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Análise: Nintendo Switch, pequeno e ambicioso

O novo hardware da Nintendo chegou, mas ele cumpre todas suas promessas?


Finalmente, após dois anos de especulação incessante sobre o misterioso "NX", o Nintendo Switch chegou até nossas mãos. O improvável conceito do híbrido entre console e portátil foi finalmente executado, mas naturalmente isso teria algumas consequências. Afinal, quais são os acertos e os erros desse hardware inusitado? Se você por acaso não sabe o que é o Switch, não deixe de assistir seu vídeo de anúncio, que explica bem suas principais funcionalidades.

Um portátil em essência

A Nintendo anunciou o Switch como "um console de mesa que você pode jogar em qualquer lugar" e continua vendendo o sistema dessa forma. Mas, ao observar o hardware, essa decisão fica um pouco duvidosa. Afinal, ao remover os Joy-Cons, o Switch é basicamente um tablet. Tem uma tela como a de um tablet e um processador de tablet (projetado pela Nvidia). Em termos de arquitetura, a única grande diferença é a presença de um ventilador, algo bem raro em smartphones e tablets multiuso.



Tratá-lo primariamente como um console de mesa faz um desserviço ao console, mesmo que apenas pelos visuais dos jogos. O Wii U já não era impressionante quando lançou lá em 2012 e, até agora, os melhores gráficos que vimos do Switch mostram pequenos avanços comparados ao seu antecessor. The Legend of Zelda: Breath of the Wild conta com resolução mais alta e desempenho melhor no Switch do que no Wii U, mas a diferença não é gritante. Ao retirar o sistema do dock, a história é outra: nunca vimos um jogo tão impressionante quanto Breath of the Wild em um hardware tão pequeno e portátil.







Comparado a um smartphone e a um tablet, seu tamanho se aproxima mais do smartphone (a tela tem 6,2", mesmo tamanho do Wii U GamePad). Ele é mais grosso que um iPad moderno, mas esses tablets são realmente muito finos. A grossura adicional dá espaço para mais bateria e sistema de resfriamento, além de o torná-lo mais confortável de segurar, então não é um grave defeito. Comparado aos consoles Wii U, PlayStation 4 e Xbox One, a diferença é enorme, mesmo com o dock e os Joy-Cons. Uma ótima notícia para quem, como eu, gosta de levar consoles para outros lugares.



Meu maior medo com a ideia do híbrido é justamente a premissa de que tanto os aspectos portátil quanto de console inevitavelmente seriam comprometidos de alguma forma. É natural da tecnologia: consoles conseguem ser poderosos porque não precisam se preocupar muito com consumo de energia, aquecimento ou tamanho. Portáteis têm que tirar o máximo de um hardware restrito pelos mesmos três fatores. O Switch consegue um bom equilíbrio entre os dois, finalmente conquistando o que a Sony sempre tentou com o PSP e o Vita: jogos com escopo de console no ambiente portátil.

Um console em ambição

A principal referência que tivemos de visuais em jogos portáteis até agora foi o PlayStation Vita. Comparado a ele, o Switch é um enorme avanço, como pode ser visto ao comparar Wipeout 2048 (PSVita) a Fast RMX (Wii U/Switch), dois jogos de estilo similar. Fast já era um dos mais belos jogos de Wii U e seu relançamento no Switch melhorou resolução, desempenho e iluminação. Zelda, por outro lado, não é tão impressionante nos quesitos técnicos dos visuais (várias coisas compensam isso, como vou explicar na análise do jogo em breve), mas é inacreditável em termos de escopo. Temos um jogo em mundo aberto para dar inveja à Ubisoft e à Rockstar em tamanho e conteúdo, rodando em um dispositivo pouco maior que um celular.



