“(...) estava um velho alto, sem barba, exceto por um longo bigode branco, e vestido de preto da cabeça aos pés, sem um único toque de cor em parte alguma.”
Esta é a primeira descrição física de Drácula por Jonathan Harker, um dos protagonistas da obra homônima, ao se deparar com o Conde pela primeira vez em seu castelo. Desde sua estreia em 1897, o vampirão vem assombrando, assustando e divertindo gerações em todo lugar: de clássicos do cinema a animações fofas, de blaxploitations a comédias insanas e, obviamente, em jogos.
Para entrar no melhor clima deste Halloween, como seu horror host, eu vos trago a retrospectiva e análise do Príncipe das Trevas na icônica série Castlevania e, talvez, alguns deleites a mais. Venha comigo: vamos dar uma volta pela escuridão.
A origem do mal
Tal como meu Perfil do King K. Rool, antes de começarmos a falar do Rei da Noite, uma breve recapitulação de quem é Drácula e como chegamos até aquiEntre adaptações não autorizadas, mas incríveis, como Nosferatu, as personificações eternas de Bela Lugosi e Christopher Lee e mais outras tantas aparições, o dentuço se solidificou como figura cultural ainda no século XX. Entretanto, Drácula ainda procurava uma forma de expandir domínio nos videogames, não encontrando um terreno ideal para marcar território. Então chegamos em 1986 com a criação de Castlevania.
Segundo o criador da franquia, Noriyasu Togakushi, o objetivo era fazer com que o jogo transmitisse a sensação de um filme de terror clássico e, como Drácula está eternizado no gênero, era mais do que óbvio ele ser parte da franquia. Algo que chamou a atenção do desenvolvedor foi o fato de a cabeça do vampirão desaparecer pouco depois de ser arrancada, no final de sua primeira forma no jogo original, dando assim um indício de seu retorno iminente na sequência.
Esse sentimento de “cliffhanger” foi crucial para perpetuar o retorno eterno de Drácula em praticamente todos os Castlevanias.
Um lamento da inocência
Século XI, 1094. Pouco antes das Cruzadas, clãs e famílias já defendiam o nome de Deus em guerras santas secretas. Entre estas famílias estavam os Belmont, reconhecidos por seu mais novo descendente Leon, e os Cronquvist, com o sagaz Matthias, o Sábio. Leon e Matthias eram bons amigos, irmãos de armas, conquistando vitórias atrás de vitórias em nome do Senhor. Porém, a tragédia atacou: a esposa de Matthias, Elisabetha, adoeceu e morreu enquanto ele estava em uma de suas missões.
Destruído com a perda de seu amor, Matthias ficou acamado por um tempo e, por aí, chegou a uma epifania: “Se Deus é todo-poderoso, ele não pode ser todo-bom. E se ele é todo-bom, então ele não pode ser todo-poderoso”. Em um plano complicado e bizarro demais para uma mente frágil, ele elaborou os eventos que fizeram o lorde vampiro Walter Bernhard sequestrar a esposa de Leon, Sara, e impulsionar seu antigo amigo a ceifar o vampiro para, assim, conquistar a ilusória Crimson Stone e renascer como um poderoso vampiro.
Apesar de tudo, porém, ele ainda tinha simpatia por seu velho amigo e estendeu-lhe uma mão amigável, propondo que dividissem a eternidade sombria juntos, uma vez que ambos haviam experimentado a mesma dor. Enojado com o fatalismo hipócrita de Matthias, Leon recusou, enfrentou Morte (um poderoso demônio e, agora, arauto de Matthias) e jurou que seu clã caçaria a noite, portando o chicote Vampire Killer, que carregava a alma de sua noiva em uma promessa eterna pelo bem e amor.
Sumindo na escuridão, Matthias abandonou seu nome anterior e agora se batizou com a palavra que significa Dragão/Demônio em romeno… Dracul. Desta forma, nasce Conde Drácula.
A maldição de um coração partido
No meio-tempo, Drácula pode (ou não) ter lutado contra uma descendente de Leon, Sonia, e perdido por volta de 1450. Contudo, tal como os versículos apócrifos da Bíblia, esta história está oriunda de interpretações. O que É FATO CONCRETO é que, enquanto ele estava solitário em sua fortaleza sombria, adquirindo asseclas que também haviam ficado desapontados com Deus, uma mulher de coração puro chamada Lisa bateu à sua porta.
