Ainda assim, é uma felicidade poder escrever sobre uma das maiores obras da história dos videogames e, mais uma vez, transportar vocês para a era do Herói do Tempo. Mas, antes de falarmos sobre o que mudou nessa nova versão, precisamos voltar ao início e relembrar a história que fez Hyrule atravessar gerações.
Importante para a franquia
A franquia The Legend of Zelda conta com diversos jogos espalhados por diferentes eras, desde os acontecimentos mais antigos apresentados em Skyward Sword até as ramificações da linha do tempo que surgem após Ocarina of Time. É justamente neste capítulo que a cronologia da série ganha caminhos distintos, dando origem às linhas do tempo infantil, adulta e da derrota do herói. Cada uma delas nos leva a aventuras diferentes, com personagens, conflitos e destinos próprios. Poucos títulos possuem tamanha importância para a construção histórica da franquia.O Herói do Tempo ocupa um dos papéis mais importantes de toda a linha do tempo de The Legend of Zelda. Mas não é apenas Link que carrega esse peso: os outros dois escolhidos pela Triforça, Zelda e Ganondorf, também desempenham funções fundamentais para o destino de Hyrule. A relação entre os três, representando coragem, sabedoria e poder, confere à narrativa uma importância histórica e dramática que ultrapassa os acontecimentos deste jogo.
Em Ocarina of Time, conhecemos Link, um jovem criado entre os Kokiris, um povo de aparência infantil que vive protegido pela Grande Árvore Deko — nome oficial utilizado na versão brasileira — , guardiã ancestral da floresta. Diferentemente dos demais habitantes, Link ainda não possui uma fada para acompanhá-lo e, para completar, parece gostar bastante de dormir. Sua jornada começa quando a própria Grande Árvore Deko envia Navi, uma fada bastante carismática, para guiá-lo. Ao encontrá-la, Link recebe uma missão que mudaria sua vida: investigar a criatura que está corrompendo o interior da guardiã da floresta e enfrentar a ameaça que a consome.
A partir daí, o jovem começa a descobrir que seu destino é muito maior do que imaginava. Uma força maligna ameaça Hyrule, e cabe a ele partir em uma jornada que exigirá muito mais do que habilidade com a espada. Pelo caminho, precisa se despedir de pessoas queridas, conhecer diferentes povos e construir amizades e alianças que serão fundamentais para sua missão. É também uma história de amadurecimento, na qual acompanhamos uma criança, que pouco conhecia do mundo, assumir responsabilidades que jamais poderia imaginar.
Aos poucos, Link se transforma em guerreiro e protetor, guiado por sua característica mais marcante: a coragem. Coragem para explorar terras desconhecidas, enfrentar inimigos poderosos, superar conflitos e, acima de tudo, lutar pela paz de Hyrule.
Olhando para um jogo de 1998, fica evidente como Ocarina of Time se tornou um marco para a indústria. Sua estrutura, jogabilidade e construção de mundo em três dimensões mudaram a forma como enxergamos os videogames e, principalmente, como jogamos! Naquele período, a indústria ainda aprendia a explorar as possibilidades dos ambientes 3D, e poucos títulos conseguiam apresentar uma experiência tão completa e bem estruturada. A Nintendo não apenas levou The Legend of Zelda para uma nova dimensão, como ajudou a estabelecer conceitos que seriam utilizados por inúmeras produções nos anos seguintes.
Um dos maiores exemplos está no sistema de mira Z-Targeting, que permite fixar a atenção em um inimigo e ajustar a câmera e a movimentação de Link durante os combates. A solução não se limita à jogabilidade: a Nintendo também encontrou uma maneira inteligente de incorporá-la à narrativa, utilizando Navi como guia para identificar e indicar seus adversários. Assim, uma ferramenta fundamental para resolver um dos grandes desafios dos jogos tridimensionais também ganha um contexto dentro daquele universo. Hoje, esse tipo de recurso parece natural em jogos de ação e aventura em terceira pessoa, mas sua implementação em Ocarina of Time ajudou a estabelecer uma referência para toda a indústria.
