Pokémon: entre encerramentos e quedas de números, a franquia está em apuros?

Apesar do sucesso comercial, Pokémon enfrenta dificuldades para manter jogadores em alguns serviços e atender à demanda por experiências online.

em 07/11/2026

O ano de 2026 tem parecido agridoce para Pokémon. A franquia celebra seus 30 anos com comemorações especiais incluindo o anúncio de Pokémon Ventos e Ondas, novo capítulo da série principal que já movimenta a comunidade. Mas, enquanto a saga continua vendendo milhões de jogos, parte de seus serviços enfrenta dificuldades para sustentar o público.

O encerramento de UNITE e a perda de usuários de TCG Pocket expõem uma questão para a The Pokémon Company: a força da marca não garante o mesmo desempenho em todos os formatos. Esses movimentos não provam uma crise geral, porém apontam para uma diferença entre o poder comercial dos lançamentos principais e a dificuldade de sustentar engajamento e receita em serviços contínuos.

Os números dos jogos de serviço


Pokémon TCG Pocket ilustra a atual situação da marca nos dispositivos móveis. Segundo resultados do relatório do primeiro trimestre fiscal de 2026 da DeNA, sua média de usuários ativos mensais caiu de 39 milhões no primeiro trimestre de 2025 para 23 milhões no mesmo período deste ano.

A receita do segmento de jogos da DeNA também recuou, com Pocket apontado como principal responsável pela variação. Estimativas indicam arrecadação de US$ 235,3 milhões em novembro de 2024, um mês após a estreia do jogo, contra US$ 31,4 milhões em abril de 2026. No primeiro semestre deste ano, o segundo após o lançamento, o título movimentou US$ 298,2 milhões estimados, 32% abaixo do semestre anterior. A desaceleração é perceptível, embora o aplicativo ainda opere em escala milionária.

A situação de Pocket merece atenção especial, já que o jogo tem como parte de sua proposta atrair um novo público para o colecionismo de cartas, além de servir como uma porta de entrada para novos jogadores do gênero TCG da franquia. 

E, como menção, Pokémon GO continua com uma base sólida de jogadores e relevância global, embora com números abaixo do auge histórico de 2016 e 2020, e continua sendo uma das experiências de com maior público da franquia.

Pokémon UNITE e o encerramento do serviço


Em outubro, a The Pokémon Company anunciou que Pokémon UNITE será encerrado em março de 2027, tanto na família Switch quanto nos dispositivos móveis. As vendas de Gemas Aeos e novas assinaturas foram suspensas, assim como as renovações automáticas do Clube Unite. O jogo estreou no Switch em julho de 2021.

O anúncio veio depois de outra decisão que já havia levantado um alerta entre os jogadores: em julho, a organização retirou UNITE do Campeonato Mundial Pokémon de 2027, substituindo sua presença por um torneio próprio, o Aeos Crown 2027 Tokyo. A mudança já indicava uma redução de espaço competitivo, mas não significava oficialmente o encerramento. A empresa não apresentou uma justificativa detalhada para a decisão.


Contudo, as críticas da comunidade ajudam a entender o desgaste da reputação do título. Discussões sobre balanceamento de personagens considerados excessivamente fortes, convivem com reclamações sobre a monetização, o custo das Holowears e a progressão de itens. Além disso, a estrutura competitiva também foi alvo de descontentamento, motivada pela percepção de que algumas atualizações prejudicavam a disputa equilibrada.

Esses relatos evidenciam a insatisfação, mas não estabelecem quanto cada problema contribuiu para a perda accentuada de jogadores nos ultimos anos. Porém é importante considerar que o fato de o incômodo crescente do público ter coincidido com o fim do jogo é revelador.

Pokémon Champions e o melhor resultado financeiro da história da franquia


A situação dos jogos de serviço também precisa ser analisada ao lado de Pokémon Champions, que apresenta resultados positivos desde seu lançamento. O título ultrapassou 10 milhões de downloads acumulados em julho de 2026, somando os de Nintendo Switch com os de dispositivos móveis, segundo a The Pokémon Company. No lançamento mobile, chegou ao primeiro lugar entre os jogos mais baixados em 13 países, incluindo o Brasil.

Há, no entanto, uma diferença entre alcance e desempenho financeiro. Estimativas publicadas por portais de análise monetária apontaram arrecadação de aproximadamente US$ 7,2 milhões na versão mobile durante seu primeiro mês. Vale ressaltar que o valor pode não incluir todas as receitas obtidas na loja online do console e não representa um balanço oficial da empresa. Ainda assim, indica que Champions conseguiu estabelecer uma base expressiva de público e monetização.


O desempenho do game também coincide com o melhor resultado financeiro já registrado pela The Pokémon Company. No exercício fiscal encerrado em fevereiro de 2026, a empresa alcançou receita de 531,4 bilhões de ienes (cerca de US$ 3,36 bilhões, em cotação atual), representando crescimento de 29,3% em relação ao período anterior. O lucro operacional chegou a 144 bilhões de ienes (cerca de US$ 911 milhões), alta de 43%. Os números foram divulgados em registros financeiros japoneses e repercutidos pela imprensa especializada.

