Crônica

Satoru Iwata, muito obrigado!

Yes, I understand (espero).


Eu lembro exatamente o lugar em que estava quando, pela primeira vez de muitas na vida, venci o Lance em Pokémon Gold (GBC) no meu Game Boy Color, ainda em 2000. Provavelmente era fim de semana, porque eu estudava a tarde e lembro perfeitamente de estar sem uniforme, mas comendo Nuggets que minha mãe acabara de trazer pra mim.



(Recomendo ler ouvindo isso aqui)

Quando eu descobri que o S.S. Anne estava me esperando no porto para me levar ao continente de Pokémon Blue (GB) (na época eu não sabia que o nome era Kanto e não havia visto o mapa/pokédex por algum motivo desconhecido), minha mente explodiu: “CARACA, EU VOU PODER JOGAR CONTRA TODOS AQUELES QUE ENFRENTEI EM BLUE???”. Foi uma experiência incrível, uma das melhores que me recordo enquanto amante de videogame.

Na época eu estava com 11 anos e nem PC tinha na minha casa, então não tinha ideia do “milagre” que era incluir em um cartucho de Game Boy um jogo que era praticamente o dobro de seu antecessor em tamanho e com uma qualidade superior. O santo responsável por este trabalho foi Satoru Iwata, cujas capacidades como programador eram inquestionáveis desde seus tempos na HAL Laboratory.
Explodiu cabeças.
Seu talento como programador é algo que apenas outras pessoas que vivem de escrever códigos são capazes de reconhecer. Um dos fatos mais conhecidos que ilustra claramente seu talento para o ofício foi o fato de ter escrito o código de Pokémon Stadium (N64) apenas lendo o código original de Pokémon Red & Green (GB). Eu não sei se sou capaz de fazer uma analogia proporcional a dificuldade disso para leigos, mas acho que a mais acessível é imaginar alguém ouvindo uma sinfonia pela primeira vez e conseguindo reproduzir o som sem nenhuma partitura, apenas com o ouvido.

A outra foi o processo de desenvolvimento de Earthbound (SNES). De uma história que me foi contada no dia de hoje por um colega no Twitter (obrigado, Delta!), descobri que Iwata afirmava que “programadores não são permitidos a dizer ‘não’. Basicamente, programadores não podem dizer ‘não podemos fazer isso’ para qualquer ideia que surgir”. É preciso ser excepcional para afirmar isso categoricamente. Esta confiança permitiu a Shgesato Itoi ter a liberdade que possibilitou Earthbound - a série mais carinhosa já produzida pela Nintendo - existir. Iwata era um dos principais programadores do bagunçado projeto e assumiu a responsabilidade de reescrevê-lo por completo.
Mas provavelmente você não conhece Iwata por suas habilidades como programador, mas pelo tempo em que o tivemos como CEO da Nintendo - cargo ocupado pelo próprio até falecer. Iwata esteve a frente da empresa em seus momentos mais difíceis desde o lançamento do NES, até a dupla de maior sucesso comercial da história dos consoles Nintendo, Wii e DS. Goste ou não do fato da Nintendo sempre buscar inovar - de uma forma até excessiva -, o fato é que inovação foi uma palavra-chave de sua gestão.


E um dos resultados dessa inovação foi o Nintendo Direct. Vamos combinar: no começo, o fato de ter o CEO de uma empresa apresentando seus produtos ao lado de mascotes e cachos de banana era bem ridícula. Mas ele insistiu e rendeu risadas e apresentações de jogos histórios de uma forma irreverente. Eu amava tanto o que ele fazia no periódico que não consigo conceber que ele não fazia aquele papel por amor. Amor à Nintendo, amor aos videogames. Um amor que o fez cortar metade de seu salário como um compromisso de que a melhora chegaria. Um amor que ficou eternizado na minha frase favorita dele:
“Espera-se que video games sejam apenas uma coisa. Divertidos. Divertidos para todos.”
Embora ache que videogames não devam apenas nos divertir, mas sim nos entreter, quando ligava meu console da Nintendo, qualquer um deles, era diversão que eu procurava e era isso que eu encontrava. Diversão que fez a infância (tardia ou não, como citaram no meu Facebook) de muitos felizes. Diversão que encorajou milhares de pessoas no mundo a amar jogos e querer fazê-los para passar a mesma sensação que tiveram para outros, como vários que tenho o prazer de conhecer. Este era um desejo de Iwata e, pelo menos nesse aspecto, é uma coincidência interessante a de que seu último Mario anunciado seja justamente um no qual todos poderão fazer “seu próprio jogo”.
O trabalho de Iwata, seja como CEO ou como desenvolvedor, me trouxe sensações que levarei por toda minha vida com felicidade. Infelizmente, não tenho mais minha mãe para me trazer Nuggets, mas Earthbound ganhou um valor sentimental poderoso em mim, porque graças a ele relembro o amor incondicional de uma mãe por um filho. E isto só foi possivel graças ao Iwata programador que possibilitou a Earthbound existir e ao Iwata CEO, em cuja gestão vimos a Nintendo ressucitar suas principais franquias no Virtual Console.
Satoru Iwata, segundo o próprio: “Em meu cartão corporativo, sou o presidente de uma empresa. Em minha mente, sou um desenvolvedor de jogos. Mas em meu coração, sou um gamer.” Muito obrigado por ser excelente nos três papéis. Levarei suas lições enquanto desenvolvedor de software comigo sempre. Recomeçarei Earthbound agora escolhendo Nuggets como meu prato favorito e lembrarei que só posso fazê-lo graças a você. Minhas sinceras condolências a família e que descanse em paz.
Roberto Rezende é engenheiro de computação e brinca de game designer nos tempos vagos. Acha que Mega Man X4 é o melhor jogo já feito e acha Battletoads o jogo mais superestimado da história. No pouco tempo que sobra, faz reflexões no Juiz Cachorro. Está no Facebook, mas fala muito mesmo no Twitter.

Comentários

Fórum
Google+
Facebook


Últimas do Fórum

Ver mais

No Facebook

Ver mais