apresentado, e tornam-no uma aventura indispensável para jogar-se em dupla — seja para passar tempo de qualidade com uma outra pessoa ou para sentir que voltou ao tempo assistindo a um anime longínquo da sua infância.
Prós
- Apesar da curta duração, há uma grande variedade de desafios e mecânicas;
- Múltiplas formas para jogar no modo cooperativo;
- Estética e apresentação visual muito inspiradas;
- Tradução para português brasileiro, com direito a várias opções de áudio e legenda.
Contras
- Poucos coletáveis e incentivo à exploração;
- Repetição de músicas;
- Baixa dificuldade pode afastar alguns jogadores.
Orbitals — Switch 2 — Nota: 8.5
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Kepler Interactive