É importante observar que Champions foi lançado em abril de 2026; portanto, seu desempenho não contribuiu para esse recorde fiscal citado acima. O resultado foi impulsionado por outras frentes do negócio, incluindo o licenciamento da marca e o mercado de cartas colecionáveis. Isso mostra que mesmo com dificuldades específicas em alguns jogos de serviço, Pokémon continua apresentando resultados financeiros históricos e encontra espaço para novos produtos competitivos. Devemos também destacar o sucesso de vendas de Pokémon Pokopia e FireRed/LeafGreen, que ajudaram a impulsionar o último ano fiscal.

Scarlet/Violet: vendas e problemas técnicos


Pokémon Scarlet e Violet alcançaram juntos mais de 28 milhões de unidades vendidas até junho de 2026, segundo a Nintendo. O resultado coloca os jogos entre os maiores sucessos comerciais do Switch, apesar dos problemas técnicos registrados no lançamento, em 2022, incluindo quedas de desempenho, falhas visuais e bugs.

A recepção técnica também levantou críticas referentes às comunicações da Nintendo e da Game Freak frente aos problemas de desempenho: as atualizações foram publicadas, porém as respostas dadas foram consideradas insuficientes por parte da comunidade. Isso fez com que  a distância entre o sucesso comercial e a experiência técnica alimentasse o debate sobre padrões de qualidade e transparência.

A situação foi tão incomum que levou a Nintendo a fazer um raro esclarecimento e pedido de desculpas pelos problemas de performance e bugs encontrados no jogo, e esse não foi o único movimento incomum que Scarlet/Violet causaram. O caso ganhou grande repercussão porque a empresa permitiu o reembolso aos clientes que assim o solicitassem. A Nintendo é historicamente conhecida por ter uma das políticas mais rígidas do mercado digital, com uma regra padrão de não aplicar reembolsos na eShop por mero descontentamento ou erro de compra. E embora hoje o jogo tenha superado os problemas técnicos, a polêmica inicial o marcou.

Em contrapartida,  enquanto Pokémon escorregava em certos aspectos técnicos, outros jogos que prometiam uma experiência similar e com recursos esperados pelos pokéfans, acabaram ganhando bastante público em outras plataformas.

Palworld, Aniimo e a demanda por interação


Palworld mostrou que existe público para jogos de captura de criaturas com exploração, construção e interação direta entre jogadores. Seu lançamento alcançou 2 milhões de usuários simultâneos na Steam em janeiro de 2024, segundo os registros da plataforma. O sucesso não prova que o público esteja insatisfeito com Pokémon, mas demonstra que há espaço comercial para propostas que combinam captura, MMO e sistemas de sobrevivência.

Aniimo também merece atenção. Lançado mundialmente em setembro de 2026, o jogo já ultrapassou 15 milhões de jogadores, segundo a Pawprint Studio. O número divulgado pela própria empresa não equivale necessariamente a usuários ativos ou jogadores simultâneos. Na Steam, o título registrou um pico de aproximadamente 168 mil jogadores simultâneos.

Esses projetos atendem a um interesse que a série principal de Pokémon aproveita de maneira limitada: compartilhar a exploração de um mundo de captura de criaturas com outros jogadores. Pokémon oferece trocas, batalhas e atividades conectadas, mas a série principal preserva uma estrutura centrada em campanhas individuais. O contraste sugere uma oportunidade de expansão, sem exigir que os jogos principais abandonem sua identidade.

Apesar do poderia parecer, o interesse por Pokémon continua forte


Os problemas de receita e público em parte dos jogos, serviços mobile e online, merecem atenção, mas não representam uma retração generalizada da franquia. A The Pokémon Company encerrou o exercício fiscal de fevereiro de 2026 com a maior receita de sua história, enquanto Pokémon Champions encontrou rapidamente um público expressivo interessado em batalhas e competição.

O desempenho de Champions também oferece uma pista sobre o que parte dos fãs procura: uma experiência centrada no sistema tradicional de combate, com espaço para estratégia, construção de equipes e disputas competitivas. Isso não resolve as dificuldades de UNITE ou a retração de TCG Pocket, mas mostra que existe interesse em outras formas de consumir Pokémon.

Em suma a nossa amada franquia está longe de estar correndo algum risco ou perda de valor, pelo contrário, mas seu desafio está em reconhecer que cada produto precisa oferecer motivos para seu público permanecer, especialmente quando a proposta depende de atualizações e relacionamento contínuo com os jogadores.

Revisão: Juliana Alvarenga
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Fernando Lorde
Escritor e gamer, pode ser encontrado em: Instagram (@lordegameblog) e Twitch (@srl0rde).
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