Um trocado para o seu bruxo nintendista, por favor
Falar sobre The Witcher nas plataformas da Nintendo é falar sobre um marco do suporte third-party da última geração. Por muito tempo, RPGs ocidentais e jogos de outros gêneros desenvolvidos com foco no público adulto passaram longe dos consoles da Big N — em parte por limitações de hardware, em parte pela imagem “family-friendly” que a empresa fez questão de cultivar ao longo da geração do Wii e do DS.
Justamente por isso, quando a CD PROJEKT RED anunciou que The Witcher 3: Wild Hunt Complete Edition seria lançado para o Switch em 2019, muitos jogadores ficaram surpresos. Em primeiro lugar, havia as questões relacionadas à parte técnica: como um RPG tão ambicioso, desenvolvido para extrair o máximo do PlayStation 4 e do Xbox One, funcionaria em um dispositivo híbrido, mais fraco do que seus concorrentes? Em segundo, era, no mínimo, curioso o interesse de uma das produtoras mais prestigiadas do mercado na plataforma da Nintendo.
Pois bem: como já sabemos, The Witcher 3 não somente chegou ao Switch, como também mostrou que obras AAA poderiam, sim, funcionar e vender bem no console da Nintendo com as devidas adaptações. Logo, com um novo DLC a caminho em 2027, nada mais justo do que dar à jornada de Geralt o tratamento de nova geração com uma versão específica para o Switch 2, aproveitando o hardware consideravelmente mais capaz do que o de seu antecessor, não é mesmo?
Sim, foi exatamente isso que a desenvolvedora polonesa fez com este lançamento. E o resultado, assim como em 2019, é impressionante em vários aspectos — apesar de, já adianto, não ser perfeito.
De volta à caçada
Muitas mudanças foram implementadas em The Witcher 3: Wild Hunt — Remastered, mas a história continua sendo a mesma do lançamento original. Assim, caso este seja o seu primeiro contato com a franquia, saiba que, aqui, acompanhamos a jornada de Geralt de Rívia, um dos últimos Witchers vivos, em busca de sua filha adotiva Ciri e de seu grande amor Yennefer, ambas desaparecidas. O sumiço da jovem, em especial, coloca o bruxo em um caminho de violentos confrontos contra o exército sobrenatural conhecido como Wild Hunt.
Apesar da premissa relativamente básica, pouco a pouco, a história vai ficando mais interessante de acompanhar, até chegar ao ponto de capturar completamente a imaginação do jogador. Esse fenômeno se explica pela riqueza do universo do título — que nasceu a partir dos livros de Andrzej Sapkowski —, mas também pela constante necessidade de fazer escolhas difíceis (com consequências que alteram a jornada) e pela variedade de finais possíveis (há três conclusões principais, com pequenas variações acontecendo a depender dos atos de Geralt na campanha).
Essa é uma abordagem que combina com a proposta do título de ser um RPG maduro e que ajuda a explicar o grande impacto cultural de The Witcher 3. Mais de uma década após sua estreia original, a verdade é que ainda são poucos os jogos que apresentam um mundo virtual tão fascinante e rico em detalhes quanto este. Sem exagero, é possível, inclusive, afirmar que algumas das missões secundárias aqui encontradas conseguem ser mais complexas e envolventes do que a campanha principal de várias obras.
Ao mesmo tempo, essa área do jogo não está isenta de pequenos deslizes que eu gostaria que tivessem sido revistos para esta remasterização. O principal é a introdução — sendo este o terceiro título de uma trilogia, marinheiros de primeira viagem certamente se verão um pouco perdidos no que tange à história, que pode inicialmente parecer confusa e mais complicada do que realmente é. Uma prova disso é que as primeiras cenas têm muito mais impacto quando já sabemos quem são Geralt, Yennefer e a própria Wild Hunt, e não o contrário.
É fato que, aos poucos, tudo vai sendo explicado ao jogador, mas é preciso ter uma certa dose de paciência para entender as mecânicas de combate (que são muitas) e ainda lidar com personagens e eventos que parecem presumir conhecimento prévio, ainda que em nível básico, da lore. Para piorar, as primeiras horas do jogo ainda se dão em um ritmo um tanto quanto arrastado, funcionando mais como um grande tutorial do que como qualquer outra coisa — uma pena que nada disso tenha sido aprimorado para esta remasterização.
Afiando as espadas
Por sua vez, o combate — outro ponto de contenda na época do lançamento original — foi revisado neste remaster. Isso quer dizer que Geralt de Rívia continua com suas duas espadas, magias e óleos à disposição, mas está bem mais responsivo e ágil do que antes. O mesmo pode ser dito da câmera, que assume uma nova posição nas batalhas para ajudar na percepção dos adversários e facilitar a troca de alvos.
A boa notícia é que as melhorias são notáveis e ajudam a aproximar The Witcher 3: Wild Hunt — Remastered de obras mais modernas (e polidas) nesse aspecto. Outro ponto positivo é que quem está mais acostumado com o sistema de combate antigo também pode retornar ao modelo original no menu, caso assim prefira.
