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Análise: Bloodstained: Curse of the Moon (Switch/3DS) revive a estética e o desafio 8-bits de Castlevania

Aventura retrô inaugura a nova franquia homenageando as origens do gênero.


Projetada como sucessora espiritual da franquia Castlevania, a série Bloodstained conta com a visão de Koji Igarashi, conhecido produtor da série clássica da Konami, para garantir a sustentação desse status. Enquanto o projeto principal Bloodstained: Ritual of The Night (Multi) não chega, um primeiro aperitivo desse novo mundo sanguinolento nos é oferecido sob a forma de Bloodstained: Curse of the Moon (Switch/3DS).

Enquanto Ritual of The Night visa dar continuidade à fórmula de sucesso definidora de gênero presente em Castlevania: Symphony of the Night (PS), a recompensa bônus de seu projeto de financiamento coletivo, Curse of the Moon, retorna astutamente às raízes 8-bits da franquia para um inspirado tributo retrô.

Produzido pela Inti Creates, veterana em jogos de ação e plataforma 2D desafiadores, o game traz um resultado à altura dos clássicos em que se inspira, com funções e conteúdo o suficiente para cativar a atenção tanto daqueles ainda não familiarizados com as origens do épico vampiresco, quanto dos que já chegaram às vias de fato com o controle do Nintendinho por vezes o suficiente para esperarem um desafio mais elevado.

Vampiros, chicotes e escadas

A recriação da identidade de Castlevania é feita com tamanha fidelidade que o jogo praticamente só é distinguível da série por conta do título (que, ainda assim, não deixa de contar com uma referência visual bastante explícita em seu logo). Com as principais inspirações do game sendo o primeiro Castlevania (NES) e o seminal Castlevania III (NES), não espere encontrar aqui a exploração não linear ao estilo de Metroid (NES) ou os elementos de RPG que definiriam algumas das entradas mais icônicas da série.
O jogador familiarizado com Castlevania se sentirá em casa.


Por outro lado, marca presença a possibilidade de recrutar diferentes personagens para sua equipe, cada um com movimentos e itens exclusivos, o que acaba por garantir maior liberdade de exploração nos cenários lineares. Os visuais e o som não economizam na referencialidade à franquia da Konami, recriando a atmosfera 8-bits com muita atenção aos detalhes, que vão desde a disposição clássica da interface até os sprites, que recriam fielmente o estilo familiar dos clássicos. Algumas liberdades são tomadas no detalhismo gráfico, porém sempre sem perder a autenticidade do estilo, de forma semelhante à vista em Shovel Knight (Multi).

Criando em cima da atmosfera conhecida dos mundos de Castlevania, Bloodstained traz uma trama que envolve misteriosos alquimistas vindos de terras distantes, humanos dotados de poderes especiais chamados de shardbinders, demônios e maldições das mais diversas. Seguindo o estilo narrativo dos games aos quais presta tributo (que são da época em que a narrativa interna do jogo se apoiava sobre a história apresentada no manual), o título é bastante minimalista na contextualização do universo, focando os desenvolvimentos da trama sobretudo nas relações entre os personagens e deles com as ameaças do grande mal que buscam combater.
Zangetsu pode recrutar a ajuda de até três aliados — embora a ideia nem sempre o agrade.

Ao todo temos a opção de controlar até quatro protagonistas. O personagem inicial, Zangetsu, é um espadachim oriental que conta com um golpe horizontal rápido de curto alcance e uma seleção de power-ups que inclui um chicote longo que golpeia apenas na diagonal, bombas de chão e uma aura que confere poder de ataque extra. Miriam é uma shardbinder que se utiliza de um golpe de  chicote similar, só que um pouco mais lento, embora com longo alcance, além de melhores habilidades acrobáticas, como um pulo mais alto e rasteira. Suas armas incluem uma foice-bumerangue, um machado de curto alcance e facas arremessáveis diagonalmente. Alfred é um alquimista com pouca mobilidade e baixa resistência, porém com acesso a poderosas magias como um escudo de fogo, uma rajada congelante e uma esfera de trovões com capacidades de seguir os inimigos. Por fim, Gebel é um vampiro capaz de lançar um poderoso ataque de médio alcance e tem como única habilidade secundária a transformação em morcego.

