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Análise: Treasure Stack (Switch) é um puzzle de respeito, mas peca em alguns pontos básicos

Nesse nindie inspirado em Wario's Woods, o baú do tesouro é que enterra você.


Título de estreia da produtora norte-americana PIXELAKES, Treasure Stack (Switch) nos foi revelado inicialmente no Nindies Showcase de agosto do ano passado. Com sua apresentação visual charmosa, o jogo despertou uma curiosidade específica nos fãs dos puzzles da Big N, já que o modelo da jogabilidade, que traz interessantes elementos de plataforma para o estilo, parecia lembrar em muito o clássico Wario's Woods (NES/SNES).

Seria o jogo uma espécie de sucessor espiritual das desventuras de Toad na floresta amaldiçoada de Wario? Bem... sim e não!


As chaves do sucesso

Nem só de Tetris vive o homem. A qualidade e longevidade do icônico puzzle russo comprovaram que uma injeção de jogabilidade acelerada e raciocínio rápido era capaz de transformar um gênero até então marcado por jogos cerebrais e parados demais em experiências com agitação e emoções à altura de qualquer bom game de ação.

Desde então, a busca por mecânicas inventivas para aperfeiçoar a fórmula não deixou de produzir resultados interessantes: de Puyo Puyo a Dr. Mario, passando por Columns, chegamos hoje às centenas de opções do estilo "puzzle-RPG" que povoam os celulares e tablets. Mas o bom e velho "puzzle sozinho" tem um apelo como nenhum outro: tem vezes em que queremos apenas empilhar blocos da mesma cor e quase enfartar quando o tempo começa a correr rápido e a tela começa a encher desesperadoramente.



Um bom puzzle costuma ser aquele que consegue construir uma mecânica que é simples e acessível para a jogatina casual, ao mesmo tempo em que suporta desafio o suficiente para ser extremamente difícil de se masterizar. Ao buscar "reinventar a roda" em cima do bom e velho "puzzle de bloquinhos caindo", um dos segredos dos jogos que tiveram sucesso foi não sacrificar a simplicidade e o charme imediatos.

Treasure Stack traz um modelo de jogo que consegue isso com sucesso. Diferenciando-se do esquema habitual do gênero, ao invés de mover e rotacionar diretamente os bloquinhos em queda, o jogador controla um personagem que interage com eles e, assim, os manipula apenas indiretamente.



É esse híbrido de puzzle e plataforma faz com que o jogo evoque principalmente Wario's Woods (NES/SNES) como inspiração. E as semelhanças não param por aí: o esquema de pontuação e eliminação dos bloquinhos segue um modelo bastante semelhante ao visto na aventura de Toad e Wario. Ao invés de apenas enfileirar vários bloquinhos do mesmo gênero, a proposta é combinar sequências de baús com as chaves de sua respectiva cor.

Para tanto, o personagem controlável conta com um arsenal bastante enxuto de movimentos: andar, pular, agarrar uma pilha de bloquinhos e saltar por cima dela. Além disso, nossos "tesoureiros" contam com um valioso acessório: o grapple, gancho retrátil que puxa rapidamente o bloco atualmente suspenso no ar, faz as vezes da famosa aceleração de queda no Tetris, e adiciona uma nova camada estratégica ao jogo. Além disso, alguns power-ups complementam o esquema: a espada "corta" horizontalmente todos os blocos de uma linha, o cálice de pedra esmaga uma coluna verticalmente e a bomba, como era de se esperar, causa uma explosão que elimina vários dos bloquinhos em torno de si.


Conforme é tradicional, um marcador sinaliza a combinação seguinte, possibilitando-nos pensar sempre um passo à frente. O conjunto forma, a início, uma experiência aparentemente simples de se jogar, e certamente difícil de se masterizar. Vejamos se é isso mesmo...

Ganchos & Baús

Equilibrando bem as adições complexas às suas mecânicas do tipo "senta e joga", o sistema do game cativa logo de cara — em especial com a ajuda de um estilo gráfico simplista porém inegavelmente charmoso. Os controles são bem responsivos e intuitivos, e o mesmo pode ser dito a respeito das mecânicas de jogo. Aos poucos, o jogador vai se habituando com as estratégias específicas desse sistema — o que quer dizer que não demorará para que se perceba que, por detrás da aparência de simplicidade, um verdadeiro monstro de dificuldade nos espreita.

Dentre pulos, "enganchadas" e reordenação caótica dos meus baús e chaves, foi ficando claro para mim que apenas o agrupamento provisório dos baús de acordo com as cores não seria o suficiente para se sair muito bem no desafio. Isso porque o game lança mão de dois sistemas para incentivar a agilidade e punir o jogador muito cuidadoso: o multiplicador de pontos e os blocos materializantes.


