Crônica

Como Monster Hunter me ensinou a nunca desistir

Uma história pessoal que explica como caçar dinossauros e coelhos gigantes pode te ensinar muitas lições valiosas.

O ano de 2013 foi bem marcante para muitas pessoas, talvez pelos inúmeros protestos que aconteceram por todo o Brasil ou pelo lançamento de jogos muito aguardados pelos fãs de videogames, como Grand Theft Auto V (Multi) ou Pokemon XY (3DS). No meu caso, o que mais acabou me marcando foi a descoberta de uma grande paixão que carrego até hoje.

Na época, eu só tinha 12 anos e a vida era bem mais simples. Ficar jogando futebol e videogame o dia inteiro depois de chegar da escola era incrível, mas esta rotina mundana dificilmente apresentava algum “desafio” empolgante, daqueles que despertavam um desejo ardente de treinar e se tornar o melhor dos melhores naquilo. Esta sensação só passou quando conheci uma franquia que acabaria mudando a minha vida de certa forma. Pois bem, se você já entrou aqui, não é nenhuma surpresa que estou falando de Monster Hunter, ou mais especificamente, do incrível Monster Hunter 3 Ultimate (3DS/WiiU).

Paixão à primeira vista

Eu tinha acabado de chegar da escola e estava louco para me divertir com algo, principalmente para esquecer aquela aula chata de matemática. Assim que pisei em casa, fui correndo ligar meu antigo computador e enquanto esperava pelo almoço, um amigo me mandou uma mensagem todo animado dizendo: “Ei, vai baixar a demo do Monster Hunter 3 Ultimate! Ela acabou de sair na eShop, corre!". Nunca tinha parado para pensar, mas provavelmente a gente só mantem contato até hoje por causa disso.

Na ocasião, eu só tinha duas informações na minha cabeça sobre o que se tratava Monster Hunter, a primeira era uma vaga memória de uma antiga revista de videogame chamando Monster Hunter Tri (Wii) de “Pokémon para adultos” e a segunda, bem... o próprio nome diz que é sobre caçar monstros, né? Felizmente, minha falta de conhecimento sobre o jogo só me empolgou ainda mais e a demo foi devidamente posta para ser baixada.
Lembro com muito carinho da música que tocava nesta tela até hoje


Logo nos primeiros segundos da demonstração, era preciso escolher entre duas missões disponíveis, uma na dificuldade “fácil” e outra que era recomendada apenas para os veteranos da franquia. Depois de pensar um pouco, escolhi a missão mais fácil para me acostumar com a jogabilidade e logo adentrei na tela de seleção de classes. Apesar da variedade de opções tentadora, fui sensato e decidi ir armado de uma Sword ‘n Shield, a classe de arma mais básica entre os 12 tipos disponíveis na demo.

A missão começou e eu já estava mais perdido do que cego em tiroteio. Tudo que sabia era que precisava caçar um monstro chamado “Lagombi”. Muitas dúvidas sobre a jogabilidade pairavam sobre minha cabeça, mas não deixei isso me abalar e continuei seguindo em frente, até me deparar com uma mistura amedrontadora de um coelho com urso rugindo ferozmente ante minha presença. Não tinha dúvidas, aquele bichano com certeza era o tal do Lagombi.

Como era de se esperar, eu apanhei muito no início, mas não deixei tão barato e às vezes conseguia trocar bons golpes com ele. Apesar das mortes ocasionais, a maior dificuldade da luta com certeza era a enorme tenacidade da fera. Ela simplesmente não era abatida de jeito nenhum! Não importava quantos ataques desferisse, nenhum dano parecia surtir efeito. Faltando um minuto para o tempo da missão acabar, eu já estava pensando em desligar o 3DS de tão irritado, quando o coelhão finalmente cedeu e caiu duro no chão.
Resumindo a minha luta em apenas uma imagem




Amor ou paixonite?

No momento em que a missão foi completada, toda aquela sensação angustiante se transformou em felicidade e orgulho. Mesmo sem saber o básico do jogo, eu tinha conseguido passar de primeira do inimigo mais resistente que encontrei na vida. Que incrível, não? Pelo menos era isso que eu pensava até contar tudo sobre minha vitória para o meu amigo veterano. O que eu recebi dele foi uma mensagem bem marcante que poderia resumir a franquia Monster Hunter inteira:
“Só em 19 minutos? Eu matei em menos de 6 minutos. O Lagombi é bem moleza, o único monstro mais trabalhoso da demo é o Plesioth.” 
Como assim? Esse fato simplesmente não entrava na minha cabeça de jeito nenhum. Afinal, como um ser humano poderia derrotar aquela fera imortal em menos de 6 minutos!? O “difícil” era esse tal de “Plesioth”? Será que vou conseguir sequer chegar perto disso um dia? Eu fiquei tão animado com essa resposta que comecei a pesquisar mais a fundo sobre a franquia na internet.

Para a minha surpresa, acabei descobrindo que a demo do Monster Hunter 3 Ultimate estava sendo duramente criticada pela maioria do público. Segundo eles, a demonstração não explicava absolutamente nada sobre as mecânicas do jogo, a jogabilidade era lenta e travada, a câmera era um desastre sem o Circle Pad Pro e afetava diretamente a dificuldade, que se tornava desbalanceada como consequência. Além disso, a ausência do multiplayer online na versão completa do jogo era extremamente broxante, principalmente se levar em conta que esse era o principal fator para o sucesso da franquia.

