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Perfil: Laharl, o príncipe do submundo

O protagonista do primeiro Disgaea ajudou a dar o tom da franquia e deixou sua marca como um de seus personagens mais memoráveis.



Quem dá uma primeira olhada no pequeno Laharl dificilmente suspeita de sua grandeza e papel na ordem cósmica do universo. Sua aparência pouco intimidadora não dá quaisquer pistas de se tratar de um sério aspirante a Overlord, ou seja, ao trono de tirano-maior do reino demoníaco Netherworld. O jovem príncipe tem uma aparência que pouco combina com o cargo: apesar de contar com mais de 1300 anos de vida, trata-se de um jovem garoto magrelo e maltrapilho, vestindo apenas tênis, bermuda, pulseiras largas demais para seus braços finos e um cachecol rasgado esvoaçante.

Suas marcas registradas são as longas “antenas” de seu cabelo, que reagem de acordo com seu estado emocional, e a risada megalomaníaca, que demarca suas demonstrações constantes de triunfo. Normalmente sendo visto ao lado da vassala manipuladora Etna, da aprendiz de anjo Flonne e de uma gloriosa horda de Prinnies — fantasmas de humanos que pagam penitência por seus pecados em vida na forma de servos-pinguins —, Laharl e sua turma se tornaram mascotes da franquia Disgaea. Conheçamos um pouco mais sobre essa importante figura, sua trajetória, habilidades e aparições.


O projeto de tirano

A estreia de Laharl se dá no papel de protagonista do primeiro jogo da série, Disgaea: Hour of Darkness (PS2), versão remasterizada posteriormente em Disgaea DS e Disgaea 1 Complete (Switch). Somos apresentados a um mundo dividido em três reinos: Celestia (onde habitam os anjos, seres definidos como pura bondade), Netherworld (habitado pelos demônios, que se orgulham de serem avatares da maldade) e Earth (a terra dos humanos, que possuem tanto maldade quanto bondade em seus corações). Despertando abruptamente de um sono profundo de dois anos, o filho do soberano da dimensão infernal do Netherworld descobre duas más notícias em uma tacada só: seu pai morrera já havia algum tempo, e seus vassalos demoníacos abandonaram o castelo e atualmente encontram-se prestes a guerrear pelo trono.

A portadora dessas novidades funestas é Etna, vassala fiel do falecido Overlord, King Krichevskoy. Como herdeiro por direito ao cargo de Overlord, Laharl teria que correr contra o tempo perdido e conter a crise no Netherworld, conquistando respeito da única forma que os demônios conseguem entender: com o uso da força bruta. Assim se inicia a história do primeiro Disgaea, e a aliança entre Laharl e Etna para reclamar o trono que lhe é de direito.
O problema é que faltam ao jovem príncipe quaisquer das qualidades que garantiram ao antigo Overlord sua legião de fiéis e defensores. Percebido pelos vassalos de Krichevskoy como uma criança mimada e birrenta, mesmo mediante o desenvolvimento de seu grande poder oculto o jovem Laharl ainda teria que penar bastante para se provar digno do trono — e, nesse meio tempo, não tinha como contar com o apoio dos demônios mais fortes, que certamente não o viam como um herdeiro digno.


Nem mesmo Etna foge a regra, já que logo fica claro ao jogador que ela se reportava a um desses vassalos traidores, o qual possuía controle sobre ela através de chantagem. Ao longo da história, descobrimos que Etna na verdade possui uma admiração fiel e verdadeira a Krichevskoy, que escolhera Laharl como seu herdeiro. No entanto, ela tem dificuldades em ver no príncipe o potencial do antigo rei.


Um dos motivos para tanto é a origem do garoto, que na verdade é apenas meio-demônio, tendo nascido do amor de Krichevskoy por uma humana. Tendo sido criado por uma humana bondosa, Laharl era visto como fraco e mimado pelos súditos do reino. Soma-se a isso o fato de que ele logo contraiu uma doença gravíssima, a qual exigia o uso de um feitiço muito poderoso para ser revertida.

