Discussão

Just Dance 2019 (Multi) é o ápice da saturação da franquia?

Mais do mesmo poderá funcionar até quando?


Não foi nenhuma surpresa o anúncio de Just Dance 2019 durante a conferência da Ubisoft na E3 2018. Ao seguir o modelo de lançamentos anuais, como em FIFA e NBA, a franquia se responsabilizou por apresentar, ao menos, 40 novas músicas com coreografias no mesmo formato que, desde 2013, trabalha de forma superficial – principalmente por não haver concorrência do formato.


O alerta apresentado durante a feira é notável por duas características: o mercado musical pode não estar acompanhando a demanda anual de músicas dançantes relevantes e as baixas vendas são, de forma camuflada, um sinal de perigo. Se Just Dance estivesse vendendo bem nas novas plataformas, como no Nintendo Switch e no Xbox One, seria realmente necessário o anúncio, mais uma vez, para Nintendo Wii, lançado há cerca de 12 anos atrás?

Inovações? Onde?

Em todo e qualquer mercado em que há concorrências, como acontece com a “guerra de consoles” na época do Xbox One e PlayStation 4, a competição é a principal aliada do consumidor. Ela faz com que as empresas busquem oferecer o melhor custo-benefício, além de orientá-las a seguir os anseios do público, fato que não ocorre com Just Dance.

Desde a ausência de sua concorrente, a franquia Dance Central exclusiva para as plataformas da Microsoft, os jogos de dança ocuparam certa zona de conforto, sempre com o mesmo número de faixas, diversidades extremamente limitadas e coreografias, em sua maioria, recicladas de jogos anteriores. Logo, a grandiosidade de novidades, como ocorreu em Just Dance 4, aparentemente, foi abandonada pela Ubisoft.
Mesmo com melhorias estéticas, Just Dance 2019 não parece se preocupar com inovações
Mesmo assim, a partir de Just Dance 2016, o programa de assinatura Just Dance Unlimited para a nova geração de consoles, que fornece acesso a mais de 300 faixas dos jogos anteriores, ampliou o fator replay dos jogos mais recentes e prometeu evoluir a jogatina com o tempo. Contudo, o programa lançado no final de 2015 não desenvolveu grandes atrativos e atualizações, além de algumas coreografias novas, o que, mais uma vez, estagnou a franquia na mesmice.

Por fim, Just Dance 2019 aparenta entregar, logo em seu anúncio, mais uma repetição da fórmula saturada. As poucas mudanças notáveis — como a mudança do menu e um maior capricho nos backgrounds— são esmagadas pela sensação de que o “novo” jogo aparenta, na verdade, ser um DLC com mais 40 músicas atualizadas, mas com preço de jogo AAA mesmo sem possuir uma base de desenvolvimento com tal grandeza.

Ao meu ver, durante a Gamescom 2018, o game decidiu trazer mais músicas populares e coreografias que podem, em sua maioria, ser dançadas por qualquer um. Esse balanço para agradar todos os jogadores mostra certo alerta do estúdio sobre a rejeição inicial dos jogadores, visto que Just Dance 2019 tem a importante missão de superar o seu antecessor. Mesmo com sua “redenção” em agosto, a Ubisoft aparenta entregar em seguida um mix entre o que o público quer, como a versão alternativa de OMG (Arash Ft. Snoop Dogg) extremamente bem feita, e o que há de pior visto até hoje – com uma clara menção à versão alternativa de Bum Bum Tam Tam (MC Fioti, Future, J Balvin, Stefflon Don e Juan Magan).