Ainda há consequências, no entanto: como console, o Switch continua muito abaixo de seus concorrentes em termos de hardware bruto, dificultando a possibilidade de jogos multiplataforma neles (mesmo seu principal jogo, Zelda, roda em apenas 900p em vez do 1080p que já é padrão desta geração), e o espaço disponível na memória interna é pequeno. Como portátil, a longevidade da bateria é a principal. A bateria dele é grande, mas ainda não é suficiente para manter um jogo como Zelda rodando por mais do que poucas horas.

Eu falo disso tudo porque sou fascinado pelo aspecto tecnológico dos consoles e por serem aspectos importantes de se comentar em uma análise. Na verdade, só tem uma pergunta realmente importante a ser feita: funciona? E a resposta é sim. Em uma semana com o console, já alternei entre os modos console e portátil incontáveis vezes. Quando tenho um tempo disponível e posso aumentar o volume, jogo na TV, e depois tiro o Switch do dock para jogar na cama ou na universidade. Viajei durante o fim de semana e pude jogá-lo praticamente o tempo todo, aproveitando pausas para comer para deixá-lo carregando. Não fiquei sem bateria nenhuma vez, mas já recebi o alerta de 15% restante.

Talvez não seja tão impressionante que o Switch realmente funciona como no trailer de anúncio. Afinal, seus antecessores DS, Wii, 3DS e Wii U também não nos deixaram na mão com seus gimmicks principais. O legal do Switch é que isso realmente expande as formas de jogar, dentro ou fora de casa, sozinho ou com os amigos. Os Joy-Cons de lado não são ótimos controles, mas são pequenos o suficiente para serem usáveis sem muito desconforto; nada mais foi necessário para jogar Snipperclips (Switch) ou Puyo Puyo Tetris (Multi) com amigos.



Usar o Switch apenas como console pode ser decepcionante por mudar relativamente pouco em relação ao Wii U, mas a possibilidade de usá-lo também como portátil é uma das coisas mais convenientes que já usei em videogames. Infelizmente, a biblioteca de jogos não está lá para mostrar todo o potencial da ideia, mas Breath of the Wild, por si só, vende a ideia, por combinar tanto com a proposta (mesmo que tenha sido originalmente feito para Wii U). Ao meu ver, esses jogos só vão aparecer quando a Nintendo finalmente admitir que o Switch é, também, sucessor do 3DS. São jogos como Pokémon e Animal Crossing, além de títulos third-party como Monster Hunter, que vão fazê-lo vender.

Acessórios e mais acessórios

Eu não comprei nenhum acessório para o Switch (por enquanto). Os dois Joy-Cons foram suficientes para jogar algumas partidas multiplayer, e confortáveis o suficiente para jogar Zelda por várias horas. Pretendo comprar um Pro Controller, um estojo e talvez um par adicional de Joy-Cons, mas por enquanto estou satisfeito, ainda mais considerando os preços desses acessórios.

Os Joy-Cons são controlinhos incrivelmente versáteis. Podemos usá-los acoplados ao Switch, separados, unidos pelo Joy-Con grip, ou individualmente como dois controles independentes. É bacana porque permite que o Switch realmente seja jogado de qualquer maneira, mesmo que nenhuma delas seja 100% perfeita em termos de conforto. Minha forma preferida de usá-los é separados, remetendo ao Wii Remote e ao Nunchuk.



Considerando que o Wii U foi completamente compatível com controles do Wii, é um tanto decepcionante que o Switch não suporta o ainda excelente Wii U Pro Controller; parece uma jogada da Nintendo para vender mais controles e para distanciar o Switch da marca Wii. É curioso que os novos controles sejam tão caros, possivelmente pela conta da abundância de tecnologias neles (leitor NFC, giroscópio, HD rumble), mas mesmo elas são pouco aproveitadas nos jogos atualmente. O HD rumble, em particular, nem tive como experimentar porque são pouquíssimos jogos que o utilizam por enquanto.