Além disso, Hyrule não foi construída apenas como um conjunto de fases tridimensionais independentes. Seus campos, vilarejos, florestas, lagos e masmorras formam um mundo conectado, repleto de caminhos, segredos e descobertas. A exploração ganha um ritmo próprio, incentivando a curiosidade e fazendo com que cada nova região pareça parte de algo muito maior. Ocarina of Time ajudou a mostrar que um mundo em três dimensões poderia ser muito mais do que um espaço para movimentar personagens: poderia ser um lugar para viver aventuras, criar memórias e se perder por horas.
Uma lenda renovada
Entrando de fato no remake, estamos diante de uma reconstrução completa, e já adianto que não se trata de um jogo 1:1 ou de uma simples atualização de resolução, como aconteceu em alguns relançamentos anteriores da franquia, a exemplo de Twilight Princess HD e Skyward Sword HD, que pouco acrescentaram em termos de melhorias e adaptações aos padrões atuais. A Nintendo conhece a importância de sua obra, e isso fica evidente no cuidado com os detalhes em cada canto de Hyrule, passando pelos menus, expressões, narrativa e desenvolvimento dos personagens e, não menos importante, pelo gameplay.Diversas estruturas foram alteradas, e não falo apenas de ambientes, como acontece na Vila Kakariko, que apresenta mudanças capazes de alterar até mesmo alguns quebra-cabeças, mas também da própria construção dos cenários e templos, que agora transmite uma sensação muito maior de credibilidade e imersão. Logo de cara, isso fica evidente na Floresta Kokiri.
Elementos como a névoa, a densidade da vegetação, a iluminação, as sombras e a profundidade dos cenários contribuem para criar a sensação de estarmos realmente dentro de uma floresta de contos de fadas. Cheguei a me perder algumas vezes por lá, mesmo tendo finalizado as versões anteriores incontáveis vezes. É aquela mistura curiosa de reconhecer um lugar tão familiar, mas perceber que ele está diferente, maior e melhor.
Ainda no exemplo da Floresta Kokiri, que pode ser tomado como referência para todo o restante do jogo, a direção de arte está impecável, seja no estilo gráfico voltado para o realismo, mas sem abandonar a fantasia que sempre fez parte da identidade da franquia.
Os cenários apresentam texturas muito detalhadas, iluminação natural e elementos que buscam uma representação mais próxima do mundo real, enquanto os personagens preservam suas características estilizadas. É um equilíbrio muito interessante, que faz Hyrule parecer um mundo mais vivo e palpável, mas sem perder seu encanto.
Essa abordagem me lembra a demonstração técnica de Zelda apresentada na E3 2011, para o Wii U, na qual Link enfrentava uma aranha gigante em uma apresentação que buscava mostrar o potencial gráfico do console. Naquela ocasião, a proposta parecia apontar para um caminho em que a franquia poderia se aproximar cada vez mais do realismo.
O remake de Ocarina of Time, por outro lado, mostra que é possível alcançar um resultado visualmente impressionante sem abrir mão da identidade fantástica da série. E acredito que esse seja um dos maiores acertos de sua direção de arte.
No Nintendo Switch 2, essa experiência também ganha uma apresentação técnica à altura de sua importância. O remake roda em 1080p, com desempenho estável a 60 quadros por segundo, além de oferecer suporte a VRR e HDR em televisores — assim como no modo portátil — compatíveis e som surround. Outro ponto que merece destaque são os tempos de carregamento, extremamente rápidos. Não há enrolação ou longas esperas para continuar a aventura, e as poucas transições que exigem carregamento acontecem praticamente sem interromper o ritmo da exploração.
Outro grande acerto está na localização brasileira. O jogo está inteiramente dublado e legendado em nosso idioma, com um trabalho de dublagem excelente, que transmite emoção e naturalidade nas falas dos personagens. A adaptação também demonstra cuidado ao incorporar expressões do nosso cotidiano, com palavras como "moleque" e até ditados populares, tornando os diálogos mais próximos de nossa realidade. Em alguns momentos, essas escolhas rendem situações engraçadas e dão ainda mais personalidade às interações. É o tipo de localização que vai além de simplesmente traduzir falas e textos, respeitando o contexto da aventura e aproximando Hyrule do público brasileiro.
