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Análise: Iconoclasts (Switch) subverte conceitos em um mundo regido por um governo totalitário

Acompanhe a mecânica Robin e seu grupo de amigos desajustados em um metroidvania com belos cenários em pixel art.

Iconoclasts é um jogo de ação e aventura em plataformas, com sistemas de puzzle, criação de itens a partir de coletáveis, mapas labirínticos interconectados para formar um extenso mundo estilo metroidvania, e que ainda possui boss battles incríveis e uma história adulta, imersiva e profunda o suficiente para fazer com que alguns jogadores questionem seus próprios conceitos e a maneira como veem o mundo ao seu redor.


Isso se torna ainda mais incrível ao descobrir que todo este trabalho é fruto de quase uma década de muito esforço e dedicação de uma única pessoa. Baseado em um projeto de 2007 chamado Ivory Springs, e iniciado em 2009, o game quase foi abandonado em 2011. Apenas por conta do feedback positivo dos fãs ao mostrá-los o que tinha feito até então, o desenvolvedor Joakim “Konjak” Sandberg resolveu continuar o desenvolvimento, conquistando no fim os apoios da Bifrost Entertainment e da MP2 Games, finalmente lançando-o em janeiro de 2018 para PC, PS4 e PSV.

A versão para Switch foi lançada em 02/08/2018 e é um port incrível, sem nenhum traço negativo proveniente da adaptação. O game rodou com a mesma fluidez na dock e no modo portátil, sem nenhum problema de desempenho, travamento ou bug nas quase vinte horas que passei com ele realizando esta análise. Seus controles são simples e funcionais, e todas as possibilidades do console são aceitos, inclusive a de jogar com apenas um Joy-Con de lado. Funções de ação como abaixar e atirar podem ser usadas também com os botões de ombro, dando uma interessante opção ao jogador.

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo

Em seu lado artístico, o jogo me lembrou Sonic Mania (Multi). Ambos trabalham com sprites que lembram a saudosa era 16/32 bits, mas ao invés de se prender negativamente à  nostalgia, tornando-se games limitados em plena geração Full HD/4K, contam com os recursos modernos para elevar suas possibilidades. A pixel art usada em Iconoclasts é uma das mais bonitas que se pode encontrar em jogos 2D atuais, contando com muitos detalhes nos personagens e cenários, e a paleta de cores usada com perfeição para representar lugares, momentos e situações de acordo com a necessidade da narrativa.

Juntamente com a beleza de seus sprites, as animações do game também estão em um patamar elevado em relação a muitos jogos do gênero. Seja apenas atravessando o cenário, derrotando inimigos e resolvendo puzzles, ou nas cutscenes animadas que fazem a história se desenrolar, tudo é, ao mesmo tempo, muito característico e natural, com outros personagens além da protagonista reagindo em tempo real ao que acontece. Chuva, neve, eletricidade, pássaros voando e até folhas caindo são um deleite aos olhos.


Falando em cutscenes, elas funcionam como um teatro, com os personagens “atuando” enquanto suas falas aparecem em balões em cima de suas cabeças. O resultado é incrível, e mostra o carinho e empenho de Konjak em criar algo diferenciado. Infelizmente o game até o momento não se encontra em português e o jogo alterna momentos em que é necessário apertar um botão para a próxima fala, com momentos em que um personagem corta a fala do outro automaticamente, deixando difícil o entendimento para aqueles que não estão com o inglês afiado entenderem certas linhas de diálogo.

Um último ponto sobre as animações do game é que elas facilitam o entendimento de padrões de ataques inimigos, principalmente nas criativas boss battles. Aliás, as lutas contra chefes são um dos grandes destaques do jogo. São divertidas, diferentes entre si, e por vezes irão exigir algumas mortes até que se aprenda o que fazer. Nada exageradamente complexo porém. O desafio pode ser maior no início do jogo, quando ainda não se acostumou a certos padrões e características do game. Algumas das batalhas envolvem uma mistura de ação e puzzle.