Ao ver a mulher cujo rosto era idêntico ao seu amor perdido a tanto tempo, o ermitão baixou suas defesas e deixou que ela ficasse com ele. Com o tempo, eles se apaixonaram e tiveram um filho juntos, Adrian Fahrenheit. Parecia que Matthias havia retornado ao mundo terreno e poderia, enfim, ter uma segunda chance com a humanidade… se não fosse por mentes pequenas. Em 1476, os moradores da região, temendo a magia e o progressismo da sociedade, raptaram Lisa, torturaram-na e causaram sua morte infeliz. Certo de que Deus não lhe deixaria ser feliz, Drácula renunciou à vontade Divina pela última vez e fez um pacto com a entidade maligna absoluta, Chaos, ganhando poderes absurdos e rogando uma guerra eterna contra a humanidade que havia tomado sua luz. .
Com isso, a promessa de Leon se concretizou,: seu mais novo descendente, Trevor, armado com o chicote Vampire Killer e a força de Deus, partiu para ceifar o vampirão. Ele não estava sozinho, porém: o pirata Grant Danasty, a clériga Sypha Belnades e Adrian (agora se chamando Alucard, jurando se opor a insanidade de seu pai) cruzaram metade da Europa para chegar na fortaleza nefasta de Drácula, erguida pela primeira vez para a eternidade: Castlevania. Uma batalha árdua foi travada mas, enfim, Drácula experienciou a morte pela primeira vez. Era para ser seu fim, mas o pacto pagão com Chaos não deixaria as coisas tão fáceis. A Morte tentou arquitetar um plano de ressurreição de seu senhor alguns anos depois, mas fracassou diante de uma maldição das trevas e de uma aventura recente envolvendo Rose, a filha de Trevor e Sypha.
E aqui que chegamos a um ponto importante: entre 1691 a 1698, o vampiro voltaria mais uma vez para tocar o terror. Armado com suas forças mais cruéis, suas criaturas invadiram a Romênia inteira com força bruta. . E qual Belmont estava lá para deter a incursão nefasta? Simon Belmont, dando início, em nosso mundo, à eterna dança entre os Belmont e as forças do mal. Essa lenda que foi recontada outras vezes, como em Vampire Killer, Haunter Castle e Super Castlevania IV. A vitória de Simon, no entanto, foi breve, pois, ao matar o conde maligno, uma estranha maldição apoderou de seu corpo e foi necessário exorcizar este mal de uma vez em mansões mal-assombradas.
Drácula estava mais uma vez morto, mas Castlevania reapareceu em 1797. Alucard, tendo despertado de um longo sono, averiguou a situação e encontrou Richter clamando ser o lorde do Castelo. Isso não passou de uma farsa, com o jovem tendo sido controlado pelo fantasma de Shaft que, usando de artifícios sobrenaturais, ressuscitou (mais uma vez) Drácula prematuramente . Em um embate para ficar na história entre pai e filho, Alucard revelou as palavras finais de amor e compaixão de Lisa, suavizando o coração dormente do homem que um dia foi Matthias. Este poderia ter sido o fim de Drácula… mas seu pacto com Chaos se mantinha forte. A entidade absoluta demandava morte e dor.
A vergonha de ter sido possuído pelas forças do mal fizeram os Belmont sumir dos anais da história por algum tempo, mas a determinação de lutar contra a escuridão se manteve. Em algum momento do século XIX, Drácula foi ressuscitado pelo guerreiro Barlowe, corrompido pela ideia insana de que a vontade da humanidade era servir a Drácula e não destruí-lo. Shanoa, uma das asseclas da Order of Ecclesia, conseguiu impedir que Drácula concretizasse qualquer plano nefasto.
Estava mais que óbvio para o destino, porém: o pouco de humanidade que Drácula tinha havia morrido em seu confronto final contra Alucard, restando nada mais que uma casca sombria, ansiando por escuridão e maldade para o mundo. Tanto que, em 1897, o vampirão foi ressuscitado por forças obscuras e fora impedido por Quincy Morris, conseguindo matar o caçador de monstros no processo (personagem baseado em Quincey Morris, do livro Drácula).