A mãe de Laharl acabou sacrificando a própria vida na invocação desse encantamento, visando garantir a sobrevivência do filho. Sentindo-se abandonado, o garoto passou a culpar a bondade de sua mãe por todo seu sofrimento, e concluiu que deveria se espelhar na imagem imponente do pai demoníaco como forma de não ter que lidar mais com tais emoções. Laharl finge o tempo todo ser um demônio dos mais implacáveis, na tentativa de ocultar do mundo (e de si mesmo) as dores de seu lado humano.


O grande rival e a chegada do anjo

Inicialmente entendendo que a única forma de se provar digno do trono é buscando a força bruta e cultivando a pura maldade em seu coração, Laharl inicia sua campanha política caçando alguns adversários de poder menos expressivo. É o caso de Vyers, um demônio egocêntrico e completamente medíocre que, segundo investigações, trazia aspirações ao trono.

Auto-intitulando-se como o “lendário Dark Adonis” e pregando uma imagem inflada e totalmente fora de si, Vyers acaba irritando Laharl que, em um momento clássico de quebra da quarta parede, joga umas verdades para o adversário e se recusa a chamá-lo por qualquer um dos dois nomes, já que ele não passa de um mid boss, ou seja, um chefe de menor poder encontrado ao longo do jogo  O nome oficial do personagem muda oficialmente para Mid-Boss, e assim permanece por todas suas aparições futuras, ao contragosto do pobre Vyers que nada pode fazer a respeito.

Porém, se Mid-Boss ou outros demônios menores, como o ganancioso Hoggmeiser, pouco representam ameaça ao crescimento de Laharl, ele logo encontra pelo caminho um desafio inesperado: a chegada da “trainee de anjo” Flonne, enviada pelo serafim Lamington para assassinar Krichevskoy (as notícias correm devagar quando se tem milhares de anos).

Embora nas cenas de comédia do jogo Laharl declare que seu único ponto fraco são “corpos sexy” (sabe como é, humor japonês sobre a puberdade — essa idade de 1313 anos é difícil mesmo!), a anja Flonne logo percebe que na verdade o que mais assusta o príncipe é pensar que existe nele algo da bondade de sua mãe. Determinada a provar que mesmo os demônios são capazes de sentir amor, Flonne não se incomoda em se tornar vassala do príncipe a ajudá-lo em sua campanha pelo trono.

Mesmo com Laharl se gabando da pura maldade que há nele, como por exemplo ficando aliviado quando entra em contato com o amuleto divino de Flonne e sente sua mão queimar, ao longo de sua jornada e na interação com suas duas aliadas o jovem príncipe vai descobrindo mais sobre si mesmo e sobre a verdadeira força de King Krichevskoy. Afinal de contas, ele foi um líder grandioso que conquistou o Netherworld com a força bruta e, mesmo assim, foi capaz de amar uma humana e aceitar toda a bondade em seu coração.


Ao longo de sua campanha, Laharl acaba conhecendo os humanos Gordon e Jennifer, vindos da Terra, enfrentando ataques tanto de humanos quanto dos anjos e descobrindo mais sobre o que significa a divisão entre os mundos.

Ao longo de toda a trajetória, são vários os combates contra o infame Mid-Boss, que sempre acaba envolvido em conflitos que nada tem a ver com ele — e apanhando da turma de Laharl sem piedade. Sob a tutela de Etna e Flonne, o príncipe se declara detentor do trono e logo reconhece que seu dever não é apenas o de garantir que ninguém o derrote, mas cuidar de seus súditos, como Krichevskoy fazia.



No jogo de estreia, é possível ao jogador obter diversos finais alternativos, os quais geralmente têm a ver com a decisão de Laharl frente a poupar ou não seus oponentes. Caso opte por assassinar alguns dos opositores-chave do príncipe, o jogo pode terminar mais cedo com um “final ruim”. Outros finais alternativos incluem uma raríssima demonstração de amor, em que o príncipe faz uso de uma magia semelhante à utilizada por sua mãe para salvar a vida de um de seus companheiros.

