Blast Files

Caso #013: As localizações de Final Fantasy no Ocidente

A história de como e por que Square e Nintendo mudaram a numeração e nomes dos jogos de Final Fantasy no Ocidente.

 No sistema de jogos de videogames, os jogadores são representados por dois grupos separados, mas de igual importância: as desenvolvedoras, que criam os jogos, e as publishers que os publicam e divulgam. Essas são as histórias deles. DUM DUM
O que contaremos neste capítulo do Blast Files é uma sequência de crimes cometidos pela Square quando ela começou a agir com a vítima, a série Final Fantasy, fora do Japão, especialmente nos Estados Unidos.


Antecedentes: Dragon Warrior

A história de nosso criminoso no Ocidente começa, na verdade, com um dos seus rivais de então; com a chegada de Dragon Quest, como Dragon Warrior devido a questões de licenciamento do nome, em 1989 ao NES (originalmente lançado em 1986). Recebendo aprimoramentos gráficos e tecnológicos, além de arte promocional mais ocidentalizada — lembrando clássicos do RPG ocidental da época, como Ultima —, o lançamento nos EUA, sob supervisão direta de Satoru Iwata, foi um sucesso e abriu as portas para o JPRG no nosso hemisfério.

De olho na movimentação da sua então rival, a Square decidiu trazer também a sua série de JRPG para o Ocidente e iniciou os trabalhos naquele ano para a chegada de Final Fantasy para o NES.

A localização do título original não enfrentou problemas e foi concluída em 1990 — três anos após o lançamento no Japão. Diferentemente de Dragon Quest, o jogo não recebeu melhorias e era praticamente idêntico ao japonês, apenas havendo algumas mudanças para retirar as alegorias e referências feitas à religiosidade cristã (considerada folclórica no Japão), como as cruzes das igrejas.
Mesmo assim, o sucesso foi suficiente para não só a Square Soft (filial da desenvolvedora nos EUA) decidir localizar os demais títulos já lançados como até mesmo nomear outros de seus títulos como Final Fantasy no Ocidente.  
Simultaneamente aos trabalhos do título original do NES, também trabalhava-se na chegada de um título portátil. Aproveitando a onda, a Square Soft apresentou Makai Toushi Sa.Ga de 1989 como The Final Fantasy Legend (GB) nos Estados Unidos em 1990, uma primeira ocorrência de falsidade ideológica e apropriação indébita do nome Final Fantasy. 

Primeiro Crime: Duplo Homicídio de Final Fantasy II e Final Fantasy III

Capa ocidental de FFII
O primeiro dos crimes cometidos aconteceria com a chegada do segundo título da série principal, Final Fantasy II (Famicom), lançado em 1988 no Japão. Os trabalhos se iniciaram em 1990, com previsão de lançamento em 1991, como Final Fantasy II: Dark Shadow Over Palakia (NES). O detalhe é que neste mesmo ano de 1991, em agosto, chegaria aos Estados Unidos o Super Nintendo. Também, alguns meses antes, seria lançado já o quarto título, Final Fantasy IV (SFamicom), no Japão.

Dessa forma, a Square e a Nintendo decidiram suspender os esforços na localização de Final Fantasy II (e, consequentemente de Final Fantasy III) para o NES, assassinando as duas vítimas, e focar em Final Fantasy IV para lançá-lo o mais breve possível para aproveitar o espaço de line-up do console.

Muito especulou-se sobre o quanto da localização de Final Fantasy II estaria realizada. Um cartucho beta chegou a ser produzido, mas a tradução estava extremamente grossa, bastante distante do resultado ideal, segundo o responsável pela tradução, Kaoru Moriyama. Além disso, a equipe enfrentava problemas com o tamanho dos textos; com um enredo muito mais complexo que o do título anterior, o espaço e a quantidade de caixas de diálogo disponíveis no código do jogo se mostravam insuficientes para contar a estória de forma adequada. Além disso, o título era considerado difícil, e contava com um sistema de batalha bastante peculiar, talvez houvesse receio da recepção do jogo nos Estados Unidos.
Nós vemos jogadores bem sérios em nosso futuro. Eles querem o desafio supremo. E nosso plano de batalha é dar a eles o jogos de estratégia mais difíceis que eles podem aguentar. Como Final Fantasy, um dos melhores RPGs de todos os tempos, lançado pela Nintendo, e, em seguida, Final Fatansy Legend, o primeiro RPG para o GameBoy. Agora estamos entrando batalha para um patamar ainda maior com Final Fatansy II para o NES e Final Fantasy Legend II para o Game Boy. E FF III continuará a saga requerendo estratégias ainda mais sofisticadas. Não há fim para a ação. E não há limites para as possibilidades. Mas, antes de tudo, você precisa empunhar a espada.
Durante muito tempo imaginava-se que Final Fantasy III (Famicom) nunca teve sua localização cogitada, tendo em vista que o jogo chegaria já muito tarde no Ocidente — da metade para o final de 1992, provavelmente — com o Super Nintendo plenamente consolidado. No entanto, há dois anos, como noticiamos, um material da Square distribuído em um evento interno divulgava o lançamento, junto com o segundo título, de Final Fantasy III.
Uma reincidência de apropriação indébita e falsidade ideológica: Enquanto isso, em 1991, mais um título da série SaGa, Sa-Ga 2 Hiho Densetsu (GB), voltava ser lançado por aqui como Final Fantasy Legend II (GB).