A trilha e efeitos sonoros ajudam a compor de forma magnífica o distópico universo do game. Algumas músicas evocam o sentimento da era 16/32 bits, mas todas utilizam recursos modernos para se manterem atuais e marcantes. Há em torno de 50 canções, e elas representam muito bem os lugares, situações e emoções a que estão ligadas, causando a imersão necessária para que o jogador se importe com a história daqueles personagens em momentos dramáticos e oferecendo alívio em momentos de respiro e exploração.


Uma mecânica fora da lei contra o governo opressor

A história começa de forma simples e despretensiosa, com a protagonista acordando após ouvir um barulho, e resolvendo ir até lá com sua arma de atordoamento para ver o que aconteceu. Os belos cenários e a música feliz no início do game, juntamente às mecânicas e inimigos simples e comuns no gênero de plataforma nos dão a entender que será só mais um previsível jogo para se divertir algumas horas. Mas não é bem assim…

Logo nos primeiros minutos descobrimos que Robin vive em uma sociedade regida por um governo teocrático e totalitarista, chamado de One Concern, que venera um ser conhecido como He (ele) e é regido por uma líder tratada também como divindade, conhecida como Mother (mãe). Segundo as leis do regime, nenhum cidadão pode escolher sua profissão, e executar certas ações por conta própria, como desenhar mapas, e realizar atividades mecânicas não autorizadas são pecados puníveis com a Penitência, uma punição de morte onde o cidadão fica preso em sua casa aguardando a execução de sua sentença.

O One Concern também controla o principal recurso do planeta, o Ivory. Tal substância funciona como combustível e garante energia necessária a diversas atividades naquele mundo. Apenas escolhidos pelo governo podem manusear Ivory, e o fato de que o assentamento onde Robin mora estar cada vez menos solicitando reparos ao One Concern coloca os olhos do governo sobre aquele local.


A verdade é que Robin está mesmo desafiando as leis e ajudando as pessoas com suas habilidades mecânicas, o que acaba por colocar os agentes Black e White no seu caminho. Os agentes são membros de alto escalão militar no One Concern, e possuem habilidades sobre-humanas, como força e agilidade maiores que o normal, e a capacidade de se curar de ferimentos.


Abrindo a caixa de ferramentas

A garota usa sua arma e também uma chave inglesa para atacar e se defender de inimigos, interagir com diversas estruturas mecânicas, abrir portas e resolver diversos puzzles no caminho. Essas habilidades são desenvolvidas durante o jogo, com novos projéteis para a arma e melhorias na chave, como por exemplo, a capacidade de se carregar energia elétrica por um período. Os inimigos são variados e exigirão diferentes recursos e estratégias para serem derrotados.

Apesar de ter cenários labirínticos como um metroidvania, o jogo segue uma narrativa linear recheada de diálogos, e por vezes, as cutscenes nos levarão para o próximo cenário. É uma interessante quebra de paradigma no gênero. É possível ficar sem saber onde ir algumas vezes, mas depois de reparar bastante percebi algumas dicas visuais que apontam o caminho em determinadas situações. Ainda assim acontece, principalmente se formos explorar os mapas atrás dos materiais necessários para a criação dos Tweaks, uma contraditória mecânica presente no game.

A partir de itens encontrados em baús é possível criar melhorias para a personagem, como tomar menos dano ou ter maior velocidade de movimento. Existem poucos espaços para equipar Tweaks e o seu uso acaba não sendo de grande valor ou necessidade, não apenas pelo pouco efeito caso não se acumule dois ou três Tweaks iguais, mas também por que é totalmente possível prosseguir no jogo sem pegar nenhum. O fato de perder seu benefício ao tomar dano durante as batalhas também não ajuda. Fica apenas como um leve incentivo para quem gosta de resolver puzzles ou dá valor à busca de coletáveis em jogos.


Falando em puzzles, eles estão muito presentes no jogo, em diversos tipos. Dos mais fáceis aos mais difíceis, alguns realmente são necessários a progressão do jogo, enquanto outros servem apenas para pegar material para craft. Outro ponto é que alguns realmente irão quebrar a cabeça do jogador, enquanto outros possuem apenas uma execução difícil, o que pode frustrar bastante a jogatina.