Não obstante a escuridão da guerra, Drácula ressurgiu em 1944 pela mão do macabro Brauner, que logo selou o conde em uma de suas pinturas, pois só queria o poder do Castelo. Brauner clamava por vingança contra o mundo por ter perdido suas filhas na guerra anterior. Porém, com a morte de Brauner pelas mãos de Jonathan (filho de John) e sua parceira Charlotte Aulin, Drácula ficou à solta novamente e pretendia reclamar seu castelo. Foi uma luta voraz, ao ponto de consumir a própria Morte para lutar contra a jovem dupla, mas logo o Conde foi derrotado.
Admito, no entanto, que é um tanto frustrante a falta de agência do próprio Conde na franquia. Sua figura de poder é um fato inegável e seu legado é eterno, mas ser ressuscitado tão prematuramente tantas vezes quando a lenda de que “a cada 100 anos ele retorna”, pode tirar um pouco o impacto do embate final. Isso sem falar os malabarismos da lore para tentar convencer que as palavras de Alucard em Symphony of the Night não valeram de nada quando, logo depois, lá está ele indo tocar o terror mais uma vez. Como um fã de longa data de Castlevania e dos mitos de Drácula, eu sinto que poderia ter tido um pouco mais de trato na composição da sua linha temporal (mas estamos falando sobre a Konami, então, paciência, né?).
De qualquer forma, é crucial ver a importância desta encarnação do lendário vilão e reverenciar sua compostura por todas as vezes que ele ousou aparecer na noite e arrepiar os heróis, reconhecer sua persistência e a iconicidade de suas lutas.
Esta tragédia, por sua vez, é até que bem adaptada na atroz série de Castlevania da Netflix. Cometendo erros e profanidades que fazem qualquer fã real da série erguer um rosário, talvez o maior trunfo de Netflixvania (como é rotulada nas más línguas) seja a personificação de Drácula. Sua vingança macabra nos primeiros episódios, motivada por ter perdido Lisa, encapsulam bem a voracidade sutil do Lorde das Sombras, mesmo que ele tenha parecido um velho depressivo logo na segunda temporada, tendo uma boa cena final com Alucard. Mesmo que ele não mostre toda a imponência e as gravitas que o lendário chefão oferece, a versão animada consegue passar uma boa impressão do que poderia ser.
O Lorde dos Vampiros também apareceu em outras formas, além do habitual da franquia: como um dos monstros do jogo Dead by Daylight, um chefão na DLC crossover de Dead Cells, um corredor no jogo de corrida crossover Konami Krazy Racers, um personagem jogável em Vampire Survivors e até encarando skatistas em Evolution Skateboarding. Considerando todas as doideiras que o personagem foi colocado ao longo de quase 200 anos de existência, essas aparições não são muito fora da caixa, mas é sempre legal ver o dentuço aqui e ali.
A história de Drácula da Konami é a história de Castlevania: convoluta, complexa, confusa, mas, ao mesmo tempo, intrigante, viciante, icônica e eterna. Não importa quantas vezes ele apareça, vai ser sempre uma dança macabra para se juntar, um baile das sombras para festejar e, acima de tudo, uma noite para não se esquecer. Feliz Halloween!
Ao ver a mulher cujo rosto era idêntico ao seu amor perdido a tanto tempo, o ermitão baixou suas defesas e deixou que ela ficasse com ele. Com o tempo, eles se apaixonaram e tiveram um filho juntos, Adrian Fahrenheit. Parecia que Matthias havia retornado ao mundo terreno e poderia, enfim, ter uma segunda chance com a humanidade… se não fosse por mentes pequenas. Em 1476, os moradores da região, temendo a magia e o progressismo da sociedade, raptaram Lisa, torturaram-na e causaram sua morte infeliz. Certo de que Deus não lhe deixaria ser feliz, Drácula renunciou à vontade Divina pela última vez e fez um pacto com a entidade maligna absoluta, Chaos, ganhando poderes absurdos e rogando uma guerra eterna contra a humanidade que havia tomado sua luz. .