Segundo Crime: Falsidade Ideológica de Final Fantasy IV 

Conforme apontamos, dada a proximidade do lançamento do Super Nintendo nos Estados Unidos, e do lançamento de Final Fantasy IV (SFamicom) no Japão, a Square decidiu cancelar a localização de Final Fantasy II e III (Famicom), focando, então, em trazer o quarto jogo como um dos títulos de lançamento. O esforço deu certo, e o título chegou na América apenas três meses depois do console, em novembro de 1991, mas como Final Fantasy II (SNES).

Para não prejudicar a publicidade do jogo, Square e Nintendo decidiram transformar o "4" em "2", de modo que os jogadores ocidentais não dessem falta dos outros dois jogos. Também, outra novidade dessa localização, foi que, diferentemente do original, ele teve sua dificuldade diminuída.

De acordo com a Square, os jogadores ocidentais teriam dificuldade com este último jogo por terem esse hiato dos dois títulos não-lançados, perdendo a evolução da jogabilidade da série. Portanto seria necessário um lastro para atenuar uma possível falta de intimidade dos jogadores com as novas mecânicas da série.
Enquanto isso, novamente: os meliantes lançavam no mesmo mês Final Fantasy Gaiden: Seiken Densetsu (GB) — Gaiden, em japonês, quer dizer história paralela (isto é, side story) — como Final Fantasy Adventure (GB). Alguns anos depois, ele chegaria na Europa se chamando apenas "Mystic Quest".

Terceiro Crime: Cárcere Privado de Final Fantasy V

O problema é que subestimar a capacidade dos jogadores ocidentais se tornou uma constante, e levou ao cancelamento da localização de Final Fantasy V (SFamicom) — que seria o Final Fantasy III, na nova numeração criada para o Ocidente. Os trabalhos da tradução teriam começado junto com o lançamento no Japão, em dezembro de 1992, no entanto, os desenvolvedores começaram a desacreditar no sucesso do título nos Estados Unidos devido à sua dificuldade

"Ele realmente não é acessível o suficiente para o jogador médio", disse o tradutor da Square Soft, Ted Woosley, naquela época. A proposta seria talvez lançá-lo com outro nome, não atrelado a Final Fantasy, para não "manchar" o nome da série com os ocidentais, e posteriormente essa idéia se transformou na intenção de lançá-lo como Final Fantasy Extreme. Ao final, com o passar do tempo, a localização do quinto jogo da série foi abandonado por completo, e ele foi mantido em cárcere restrito ao Japão.

Quarto Crime: Injúria e Difamação

Neste meio tempo, consolidando a imagem de falta de intimidade dos jogadores ocidentais com o JRPG, foi desenvolvido o único título da série inicialmente exclusivo para o Ocidente (primeiro a ser lançado na Europa nos consoles de mesa): Final Fantasy: Mystic Quest (SNES) — posteriormente lançado como Final Fantasy USA no Japão. Provavelmente o pior título da série, contendo uma dificuldade banal, mecânicas de jogo primitivas, gráficos e enredo muito pouco inspirados.

As críticas para Final Fantasy Mystic Quest — não confundir com "Mystic Quest", versão europeia de Final Fantasy Adventure (GB) — seriam dignas de um texto por si só. Mas basta dizer que alguns exemplos: o mapa do mundo não é de livre navegação; não existem batalhas aleatórias, os inimigos são sprites fixos no mapa; não há equipe, apenas um parceiro por vez que é mais forte que você e que ainda tem a opção de ser controlado pelo computador; e que é preciso localizar o cristal da Terra numa região chamada Floresta, o cristal da Água em Aquaria, o de Fogo em Fireburg e do Vento em Windia.

Na ficha corrida da Square inclui-se agora Injúria e Difamação do nome Final Fantasy.