No canto superior direito da coluna de jogo, uma pequena barra indica o multiplicador de pontos, que aumenta conforme o jogador abre os baús e afeta a quantidade de pontos recebida. Ou seja, quanto mais combos forem feitos proximamente, maior será o milagre de multiplicação das moedinhas. Trata-se de uma forma eficiente de evitar incentivar demais o acúmulo desenfreado de baús visando realizar combos complexos a la Puyo Puyo, garantindo que o jogo recompense uma jogabilidade mais ágil condizente com suas mecânicas. Até aí, tudo bem.

Já ao lado esquerdo do tabuleiro, uma barra de tensão vai subindo conforme o jogador não consegue completar combos. A depender do momento da partida, o transbordamento dessa coluna pode gerar a materialização de temidos bloquinhos de pedra ao longo de todas as colunas do jogo, isolando totalmente os baús abaixo da linha. Se em níveis mais baixos isso não representa grande risco, em médio prazo essa mecânica acaba sendo excessivamente punitiva ao praticamente impossibilitar o jogador de construir uma estratégia mais complexa do que uma única linha de baús. Para eliminar os blocos, basta que eles fiquem adjacentes a baús que se abrem — mas a liberação de uma linha inteira significa empilhar colunas duplas ou triplas de blocos, o que pode atravancar todo o progresso.

Esta mecânica dos bloquinhos materializáveis atua como o maior empecilho ao fluxo do jogo, ainda mais quando combinada a dois outros fatores: a configuração das combinações de bloquinhos e a tradicional aceleração do jogo ao longo do tempo. Como poderia ser de se imaginar, a proporção de baús é muito superior à de chaves. No entanto, não é raro que as poucas chaves que apareçam venham ou em dupla com outra chave, ou combinada já com seu respectivo baú. Duas ocorrências dessas são o suficiente para garantir uma punição com os temidos blocos de cimento e mudar os rumos da partida.

Não que importe muito: no final das contas, as partidas tendem a ceder ao completo caos em poucos segundos, a partir da aceleração repentina do jogo. Seguindo apenas o tempo de cada jogo (e não a altura de colunas não eliminadas na torre, por exemplo), a aceleração teve um fator levemente anticlimático em minha experiência de jogo: todas as vezes em que me encontrava em uma ótima partida, em pouquíssimos segundos a situação se revertia em desastre por conta do aumento de velocidade dos bloquinhos.

"Em Treasure Stack, o baú do tesouro é que enterra você!"

Essa combinação de mecânicas faz com que a maioria das partidas seja relativamente acelerada e curta — uma boa medida para um puzzle, ainda que a apresentação inventiva do jogo pudesse sugerir modalidades diferentes para jogatinas mais alongadas, por exemplo. A ausência de uma maior variedade de power-ups também parece uma oportunidade perdida, já que os poucos apresentados adicionam diversidade e contrabalanceiam bem as mecânicas mais punitivas.

Esses fatores acabam se complementando negativamente em torno da principal limitação de Treasure Stack: a repetitividade geral. Claro que o gênero por si só costuma girar em torno de um certo nível de repetição. Porém, o problema aqui é a forma truncada como o jogo explora as próprias mecânicas. Dispondo de três modos de jogo principais, o jogador pode optar por partidas Solo, Multiplayer Local e Multiplayer Online. Fica claro que a ênfase dos desenvolvedores foi na jogatina multiplayer: não apenas o jogo conta com um sistema que incentiva robustamente a competitividade, como uma opção sempre muito bem-vinda de cross-play entre as três versões do jogo garante uma maior flexibilidade e variedade para o matchmaking.

Com a espera de oponentes variando bastante de dia para dia (mas em geral ficando em torno de 1 a 2 minutos por partida), o modo versus online tem potencial para os jogadores competidores tirarem bom proveito da empilhação desenfreada de tesouros. No entanto, as partidas ainda acabam sendo uma experiência um tanto "seca" para os não-aficcionados pelo gênero. Seguindo um modelo de "survival", a partida em dois jogadores sempre tem a duração da partida do pior dos dois jogadores: jogar com alguém com habilidade muito abaixo acaba sendo frequentemente algo anticlimático. Para quem vence, os incentivos são prêmios exclusivos de temporada: skins para o personagem e para seu grapple. 

