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Análise: Fantasy Strike (Switch) é competente, mas com muito espaço para melhoria

Título estreante interessante, Fantasy Strike traz novidades para o gênero de luta buscando acessibilidade para todos os tipos de jogadores.




Está em busca de um game de luta novo? Fantasy Strike (Switch) é a mais nova promessa do mercado. Criado com apoio através de financiamento coletivo - intitulado como o “Game não pornográfico com maior financiamento no Patreon” -, busca ser um título acessível para novatos, mas complexo e profundo o suficiente para eSports e veteranos do esmaga botão.

Um novo torneio

Fantasy Strike é um game de luta que foge, de certa forma, do padrão de jogar que estamos acostumados. Muito do game bebe nas extensas fontes dos jogos de luta já estabelecidos, mas ao mesmo tempo tenta criar um game democrático e competitivo o suficiente para aparecer em campeonatos. Será que eles conseguiram? Vamos averiguar.

Uma das premissas do título é ser conciso, não possuir nenhum impedimento para que qualquer jogador possa se divertir logo na primeira partida. Os lutadores não possuem qualquer tipo de diferenciação quanto aos controles, assim como em Super Smash Bros. ou o recente Power Rangers: Battle for the Grid (Switch). O desafio é encontrar os personagens cujos ataques e estilo combinem com você e se aperfeiçoar neles. Até aqui não chega a ser uma novidade, é um chamariz para jogadores que não se adequam aos inúmeros comandos de séries como Street Fighter ou Mortal Kombat.


Uma coisa única desse título é que a barra de vida dos personagens se divide em blocos, de cinco até sete. Dependendo do personagem, um único ataque é suficiente para remover um bloco de vida. Essa é a parte que vai dividir águas entre os jogadores, pois os rounds foram reduzidos a apenas alguns golpes, enquanto em outros jogos é preciso mais do que sete acertos por rodada. É possível bloquear, porém se o lutador for atingido três vezes enquanto bloqueia, uma barra de ponto é descontada.

De certa forma é um meio de tornar o game mais dinâmico e único, pois o ritmo e estrutura não acompanham as premissas de outros jogos. A estratégia aqui é similar para qualquer tipo de luta: bater até reduzir os pontos do adversário a zero enquanto sobrevive à batalha. Porém mesmo possuindo rounds mais curtos e intensos, é preciso vencer no mínimo quatro vezes em cada duelo para ganhar a partida.

E essa intensidade constante pode não agradar a todos, pois não funciona como os outros games cujas partidas vão ganhando mais intensidade de forma gradual até chegar em um “clímax” com os ataques especiais e últimos golpes. É como injetar adrenalina diretamente na veia todo o tempo, o problema é que o efeito pode passar rápido.

Isso não significa que essa estrutura é ruim, é uma mecânica diferente que foge ao senso comum dos jogos de luta até o momento, o que causa um estranhamento. Certamente há jogadores que se sentiram contemplados com essa forma de jogo mais intensa.

Fantasia e pancadaria


Enquanto pesquisava sobre o game para fazer essa análise, descobri que o título é uma extensão de um jogo de cartas chamado Yomi, que funciona como um game de luta versão baralho. Essa base é relativamente irrelevante para a jogatina, mas traz uma certeza que o mundo do game é maior do que ele já apresenta.

Temos dez lutadores de início. O elenco inicial foi baseado nos personagens das cartas. A jogabilidade entre eles é um tanto mista, e o balanceamento não chega a ser dos mais felizes. Há quatro categorias de personagens, sendo a dos Zoners a maior; nesta há personagens com ataques que vão desde curta a longa distância, mas a sua base é isolar o adversário com projéteis e ainda conseguir lutar mano a mano.

Nela temos Jaina e Grave, os personagens que aparecem na capa do jogo. Ambos são personagens típicos para iniciar, as escolhas seguras do game. Os dois possuem um moveset amplo e versátil, o que não é o caso de outros jogadores. Já Argagarg e Geiger, também membros da categoria, possuem ataques mais complexos, que irão cair melhor em jogadores que se interessarem pelos personagens.

Já os Rushdown são as duas personagens de curta e média distância. Seus ataques são feitos para finalizar o adversário de forma rápida, porém o problema é que elas possuem as menores barras de vidas, o que torna escolhê-las um risco. Valerie é, de longe, a personagem mais carismática do elenco, se formos comparar ela chega a ser a Mai Shiranui (The King of Fighters) desse game.


Os Grapplers são personagens de curta distância, extremamente lentos e poderosos. Além de possuírem a maior barra de vida. O carro-chefe são seus agarrões que tiram dois pontos de vida. Enquanto Rook, o golem de pedra, é pouco afetado por ataque de pequena e média magnitude e tem ataques que neutralizam ações inimigas, Midori é capaz de se transformar em um dragão verde poderoso. Porém, passar por eles não chega a ser uma dor de cabeça se o jogador estiver com um Zoner, especialmente com Jaina.