Com isso, a promessa de Leon se concretizou,: seu mais novo descendente, Trevor, armado com o chicote Vampire Killer e a força de Deus, partiu para ceifar o vampirão. Ele não estava sozinho, porém: o pirata Grant Danasty, a clériga Sypha Belnades e Adrian (agora se chamando Alucard, jurando se opor a insanidade de seu pai) cruzaram metade da Europa para chegar na fortaleza nefasta de Drácula, erguida pela primeira vez para a eternidade: Castlevania. Uma batalha árdua foi travada mas, enfim, Drácula experienciou a morte pela primeira vez. Era para ser seu fim, mas o pacto pagão com Chaos não deixaria as coisas tão fáceis. A Morte tentou arquitetar um plano de ressurreição de seu senhor alguns anos depois, mas fracassou diante de uma maldição das trevas e de uma aventura recente envolvendo Rose, a filha de Trevor e Sypha.
A dança das ilusões
Um século depois, por volta de 1576 a 1591, novos Belmont surgiram para proteger a humanidade. Surgiu a lenda de que, a cada século, a fé católica seria desmoralizada e, com isso, Drácula retornaria para subjugar o mundo às trevas e ao desespero. Com isso, lá estava Christopher para impedir seu mais novo reinado de terror. Nem mesmo o filho de Christopher, Soleil, pôde escapar da sina cruel e quase foi possuído pelo lorde sombrio, sendo então arrebatado para o além mais uma vez.E aqui que chegamos a um ponto importante: entre 1691 a 1698, o vampiro voltaria mais uma vez para tocar o terror. Armado com suas forças mais cruéis, suas criaturas invadiram a Romênia inteira com força bruta. . E qual Belmont estava lá para deter a incursão nefasta? Simon Belmont, dando início, em nosso mundo, à eterna dança entre os Belmont e as forças do mal. Essa lenda que foi recontada outras vezes, como em Vampire Killer, Haunter Castle e Super Castlevania IV. A vitória de Simon, no entanto, foi breve, pois, ao matar o conde maligno, uma estranha maldição apoderou de seu corpo e foi necessário exorcizar este mal de uma vez em mansões mal-assombradas.
Uma sinfonia do horror
Em 1748, Juste Belmont, neto de Simon, incapacitou os resquícios nefastos de Drácula, que foram trazidos de volta por causa do inocente e jovem caçador de monstros Maxim Kischine. Então, em 1792, um século após a derrota do conde pelas mãos de Simon, a escuridão retornou graças ao padre profano Shaft. Com isso, surgiu Richter Belmont, que dispersou todas as forças malignas depois que Shaft e sua congregação raptaram diversas damas, incluindo sua namorada.
Drácula estava mais uma vez morto, mas Castlevania reapareceu em 1797. Alucard, tendo despertado de um longo sono, averiguou a situação e encontrou Richter clamando ser o lorde do Castelo. Isso não passou de uma farsa, com o jovem tendo sido controlado pelo fantasma de Shaft que, usando de artifícios sobrenaturais, ressuscitou (mais uma vez) Drácula prematuramente . Em um embate para ficar na história entre pai e filho, Alucard revelou as palavras finais de amor e compaixão de Lisa, suavizando o coração dormente do homem que um dia foi Matthias. Este poderia ter sido o fim de Drácula… mas seu pacto com Chaos se mantinha forte. A entidade absoluta demandava morte e dor.
A vergonha de ter sido possuído pelas forças do mal fizeram os Belmont sumir dos anais da história por algum tempo, mas a determinação de lutar contra a escuridão se manteve. Em algum momento do século XIX, Drácula foi ressuscitado pelo guerreiro Barlowe, corrompido pela ideia insana de que a vontade da humanidade era servir a Drácula e não destruí-lo. Shanoa, uma das asseclas da Order of Ecclesia, conseguiu impedir que Drácula concretizasse qualquer plano nefasto.
