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Análise: Mega Man 11 (Multi) é uma celebração aos 30 anos da franquia

Mega Man está de volta, mais rápido e poderoso, como nunca antes visto na franquia.


Em dezembro de 1987, a Capcom — que era uma empresa forte nos arcades — lançava no Japão e na América do Norte um jogo feito exclusivamente para o Famicom/NES. O game trazia como herói um carismático robozinho azul, que podia absorver o poder dos inimigos derrotados, para então usá-los contra outro inimigo que possui tal ponto fraco, baseando-se no sistema jan-ken-po (pedra-tesoura-papel). Ele foi nomeado Rockman (Rokkuman) na terra do sol nascente, em referência ao estilo musical, porém o nome não agradou a divisão norte-americana da empresa, que renomeou-o no ocidente. Assim nascia Mega Man, um ícone que se tornaria um dos maiores nomes do mundo dos games.


Ao longo de 30 anos, o personagem acumulou mais de 50 jogos, sendo 11 da série principal, e outras variações e spin-offs. Entretanto, seu maravilhoso legado não o impediu de sofrer com a difícil transição de jogabilidade 2D para 3D que muitos jogos clássicos passaram quando a nova tecnologia entrou na moda, e depois de diversas tentativas de adaptação e até mesmo de voltar às origens 2D com sprites bem simplificados, o Mega Man foi colocado na geladeira por um bom tempo. Quando já se pensava no fim da franquia, a Capcom novamente surpreendeu a todos, e no trigésimo aniversário do “Blue Bomber”, foi anunciado Mega Man 11.

Más lembranças criam os piores sonhos (ou novos planos malignos)

O novo game respeita esse “mega-legado”, e muito do que pode ser encontrado nele é referência direta às primeiras aventuras do herói, a começar pela história. Já sabíamos que Dr. Light e Dr. Wily foram colegas na Robot University, e acabaram se desentendendo sobre o futuro da robótica. Dessa vez a história é relembrada em um sonho de Wily, que após ter seu projeto de pesquisa sobre a Double Gear cancelado, jurou que um dia o mundo saberia que ele é que está certo, e não Light.


As más lembranças serviram de motivação para que o vilão retomasse o projeto, finalizando-o, e arquitetando um novo plano para se vingar de Light e Mega Man. Wily então reprograma oito novos Robot Masters para cumprir seus desejos, adicionando uma de suas poderosas engrenagens em cada um deles, e com isso expandindo suas capacidades além dos limites. Dr. Light não encontra melhor solução do que instalar em Mega um antigo protótipo abandonado por Wily, para que o herói possa lutar em melhores condições contra seus adversários.

Com seus novos poderes, Mega Man é capaz de desacelerar o tempo ao seu redor, ativando a Speed Gear, ou aumentar o poder de seus ataques, através da Power Gear. Quando em situação de grande perigo, o robô é capaz de ativar as duas engrenagens simultaneamente, tornando-se apto a desferir um poderoso ataque, destrutivo até mesmo para alguns inimigos mais fortes. Entretanto, o dispositivo causa uma grande fadiga aos usuários, e por isso, o “Blue Bomber” enfrenta algumas dificuldades quando o sistema superaquece.

Aquecendo as engrenagens

O game conta com uma boa dose de dificuldade, e as novas habilidades são mais do que apenas facilitadores. Como é de costume na série, as fases são projetadas de forma a desafiar o jogador a fazer uso da grande novidade constantemente. Além de estarem infestadas de inimigos, com seções de plataforma e suas quedas mortais, espinhos que matam instantaneamente e diversas armadilhas características, a rolagem automática de tela é um recurso bastante usado nessa aventura, e o uso da Power e principalmente da Speed Gear são essenciais para que Mega Man não seja “engolido” por qualquer coisa que venha em seu encalço.


O novo sistema também prova o seu valor facilitando a forma como lidamos com diversos inimigos e situações, servindo de opção também para as boss battles, já que, como sabemos, nem sempre será possível explorar o ponto fraco dos chefes, seja por falta de energia para as armas ou simplesmente por questão de estratégia. Mas apesar de adicionar mais uma camada de possibilidades, o seu uso está longe de ser obrigatório. As armas adquiridas derrotando os chefes continuam muito bem vindas para transpor os desafios, podendo ser acessadas rapidamente pelo analógico direito ou botões de ombro, ficando a critério do jogador o que usar em cada situação. O seu fiel parceiro Rush também está de volta, pronto para “dar uma pata” (mão) ao Mega Man quando necessário.