Para os familiarizados com Castlevania III, não é difícil ver a inspiração adotada pela produtora aqui. Zangetsu, Miriam, Alfred e Gebel são recriações dos clássicos Grant Danasty, Trevor Belmont, Sypha Belnades e Alucard, respectivamente. Salvo uma ou outra diferença pontual — como o fato de que o pulo duplo de Grant acabou sendo concedido à Miriam, que acaba sendo assim talvez a personagem mais versátil do jogo —, o tributo não poderia ser mais direto do que isso.
Miriam pode ser a mais versátil, mas o velho Alfred é quem tem as técnicas mais badass.

Na construção das fases, observamos mais referências diretas do tipo. Praticamente todos os inimigos clássicos encontrados no primeiro Castlevania marcam presença ao longo do game, trazendo desde os familiares padrões sacanas das medusas até as inconvenientes torres de fogo, passando pelo bombardeio aéreo de corcundas capaz de disparar estresse pós-traumático em jogadores do mundo todo. Mesmo com os sprites modificados, tratam-se de presenças imediatamente reconhecíveis e que ajudam a garantir a atmosfera visada pelo jogo.

Felizmente, a jogabilidade bem realizada de todos os personagens somada a um level design que propicia um bom uso de seus diferentes estilos de jogo faz com que a experiência ultrapasse a mera homenagem e traga elementos inovadores para a fórmula, mostrando que há ainda muito fôlego para o subgênero dentro desse estilo retrô.

Escolha o seu destino

A história de Zangetsu se desenvolve ao longo de oito níveis que, embora lineares, contam com diversos caminhos possíveis, com desafios que podem ser resolvidos das mais variadas formas de acordo com as diferentes habilidades de que dispõem os aliados que ele vai encontrando ao final de cada fase. Esqueletos de aventureiros caídos em combate indicam com suas mãos o caminho mais curto a seguir em cada bifurcação, sendo que é dada ao jogador a possibilidade de escolha de por onde prosseguir.
"Peraí, é pra confiar no cara que morreu?"

A ambientação traz uma mescla das temáticas de horror gótico de Castlevania com toques de steampunk, fazendo um bom misto do familiar com um estilo próprio para a estreia da nova franquia, ainda que, neste game, a força da série original da Konami seja maior. Alguns níveis se destacam pela riqueza de detalhes e pela narrativa — em especial a primeira fase, que envolve atravessar um casebre mal-assombrado para embarcar em uma locomotiva, apenas para continuar com o chicoteamento de demônios, agora sobre trilhos.
A primeira fase traz uma das ambientações mais legais de todo o game.

A presença de diversos caminhos alternativos em cada seção das fases traz uma maior profundidade aos ambientes e ajuda o game a oferecer um fator replay alto, especialmente aliando-se às opções diversificadas de dificuldade oferecidas. Enquanto que algumas rotas são acessíveis apenas para determinados personagens, outras salas apresentam desafios que podem ser superados utilizando-se estratégias diversas com a grande variedade de power-ups, sendo muito divertido revisitar locais conhecidos para tentar formas diferentes de se lidar com determinados inimigos ou trechos de plataforma. Para estimular a exploração, o jogo conta com colecionáveis que melhoram a barra de vida e a capacidade de munição para as sub-weapons, essenciais para balancear as coisas para o lado dos mocinhos.

A bifurcação de caminhos não se restringe ao level design. Ainda que sob uma abordagem simplista, a história conta com diversas possibilidades de escolha para seu encaminhamento, em especial envolvendo o recrutamento ou não dos aliados que aparecem após a derrota de cada um dos três chefes iniciais. Zangetsu pode tanto aceitar sua ajuda quanto atacá-los, o que traz efeitos diretos sobre a jogabilidade e os rumos da história, com diversos finais alternativos.
Um lugar de difícil acesso: a estação ferroviária é separada do porto por ruínas amaldiçoadas.

Diversão para os novatos, desafio para os iniciados

Assim como nos visuais e no som, a jogabilidade se propõe a emular quase à risca a experiência dos jogos oitentistas de Castlevania — o que sinaliza um desafio bastante elevado e uma exploração focada na memorização de padrões e na repetição constante de sequências complicadas nas fases.

O resultado é uma experiência autêntica desse estilo clássico de jogo que, de quebra, conta com algumas opções e ajustes extras que podem deixar a experiência menos pedregosa do que nos tempos do joystick de dois botões. A qualquer momento de sua jornada, o jogador pode optar entre dois modos de jogo: Casual e Veteran.
Quando a tela é generosa em power-ups, o jogador já sabe que logo mais vem bomba.