Cada partida se dá sempre no mesmo cenário, com a mesma música, e te remete às mesmas telas básicas de seleção de personagem (uma melhora obtida com o patch mais recente, após alguns dias com uma interface extremamente frustrante que mandava o jogador de volta à tela inicial do jogo ao final de cada encontro), o que no geral dá ares monótonos para a experiência.

Para o jogador que deseja treinar melhor suas habilidades para fazer frente aos craques que já pipocam pelo modo online, o modo Solo pareceria em teoria uma boa pedida. Os pontos no modo single-player, ao contrário do multiplayer, vão sendo acumulados em uma barra de experiência que, a cada vez completa, desbloqueia uma skin nova para personagem ou grapple. No entanto, mais uma vez nos deparamos com uma certa monotonia: um único e mesmo nível de dificuldade se repete, no mesmo cenário, da mesma forma. Temos um ciclo que parece forçadamente aumentar a vida útil do jogo: as partidas acabam repentinamente de forma forçada por conta da aceleração do jogo, e o jogador é remetido a começar tudo de novo para obter um melhor resultado e quem sabe ganhar mais pontos para encher a barra mais rapidamente. 

Porém,  isso acaba enfatizando a repetitividade: ao invés de conseguir largas somas de uma só vez, o jogo incentiva partidas rápidas também no modo single, o que novamente deve desagradar os que não estão em busca de uma experiência de puzzle muito complexa ou competitiva. Não há gradação ou sequer variedade nos desafios: o próprio Wario's Woods, por exemplo, trazia uma "campanha" com dificuldade crescente que possibilitava ao jogador sentir de forma muito mais marcada sua própria progressão. As mecânicas de coleção de skins seriam viciantes por si só caso as partidas fossem mais heterogêneas entre si, o que exigiria maior variabilidade nos desafios. Cenários, músicas e power-ups diferentes, assim como skins com efeitos in-game também não fariam mal a ninguém.


Assim, o multiplayer local acaba sendo o grande trunfo do jogo: com a jogatina de sofá comportando até 4 jogadores, o survival frenético é uma boa pedida para um puzzle mais intenso. O único defeito é que, assim como no modo online, não se ganha experiência e desbloqueia personagens através desses modos — no caso do multiplayer local nem ao menos se ganha os prêmios de temporada, o que faz com que o melhor modo do jogo seja também o que não recompensa o jogador com qualquer senso de progressão que seja.



Com duas modalidades multiplayer competentes e um single player aceitável, porém repetitivo demais, Treasure Stack acaba ficando aquém do próprio potencial. Certamente o jogo cumpre nosso questio para um bom puzzle: é fácil de se pegar para jogar e difícil de se masterizar. Porém, a tendência à repetitividade torna esses dois momentos mais atraentes sobretudo aos aficcionados pelo gênero: jogando um pouco, o casual deverá ter a sensação que já viu tudo, em busca de masterização, o entusiasta poderá constatar a pouca variedade do título em termos de conteúdo.

A impressão que temos é a de um jogo ainda em estado muito básico de seu desenvolvimento. Uma campanha solo com desafios gradativos customizados, a adição de um senso de progressão e desbloqueáveis regulares nos modos multiplayer e uma maior variedade de cenários e músicas seriam incrementos básicos que certamente ficariam mais à altura da visão do projeto. Como está atualmente, o jogo acaba sendo uma boa pedida apenas para os entusiastas do gênero em busca de algo diferente.

Prós

  • Mecânicas inventivas renovam a fórmula tradicional do puzzle de bloquinhos com elementos de plataforma;
  • Jogabilidade intensa e acelerada bem complementada por controles responsivos;
  • Multiplayer online cross-platform;
  • Multiplayer local traz um desafio intenso para os entusiastas;
  • Apresentação gráfica charmosa.

Contras

  • Ausência de desafios customizados no modo Solo;
  • Falta de variedade de cenários e música torna a experiência monótona nessas áreas;
  • Colecionáveis restritos ao modo Solo e exclusivamente cosméticos;
  • Mecânicas punitivas e pouco flexíveis aumentam o senso de repetitividade.
Treasure Stack — Switch/XBO/PC — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Switch
Análise produzida com cópia digital cedida pela PIXELAKES
Giba Hoffmann é gamer pra todo jogo, mas tem predileção por títulos retrô e um bom e velho JRPG. Sonic, Donkey Kong Country, Ratchet & Clank, Final Fantasy e Disgaea são algumas das séries que formaram a paixão pelos games, desde que ganhou seu Mega Drive, muitos (nem tantos!) anos atrás. Além de escrever para o Nintendo Blast, pode ser encontrado tagarelando no Plano Crítico e no Aventurine Brasil.

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