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Análise: Chase: Cold Case Investigations (3DS) é curto e cativa

Nova empreitada do diretor de Hotel Dusk traz alguns traços de seus trabalhos anteriores em curta visual novel.


Taisuke Kanazaki pode não ser um nome imediatamente reconhecível, mas seu trabalho vinculado ao finado estúdio Cing é notório. É ele o responsável pela direção de games como Trace Memory e dos excepcionais Hotel Dusk: Room 215 e Last Window: The Secret of Cape West, títulos que conquistaram mídia e público com sua estética noir e bom uso dos recursos do Nintendo DS.


Algumas das características mais marcantes desses jogos podem ser percebidas na última obra de Kanazaki, Chase: Cold Case Investigations - Distant Memories. Lançado em maio no Japão, o jogo chegou há pouco, em meados de outubro, aos 3DS ocidentais.

Rupturas e reminiscências

Em sua concepção, Chase se distancia significativamente das obras antecedentes do catálogo de Kanazaki. Embora tenha sido tratado como um sucessor espiritual de Hotel Dusk e Last Window, é um título mais conservador quando o comparamos com estes games. Enquanto seus precursores trouxeram frescor ao adventure com seus quebra-cabeças elaborados, Chase se acomoda confortavelmente no campo da visual novel, dando primazia ao desvelar de seus mistérios por meio de uma narrativa linear e com pouca intromissão do jogador.



Por outro lado, Kanazaki e sua equipe, composta por outros ex-funcionários da Cing, conseguem imprimir uma marca inerente a seu estilo. O fascínio pelas histórias de detetive continua presente, assim como o belo traço que compõe suas personagens. É impossível não notar a semelhança física entre o protagonista Shounosuke Nanase e Kyle Hyde, o anti-herói de Hotel Dusk.

A maior ruptura de Chase em relação a seu passado, no entanto, deve-se a sua estrutura. Demonstro isso mais adiante.

Seguindo as pistas

O game acompanha a história de Nanase e sua colega Koto Amekura, dois detetives da divisão de arquivo morto da polícia metropolitana de Tóquio. Ele, um veterano acomodado. Ela, desconfortavelmente encalhada em um departamento comumente assolado pelo marasmo. O conflito que reacende suas vidas surge graças a uma dica anônima pelo telefone, alertando-lhes sobre a conclusão errônea de uma investigação: um acidente em um hospital foi, de fato, um homicídio disfarçado.

Com a reabertura do caso, o game não tarda a mostrar suas raízes. Nanase, com sua impassível e quieta racionalidade, remete aos detetives durões dos filmes policiais dos anos 1940, como aquele vivido por Humphrey Bogart em O Falcão Maltês. Amekura, por sua vez, faz um contraponto a essa figura com a avidez e inocência típicos de sua juventude.

Ao fator psicológico de suas personagens soma-se uma arte que recorre a uma paleta fria, cujos tons de azul e cinza apelam a certa melancolia. O cool jazz da trilha musical, com seu arranjo que imita a formação do Modern Jazz Quartet, invade os ouvidos.

Chase, assim, opta por uma ambientação perigosa, andando cautelosamente sobre a linha que divide a referência estilística da paródia. Felizmente, o título pende mais para o primeiro caso. 

Isso se deve, primeiro, ao esmero visual, herança da Cing. O marcante traço desenhado se alia a belos jogos de luz e sombra e cria planos interessantes, eventualmente utilizando as duas telas para compor sua mise-en-scène. Ao olhar atento, um desbunde.



Em segundo lugar, ao desenrolar de seu enredo, que, mesmo contendo alguns diálogos que atestam certas obviedades, mostra-se efetivo dentro da proposta. As reprimendas sarcásticas de Nanase à novata e as réplicas de Amekura ao cansado detetive criam uma dinâmica divertida e que contrabalanceia o aspecto naturalmente sombrio do game. Maior aprofundamento na personalidade destas figuras conferiria uma complexidade bem-vinda a elas, afastando-lhes do estereótipo policial. Creio que isso, no entanto, tenha sido uma impossibilidade, devido a fatores que exponho a seguir.

Desvendando os mistérios

Como se espera de uma visual novel tradicional, em Chase, o jogador passará a maior parte do tempo lendo texto. Os momentos em que a interação com o espaço digital se acentua se encontram em pequenos puzzles e perguntas sobre elementos cruciais da história.

Acerca dos quebra-cabeças, estes exigem que o usuário analise as fotos da cena do crime para apontar fatores destoantes. Não espere um nível mais refinado de enigmas neste game como o encontrado em Hotel Dusk.

De fato, tanto os puzzles quanto as indagações que o título faz ao jogador não têm, em essência, a função estrita de entreter, mas também de retomar a atenção do usuário. Se por um lado um breve exercício de memória ou lógica pode parecer banal, por outro, este pode ser útil para que a passividade da leitura seja quebrada e o uso da mídia interativa seja justificado. No fim, é um artifício de duas facetas com suas vantagens e inconveniências.



Essa atenção da qual falamos, aliás, é fundamental a uma história como a de Chase, que se torna gradualmente mais complexa em suas últimas porções. Aos poucos, a trama se torna uma pequena peça de uma grande maquinação. Quando essa ideia atinge seu clímax, um fim súbito. Outra grande diferença em relação a seus antecessores espirituais: duração. Se Hotel Dusk e Last Window tomavam, em média, 15 horas para serem completados, Chase pode ser apreciado integralmente em uma ou duas.

A opção por essa fórmula é, no mínimo, curiosa. Ao terminar em um cliffhanger, quando uma questão vital da história é deixada em aberto, o game sugere que se desenvolverá em um formato episódico e que Distant Memories, subtítulo do jogo, seria o nome de seu prólogo. Pergunto-me se não havia uma opção melhor para sua organização: desde seu lançamento japonês, em maio, não houve notícia alguma do desenvolvimento de uma sequência. Nesses casos, a difusão de cada capítulo deveria se dar, quando muito, a cada dois meses — para evitar que o jogador se esqueça de detalhes importantes e se desinteresse pela série.

Se Chase é um piloto malfadado, não posso dizer. Seria uma pena, no entanto, se fôssemos privados da história integral de Nanase e Amekura, que, mesmo com seus defeitos, foi-me suficientemente cativante para aguardar seu desenrolar.

Prós

  • Esmero visual notável;
  • História envolvente.

Contras

  • Forma curta não favorece a história;
  • Quebra-cabeças e perguntas podem ser um pouco maçantes ao jogador.
Chase: Cold Case Investigations - Distant Memories — 3DS — Nota 7.0
Revisão: Bruno Alves 
Luiz Roveran é mestrando em música pela UNICAMP. Busca em sua produção promover a interdisciplinaridade entre os games e outras mídias, como o cinema e a literatura. É um dos fundadores do Pulo Duplo, toca com o Co-Op Players e é ostensivamente são-paulino.

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