Outro ponto que eu considerei bastante contraditório foi o fato de um certo personagem nos ensinar algumas técnicas, ditas por ele de vital importância no futuro, que simplesmente nunca foram usadas após aquele momento. O game conta também com algumas escolhas e sidequests, que não parecem fazer grande diferença no fim das contas: às vezes temos frases diferentes para responder personagens. Uma receita para criação de um novo Tweak foi dado como recompensa por concluir uma side quest.


Construindo e desconstruindo

Durante a jornada, vamos conhecer diversos outros personagens. Alguns nos acompanharão em momentos, e em algumas poucas ocasiões até poderão ser controlados pelo jogador. Os principais são: Elro, irmão de Robin, visto inicialmente como mentor e protetor da menina. Royal, um misterioso jovem de cabelo branco com poderes especiais. Mina, uma garota de pavio curto, tem constante dificuldade de lidar com as consequências de suas escolhas.
“Iconoclasta é nome dado ao membro do movimento de contestação à veneração de ícones religiosos que surgiu no século VIII denominado Iconoclastia. O termo iconoclastia significa literalmente “quebrador de imagem” e tem origem no grego eikon (ícone ou imagem) e klastein (quebrar).”

Explicado o nome, podemos falar que o game realmente contesta conceitos relacionados a linhas de pensamentos rígidos. Não apenas relacionado ao âmbito religioso, mas também a doutrinação e casos em que os personagens assumem visões e ideologias fechadas de acordo com certos acontecimentos. Em contraparte ao governo teocrático e totalitário do One Concern, somos apresentados também a outras formas de sociedade e pensamento dentro do jogo. Por exemplo, a personagem Mina, que é proveniente de um outro povo que se autodenomina Isi, chamados de piratas pelos teocratas.

Eles vivem em uma estrutura submersa no mar e veneram seus ancestrais ao invés dos deuses da superfície. Além disso, sua população foca principalmente na reprodução como forma de vida. Apesar de não haver punições e leis tão rígidas, percebemos vários problemas sociais também. Mina está sempre apontando os defeitos relacionados ao One Concern e a adoração a Mother, mas acaba não percebendo que parte da culpa que sente é devido à forte influência e uso de manipulação sentimental e psicológica representada pela doutrina seguida em sua sociedade, demonstrada pelo seu relacionamento com sua mãe.

Conceitos estabelecidos são quebrados ou simplesmente virados de ponta-cabeça durante todo o jogo. O jogador pode se afeiçoar ou questionar ações dos diversos personagens. No final a mensagem que fica é a de que independente do que acreditemos, precisamos respeitar e estarmos abertos a outras linhas de pensamento. O jogo nos ensina a tentar ver as coisas por diversos pontos de vista e não querer impor aos outros nossas verdades. Aliás, que nem tudo a que fomos ensinados ou levados a acreditar possa mesmo ser verdade.


Finalizando o projeto

Iconoclasts entrega uma experiência completa, bonita e marcante. Há esmero e polidez em sua construção e só isso já bastaria para recomendá-lo. Junte à receita sua história profunda e reflexiva, que apesar de deixar algumas pontas soltas, o coloca acima de muitos jogos da atualidade. Há vários níveis de dificuldade, alguns segredos, interessantes opções pós-game para revisitar rapidamente ou de forma mais longa o jogo, e se não fossem algumas escolhas estranhas e contraditórias, como o mal aproveitamento da mecânica de Tweaks, ao invés de um maior incentivo a exploração, teríamos uma obra perfeita.


Prós:

  • Belíssimos gráficos em pixel art;
  • Jogabilidade fluída e controles precisos;
  • Animações consistentes em gameplay e nas cutscenes em tempo real;
  • Cenários detalhados e bem construídos, contando com um bom level design;
  • Personagens marcantes;
  • História madura, cativante e reflexiva;
  • Música imersiva e combinando com cada momento do jogo;
  • Batalhas incríveis contra variados tipos de chefes.

Contras:

  • Mecânica de craft desnecessária;
  • Apesar do level design bem feito, há pouco incentivo para a exploração;
  • Alguns puzzles de difícil execução podem frustrar os jogadores.
Iconoclasts — Switch — Nota: 9.0
Revisão: João Paulo Benevides
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bifrost Entertainment
Lucian Helan é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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