O áudio também merece uma atenção especial pela trilha sonora, que foi completamente refeita em novos arranjos orquestrais. E não poderia ser diferente, afinal, a música sempre teve um papel fundamental em Ocarina of Time. Ela não apenas acompanha a jornada, mas ajuda a dar identidade a cada região, desperta sentimentos e, por meio da própria ocarina de Link, torna-se parte da exploração e da resolução de desafios.
Uma novidade interessante é a possibilidade de utilizar o microfone do Switch 2 para cantarolar as melodias enquanto Link segura a ocarina, fazendo com que a canção seja reproduzida no jogo. O recurso funciona muito bem e, particularmente, foi essencial durante minha aventura, já que tenho certa dificuldade para memorizar as melodias que nos transportam para os diferentes templos. Basta ouvir algumas notas para reconhecer lugares, personagens e momentos que permanecem vivos na memória. É uma daquelas trilhas que não precisam de grandes explicações para mostrar sua importância.
Os menus também foram reformulados e seguem uma proposta mais próxima de Breath of the Wild e Tears of the Kingdom. Basta segurar o botão R para pausar a ação e acessar uma lista de equipamentos e itens, tornando as trocas muito mais rápidas e práticas. A organização também foi aprimorada, com divisões dedicadas aos itens (com seções por nível de importância) e equipamentos, além de uma seção de missões que ajuda a acompanhar os objetivos e não se perder durante a aventura através da tapeçaria.
Os direcionais digitais também ganharam novas funções, permitindo alternar rapidamente entre alguns equipamentos que, na versão original, exigiam visitas constantes aos menus. E quem já passou pelo Templo da Água sabe muito bem o quanto essas mudanças fazem diferença, especialmente na hora de trocar as botas de ferro. Só de lembrar já dá um frio na espinha! Além disso, é possível chamar Navi para esclarecer dúvidas ou marcar inimigos durante a aventura para obter mais informações sobre eles.
Falando nos itens, alguns deles, como o arco, o bumerangue e o gancho, receberam um recurso adicional com a mira por giroscópio, que funciona muito bem. Utilizei essa opção praticamente todas as vezes em que precisei desses equipamentos, principalmente pela precisão e agilidade que proporciona durante a utilização. Os minigames que exigem o uso desses itens para conquistar melhorias também foram bastante tranquilos com esse recurso.
Por falar em melhorias, os equipamentos mantêm seus aprimoramentos tradicionais, assim como no original, seja para aumentar a quantidade de munição que podemos carregar ou desbloquear novas funcionalidades. Uma das novidades é a Noz de dekomerciante, apresentada durante o Nintendo Direct. Com ela, podemos invocar um dekomerciante em praticamente qualquer lugar, inclusive dentro dos templos, para reabastecer o inventário sem precisar retornar a uma loja. A ideia é bastante interessante e oferece uma comodidade extra durante a exploração, embora, particularmente, eu quase não tenha sentido necessidade de utilizá-la. Fiz apenas um teste para entender seu funcionamento e acabei seguindo minha jornada sem recorrer novamente ao recurso.
Aproveitando o embalo, outro recurso que não senti necessidade de utilizar durante minha jornada foi a funcionalidade dos amiibo, que permitem obter itens aleatórios, como bombas, flechas e corações, entre outros. Ocarina of Time não é um jogo particularmente difícil quando falamos dos combates. Existem exceções, é claro, mas, ao longo de toda a minha aventura, não cheguei a morrer nenhuma vez. Para completar, minhas fadinhas continuam guardadas nos potes há tanto tempo que talvez esteja na hora de dar um pouco de liberdade a elas!
