Jogamos

Análise: Battle Chasers: Nightwar (Switch) moderniza conceitos de RPGs clássicos

Baseado em uma HQ, o título independente cativa com muitos sistemas interessantes e um ótimo combate por turnos.


Battle Chasers: Nightwar mostra suas intenções logo nas primeiras horas: resgatar as principais características de RPGs japoneses. O jogo não só faz isso, como também explora várias outras possibilidades, atualizando vários conceitos clássicos. Isso, combinado com uma ótima direção de arte, bom uso de mecânicas consagradas e um combate estratégico, resulta em uma experiência imersiva. Depois de aparecer em outros consoles, o jogo chega ao Nintendo Switch fortalecendo a biblioteca de bons RPGs da plataforma.

Dos quadrinhos para o RPG

Nightwar explora o universo de Battle Chasers, uma HQ criada por Joe Madureira (conhecido por trabalhar na série Darksiders e em HQs como X-Men e Deadpool) na década de 1990. O jogo se passa depois do final dos quadrinhos e apresenta uma história independente que pode ser apreciada sem conhecer o trabalho prévio.

A protagonista é Gully, uma garota que procura seu pai desaparecido. Ela herdou poderosas manoplas, que são desejadas por muitos — isso faz ela ser constantemente perseguida. Em Nightwar, ela e seus aliados acabam presos em uma estranha ilha chamada Lost Vale após serem atacados por bandidos aéreos. O objetivo inicial de Gully é encontrar seus amigos, contudo os heróis acabam se envolvendo em problemas e decidem impedir o plano uma feiticeira maligna.


A animação no início da aventura dita o tom de Nightwar com a bela direção de arte que remete aos quadrinhos. A misteriosa ilha mistura uma ambientação de fantasia e steampunk, com a presença constante de criaturas e máquinas. Pelo caminho, Gully e seus amigos exploram ruínas, cavernas e complexos tecnológicos, locais estes ricos em detalhes. Gostei bastante de como polígonos 3D e arte desenhada são combinados para trazer um visual interessante. Os habitantes da ilha, em especial, apresentam designs elaborados e marcantes, sendo eles a minha característica visual favorita do título.

Uma ilha de muitos segredos

Battle Chasers: Nightwar pega emprestado vários conceitos de JRPGs clássicos, como batalhas por turnos e mapa mundi, e os moderniza por meio de várias alterações claramente inspiradas em títulos ocidentais. O resultado é uma experiência ágil, sem deixar de trazer a sensação dos RPGs de outrora.

Para explorar o mundo, os heróis viajam por um grande mapa repleto de vários pontos de interesse interligados por caminhos pré-determinados, como se fosse um grande tabuleiro. Essa configuração, em conjunto com a quantidade limitada de rotas disponíveis e o tamanho da ilha, torna bem ágil a exploração do mapa. Isso pode parecer restritivo, porém alguns detalhes incentivam vasculhar todos os cantos, como segredos escondidos e eventos especiais. Gostei desta maneira de explorar o mundo: é fácil ir de um lugar para o outro e não existem exageros.


Já os tradicionais calabouços apresentam algumas ideias curiosas. A primeira delas é a seleção de desafio: ao adentrar estes locais, podemos escolher entre três diferentes níveis de dificuldade. Quanto maior o nível, mais difíceis serão os inimigos, porém a qualidade dos itens encontrados serão melhores — é um bom incentivo para explorar os calabouços mais de uma vez. Outro detalhe é a montagem desses locais: as salas são organizadas de maneira procedural, ou seja, uma mesma masmorra apresenta mapas distintos. Não é uma mudança muito profunda, basicamente algumas alterações nas saídas e na posição de certos objetos, entretanto, já ajuda a trazer uma sensação de novidade ao explorar diferentes níveis de dificuldade.

Como é de praxe, as masmorras têm alguns puzzles e perigos a serem superados. Os enigmas são bem simples (coisas como levar um item para outro lugar, apertar botões em sequência ou ativar algum artefato), sendo o real desafio sobreviver às armadilhas e monstros — bastam alguns momentos de desatenção para que os personagens recebam muito dano. Eu até gostei dos calabouços, porém fiquei incomodado com sua simplicidade e falta de inspiração: eles são mecanicamente bem parecidos e repletos de salas banais. Na minha jornada, sempre escolhi a dificuldade intermediária, o que resultou em explorações simultaneamente trabalhosas e recompensadoras.


Fora isso, Battle Chasers: Nightwar tem inúmeros outros pequenos sistemas. Podemos construir e melhorar armaduras e itens, há um minigame de pescaria, caçada a monstros poderosos, incentivo a coletar informações pelo mundo, bestiário que libera bônus ao alcançar certas metas e mais. No começo me senti um pouco sobrecarregado com tantos detalhes, mas logo entendi boa parte deles e me envolvi nas tarefas — me diverti montando equipamentos perfeitos para a minha equipe e fiz questão de pescar sempre que possível.

Turnos e muita estratégia nos combates

Para dar conta dos inúmeros inimigos da ilha, os heróis participam de batalhas por turnos. Em sua essência, o combate é bem tradicional, ou seja, nada de apertar botões na hora certa ou coisa parecidas. O diferencial são as várias nuances presentes no sistema de batalha que o torna extremamente estratégico e divertido.