Quinto Crime: Falsidade Ideológica de Final Fantasy VI

Provavelmente após a recepção de Mystic Quest, a Square tenha chegado à conclusão de que não éramos tão burros. Em 1993 foi lançado Sa-Ga 3: Jiku no Hasha como Final Fantasy Legends III (GB); e também o segundo título da série Final Fantasy Gaiden, mas para o Super Famicom, Seiken Densetsu 2, localizado por aqui como Secret of Mana (SNES), porém, com um estilo totalmente diferente voltado ao RPG de ação.
Posteriormente, Final Fantasy Gaiden: Seiken Densetsu ou Final Fantasy Adventure (GB) recebeu um remake rebatizado de Sword of Mana (GBA) em 2003. 
O sucesso deste último jogo abriu caminho para o que ainda hoje é considerado, ainda que com intenso debate, o melhor da série, em 1994: Final Fantasy VI, lançado para os EUA como Final Fantasy III (SNES).

Para ele não foram feitas grandes mudanças na jogabilidade e a dificuldade do título permaneceu praticamente a mesma, apenas com notórias mudanças de censura etária. Algumas imagens mais sensuais foram modificadas, assim como uma diminuição no grau de violência de certos diálogos. Final Fantasy III (ou VI) foi um sucesso estrondoso, e seria o último a aparecer num console da Nintendo por muito tempo.
 

Divisão Blast Files encerra o caso

Como muitos já conhecem, para o desenvolvimento de Final Fantasy VII, a Square decidiu usar muitos recursos pré-renderizados, não apenas em cutscenes, mas no jogo realmente. Para tanto, os cartuchos do Nintendo 64 se mostravam inadequados, a série migrou para o PlayStation e a desenvolvedora iniciou uma parceria de exclusividade com a Sony.
No final de 1995, foi lançado para o Super Famicom no Japão, o terceiro Final Fantasy Gaiden, Seiken Densetsu 3, que seria lançado aqui como Secret of Mana 2. No entanto, a localização nunca ocorreu e muito pouco é sabido do motivo. Declarações posteriores de envolvidos diziam que o lançamento para o Super Nintendo seria muito custoso e que haviam "problemas técnicos" nos trabalhos que rendiam muitos bugs.
A partir de então, a história sobre as localizações foi revelada para o mundo, que recebeu após Final Fantasy III, o VII. Na nova fase com a Sony, a Square decidiu abandonar o trato diferenciado na publicidade para o Ocidente e passou a utilizar os mesmos títulos para ambas as partes do globo. A série Final Fantasy Legends continuou seu laçamento no PlayStation como Sa-Ga, em SaGa Frontier; e a série Mana, ao contrário, adotou o nome ocidental em Legend of Mana.
A partir de 1992, a série SaGa ou Final Fantasy Legends, como ficou conhecida por aqui, migrou para o Super Famicom e foram lançados 3 jogos da série Romancing SaGa, considerados três dos melhores jogos do console. Entretanto, os jogos sequer tiveram sua localização cogitada para o Ocidente. 
Há dúvidas se Final Fantasy 64 realmente chegou a existir, a versão mais sóbria do caso aponta que não; a demo apresentada em 1995, que trazia personagens de Final Fantasy III (ou VI) em gráficos tridimensionais, foi produzido em um estúdio parceiro da Nintendo na criação do Nintendo 64, mas não exatamente projetado para o console da Big N — lembremos da má-vontade da Square com o eventual Secret of Mana 2. Caso FF64 tivesse sido lançado, mais um capítulo seria necessário para explicar como pularíamos do Final Fantasy III (ou VI) para Final Fantasy LXIV.

IMPORTANTE: A brincadeira foi para manter o tom da coluna Blast Files, no entanto, a experiência das localizações de Final Fantasy não necessariamente é negativa. Os tempos eram outros e o mundo era muito menos globalizado em vários os aspectos. Embora privasse os jogadores de vários grandes títulos, demonstrava o cuidado com a publicidade e divulgação dos jogos por aqui que, novamente, em um tempo sem internet, era decisivo para o sucesso ou não dos jogos. Se, por exemplo, Final Fantasy II (NES) ou Final Fantasy V (SNES) fossem localizados e muito mal recebidos por conta de sua dificuldade ou excepcionalidades, os efeitos negativos talvez pudessem ser ainda maiores.


Revisão: Alberto Canen
Capa: Felipe Fabrício
Lucas Palma Mistrello é historiador, mestre pela Universidade Federal de São Paulo. Redator nos Blasts desde 2012, começou com os games com o Atari 2600 e é eclético em gênero e temas: vai de COD e Medal of Honor a Pokémon e Zelda com a mesma vontade. Sempre está de olho nos comentários das postagens.

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