Outra novidade interessante é o Museu dos Mil Monstros, que pode ser acessado ao descansar em um dos vários locais espalhados por Hyrule. Nele, podemos conferir esculturas e informações sobre as criaturas enfrentadas, além de reviver as batalhas contra os chefes que já derrotamos, uma ótima oportunidade para repetir alguns dos melhores confrontos da aventura. Por fim, o novo Zelda Notes, serviço complementar que oferece recursos adicionais para a aventura, ainda não estava disponível para o jogo até o fechamento desta análise, portanto, não pude experimentar suas funcionalidades.
Hyrule continua nos chamando
Falando sobre exploração, o Campo de Hyrule continua sendo um dos pontos que mais evidenciam a idade de algumas escolhas de design do original. Mesmo com toda a reconstrução visual, a região ainda apresenta grandes espaços relativamente vazios, principalmente quando comparada aos mundos abertos que temos hoje. Existem momentos em que atravessamos longas distâncias sem encontrar muita coisa pelo caminho, e acredito que esse é um aspecto que poderia ter recebido um pouco mais de atenção nesta nova versão. Ainda assim, isso não significa que o campo seja desprovido de atividades.Há segredos para descobrir, inimigos para enfrentar, pontos de interesse e pequenas surpresas que recompensam quem decide explorar além do caminho principal. É uma característica que não chega a comprometer a aventura, mas que deixa evidente como a indústria evoluiu desde 1998. Por outro lado, há algo de especial em atravessar Hyrule novamente, reconhecer seus caminhos e observar como um espaço tão familiar ganhou uma nova apresentação.
Uma lenda que atravessa o tempo
É difícil colocar em palavras a importância de Ocarina of Time para a indústria e para tantas pessoas que cresceram acompanhando as aventuras de Link. O jogo já era uma obra-prima em 1998, quando ajudou a definir os caminhos que os jogos tridimensionais seguiriam nas décadas seguintes. Agora, tantos anos depois, a Nintendo demonstra um respeito enorme por esse legado.Cada cenário reconstruído, cada expressão dos personagens, cada diálogo adaptado, cada melhoria nos controles e cada detalhe da exploração mostram que não estamos diante de uma simples tentativa de reviver a nostalgia. O trabalho foi além de atualizar aquilo que já existia. A Nintendo entendeu o que fazia essa aventura ser tão especial e encontrou maneiras de ampliar, modernizar e aprimorar praticamente todas as suas áreas, sem retirar sua identidade.
É impressionante perceber como algo que já estava tão à frente de seu tempo conseguiu se tornar tão atual, sem deixar de ser aquilo que sempre foi. Para mim, esta é a versão definitiva de Ocarina of Time, uma reconstrução que honra o passado, abraça o presente e permite que uma nova geração descubra por que essa jornada é tão importante. É uma aventura que merece ser celebrada não apenas pelo que representou, mas por tudo o que ainda consegue despertar em nós.
O tempo pode transformar Hyrule, mas jamais apagará uma lenda. Algumas aventuras terminam, outras permanecem para sempre em nossos corações. E The Legend of Zelda: Ocarina of Time é eterno.
Prós
- Reconstrução visual impressionante, com cenários mais ricos, detalhados e imersivos;
- Direção de arte que equilibra realismo e fantasia sem perder a identidade de Zelda;
- Dublagem e localização excelentes, com diálogos naturais e adaptações muito bem-humoradas;
- Trilha sonora completamente refeita em novos arranjos orquestrais;
- Melhorias de qualidade de vida que modernizam a exploração e os combates;
- Controles mais ágeis, com corrida, pulo e mira por giroscópio;
- Carregamentos extremamente rápidos e desempenho estável a 60 fps;
- Museu dos Mil Monstros, uma novidade interessante para revisitar criaturas e chefes;
- Respeito ao legado original sem deixar de aprimorar sua experiência.
Contras
- Campo de Hyrule ainda apresenta grandes espaços relativamente vazios;
- Algumas limitações de design do jogo original permanecem, mesmo com a reconstrução;
- Noz de dekomerciante e funcionalidades dos amiibo pouco necessárias durante a aventura.
The Legend of Zelda: Ocarina of Time — Switch 2 — Nota: 10
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nintendo













