Se Trails in the Sky 1st Chapter já havia estabelecido um novo padrão para vivenciar o RPG clássico cult da Nihon Falcom, Trails in the Sky 2nd Chapter consegue manter esse nível, o que não é uma tarefa fácil. A continuação direta da jornada de Estelle e Joshua Bright chega quase um ano após o primeiro remake, e a sensação que fica ao final é de que esse é um dos melhores RPGs do ano.
Onde a jornada termina e a verdadeira história começa
Geralmente, sequências conseguem criar uma maneira de fazer com que novos jogadores comecem diretamente por elas. No caso de Trails in the Sky 2nd Chapter, é complicado, porque o jogo retoma exatamente da cena em que o primeiro parou.
Para evitar spoilers do final do 1st Chapter, vou resumir dessa forma: Joshua desapareceu e Estelle está determinada a encontrá-lo de qualquer forma. Para isso, ela embarca em uma jornada que a leva de volta a percorrer todo o reino de Liberl.
A estrutura narrativa é engenhosa: enquanto o primeiro jogo era uma expedição de aprendizado pelos diferentes territórios e filiais da Guilda dos Bracers, o segundo é uma revisita aos mesmos espaços. Embora em termos de jogabilidade não seja tão interessante, o novo contexto da história ajuda. Isso é o que Trails in the Sky faz de melhor: destacar seus personagens e como eles mudam com o tempo.
2nd Chapter ainda começa contando a história de forma mais lenta, mas consegue dar forma aos grandes arcos narrativos que o primeiro já mostrava que estavam a caminho. O que foi construído em termos de mundo, personagens e tensões políticas explode, e aqui o foco está nos grandes conflitos.
Estelle Bright e os personagens que definem a experiência
É impossível falar de Trails in the Sky sem destacar, especialmente, a Estelle. Se no primeiro jogo ela já carregava carisma e se estabelecia como uma heroína memorável, aqui sua jornada de protagonista atinge um nível mais alto.
Tendo que agir sozinha pela primeira vez, a narrativa mostra a personagem precisando se firmar como Bracer Sênior, lidando com situações conflitantes e, principalmente, aprendendo que o mundo vai além da simples busca por seu parceiro desaparecido.
O roteiro da Falcom constrói Estelle como uma heroína que começa como o clássico arquétipo do herói otimista de anime, mas não deixa cair no clichê. Ela não chega a ser totalmente ingênua e, embora pareça relaxada, consegue entender a complexidade das situações.
Todo esse desenvolvimento funciona porque o elenco de apoio também é muito bom. E o segundo título continua com o sistema de equipe em que a narrativa monta a trupe, não o jogador, mas com algumas mudanças.
No primeiro jogo, se o personagem X não tiver motivo para participar daquele capítulo da história, outro assumirá o lugar dele. E se, por exemplo, houver três personagens no time, mas um deles não estiver mais disponível no meio do capítulo, a história seguirá com apenas dois até que o terceiro retorne.
Essa forma de conduzir a jogabilidade de acordo com a história torna mais natural a maneira como as relações se constroem e ainda faz com que o uso de personagens seja variado e a imersão não seja quebrada.
No segundo título, ainda existem momentos assim, mas o jogo dá mais liberdade em alguns capítulos. O jogador pode montar a equipe da forma como quiser, com o limite de quatro participantes.
Combate híbrido que funciona, mas com um ritmo estranho
O sistema de combate de 2nd Chapter mantém a abordagem híbrida: você pode atacar inimigos em tempo real no campo (Quick Battles) para enfraquecê-los e atordoá-los, então trocar para o combate por turnos (Command Battles) com uma vantagem estratégica.
É uma fórmula que funciona e tem sua função, mas quebra o ritmo da luta. Boa parte das Quick Battles toma muito tempo do jogador para causar atordoamento, exigindo muitos acertos e um controle de movimentação que não funciona tão bem.
Mesmo podendo fixar a câmera em um alvo, os monstros estão sempre em grupos, e é difícil se orientar no meio da briga. Fica ainda mais estranho porque o botão utilizado para atacar e para interagir com o cenário é o mesmo.