Um acessório do Wii U que funcionou no Switch foi uma película. Em vez de comprar uma nova para o híbrido, aproveitei uma que tinha sobrando destinada ao GamePad. Como ambos dispositivos têm exatamente o mesmo tamanho de tela, a película cobriu perfeitamente a tela do Switch — mas apenas ela, pois as bordas ficaram descobertas. O mesmo painel de plástico cobre a tela e as bordas, então elas ainda estão vulneráveis a alguns riscos, mas a parte importante está protegida.

O dock é incrivelmente simples e leve. A tampa na parte de trás é bacana para esconder a entrada de energia e a saída HDMI, além de uma porta USB 3.0 que, por enquanto, não tem muito uso. Há relatos de que o dock pode riscar a frente do Switch, e isso talvez seja causado pela parte da frente estar levemente torta para dentro. Uma solução encontrada por alguns usuários foi colocar livros no dock para moldar o plástico um pouco mais para fora. Deselegante, mas funcional. Outro problema do dock é a ausência de uma porta ethernet. Pode parecer exagero uma conexão cabeada neste mundo de wi-fi, mas vários usuários têm reclamado da qualidade do sinal recebido pelo Switch e isso pode ser um problema na hora de jogar online. Uma porta ethernet incluída seria uma enorme ajuda para jogar Mario Kart, Smash Bros. ou Splatoon online com conveniência e qualidade.



Se você tem um cabo USB-C convencional, pode usá-lo para carregar o Switch com um adaptador de corrente USB ou uma bateria externa. Aparentemente, o Switch não é muito amigável com esses métodos e carrega muito mais devagar do que com seu adaptador próprio. Ainda assim, em longas viagens de ônibus ou avião, é o suficiente para a bateria durar o trajeto todo. O conector do carregador fica embaixo do console, que impede o uso do Switch em pé enquanto carrega. Há relatos de acessórios USB como teclados funcionando no Switch pela porta USB, mas adaptadores HDMI não, então o dock continua necessário para jogar na TV.

Outra coisa que preciso comprar é um cartão micro SD. O formato do Switch impede que ele tenha um disco rígido, então há apenas a memória flash de 32GB disponível. Nesses primeiros dias, é suficiente, pois nem há jogos a venda na eShop para enchê-la, mas esperamos que isso mude em breve. Eu teria preferido cartões SD "grandes" em vez dos minúsculos micro SDs, mas pelo menos é um formato fácil de encontrar no mercado. No momento estou usando um de 4GB apenas para salvar capturas de tela, mas eventualmente terei que adquirir um de 64GB ou 128GB, que não são baratos, para armazenar mais jogos digitais.



Lançamento conturbado

Como leitores do Nintendo Blast já devem ter lido, vários relatos de defeitos já foram feitos sobre o Switch. Tela riscada, pixel morto, tela azul, Joy-Con L perdendo sinal, apoio traseiro caindo. Desses todos, só tive problema com o Joy-Con L, que realmente pode perder sinal dependendo da posição da minha mão. Estive jogando Zelda principalmente com os controles separados, para deixar minhas mãos livres e, ao apoiar minha mão esquerda sobre minha perna, já aconteceu do controle "travar" por um instante (por exemplo, Link não para de correr quando solto o analógico). É algo irritante, mas não chega a ser comprometedor porque é ocasional e fácil de corrigir: basta mover o braço. Ainda assim, espero que a Nintendo corrija isso o quanto antes.

Zelda é excelente, Fast RMX e Snipperclips são ótimos, mas de qualquer maneira a quantidade de jogos disponíveis e previstos para Switch é muito pequena neste momento. A Nintendo planeja lançar títulos com relativa frequência durante este ano, mas, para mim, o próximo grande lançamento será Super Mario Odyssey (Switch) lá no final. Até lá, vou me divertir com Zelda, Mario Kart e Splatoon, mas também vou ter que recorrer aos outros consoles para não ficar na seca.