Confesso que acabei desanimando um pouco com essas críticas, afinal, eu era bem ruim em jogos de ação nesse estilo e a franquia parecia assustadoramente difícil demais para um novato. Porém, aquela sensação que senti quando derrotei o Lagombi pela primeira vez foi tão incrível que algo dentro de mim me convenceu que o jogo merecia mais chances. Já que não tinha certeza se iria aguentar a dificuldade da versão completa, decidi que só iria comprar o jogo apenas se provasse para mim mesmo que eu tinha potencial para ser um bom jogador. Mas como eu ia provar isso? É claro que era derrotando o terrível Plesioth!
 Os olhos assustadores do Plesioth traumatizaram muitos novatos


Em busca do olho do tigre

Daquele dia em diante comecei a treinar diariamente na demo, enquanto aproveitava minhas horas vagas conversando e pedindo dicas do jogo para o meu amigo veterano. Para você ter uma noção, eu fiquei tão viciado e empolgado com aquele mundo que era normal meu 3DS ficar ligado direto por mais de 3 dias sem sair da demo, só porque ela se tornaria inutilizável se eu a fechasse por mais de 30 vezes. Dois meses se passaram depois do início do treinamento e eu definitivamente já estava muito melhor no jogo, inclusive até conseguia derrotar o Lagombi em menos de 10 minutos com a maioria das armas.

Por falar em armas, eu também desenvolvi uma enorme paixão em jogar com as classes Dual Blades e Long Sword, já que elas sempre me garantiam os melhores resultados. De fato, minha melhora era notável para um iniciante, mas se existia uma coisa naquela demo que eu nem sonhava em realizar, com certeza essa coisa era derrotar o Plesioth. Não importava o quanto tentasse, o único destino possível para as minhas tentativas frustradas sempre era aquele que acabava com meu 3DS quase sendo jogado no chão de tanta raiva que o monstrengo me fazia passar.

Virou rotina para o meu amigo veterano me ver xingando o jogo de “injusto” enquanto apanhava do monstro. Mas calma! Antes de me chamarem de chorão nos comentários, eu juro tinha muitos motivos para isso! Primeiro porque o tempo máximo para completar qualquer missão em todos os jogos da franquia sempre foi 50 minutos, só que, por alguma razão, a demo só disponibilizava míseros 20 minutos para fazer tudo. Isso significa que além de lutar contra o Plesioth, eu precisava encarar outro inimigo ainda pior: o tempo.

Se isso não bastasse, o monstro ainda tinha outra arma na manga. Abusando da dádiva de ser anfíbio, Plesioth podia abordar o jogador em dois terrenos, um terrestre e outro aquático. Os combates aquáticos eram totalmente diferentes do usual e a constante mudança do monstro entre terra e mar só tornava esse fato ainda pior. Por sorte, não deixei a água no ouvido me afetar e continuei tentando até minha chance de ouro chegar.
Cuidado, crianças! Tentar usar uma Great Sword de baixo d'água definitivamente não é uma boa ideia


Recompensado pelo sofrimento

Tentando sempre uma vez por dia, uma hora eu acabei chegando longe demais na missão sem notar, só que minha vida já estava acabando e não haviam mais poções para usar. A fera não teve pena e veio com tudo para cima de mim, mas graças ao meu treinamento, pude prever o que o monstro iria fazer e me esquivei perfeitamente da investida. Aproveitei a brecha para emendar logo em seguida meu feroz contra-ataque enquanto esperava por um milagre. Quando a última das esperanças já havia se esgotado e apenas 15 segundos restavam, a perseverança que exalei foi recompensada e a besta derrotada diante da minha Long Sword.

Esse foi um dos momentos mais épicos da minha curta vida até então. Cheguei até a dar cambalhotas comemorando pela sala como se tivesse ganhado uma Copa do Mundo. Graças a muito esforço e sofrimento, eu finalmente tinha me tornado um dos pouquíssimos novatos que derrotaram o Plesioth! Todo entusiasmado, fui correndo contar toda a história para o meu amigo veterano como de praxe e, de novo, acabei sendo recebido com a mais dura e pura verdade na minha face.
“Ah, que legal. Tem monstros muito mais difíceis que ele na versão final, se prepare!”
Para a maioria das pessoas essa frase poderia ser desmoralizante e assustadora, mas para mim, acabou tendo justamente o efeito contrário. Assim que li isto e percebi que o Plesioth era só a ponta do iceberg, não pude fazer nada a não ser correr para comprar o jogo na pré-venda. Hoje, depois de jogar mais de 340 horas de Monster Hunter 3 Ultimate no meu 3DS, eu tenho muito orgulho de dizer que realmente valeu a pena ter se esforçado tanto pra suportar o sofrimento que é a árdua curva de aprendizagem de Monster Hunter. A própria história que acabei de contar já é uma prova do valor que franquia e suas mensagens tem para mim.

Até hoje penso que se eu tivesse desistido após minhas primeiras derrotas e não insistisse no jogo por causa dos problemas que nem os outros novatos, talvez nunca tivesse sido recompensado com todos os amigos e momentos sensacionais que a franquia me proporcionou. Pode parecer bobo, mas eu acho muito lindo poder dizer que Monster Hunter me ensinou que para conseguir qualquer coisa na vida é necessário se esforçar muito, sempre encarar todas as derrotas como um aprendizado e nunca desistir independentemente do quão difícil seja o desafio.

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Rhuan Bastos Rodrigues é um estudante de jornalismo que sonha em poder noticiar o anúncio de Half-Life 3. Apaixonado por jogos e pela Nintendo desde criança, também ama esportes e pretende escrever um livro sobre o assunto no futuro. É capaz de colocar todos os episódios de Neon Genesis Evangelion em um abrigo anti-nuclear apenas para nunca correr o risco de esquecer eles. Pode ser encontrado endeusando a Capcom no Facebook, Steam e Twitter.

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