Estava mais que óbvio para o destino, porém: o pouco de humanidade que Drácula tinha havia morrido em seu confronto final contra Alucard, restando nada mais que uma casca sombria, ansiando por escuridão e maldade para o mundo. Tanto que, em 1897, o vampirão foi ressuscitado por forças obscuras e fora impedido por Quincy Morris, conseguindo matar o caçador de monstros no processo (personagem baseado em Quincey Morris, do livro Drácula).
Um último ária antes do Apocalipse
Tendo orquestrado o assassinato do Arquiduque Ferdinando em 1914, Elizabeth Bartley, sobrinha de Drácula (de alguma forma), almejou sacrificar todas as almas mortas no conflito da Grande Guerra para ressuscitar seu tio e governar o mundo moderno em trevas. Mal sabia ela que John Morris (filho de Quincy e atual portador do Vampire Killer) e Eric Lecarde (um jovem rapaz espanhol que portava uma lança que um dia pertenceu a Alucard) estavam prontos para impedir mais sangue inocente derramado nas trincheiras, finalizando o plano da condessa macabra, de sua associada sinistra Drolta Tzuentes e do recém despertado Lorde das Sombras.Não obstante a escuridão da guerra, Drácula ressurgiu em 1944 pela mão do macabro Brauner, que logo selou o conde em uma de suas pinturas, pois só queria o poder do Castelo. Brauner clamava por vingança contra o mundo por ter perdido suas filhas na guerra anterior. Porém, com a morte de Brauner pelas mãos de Jonathan (filho de John) e sua parceira Charlotte Aulin, Drácula ficou à solta novamente e pretendia reclamar seu castelo. Foi uma luta voraz, ao ponto de consumir a própria Morte para lutar contra a jovem dupla, mas logo o Conde foi derrotado.
Drácula, enfim, encontraria sua morte final na virada do século, em 1999, na chamada Guerra do Castelo Demoníaco. Em uma força conjunta do último Belmont (Julius), do clã Belnades, exércitos militares e até de Alucard, Drácula e Castlevania foram derrotados, destruídos, exorcizados e banidos para além de um eclipse solar, erradicando Matthias para sempre.
É o que eu diria se não fosse pela vontade de Chaos de ressuscitar o Ser do vampirão no adolescente japonês Soma Cruz, atiçando seu lado sombrio entre 2035 e 2036 para reassumir seu posto como vassalo sombrio. Em uma linha cronológica, o pobre garoto sucumbiu ao desejo macabro, mas, canonicamente e com muita força de vontade, o rapaz de cabelos prateados perseverou e manteve sua integridade, extirpando o mal de si e erradicando a vontade maligna de uma vez por todas, além de permitir que a alma penada de Matthias descansasse em paz.
É o que eu diria se não fosse pela vontade de Chaos de ressuscitar o Ser do vampirão no adolescente japonês Soma Cruz, atiçando seu lado sombrio entre 2035 e 2036 para reassumir seu posto como vassalo sombrio. Em uma linha cronológica, o pobre garoto sucumbiu ao desejo macabro, mas, canonicamente e com muita força de vontade, o rapaz de cabelos prateados perseverou e manteve sua integridade, extirpando o mal de si e erradicando a vontade maligna de uma vez por todas, além de permitir que a alma penada de Matthias descansasse em paz.
As muitas faces do mal
Drácula é um vilão icônico por uma centena de fatores, além de sua própria imortalidade cultural. Sua imponência diante de todos os monstros, seus ataques icônicos, sua trilha sonora sensacional, que o diferencia dos demais chefões dos jogos, fazem dele um adversário a ser respeitado. Não é a toa que ele é o único personagem convidado a ser um chefão em Super Smash Bros. Ultimate, fazendo uma luta digna dos padrões da própria franquia e com referências muito legais ao próprio jogo, como o fato de que só é possível causar dano se batermos diretamente na cabeça do vampirão.Admito, no entanto, que é um tanto frustrante a falta de agência do próprio Conde na franquia. Sua figura de poder é um fato inegável e seu legado é eterno, mas ser ressuscitado tão prematuramente tantas vezes quando a lenda de que “a cada 100 anos ele retorna”, pode tirar um pouco o impacto do embate final. Isso sem falar os malabarismos da lore para tentar convencer que as palavras de Alucard em Symphony of the Night não valeram de nada quando, logo depois, lá está ele indo tocar o terror mais uma vez. Como um fã de longa data de Castlevania e dos mitos de Drácula, eu sinto que poderia ter tido um pouco mais de trato na composição da sua linha temporal (mas estamos falando sobre a Konami, então, paciência, né?).
