Discussão

Nintendo Switch Online: os rumos da assinatura paga

Finalmente implementado, serviço traz a aguardada estrutura on-line aos jogadores, porém com pontos ainda a serem melhorados.



Muito especulou-se sobre como seria o serviço on-line pago da Nintendo direcionado ao Switch. Desde o lançamento do console e principalmente após maio de 2018, quando a companhia revelou mais detalhes do programa de assinaturas, as apostas eram de que a conversão dos recursos de modo semelhante ao já proposto pela concorrência seria uma tendência mais que certa. Afinal, mesmo com alguns pormenores, é o modelo mais aceito atualmente.


A mudança de postura frente ao mercado e ao público deu claros sinais de que a Nintendo seguiria por esse caminho e que teríamos serviços sólidos para jogatinas multiplayer on-line, opções mais acessíveis de chat por voz, melhorias na loja virtual, além de jogos gratuitos, brindes e descontos especiais. O resultado, após algumas semanas da implementação do Nintendo Switch Online, ao mesmo tempo é e não é o que esperávamos, fazendo emergir várias discussões sobre os rumos do programa.

Programa chega ao público com diversos recursos, mas também levanta várias dúvidas sobre seu futuro


Preço justo?

Iniciando logo de cara pelo fator mais determinante para quem se interessa em assinar o Nintendo Switch Online ou para quem já tenha assinado: o preço. É notoriamente positivo o valor cobrado em relação aos serviços oferecidos. Planos com prazos mensais, trimestrais e anuais.

O mais caro, com prazo anual, custa R$ 74,95 para uma assinatura individual (existe também um plano familiar, para acesso de até oito contas, ao valor de R$ 129,95) e sim, é possível adquirir em moeda local através do site da loja oficial da Nintendo no Brasil, inclusive podendo alterar o país de origem da sua conta para acesso do serviço em eshops diferentes da brasileira. Como a assinatura prevê descontos futuros em jogos selecionados, essa versatilidade ajuda, uma vez que a loja brasileira, até o momento, só oferece opção para inserir códigos de download.

Apesar de oferecer meios de pagamento em reais, a estrutura completa do serviço ainda requer malabarismos do consumidor brasileiro, como alterar o país de sua conta para acesso à eshops convencionais
Claramente não estamos falando de serviços robustos e repletos de recursos e benefícios aos moldes do que já existe nos consoles da Sony ou Microsoft. A assinatura paga da Nintendo é mais modesta e faz todo sentido ser mais barata. Talvez futuramente esses preços possam subir ou não, caso a companhia ofereça mais benefícios, como a disponibilidade de títulos AAA gratuitamente aos assinantes, assim como acontece na concorrência.

Seria interessante a oferta de grandes jogos atuais, exclusivos ou multiplataformas, em pacotes mensais aos moldes da Plus ou Live Gold, mas sabemos que isso também depende de muita negociação com outras desenvolvedoras e se isso pode ou não influir no preço da assinatura. Em termos de jogos gratuitos, o Nintendo Switch Online ainda restringe-se apenas a títulos de NES.

Outros benefícios, como conteúdos extras (DLCs), já são realidade. Assinantes que jogam Splatoon 2 receberam códigos para desbloquear novas roupas para seus inklings, assim como a biblioteca de títulos de NES, que recebeu The Legend of Zelda: Living the Life of Luxury, uma versão extra do clássico 8-bit que garante vários itens e uma carteira cheia de rupees logo no início, além de revelar as áreas secretas do mapa. Ainda que não se tratem de grandes benefícios, já é um ótimo passo em direção a conquistas mais interessantes no futuro.

Conteúdos exclusivos  como a versão The Legend of Zelda: Living the Life of Luxury garante dinheiro e segredos revelados logo no início da aventura

O mesmo, só que diferente

No ambiente on-line, a trajetória da Nintendo sempre foi alvo de controvérsias, a começar pelos famigerados friend-codes originados no DS e que ainda persistem no Switch. Outro capítulo polêmico foram os recursos de comunicação por voz para integrar jogadores, casos marcantes como o Wii Speak e Wii U Chat. A filosofia usada pela Nintendo é a de que experiências comunicacionais devem estar atreladas exclusivamente aos jogos em si, situação que vai na contramão de tendências de sucesso como as salas independentes (parties), que permitem interações de forma livre, muitas vezes com jogadores conectados apenas para conversar.

Nem o famoso Virtual Console, que permitiu aos donos de Wii, DS, 3DS e Wii U ter acesso à biblioteca de clássicos retrô, escapou às críticas. Sem facilitar a vida de quem possuía mais de um console, o público era obrigado a comprar seus títulos favoritos mais de uma vez, já que não havia como transferi-los.