E, por fim, temos os Wild Card que, assim como o nome diz, são personagens caixinhas de surpresa. Em comparação com as outras categorias, essa é a com menor uniformidade de todas. Lum, o panda apostador, possui diversos ataques de longa distância que funcionam principalmente como armadilhas. Já DeGrey, lutador que é acompanhado de um fantasma, possui golpes velozes e com bom alcance.

Num geral são personagens diversos, cada um com sua especificidade. O balanceamento, entretanto, é um pouco problemático e confuso. Jogar o Modo Arcade de Fantasy Strike é uma experiência que varia de acordo com o personagem; Jaina é uma personagem completa: apesar de ser uma lutadora para atacar a longa distância, seus ataques de curta cumprem o papel de tirar os pontos do adversário e recuperar distância. Mesmo com as dificuldades de uma partida ou outra, a estratégia de ataque pode ser aplicada a praticamente qualquer batalha. Grave fica um pouco atrás, mas ainda bem acessível.

Já com outros personagens o caminho pode não ser o mesmo, pois o balanceamento se dá de forma quase binária: ao escolher um lutador haverá personagens que serão facilmente derrotados, alguns que serão partidas medianas e uma seleção de adversários que serão bem chatos de derrotar. E isso acaba complicando, pois é fácil empacar em um adversário porque o moveset dele favorece a batalha e geralmente é um único golpe, usado repetidas vezes, que resolve o problema e mesmo assim é capaz que você perca.

Há também outros modos de partidas locais além do Arcade, mas nenhuma novidade. Temos modos de sobrevivência, nos quais o jogador deve batalhar em condições adversas, partidas em duplas e em condições especiais preestabelecidas.

Aconselho aos jogadores acessarem o menu Learn [Aprenda], no qual há vídeos explicando mais sobre os golpes e possíveis combinações para cada um dos personagens. É um cuidado interessante para garantir mais acessibilidade ao jogo.

Carismático e profundo

Mesmo sem um modo história, Fantasy Strike possui uma literatura bem idealizada, todos os personagens têm histórias conexas e o jogador vai se inteirando da literatura do game através da história fragmentada de cada personagem. O problema é que essa estrutura não foi bem aproveitada, pois enquanto alguns personagens possuem um arco bem desenvolvido com começo, meio e fim, outros deixam a desejar.

Rook, DeGrey e Grave têm uma história que agrega ao todo e contam mais do que um arco simples, o que é ótimo, pois apresenta muito do que circunda aquele mundo. Mas torna o desenvolvimento de outros personagens, como Setsuki, muito rasos, pois não têm ideia de completude de um torneio de artes marciais, com as consequências do final daquele personagem. Além de limitar o desenvolvimento da história a personagens específicos.


É apresentado uma terra cheia de injustiças e com um passado interessante, mas o acesso a ela é muito fragmentado. Seria interessante a adição de um modo história para trazer um pano de fundo que falta para entendermos melhor o universo e também ajudar na aproximação dos personagens com os jogadores.

O jogo tem uma aparência cartunesca e colorida, e o estilo cell-shading cai muito bem com o design de personagens. Entretanto os personagens acabam genéricos à primeira vista, provavelmente por ser um título estreante, não há aquele impacto ao ver os personagens, o que pode mudar em entradas futuras do título.

Feito para multiplayer

Apesar de termos focado muito nas partidas locais e em modos single-player, jogar Fantasy Strike online é uma ótima experiência. Mesmo em condições adversas consegui ter partidas que rodavam de forma suave e com o mínimo de interferência de conexão.

E o game ganha outra perspectiva no multiplayer. Foi possível jogar de melhor forma com os personagens e sem sofrer tanto com as vantagens e desvantagens básicas de cada um. Talvez o brilho do jogo esteja todo no modo online. Estou ciente que essa experiência tão suave pode ser consequência do acesso prévio ao jogo, mas é prometido que a qualidade das partidas não sofrerá queda na qualidade após o lançamento neste dia 25.


Acredito que, como foi idealizado para jogar online, o game ainda vá receber correções e atualizações como personagens, novas fases e modos. Mas é uma pena que não haja muito encorajamento para o modo local, pois não há nenhum conteúdo desbloqueável, nem mesmo uma segunda vestimenta dos personagens.

Num todo, é visível que se trata de um game feito com muito zelo e com potencial para se tornar um fenômeno, mas ainda sofre da mesma síndrome dos jogos “incompletos” que vão ganhando mais conteúdo interessante no pós-lançamento. Se o game conseguir manter a qualidade nas partidas e for crescendo com as atualizações, talvez ele consiga seu lugar junto das séries de luta aclamadas pelo público.

Prós

  • Elenco variado;
  • Acessibilidade;
  • Modo single-player amplo;
  • Partidas online de qualidade.

Contras

  • Balanceamento um tanto confuso;
  • Falta de fator replay além do online;
  • História do jogo poderia ter sido melhor aprofundada.
Fantasy Strike - Switch/PC/PS4 - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vladimir Machado
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sirlin Games

Estudande de Letras que gostaria de aprender todas as línguas existentes, mal sabendo lidar com as duas que já fala. Descobriu seu amor pela Nintendo ao conhecer Super Mario 64 e desde então nunca mais largou os cogumelos, karts e rúpias que encontrou em seu caminho.

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