A série possui desde o primeiro jogo essa valorosa característica de respeitar a inteligência e criatividade do jogador. Boa parte do level design do game consiste em mostrar no início do cenário uma idéia simplificada de como serão os desafios, e durante o estágio ir aprimorando e dificultando o mesmo tipo de mecânica, deixando a cargo do jogador descobrir sua própria melhor forma de ir do ponto A ao ponto B. Entretanto, uma boa adição à jogabilidade que esteve presente em algumas tramas anteriores, que é a localização de itens escondidos e opções de caminhos diferentes, não retornou. Mega Man 11 possui fases totalmente lineares, sem nenhuma possibilidade de exploração.

Speed Gear! 

Outro ponto negativo é que, em número de levels, o jogo é curto até mesmo comparado a alguns de seus antecessores do NES. Após derrotar os oito Robot Masters, se prepare para encontrar um desafio ainda maior. O game usa tudo que o jogador aprendeu até ali, misturando inimigos de fases anteriores, acrescentando novos, e explorando as diversas mecânicas de forma criativa. É bem difícil até pegar todos os macetes e conseguir chegar na batalha final, mas uma vez tendo conseguido, o desfecho da trama é simplificado, sem reviravoltas ou grandes surpresas.


Porém, essa questão não me incomodou nem um pouco, já que o game esbanja diversão. Cada estágio vencido com dificuldade causa uma grande sensação de bem estar, dever cumprido e satisfação pessoal. E ao fim da aventura, esses sentimentos se mesclam à vontade de recomeçá-la. Diferente de Sonic Mania (Multi), por exemplo, que  foi um jogo que reviveu a jogatina clássica de forma muito bem feita, mas pecou na excessividade de fases, tornando cansativo repetí-lo. Depois de treinar bastante, Mega Man 11 será um jogo para finalizar em algumas boas horas, com um sorriso no rosto, sendo o próprio jogo sua maior motivação para o fator replay.

Entretanto, sabendo que muitos julgariam o game negativamente por sua quantidade de conteúdo, a Capcom preparou vários extras. Vários modos de desafio são um prato cheio para speedrunners ou fornecem opções para o jogador a repetir as fases com objetivos diferentes. Também há desafios relacionados a derrotar inimigos e bosses e até um onde não podemos deixar a “bola” cair, entre outras surpresas.

Ao completá-los seguindo certas condições mínimas, é possível carregar sua pontuação para um ranking online, e até assistir ao replay de outros jogadores, conseguindo entender como fizeram aquelas altas pontuações. Um sistema de conquistas está embutido dentro do jogo na versão do Switch e deve agradar quem gosta de platinar jogos. Por fim, há uma galeria com diversas informações sobre os inimigos e chefes do game. É uma boa quantidade de conteúdo adicional, que aumenta a vida útil do game.


Força total!

Graças ao sistema Double Gear e à boa resposta dos controles — que são totalmente customizáveis —, nunca foi tão preciso e satisfatório controlar Mega Man, mas ainda é bom tomar cuidado com alguns saltos apressados. O jogo também se destaca por conseguir ser bastante abrangente, pois as quatro opções de dificuldade atendem muito bem os diversos perfis de jogadores: desde os totalmente novatos em videogames ou na série, aqueles que conhecem a série mas se assustaram com a dificuldade, aqueles que gostam de um bom desafio e os jogadores extremamente hardcore.

De qualquer forma, a loja presente no game será uma boa aliada. A fim de suprir a falta de exploração, o sistema iniciado em Mega Man 7 (SNES) está de volta. Os parafusos encontrados funcionam como moeda, e podem ser trocados por itens diversos no laboratório do Dr. Light. Esses itens incluem vidas extras, tanques de energia e outras funções de um único uso, como contar com a ajuda de Beat e Eddie ou não morrer ao primeiro toque de um espinho.