Mais de uma vez, o jogo parou para o personagem abrir um baú ou pegar um item do chão no meio da Quick Battle sem querer. O jogo até permite mudar o mapeamento do controle, mas são tantas mecânicas que todos os botões já têm uma função, então a configuração padrão é a que “dá certo”.
Isso acaba virando um problema, porque, mesmo podendo entrar direto nas Command Battles, dependendo do inimigo, é pedir para passar sufoco. Os Brave Attacks, movimentos coordenados com os aliados contra inimigos caídos, são especialmente fortes. Perder a chance de abrir a luta assim seria estender o confronto e dar mais tempo para o inimigo reagir.
Fora isso, a parte de turnos mantém a camada tática das versões originais. A forma de posicionar personagens, observar o alcance dos ataques, a ordem de ação e as posições de defesa ainda fazem muita diferença.
Os orbments continuam presentes e são práticos de usar. Para dar uma referência mais conhecida: são como as matérias de Final Fantasy VII Remake. Você tem esferas coloridas chamadas quartz, cada uma de um elemento, e equipá-las no orbment do personagem dá algum bônus de atributo, junto com uma magia elemental que melhora dependendo do nível do quartz usado.
Uma apresentação de conteúdo que eleva a experiência
A qualidade do remake é notável, considerando que já se passaram 20 anos desde o lançamento da versão original para PC. Ver as batalhas e os movimentos especiais em animações fluidas e coreografadas é algo que tanto fãs do original quanto quem curte jogos com a estética anime vão adorar.
Além da campanha principal, 2nd Chapter também oferece uma grande variedade de conteúdos opcionais que expandem o mundo de Liberl. As missões secundárias continuam sendo uma parte divertida da experiência, oferecendo contexto adicional, diálogos extras, novas atividades e recompensas úteis.
Também há dois minigames: a culinária e a pesca. O primeiro já existia no remake anterior, mas agora tem um propósito adicional: pratos que deram errado podem ser usados como itens arremessáveis em combate, com eficácia variando conforme o personagem. A vantagem é não gastar as barras de habilidade e magia. Já a pesca é um minigame que existia nas versões originais, servindo como um bom passatempo que ainda gera itens úteis como recompensa.
Ter cenas com voz também ajuda a dar mais carisma a todo esse conteúdo do jogo, mas, infelizmente, não há sequer legendas em português. Considerando que a série Trails demorou até mesmo para lançar jogos em inglês simultaneamente com a versão japonesa, é difícil pensar em quando uma tradução oficial em PT-BR será possível.
O arco de Liberl continua cativante
Trails in the Sky 2nd Chapter pega uma história já amada e a moderniza de forma quase ideal, aplicando bons conceitos de combate, mas pecando um pouco no ritmo deles, mantendo um aspecto ainda divertido. O resultado é um RPG fenomenal, com uma das melhores narrativas e personagens no gênero.
É um título obrigatório para quem jogou o primeiro, seja o original ou o remake. Para quem está em dúvida, o jogo possui uma demo com várias horas de conteúdo disponível e que permite transferir o save para a versão completa.
Agora resta esperar que a Nihon Falcom faça o remake da terceira parte da história para que os jogadores possam ter a experiência definitiva do arco de Liberl.
Prós
- Excelente história que apresenta bem o peso e a consequência a cada evento;
- Personagens bem desenvolvidos que conseguem consolidar-se com o progresso da história;
- Animações de habilidades e magias fluidas que dinamizam as batalhas;
- Ótimo conteúdo opcional, que expande o mundo e destaca o carisma característico da série.
Contras
- Sistema de combate livre com um ritmo inconstante;
- Revisitar as mesmas áreas do primeiro jogo pode cansar, especialmente no capítulo final;
- Não há tradução para o português.
Trails in the Sky 2nd Chapter — Switch/Switch 2/PC/PS5 — Nota: 9.5Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Cristiane Amarante
Análise feita com cópia digital cedida pela GungHo