O final tornado canônico pelas aparições subsequentes do personagem é o final bom do jogo, obtido quando se termina um ciclo completo da história sem realizar nenhum Ally Kill, ou seja, matar um aliado em “fogo amigo”, algo que pode acontecer — propositalmente ou não — como parte do grinding, com o uso das habilidades explosivas dos Prinnies ou com a detonação de Geopanels, por exemplo. Ou seja, o final verdadeiro do primeiro Disgaea traz um Laharl que se concilia com sua origem apenas meio-demoníaca, e apresenta as consequências disso para seu futuro reinado.

O herdeiro do trono

Os finais alternativos, modos de história paralelos e as aparições futuras do personagem e de seus arredores em outros jogos da produtora Nippon Ichi ajudaram a pintar uma figura mais completa de Laharl, e deram pistas valiosas a respeito dos eventos transcorridos no primeiro Disgaea. Dentre as teorias mais interessantes, está aquela que dá conta de que a real identidade do rival bufão e eternamente desrespeitado do príncipe, Mid-Boss, é a de ninguém menos que seu próprio pai, Krichevskoy.


Embora pareça estar sempre envolvido de maneira indireta e fortuita na crise dos três reinos narrada pelo primeiro jogo da série, são vários os momentos que indicam a possibilidade de que Vyers seja apenas um "disfarce civil" obtido por Krichevskoy após sua aparente morte.

Os motivos reais que o levariam a adotar esse rumo de ação variam, mas é fato que o infame Mid-Boss atua durante todo o game de estreia de Laharl no sentido de fazer a interface entre Celestia, Earth e Netherworld. Talvez por ser justamente o primeiro Overlord em muito tempo diposto a amar uma humana e saber mais sobre os sentimentos tidos como não-demoníacos, Vyers tenha manipulado os eventos no sentido de arranjar o fatídico encontro entre Laharl e Flonne, buscando a seu próprio modo ajudar o herdeiro do trono a sucedê-lo em sua missão de pacificação e integração das três dimensões.



Em Disgaea D2 (PS3), na sequência direta dos eventos do primeiro Disgaea, temos o retorno do trio Laharl, Etna e Flonne, dessa vez trabalhando para estabelecer a imagem de Laharl como o novo Overlord, em meio a uma crise decorrente da aproximação entre os três reinos. O trio aparece com um visual remodelado, sendo que Laharl se apresenta mais maduro tanto em aparência quanto em personalidade (ainda que mantenha muito de sua conduta explosiva e megalomaníaca de sempre!)

Tendo sido o protagonista do primeiro jogo da série de maior sucesso da NIS, Laharl teve sua participação garantida em diversos outros games da produtora — a maioria dos quais, infelizmente, permanece inédita nos consoles da Big-N. Em suas aparições em Makai Kingdom (PS2/PSP), Phantom Brave (PS2/PSP/PC), Disgaea 2 (PS2/PSP/PC), Disgaea 3 (PS3/PS Vita), Disgaea 4 (PS3/PS Vita) e Disgaea 5 (PS4/PC/Switch), Laharl costuma quebrar a quarta parede e, de forma ciumenta, desafiar os Overlords dos Netherworlds paralelos em nome de mais tempo de tela.


Em todas suas aparições, o carismático líder demoníaco traz um estilo de batalha típico de classes Warrior, com alta aptitude para armas de combate corpo-a-corpo (lanças, punhos, machados e, é claro, as poderosíssimas espadas). Suas técnicas tradicionais de combate envolvem poderosos ataques de área, sendo o mais grandioso deles o Meteor Impact, no qual o pequeno tirano surfa sobre um meteoro flamejante antes de detonar seus adversários incautos.



Realmente história e habilidades dignas do herdeiro supremo do trono!

Giba Hoffmann é gamer pra todo jogo, mas tem predileção por títulos retrô e um bom e velho JRPG. Sonic, Donkey Kong Country, Ratchet & Clank, Final Fantasy e Disgaea são algumas das séries que formaram a paixão pelos games, desde que ganhou seu Mega Drive, muitos (nem tantos!) anos atrás. Além de escrever para o Nintendo Blast, pode ser encontrado tagarelando no Plano Crítico e no Aventurine Brasil.

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