De qualquer forma, é crucial ver a importância desta encarnação do lendário vilão e reverenciar sua compostura por todas as vezes que ele ousou aparecer na noite e arrepiar os heróis, reconhecer sua persistência e a iconicidade de suas lutas.
Inclusive, na minha opinião, o personagem Conde Drácula da Konami basicamente encapsula a tragédia velada que foi estabelecida na cultura pop, ausente no romance original e adicionada ao filme Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola. Mas, enquanto o filme é uma adaptação medíocre que se disfarça de fiel pelo título enganoso, usando de mudanças ridículas para tentar colocar qualidade no enredo (admito que Gary Oldman é um Drácula legal, porém, com direito a armadura de Ovo de Páscoa), a degradação eventual do Conde em Castlevania, lentamente perdendo qualquer semblante de humanidade por causa de um pacto profano há mais de 500 anos, é algo digno de pena, mas também de grande interesse. É triste o que houve com ele, mas também é algo bastante perturbador ver o foco obsessivo dele em devolver o mundo às trevas.
Esta tragédia, por sua vez, é até que bem adaptada na atroz série de Castlevania da Netflix. Cometendo erros e profanidades que fazem qualquer fã real da série erguer um rosário, talvez o maior trunfo de Netflixvania (como é rotulada nas más línguas) seja a personificação de Drácula. Sua vingança macabra nos primeiros episódios, motivada por ter perdido Lisa, encapsulam bem a voracidade sutil do Lorde das Sombras, mesmo que ele tenha parecido um velho depressivo logo na segunda temporada, tendo uma boa cena final com Alucard. Mesmo que ele não mostre toda a imponência e as gravitas que o lendário chefão oferece, a versão animada consegue passar uma boa impressão do que poderia ser.
Drácula de Castlevania não está apenas relegado a franquia principal, porém. Entre tantos redesigns horríveis para Judgment, o jogo de luta de Wii, Drácula mantém um traje bem legal e ainda contando com alguns de seus ataques mais icônicos para descer o sarrafo nos ringues. Na trilogia Lords of Shadows, que se passa em um universo alternativo, Gabriel Belmont se transforma em Drácula, mas atua como protagonista, virando um anti-herói em sua luta contra Satã. Além disso, vale destacar sua personificação ainda mais sombria e sádica em Castlevania: The Belmont Legacy, uma série em quadrinhos baseada no jogo The Adventure (estrelando Christopher), que é uma baita adaptação boa do material original.
O Lorde dos Vampiros também apareceu em outras formas, além do habitual da franquia: como um dos monstros do jogo Dead by Daylight, um chefão na DLC crossover de Dead Cells, um corredor no jogo de corrida crossover Konami Krazy Racers, um personagem jogável em Vampire Survivors e até encarando skatistas em Evolution Skateboarding. Considerando todas as doideiras que o personagem foi colocado ao longo de quase 200 anos de existência, essas aparições não são muito fora da caixa, mas é sempre legal ver o dentuço aqui e ali.
A MISERABLE LITTLE PILE OF SECRETS
Este Perfil poderia ter ido ainda mais além das aparições de Drácula nos jogos não canônicos, como Castlevania: Legacy of Darkness e Castlevania: Circle of the Moon, ou até mesmo outros jogos que contém o vampiro, como o cancelado Drac’s Night Out e Nosferatu. Mas decidi focar, na minha opinião, na encarnação mais icônica do vampiro, além da original e das interpretações de Lugosi e Lee.A história de Drácula da Konami é a história de Castlevania: convoluta, complexa, confusa, mas, ao mesmo tempo, intrigante, viciante, icônica e eterna. Não importa quantas vezes ele apareça, vai ser sempre uma dança macabra para se juntar, um baile das sombras para festejar e, acima de tudo, uma noite para não se esquecer. Feliz Halloween!
Revisão: Dinho Paixão