A tracklist contraditória

O discurso de que o jogo é quase integralmente focado na diversão sempre existiu. De fato, não tem sentido juntar uma turma de amigos para dançar músicas desconhecidas ou com coreografias absurdamente complicadas para algo mais casual. Entretanto, o problema da lista inicial de músicas de Just Dance 2019 está nas sensações de constrangimento e, mais uma vez, de déjà vu.
“Bum Bum Tam Tam” irá representar o funk carioca no game
Mesmo com todas as críticas apontadas, é relevante mencionar uma maior preocupação com o gosto universal. Just Dance é uma franquia mundial, porém, muitas vezes, se comportou como quase exclusivamente americana. Com uma tracklist inicial focada em músicas estrangeiras, como a canção coreana Bang Bang Bang, e Bum Bum Tam Tam de origens brasileiras, a abordagem estratégica de agradar um pouco de todos os estilos ameniza a constante onda de críticas sobre a franquia.

Contudo, o que mais incomodou os jogadores foi a música Dame Tu Cosita (El Chombo ft. Cutty Ranks). A letra da canção traz menção a assuntos pejorativos — “me dê a sua coisinha”, traduzindo no sentido literal — que não foram censurados pela Ubisoft, tampouco tentaram esconder a ambiguidade ao inserir um coach fantasiado de sapo – para não mencionar outro sinônimo – e com um backsound que se assemelha a um gemido.
A repercussão de Dame Tu Cosita foi bem negativa
A questão é: se o discurso das coreografias serem simples e repetitivas é para o jogo ser descontraído e focado no público infanto-juvenil — como a música Shaky Shaky de Daddy Yankee com uma “gelatina dançarina” —, a existência inicial de Dame Tu Cosita na playlist seria uma contradição da filosofia do jogo ou a empresa apenas zerou suas ideias “inovadoras” após tantos anos de sucessivas coreografias produzidas em massa? Assim, ao que aparenta, depois da gigante rejeição, Dame Tu Cosita estará de fora da playlist final do jogo e disponível apenas no Just Dance Unlimited.

O eterno Wii

Queridinho de muitos, o Wii foi pioneiro do jogo de dança em 2009 e irá completar dez anos de lançamentos de Just Dance. O projeto do console é claramente focado no público casual, o que é, indubitavelmente, a casa perfeita para a franquia mencionada. Mesmo com a Big N totalmente focada no seu novo híbrido, o Switch, a Ubisoft continua a oferecer o suporte anual a duas gerações anteriores — por um motivo justo.

Dessa maneira, a versão para Wii de Just Dance 2018 vendeu cerca de 32% das cópias do jogo, tornando-se o console mais rentável para investir os passos de dança, mesmo que não seja com a mesma empolgação de antes. Por que isso, de fato, acontece? A lógica não seria um desempenho melhor nos novos consoles, principalmente por serem os únicos com novas ferramentas como o Just Dance Unlimited?

Como dito acima, os novos jogos não passam de DLC disfarçadas. Não há motivos que empolgam a migração dos jogadores e a Ubisoft parece estar em um limbo de mais do mesmo. A redução drástica de versões alternativas — como o modo batalha e o sweat mode — desde o Just Dance 2015 corrobora essa afirmação, o que, infelizmente, parece continuar assim por mais um ano.

Não há nada melhor que reunir os amigos para jogar videogame. Porém, se há um esforço em lançar um novo jogo todos os anos, por que não melhorá-lo a ponto de ser rentável, na prática, um ano? É um tanto injusto com os fãs da franquia tornar o anseio de mais coreografias todos os anos simplesmente pela falta de diversidade da versão anterior. No mais, a espera de muitos jogadores é por anúncios de melhorias apreciáveis que justifiquem, enfim, o amargo preço de lançamento de Just Dance 2019.

Concorda com o que foi apresentado? Não deixe de compartilhar sua opinião sobre o que você pensa sobre a franquia Just Dance nos dias atuais e quais são as suas expectativas para o próximo jogo.
Revisão: Gabriel Bonafé
Paulo Vinícius é estudante e apaixonado por games desde seu primeiro contato com Duck Hunt e Ice Climbers do nintendinho em 2002. Fanático por Pokémon e admirador de diversas franquias, reúne seu tempo livre para escrever e tentar colocar suas séries em dia. Está no Facebook e Instagram.

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