O estilo Veteran traz uma dificuldade elevada mais alinhada aos dos jogos 8-bits, com pouca capacidade mínima para as sub-weapons, menos drops de vida e armas, número limitado de vidas e o famigerado knockback, efeito em que o personagem recua e fica incontrolável por um curto período após tomar algum dano. Trata-se do grande flagelo do clã Belmont, do ninja Ryu Hayabusa e do Mega Man nos tempos do NES, especialmente quando somado a um bom precipício, que acaba tornando o que poderia ser um dano simples em morte instantânea. 

Para quem deseja uma experiência mais tranquila, o estilo Casual poupa o jogador de qualquer tipo de knockback, traz uma capacidade mínima bastante elevada para as sub-weapons, drops de vida e armas constantes, além de vidas infinitas, o que na prática significa um sistema de checkpoints muito mais tolerante com os erros do jogador. 

A opção de um modo mais fácil serve tanto para o iniciante do gênero treinar suas habilidades antes de partir para os estilos mais desafiadores (o game conta ainda com dois modos extras de dificuldade elevada), quanto para o veterano que desejar explorar os diferentes caminhos das fases e opções da história de maneira mais fluída. Nesse sentido, a função Curse of The Moon permite ao jogador retroceder o progresso em seu save, para explorar novamente lugares já percorridos em busca de melhores resultados.
Para treinar os padrões de ataque dos chefes, o modo Casual é uma mão na roda.

Embora a dificuldade ajustável seja muito bem-vinda e ajude a tornar acessível e enriquecer ainda mais o fator de replay do jogo, uma ressalva é a de que seria mais interessante que pudéssemos ajustar ponto a ponto as opções de dificuldade, em vez do “tudo ou nada” que é oferecido com as duas opções. Por exemplo, não é difícil de se imaginar que um jogador possa querer jogar sem o knockback, mas com vidas contadas, ou com a jogabilidade exata do estilo Veteran, porém com vidas infinitas. Infelizmente, as opções restritivas acabam revertendo em uma espécie de “oito ou oitenta” da dificuldade, com um modo excessivamente desafiador contraposto a um demasiadamente facilitado.

Um empolgante déjà-vu

Trazendo uma síntese do velho com o novo que pesa a mão na referência a Castlevania, mas que no final de contas consegue introduzir ideias novas de forma competente o suficiente para ter alguma identidade própria, Bloodstained: Curse of The Moon é uma boa introdução para a nova franquia de Igarashi, e deve agradar tanto aos fãs de longa data de Castlevania quanto aos apreciadores de um bom jogo ao estilo retrô em geral.
Claro que não seria um tributo à Castlevania sem uma boa dose de ação vampírica.
Sua jogabilidade consegue recriar o charme 8-bits ao mesmo tempo em que oferece uma fluidez maior que torna a experiência ainda mais recompensadora. Isso é posto para bom uso no pareamento do elenco variado de personagens e habilidades com um level design que, ainda que não seja propriamente inovador, serve muito bem ao propósito de cativar o interesse do jogador para algumas revisitações após o encerramento da curta história. Com um preço convidativo que faz valer o investimento, o jogo mais do que justifica sua existência como spin-off e nos deixa na expectativa pelo lançamento de Ritual of the Night.

Prós

  • Experiência 8-bits autêntica em todos os quesitos;
  • Jogabilidade fluída e diversificada;
  • Level design preza pela exploração e evita qualquer monotonia;
  • Combates com chefes inventivos e cheios de surpresas.
  • Escolhas de rotas e finais alternativos garantem um bom fator replay.

Contras

  • Opções de dificuldade não permitem customização, resultando em uma curva de dificuldade mal balanceada, especialmente para jogadores iniciantes.
Bloodstained: Curse of The Moon — Switch/3DS/PS4/XBO/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: João Pedro Boaventura
Análise produzida com cópia digital cedida pela Inti Creates
Giba Hoffmann é gamer pra todo jogo, mas tem predileção por títulos retrô e um bom e velho JRPG. Sonic, Donkey Kong Country, Ratchet & Clank, Final Fantasy e Disgaea são algumas das séries que formaram a paixão pelos games, desde que ganhou seu Mega Drive, muitos (nem tantos!) anos atrás. Além de escrever para o Nintendo Blast, pode ser encontrado tagarelando no Plano Crítico e no Aventurine Brasil.

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