Também há melhorias permanentes de diversos tipos, a maioria muito útil, dando mais opções ainda aos jogadores para que consigam lidar com suas adversidades. Além do próprio Dr. Light, encontramos na loja também Roll e Auto. O que faltou foi uma opção para agrupar vários itens iguais, comprando-os de uma vez só, pois realizar compras grandes envolve ouvir os personagens repetindo a mesma frase várias vezes seguidas.

A ferro e fogo...

Uma outra novidade, que pôde ser vista em todos os materiais de divulgação, é que o Mega está de cara nova. A renovada no visual fez muito bem a série, que apesar de ter sido trabalhada com muito carinho em pixel art nessas três décadas, está ainda mais bonita e artisticamente impressionante. Os gráficos desenhados em alta definição caíram muito bem, aumentando o nível de detalhes e proporcionando finalmente a execução de uma idéia que precisou ser descartada no primeiro jogo, que é o Mega Man ter diferentes capacetes para cada arma de chefe que ele conquistar — seu mega buster também modifica. Afinal, o robozinho é baseado em alguns tokusatsus que fizeram fama no japão na década de 80 e que tinham isso como característica marcante.

O time de personagens também se destaca positivamente — gostaria até de ver a Roll jogável em algum game futuro —, apesar de haver algumas surpresas e outras faltas. Além dos companheiros de Mega Man, os oito Robot Masters são extremamente carismáticos. A Capcom fez um bom trabalho desenvolvendo e detalhando bastante as características e a personalidade de cada um deles, além de suas ocupações antes de serem reprogramados por Wily. Tanto em japonês quanto em inglês o jogo conta com um bom voice acting, e cada um dos chefes possui um grande repertório de falas diferentes — não que iremos reparar muito durante o calor da batalha, mas não incomoda, pelo contrário.

Algumas cutscenes ajudam a desenvolver a história, e mesmo não sendo super cinemáticas, cumprem bem o seu papel, seguindo à risca a alta qualidade gráfica do jogo, já que são feitas com o mesmo tipo de arte. Todas as cenas contam com legendas e também com vozes. Por outro lado, um ponto que é bastante característico da série, infelizmente, também não voltou com força total. A trilha sonora do game não é ruim, mas principalmente comparando com o legado da franquia, tem poucas músicas memoráveis, sendo as melhores a da tela de seleção, da fase de Block Man e principalmente, a de Fuse Man.


Mega divertido!

Este é um game que eu aguardei por muito tempo e com bastante expectativa. Apesar de ter seus pequenos pontos negativos, ele realmente entrega a olhos atentos uma celebração aos 30 anos da franquia, fazendo referências que agradam aos fãs antigos, mas também sendo atual e único, para que seja capaz de atingir um novo público. Acredito fortemente que mesmo utilizando elementos que foram adicionados ao longo da série, a maior inspiração foi realmente o primeiro título, e que a isso se deve a “simplificação” de seu level design.

Por isso, por mais que eu esperasse coisas que não se concretizaram, ainda sim o jogo me surpreendeu muito positivamente e já me deixou carente de uma sequência. De qualquer forma, Mega Man 11 é um excelente reinício para a série, e uma experiência memorável e gratificante. Espero que caso aconteça uma sequência, tenhamos outros retornos, entre eles o próprio Double Gear System, já que foi uma excelente adição ao sistema de combate de Mega Man. E que venha Mega Man X9. Vida longa aos robôs azuis!


Prós:

  • Gráficos bonitos e detalhados;
  • Voice acting de qualidade;
  • Personagens memoráveis;
  • Desafio na medida para diversos tipos de jogadores;
  • Respeito ao legado da série;
  • Acertadas adições de recursos à jogabilidade;
  • Respeito à criatividade do jogador.

Contras:

  • Fases lineares, sem segredos para encontrar ou caminhos alternativos;
  • Trilha sonora abaixo do padrão de qualidade da série.
Mega Man 11 — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: João Paulo Benevides
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom
Lucian Helan é formado em Redes de Computadores, mas gosta mesmo é de pilotar uns Karts por aí, atirar plasma com seu mega buster, correr em loops a toda velocidade e derrotar crocodilos ladrões de bananas. Seus sonhos incluem, pilotar uma X-Wing, andar no recreio com o Peter Parker e conseguir um tempo para se dedicar ao seu Instagram.

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