Até pouco tempo atrás, achava que 1-2-Switch deveria ser incluso no pacote do console, assim como Wii Sports e Nintendo Land também foram. Ainda acho o preço do game (50 dólares) absurdo, mas agora entendo não incluí-lo: não é um jogo muito bom e apresenta uma parte muito pequena do potencial do novo sistema. Snipperclips teria sido uma escolha melhor, porque funciona bem sozinho e com amigos e demonstra muito bem a versatilidade de jogar com e sem uma TV disponível.

Novos acertos, velhos erros

Eu pude jogar Puyo Puyo Tetris! O jogo só foi lançado no Japão, mas bastou criar uma conta japonesa e acessar a eShop de lá para ver uma variedade de títulos um pouco maior. O jogo continua em japonês, mas Tetris é Tetris. A eliminação do bloqueio por região é um ponto positivo enorme para a Nintendo, mas infelizmente não compensa a pequena quantidade de jogos disponíveis para o Switch até agora. Outra coisa bacana é poder compartilhar atualizações de software com outros jogadores usando conexão local, permitindo que partidas de Smash ocorram mesmo que nem todos estejam na mesma versão do game.







Comparado com seus antecessores, a agilidade do sistema operacional do Switch agrada. Enquanto no Wii U várias tarefas levavam vários segundos para acontecer, no Switch é tudo quase instantâneo. Em poucos instantes você pode suspender um jogo, navegar na eShop, voltar ao menu e alterar configurações, por exemplo. Também é muito bacana que o Joy-Con L tem um botão dedicado para capturas de tela; essa funcionalidade é mais rápida do que no PlayStation 4, inclusive. Espero que haja a opção para capturar vídeos em breve.

Apesar de todos esses pontos positivos, parece que a Nintendo insiste em cometer os mesmos erros (ou inventar novos erros como só eles sabem). O Switch usa friend codes. Nem o Wii U usava friend codes. Sério mesmo, Nintendo? Apesar da empresa anunciar que o online será pago a partir do final deste ano, ela não apresentou nada para nos convencer que é uma boa ideia. Mesmo o Virtual Console, uma funcionalidade que seria incrivelmente prática em um híbrido, foi muito pouco discutido (aguardem a Nintendo anunciar um console de cada vez e novamente lançar pouquíssimos jogos por semana).



O hardware do Switch cumpre seu propósito surpreendentemente bem, mas toda a parte de software, desde o sistema operacional aos jogos, parece estar bem crua. O 3DS e o Wii U nos mostram que isso tende a melhorar com o tempo, mas novamente é estranho que a Nintendo não tentou ter mais coisas prontas para o lançamento.

Doce, porém cru

Apesar da excitação ao redor do lançamento de um console, a melhor dica geralmente é: espere. Em alguns meses, haverá mais jogos, os defeitos de hardware serão muito mais raros, e as funcionalidades estarão mais maduras. Quem já tem um Wii U não perde muito ao jogar Zelda nele. Quem não tem… Bem, nesse caso a compra de um Switch é bem mais justificada. Por todos os méritos do sistema, é Breath of the Wild que realmente o faz brilhar.

Prós

  • Conceito híbrido funciona surpreendentemente bem;
  • Poder do hardware traz uma nova dimensão para jogos portáteis;
  • Fácil acesso a eShops de outros países;
  • Zelda: Breath of the Wild é um título de lançamento fenomenal;
  • A lista de lançamento é pequena porém cheia de jogos bons como Snipperclips e Fast RMX.

Contras

  • Alguns erros do passado permanecem, como friend codes;
  • Há poucos jogos atualmente e relativamente poucos anunciados para o futuro;
  • A Nintendo se recusa a confirmar se o Switch irá integrar jogos historicamente de portáteis, então seu futuro é incerto;
  • Visto apenas como um console, é um salto pequeno sobre o Wii U.
Revisão: Pedro Vicente
Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do Nintendo Blast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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