Cada personagem tem à disposição movimentos básicos e técnicas especiais que consomem magia, como é de praxe do gênero. Uma mecânica única de Nightwar é a “Sobrecarga”, uma reserva de mana que extrapola a capacidade máxima de um herói, mas que só está disponível no decorrer de um mesmo combate. Se usado de maneira inteligente, é perfeitamente possível usar técnicas poderosas sem utilizar mana. Esse não é o único uso da Sobrecarga: ela também pode ser consumida para aumentar o efeito de alguns ataques especiais. Por fim, há uma barra compartilhada por todo o grupo que permite utilizar técnicas devastadoras do tipo “Explosão”.


O foco do combate é utilizar os golpes de maneira inteligente. A maior parte das técnicas inflige algum tipo de estado positivo ou negativo e há sinergia nos movimentos dos personagens. O robô Calibretto, por exemplo, é capaz quebrar as defesas inimigas para que o espadachim Garrison utilize uma técnica que abusa desse estado. Já Gully pode atrair para si a atenção dos inimigos enquanto o resto do grupo está indefeso preparando ataques poderosos. Também é comum aparecerem situações em que é melhor usar golpes fracos para acumular Sobrecarga para poder executar técnicas com alto custo de mana. Cada um dos seis personagens jogáveis oferece opções de combate bem distintas, com pequena customização de características por meio de pontos bônus.

A grande quantidade de opções de estratégia fez com que o combate fosse a minha atividade preferida no jogo. Gostei bastante de coordenar ataques entre os heróis a fim de derrotar um inimigo poderoso, é um título que recompensa o jogador por agir de maneira inteligente. Na verdade, ser esperto é essencial: a dificuldade é de moderada para alta, com monstros comuns obliterando completamente o grupo de heróis se você não prestar atenção. Além disso, itens de recuperação são caros e raros, o que deixa as coisas ainda mais difíceis. Por sorte, as punições por ser derrotado não são muito pesadas.


Um detalhe que me incomodou bastante foi o gerenciamento de heróis. O grupo é formado por três dos seis protagonistas e a formação só pode ser alterada na hospedaria ou na entrada de calabouços. Ademais, somente os personagens ativos recebem experiência. Como a dificuldade é alta, é complicado e frustrante treinar os heróis mais fracos, afinal, eles fazem diferença no combate. Essa combinação de regras me desestimulou testar várias formações e acabei usando um mesmo trio de heróis por boa parte da aventura. Particularmente, gostaria que tivessem opções mais práticas na hora de gerenciar os personagens.

Acompanhando os heróis e desbravando os mistérios de Lost Vale

Enquanto o combate e exploração tem um monte de detalhes legais, infelizmente o mesmo não pode ser afirmado da história e dos personagens. A trama de Battle Chasers: Nightwar é bem simples. Os heróis decidem impedir os planos malignos de uma necromante, e só — basicamente uma tradicional luta do bem contra o mal. Os personagens também não têm muito desenvolvimento, sendo cada um deles representantes de estereótipos: Garrison é o guerreiro calmo e contido, o mago Kellan é daquele tipo desbocado, já Monika é a mulher misteriosa e sensual. Eles pouco mudam na jornada, que dura entre 30 e 40 horas.


Alguns diálogos ajudam a desenvolver a relação entre os membros do grupo, porém não são suficientes para explicar seus laços, imagino que as HQs fazem um melhor trabalho nesse sentido. Livros e outros textos espalhados pelos calabouços ajudam a montar a ambientação da trama — isso se você tiver paciência de conferir todos eles. Mesmo assim, eu me diverti com os personagens e trama despretensiosos do título, principalmente as cenas animadas. Contudo, aqueles que gostam de histórias e personagens profundos podem se sentir decepcionados. O título está completamente localizado para o português e conta com boa tradução, observei poucas passagens mal adaptadas.

A versão para Switch chegou muitos meses depois do lançamento inicial e me pareceu um trabalho competente tanto no modo docked como portátil. Mesmo assim, a adaptação conta com alguns problemas comuns em ports para o console, como taxa de quadros variável e carregamentos longos — esses detalhes não atrapalharam minha experiência. O máximo que encontrei foram bugs que me forçaram a reiniciar o jogo, como os personagens ficando presos em partes do cenário. Ao menos o título já conta com todos balanceamentos e ajustes, principalmente a necessidade de grind em momentos mais avançados da aventura.


Uma ótima modernização do gênero

Battle Chasers: Nightwar me conquistou com sua ótima combinação de mecânicas. Gostei bastante de acompanhar Gully e seus amigos em sua jornada para deter os planos de uma necromante maligna, principalmente por conta do ótimo sistema de batalhas e dos calabouços inventivos. É uma pena que a história e personagens sejam bem básicos, ao menos a ambientação e direção de arte servem como incentivos para explorar o mundo. Battle Chasers: Nightwar consegue se destacar no mundo dos RPGs ao modernizar características clássicas, fãs do gênero têm vários motivos para experimentá-lo.

Prós

  • Sistema de batalha estratégico e repleto de possibilidades;
  • Várias pequenas mecânicas que enriquecem a experiência;
  • Boa direção de arte, em especial os personagens;
  • Dificuldade intensa e com possibilidade de ajustes;
  • Mundo compacto e fácil de navegar.

Contras

  • História genérica e sem inspiração;
  • Personagens rasos e subdesenvolvidos;
  • Gerenciamento de personagens desnecessariamente complicado;
  • Calabouços com salas desinteressantes;
  • Presença de bugs e pequenos problemas técnicos.
Battle Chasers: Nightwar — Switch — Nota: 8.5
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Análise produzida com cópia digital cedida pela THQ Nordic
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook