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Análise: Collection of Mana traz para o Switch três clássicos dos jogos de ação e RPG

Dois anos depois de desembarcar no Japão, a coleção chega ao Ocidente entregando a qualidade indiscutível da trilogia Mana original e nada mais.


Collection of Mana chega ao Nintendo Switch no Ocidente dois anos depois de agraciar os fãs da série Mana no Japão. É uma coleção que tem um sabor todo especial: conta com um dos melhores jogos do Game Boy, um dos melhores do Super Nintendo e um clássico cult que ganha sua primeira localização oficial no lado de cá do planeta.


Pode parecer bobagem, mas para os fãs veteranos, que sempre quiseram jogar essa pérola escondida do console 16-bit da Nintendo, essa adição faz este lançamento ganhar proporções históricas. No entanto, apesar da qualidade indiscutível dos três títulos disponíveis, alguns detalhes importantes impedem que o pacote brilhe como deveria.

Uma mistura que deu certo

Imagine o ano de 1991: a franquia Final Fantasy já era um enorme sucesso, com três jogos lançados no Famicom. The Legend of Zelda também fazia a cabeça da garotada, sempre figurando nas listas dos melhores de NES. A Square, que de boba não tinha nada, teve a brilhante ideia de juntar os aspectos mais marcantes das duas séries, criando o que viria a ser um spin-off de Final Fantasy e, posteriormente, uma franquia duradoura e cultuada. Foi o nascimento da série Mana.

Conhecida no Japão como Seiken Densetsu, a série teve várias continuações em diferentes plataformas. Mas não dá para negar que os três primeiros foram os mais marcantes e ainda são os mais lembrados — mesmo passado tanto tempo e com a famosa tradução feita por fãs para a terceira parte. São exatamente estes três títulos que marcam presença na coletânea lançada agora pela Square Enix. O que é ótimo, mas tem suas ressalvas. Então vamos por partes!

Outro tipo de fantasia

O primeiro game a aparecer no menu principal da coleção é Final Fantasy Adventure, que apesar do nome americano não aparentar ligação com Mana, no original em japonês a conexão é clara: o jogo se chama Seiken Densetsu: Final Fantasy Gaiden no Oriente. Ou seja, tudo começou com um spin-off de Final Fantasy, no qual tínhamos uma mistura de elementos clássicos de títulos mais voltados para a ação, como The Legend of Zelda: a Link to the Past, com os próprios RPG's da Square.

Quando foi lançado, Final Fantasy Adventure era uma aventura memorável, considerada por muitos como um dos melhores cartuchos do Game Boy. O jogo conta com a perspectiva superior, o mapa em quadrantes e a liberdade e ação simples que marcaram a famosa franquia da Nintendo — mas incorporando evolução do personagem e um enredo mais rico. Apesar de parecer Zelda, falta-lhe o charme.


Final Fantasy Adventure levou o estilo Zelda para o portátil da Nintendo dois anos antes de Link's Awakening ser lançado. Era extremamente ambicioso para a época. Entretanto, infelizmente, o primeiro Mana envelheceu muito mal, e derrotar o Dark Lord em 2019 é bem mais exigente para o jogador acostumado com os padrões atuais. O visual simplório e os comandos truncados exigem muita paciência e acabam atrapalhando um pouco a diversão. Ainda assim, é um exemplo interessante da versatilidade do Game Boy e um deleite para os curiosos.

O segredo do sucesso

Antes de mais nada, algo precisa ser dito: Secret of Mana é um clássico indiscutível do Super Nintendo, mas está longe de ser perfeito. É intrincado, com mecânicas confusas, tem um combate impreciso e exige muito grind, tanto para os personagens como para as limitadas armas e magias. Diferente dos títulos da série Zelda, que entrega combates bem mais simples e diretos, onde podemos sentir o ataque encaixando sem problema, aqui os golpes são bem menos responsivos. Tudo é mais cadenciado e dependente de elementos como timing e estatísticas.


Dito isso, Secret of Mana ainda é fantástico! É difícil de explicar. Mesmo com todos os defeitos, é uma experiência deliciosa de explorar, desvendando todas as suas nuances desajeitadas. Na época de seu lançamento, aprender suas mecânicas era uma questão de tentativa e erro e um bocado de sorte. Ainda bem que hoje temos uma infinidade de guias para nos ajudar nesse processo.

Em Secret of Mana, um garoto (o herói) liberta, inadvertidamente, a lendária Mana Sword de uma pedra — e com ela uma porção de monstros se espalham pelo mundo. Para consertar o estrago, o menino conta com a ajuda de uma garota e um duende (Sprite). O trio de protagonistas sai em uma fantástica jornada para energizar a lendária espada e combater o feiticeiro Thanatos.


A aventura até lembra, a princípio, The Legend of Zelda: a Link to the Past. A visão também é superior e exploramos um mapa separado em quadrantes — embora aqui não tenhamos acesso constante ao mapa-múndi, então prepare-se para se perder bastante. A direção de arte e a trilha sonora são algumas das melhores que já deram as caras no velho console 16-bit da Nintendo. E continuam estonteantes até hoje, com sprites cheios de charme e cenários super coloridos e vibrantes.

O game pode ser aproveitado tanto em modo solo como em co-op. Solo, o jogador alterna entre os três personagens ao apertar o botão Select, enquanto os outros personagens são controlados pela IA. Para melhorar os combates, pode-se configurar que tipo de comportamento cada personagem vai ter quando for controlado pela inteligência artificial do jogo. Apesar dos defeitos, a mistura inusitada de Secret of Mana funciona, é um clássico que marcou época e está mais lindo do que nunca no Switch.

Seiken Densetsu 3: parecia impossível, mas aconteceu

Seiken Densetsu 3 chegou ao Super Nintendo em setembro de 1995 no Japão, já no fim do ciclo do console. Naquela altura, os holofotes estavam todos voltados para as máquinas da nova geração, e o mercado Ocidental se preparava para receber o PlayStation, o SEGA Saturn e o Nintendo 64. Para piorar, o terceiro jogo da série vinha abarrotado de textos em japonês, e sua tradução para o Inglês exigiria memória extra nos cartuchos. Neste cenário, a Square acabou desistindo de lançá-lo fora do território nipônico.

Exatamente por isso o lançamento de Seiken Densetsu 3 — agora chamado de Trials of Mana — quase vinte e cinco anos depois, oficialmente localizado para o Ocidente e com quatro idiomas disponíveis (inglês, francês, alemão e espanhol), é um verdadeiro presente para os fãs da franquia. É bem verdade que uma tradução feita por fãs já rondava os becos escuros da internet há muito tempo, mas agora é oficial e rodando de forma perfeita na telinha do Nintendo Switch. Só é uma pena não haver textos em português.


Mas não se engane, Seiken Densetsu 3 não foi descartado no mercado americano e europeu porque era ruim. Muito pelo contrário, Trials of Mana é uma pérola escondida da era 16-bit. Tem uma estonteante arte em pixels, animações que esbanjam charme e mostram toda a qualidade do console, e uma trilha sonora cativante. Para completar, o jogo melhora praticamente todas as características marcantes de Secret of Mana, introduzindo mais personagens e, consequentemente, mais estratégias de combate. Também conta com uma história mais complexa e diversificada, com vários finais diferentes.

Especialmente o combate e a evolução dos personagens ganharam um tratamento todo especial. O jogador pode customizar as estatísticas a cada nível adquirido — diferentemente de Secret of Mana, em que a evolução era automática. Além disso, os ataques são mais precisos, há um botão de corrida constante e um muito bem-vindo modo automático de batalha foi adicionado para acelerar o processo de grind, que também é necessário aqui.


Apesar de não ser uma continuação direta dos títulos anteriores, a temática da Mana Sword, Mana Tree e dos seres malignos querendo conquistar o poder da Mana, se mantém. O jogador pode selecionar sua party de três personagens a partir de uma lista de seis. Conforme suas escolhas e caminhos percorridos, a história tem leves mudanças e finais diferentes. Cada personagem tem suas motivações e sua linha de história, o que eleva ainda mais o fator replay.

Assim como seu antecessor, o Trials of Mana também tem um modo co-op, permitindo compartilhar uma belíssima aventura de ação e RPG com um amigo ou amiga. É a sequência perfeita para Secret of Mana, com todo o polimento e qualidade que a série sempre mereceu, fechando essa trilogia de forma brilhante.

Décadas de história, mas sem conteúdo extra

Ok, é verdade, a tradução de Seiken Densetsu 3 é um atrativo. Entretanto, é impossível ignorar a ausência total de quaisquer tipos de extras que agreguem valor à Collection of Mana. Não há sequer digitalizações dos manuais de instrução para serem conferidos na tela — contente-se com QR Codes para acessá-los em outro dispositivo. Nem mesmo o famoso mapa que acompanhava o Secret of Mana de Super Nintendo foi digitalizado! E era uma ferramenta muito útil, diga-se de passagem.

O único agrado, além dos formatos de tela e espaços para salvamento instantâneo, é a possibilidade de ouvir as trilhas sonoras dos games no menu principal. É realmente uma pena, a Square Enix perdeu uma ótima chance de agradar seu público fiel com algumas artes conceituais, curiosidades sobre as produções, etc.


A emulação perfeita ficou a cargo do estúdio japonês M2, que é sempre competente. Os games estão lindos na telinha do Switch e funcionam exatamente como lembramos deles. Cada jogo apresenta sua moldura temática e dois tamanhos de tela. Mas o destaque fica para Final Fantasy Adventure, que conta com três filtros diferentes que representam os visuais que remetem ao Game Boy: um mais claro em preto e branco; outro que lembra o visual do Game Boy Color; e o nostálgico — e difícil de enxergar — visual esverdeado clássico.

Por fim, sei que o assunto custo-benefício é muito subjetivo e precisa ser lidado com parcimônia em uma análise. Mas neste caso fica difícil ignorar. Collection of Mana chega ao Switch com um valor bem salgado, principalmente se compararmos com outras coletâneas de jogos da mesma época e que possuem bem mais do que os três exemplares apresentados aqui — SEGA Genesis Classics e Contra Anniversary Collection são bons exemplos. É bem verdade que a qualidade dos três títulos é indiscutível, mas o valor pedido pela Square Enix é bem excessivo.

Um presente para os fãs

Apesar do preço salgado e da falta de extras significativos, é difícil argumentar contra a qualidade e importância dos três clássicos presentes nessa coleção. Em especial os títulos do Super Nintendo, que envelheceram muito bem e contam com trilhas sonoras belíssimas e visuais em pixels que seguem lindos até hoje. Para completar, a tão aguardada localização oficial de Trials of Mana é um verdadeiro presente para os fãs de longa data e para os novatos curiosos. Se você sempre quis experimentar — ou voltar — à série, Collection of Mana é a chance perfeita.

PRÓS

  • Três jogos de qualidade indiscutível;
  • Trilhas sonoras maravilhosas e disponíveis para serem ouvidas no menu da coleção;
  • A localização de Trials of Mana é um presente para os fãs de longa data da série Mana;
  • Os jogos ficam lindos na telinha do Switch e a emulação é excelente.

CONTRAS

  • Com a exceção das trilhas sonoras, não há qualquer outro tipo de extra;
  • Preço pedido por uma coleção com apenas três jogos antigos pode ser um fator impeditivo.
Collection of Mana — Switch — Nota: 8.0
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix

No currículo tem publicidade e jornalismo, mas no coração tem games. É um entusiasta da história dessa indústria infame e um colecionador esporádico. Se quiser conversar sobre a guerra dos consoles e outros assuntos, pode mandar uma mensagem no Twitter para @carloscirne

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