Esperamos que a possível migração da biblioteca do Virtual Console ao serviço on-line do Switch, com oferta de títulos gratuitos, seja um diferencial de peso
Enquanto os fãs da Nintendo encontravam empecilhos para suas experiências on-line ou serviços mais satisfatórios para o acesso a jogos e benefícios, Sony e Microsoft deram grandes passos para melhorar a forma de integração entre serviços oferecidos pela rede, alimentando-se do feedback do público. Sistemas que tornaram-se padrão no mercado e hoje são aceitos mundialmente, como as já mencionadas salas de bate-papo integradas ao console e não aos jogos, uma estrutura intuitiva para a aquisição de títulos digitais, filmes, músicas e o sucesso dos modelos de assinaturas pagas que concedem benefícios aos membros. É justamente essa estrutura que chega ao Switch e que já havia sido anunciada meses antes.

Boa parte dos recursos oferecidos aos assinantes do Nintendo Switch Online mantém o que já era disponível antes do serviço tornar-se pago. As partidas multiplayer on-line para títulos como Splatoon 2, Mario Kart 8 Deluxe, Doom e Rocket League, por exemplo, antes realizadas gratuitamente pela rede, passaram a exigir a assinatura, tal como acontece nos modos on-line dos consoles concorrentes (com exigência da Plus ou Live Gold). A cobrança, segundo as empresas, é para a manutenção de servidores dedicados e mais estáveis para melhorar a experiência.

Multiplayer on-line de títulos como Mario Kart 8 Deluxe agora exigem a assinatura. Jogos futuros com essa opção também terão a jogatina em rede restrita aos assinantes
Sendo assim, títulos com multiplayer on-line lançados anteriormente e também após o final de setembro, quando o Nintendo Switch Online entrou em vigor, exigem a assinatura para a continuidade da experiência. Se o seu plano é jogar Dragon Ball FighterZ, recém-lançado, ou Super Smash Bros Ultimate nas festas de fim de ano com seus amigos pela rede, prepare-se para desembolsar uma grana. Caso contrário, apenas multiplayer local.

Ficam de fora dessas regras os títulos free-to-play como Fortnite, Paladins e o recente Arena of Valor. Ainda não há confirmação se Warframe, previsto para 20 de novembro, solicitará ou não a assinatura do serviço. A expectativa é que ele siga os parâmetros dos demais títulos gratuitos que utilizam servidores próprios. Este aspecto nos leva a outro ponto importante: a integração com o chat de voz e como isso pode ser interpretado por diferentes perfis de jogadores.

Fortnite e outros títulos free-to-play dispensam a assinatura e podem ser jogados normalmente no Switch

Chat polêmico

O serviço de chat por voz é uma mistura de avanços e conservadorismos. Uma janela aberta em direção ao futuro, mas que nos impõe algumas particularidades que dividem a opinião dos fãs. Muito contestado desde o lançamento em julho de 2017, o recurso oferecido pela Nintendo utiliza um aplicativo de celular para intermediar a comunicação com o Switch. Nada mudou com o plano de assinaturas: continuaremos a precisar de nossos smartphones.

Inicialmente com suporte apenas para Splatoon 2, o aplicativo que pode ser baixado no celular agora permite a criação de salas de bate-papo para outros títulos com multiplayer on-line, ou seja, finalmente podemos “elogiar” a pessoa que nos mandou um casco azul na última volta da Rainbow Road de Mario Kart 8 Deluxe. Contudo, apenas alguns títulos multiplayer de Switch são compatíveis com a funcionalidade.

A estrutura do app de chat por voz manteve o que já existia anteriormente. Agora, em vez de apenas Splatoon 2, outros jogos também são compatíveis, mas nem todos
A estrutura assemelha-se ao Discord, porém com a limitação de que os membros da sala devem estar jogando o mesmo game. Ao acessar o aplicativo da Nintendo e integrá-lo ao Switch, ele configura o chat dentro do jogo que está sendo executado, o que impede a criação de salas independentes com jogadores conectados a outros jogos ou que estejam apenas logados em suas contas.

Em uma realidade na qual muitos jogadores já estão acostumados a integrações nativas de outros consoles com serviços de chat acoplados a um headset comum, a experiência proporcionada pela Nintendo, apesar de funcionar bem, não deixa de ser um tanto quanto antiquada e limitadora, já que devemos estar conectados a nossos consoles, fones e celulares para uma simples experiência de chat.

O próprio presidente e CEO da Nintendo of America, Reggie Fils-Aimé, declarou em recente entrevista ao Geekwire Summit, realizado em Seattle, nos EUA, que a escolha de um aplicativo de celular para o chat de voz vai de encontro às características portáteis do Switch, já que muitas pessoas interagem com o console fora de casa. Seria a conectividade dos smartphones mais acessível do que um sistema nativo?

Apesar de funcionar bem, estrutura de chat por voz pode ser mais acessível para evitar o acúmulo de dispositivos
Algumas desenvolvedoras contornaram o incômodo ao oferecer serviços de chat por voz diretamente integrados a seus servidores próprios, como é o caso de Fortnite. Ao acessar sua conta, a Epic Games permite a criação de salas de bate-papo que dispensam o aplicativo da Nintendo e conectam-se inclusive com outras plataformas através do cross-play.