Ainda assim, é preciso reforçar que o combate continua sendo, de longe, o ponto mais fraco desta obra-prima. Mesmo com as várias melhorias implementadas, Geralt ainda carece de finesse quando está rodeado de inimigos agressivos, com animações e comportamentos lentos denunciando a idade do jogo e provando que a indústria dos games evoluiu consideravelmente desde 2015. Se você, assim como eu, decidir jogar esta remasterização logo após obras mais recentes como Onimusha: Way of the Sword ou até mesmo Final Fantasy VII REMAKE Intergrade, entenderá perfeitamente do que estou falando.
No entanto, as críticas se encerram por aí: The Witcher 3: Wild Hunt — Remastered é uma obra que supera a versão anterior em todos os quesitos fundamentais, com melhorias de qualidade de vida, recursos bem-vindos e, principalmente, visuais muito mais bonitos no Switch 2 do que no primeiro Switch. Vamos a eles, então.
E no Switch 2, como ficou?
No primeiro Switch, The Witcher 3: Wild Hunt precisou de muitas concessões gráficas para funcionar corretamente. No Switch 2, a boa notícia é que temos agora uma versão tecnicamente bem mais próxima à dos outros consoles, com as principais diferenças sendo a ausência da tecnologia ray tracing e a resolução máxima de 1080p no modo TV (720p no modo portátil).
Ou seja, se você jogou este clássico no console anterior, já pode se preparar para testemunhar um enorme salto visual que demonstra, na prática, a diferença de poder entre as duas gerações. Infelizmente, assim como em Cyberpunk 2077: Ultimate Edition, os 60 quadros por segundo estão fora de questão, mas há suporte ao desbloqueio da taxa de quadros para uma gameplay mais fluida, que fica em torno de 40 fps em telas com suporte a 120 Hz.
O fato de esta remasterização ser completamente gratuita para quem já possui o jogo original em mídia física ou digital é outro ponto extremamente positivo, principalmente porque, quanto mais tempo passamos com a obra, mais fica claro o carinho da CD PROJEKT RED com este projeto. Além das claras melhorias visuais, há vários outros aprimoramentos, como suporte a mods, possibilidade de ignorar o peso dos equipamentos e até recursos específicos da versão de Switch 2, como VRR no modo portátil e suporte à tela de toque para partidas de Gwent (!).
Tudo isso se junta aos recursos já presentes na versão original, como HD Rumble e cross-save com as versões de outros consoles e PC, para entregar um verdadeiro showcase técnico do Switch 2. Particularmente, devo dizer que o recurso de salvamento cruzado é um dos meus favoritos — foi muito bom acessar a campanha que comecei no console da Nintendo também em meu computador (e vice-versa); honestamente, seria um sonho se mais jogos permitissem o mesmo.
Caso este seja o seu primeiro contato com a franquia, também há que se mencionar a localização completa em português brasileiro, que conta com os talentos de Sérgio Moreno, Gabi Costa e tantos outros. Só há um adendo: caso prefira jogar em nossa língua, só não se esqueça de fazer o download à parte selecionando o DLC correspondente na eShop.
Uma obra-prima em sua melhor forma
Antecipando a chegada do novo conteúdo adicional Songs of the Past em 2027, The Witcher 3: Wild Hunt — Remastered estreia com maestria no Switch 2, entregando mais uma prova de que o console híbrido da Nintendo tem poder suficiente para sediar experiências maduras e imersivas. Assim, independentemente de você ser um estreante na saga ou um bruxo já calejado, aproveite: um dos universos mais fantásticos do mundo dos jogos está à sua espera em sua melhor forma.
Prós
- Com uma série de melhorias que vão dos gráficos ao sistema de combate, passando por adições de qualidade de vida como a possibilidade de ignorar o peso dos equipamentos, entrega a forma definitiva de um jogo que marcou a geração passada e também a indústria dos games;
- Upgrade 100% gratuito (!) para quem já possui o jogo em mídia física ou digital;
- Apresenta ótima performance técnica no Switch 2, com destaque para o uso dos recursos exclusivos do console, como a tela de toque para as partidas de Gwent e o HD Rumble 2;
- Localizado em PT-BR, com dublagem de alto nível;
- O cross-save com outras versões e a possibilidade de importar o save da versão anterior tornam esta uma ótima forma de revisitar ou jogar em várias plataformas a aventura do bruxão.
Contras
- Para os iniciantes, os momentos iniciais da história poderiam ter sido revistos de forma a soarem menos confusos;
- Apesar de ter sido aprimorado, o sistema de combate continua sendo o ponto fraco do jogo, principalmente quando comparado ao de outras obras mais modernas.
The Witcher 3: Wild Hunt — Remastered — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 2
Revisão: Ariel Rodrigues
Análise produzida com cópia digital cedida pela CD PROJEKT RED