Caso outros estúdios sigam essa estratégia, podemos encontrar um cenário de divisão entre públicos ou até mesmo de discussões a respeito da necessidade de pagar por um serviço on-line já que boa parte dos títulos de interesse (jogos free-to-play são uma força considerável quando o assunto é multiplayer on-line) poderão utilizar outras formas de integrar a comunicação por voz, tornando o aplicativo da Nintendo um serviço restrito a games exclusivos ou de desenvolvedoras parceiras.

A Nintendo sempre foi diferente das outras, mas às vezes é bom seguir algumas tendências para não isolar-se
Por outro lado, muitos jogadores buscam a experiência on-line com chat de voz justamente em jogos first party da companhia japonesa. Partidas de Mario Kart 8 Deluxe, Super Mario Party, Splatton 2 e o aguardado Super Smash Bros Ultimate são grandes fiéis da balança e que certamente terão um apelo maior na hora de escolher uma experiência multiplayer para compartilhar com os amigos. Caberá a cada tipo de jogador ponderar sobre o que mais vale a pena.

O pescador de saves

Aqui podemos discutir literalmente nas nuvens. Comemorada por muitos, a opção para salvar o progresso dos jogos na montaria de Lakitu realmente é um atrativo a ser levado em conta. Até então, não existiam maneiras de recuperar os saves em outros dispositivos ou até mesmo transferir para outro Switch. O progresso estava restrito apenas à memória do sistema.

Agora, os assinantes do Nintendo Switch Online poderão fazer backup de seus progressos em servidores da Nintendo. Entretanto, nem tudo são flores ou pés de feijão. Caso você cancele sua assinatura, haverá um prazo de até seis meses para a retirada do conteúdo da nuvem, que será apagado definitivamente.

Enfim Lakitu chegou para salvar nossos progressos de jogo na nuvem
As centenas de horas investidas em The Legend of Zelda: Breath of the Wild ou Xenoblade Chronicles 2 correm sérios riscos caso você mantenha os saves apenas na nuvem. Apesar de a Nintendo oferecer este tipo de backup, ainda trata-se da única opção disponível. Quem assina tem o direito de salvar no sistema ou na nuvem. Quem não assina, fica restrito à memória do sistema. Simples como uma nuvem no céu habitada por um pescador de moedas.

Biblioteca clássica

Adição interessante ao serviço, o aplicativo de Switch exclusivo aos assinantes permite acessar uma biblioteca virtual dos grandes clássicos de NES. Com vinte títulos disponíveis inicialmente, o serviço é alimentado periodicamente, já com novos jogos previstos para outubro, novembro e dezembro. Além de partidas single-player e multiplayer local, também é possível jogar on-line ou em modo cooperativo com os amigos pela rede. Uma adição bem legal para quem quiser curtir clássicos do passado sob uma forma de interação mais moderna.

Como fãs da Nintendo, a oferta de títulos de NES automaticamente nos leva a questionar se haverá no futuro, a adição de clássicos de outras plataformas, como SNES, N64 e GC, por exemplo. É muito provável que isso aconteça, mas o caminho é incerto. Ainda é cedo para dizer se a Nintendo pretende oferecer apenas jogos clássicos como conteúdo gratuito ou se poderá disponibilizar algo semelhante ao proposto pela concorrência.

É muito bom ter jogos de NES gratuitos, mas no que estamos de olho mesmo é quando as bibliotecas de SNES e N64 estarão disponíveis
Para quem não é muito fã de NES, pode não ser interessante no momento, mas para aqueles que desejam ter uma biblioteca virtual completa na palma das mãos, soa tentador. No entanto, muitos jogadores podem querer algo mais.

Assinar ou não assinar, eis a questão

É inegável que a investida da Nintendo em melhorar sua estrutura on-line já era algo aguardado por muita gente. O Nintendo Switch Online é um grande passo nessa direção, mas ainda apresenta diversos pontos que podem ser melhorados a depender do feedback do público. No momento, temos à disposição um serviço modesto a um preço atraente.

Fãs de longa data, jogadores de Mario Kart, Splatoon ou demais títulos exclusivos cedo ou tarde se tornarão assinantes para manter a experiência de seus passatempos favoritos. Contudo, um serviço de assinatura deve sempre atentar-se a todas as tribos, promovendo melhorias constantes e novos atrativos que justifiquem o investimento. Sabemos que muita coisa ainda pode melhorar.



E você, o que acha do Nintendo Switch Online? Já assinou ou pretende assinar? Entre na discussão e deixe seu comentário sobre os pontos que considera positivos ou negativos e como a Nintendo pode atuar para garantir novas experiências e benefícios aos assinantes.

Revisão: João Paulo Benevides
Renan Rossi é jornalista formado pela USC e aficionado pela história dos videogames e como cada pequeno acontecimento culminou nessa cultura incrível que vivemos hoje. Quando não escreve, viaja por Hyrule, toca umas ocarinas com a galera, procura adversários em Mario Kart, defende o Charizard nas rodas de conversa e acredita que já está na hora de Bowser, o melhor vilão de todos os tempos, ter o seu próprio jogo.

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