Blast from the Past

Final Fantasy V Advance (GBA) continua sendo a melhor versão do clássico

O quinto episódio da saga ficou inacessível aos fãs ocidentais por bastante tempo, mas agora pode ser apreciado na sua melhor versão.


Além de ter demorado para ser lançado no ocidente, Final Fantasy V ficou entre dois pesos pesados da saga: os excelentes Final Fantasy IV e Final Fantasy VI. Isso acabou ofuscando essa obra de arte da Squaresoft, que só foi ver a luz do sol em terras ocidentais em 1998 no Playstation e em 2006 no Game Boy Advance. Em 2013 os sistemas Android e IOS também viriam a receber uma versão remasterizada do jogo, assim como os PCS em 2015. Apesar dessas remasterizações, os fãs não viram com bons olhos as mudanças no visual do jogo e consideram – até hoje – a versão do GBA como a melhor disponível para se apreciar o jogo.

O quinto elemento

Em 1992 Final Fantasy V chega para o super Famicom no Japão. Novamente, o trio parada dura composto por Hinorubu Sakaguchi (diretor) Yoshitaka Amano (Design de personagens) e Nobuo Uematsu (trilha sonora) lideraram o projeto. Esse foi o primeiro Final Fantasy a usar kanji nos textos, além do hiragana e katakana. Talvez a dificuldade para traduzir esses “dialetos” para o inglês seja uma das razões que adiaram o lançamento do quinto jogo no ocidente (lembro dessa discussão na época do lançamento de Final Fantasy VIII).


Assim como as entradas anteriores da franquia, Final Fantasy V se passa em um mundo de fantasia medieval, e conta a história de um grupo de quatro estranhos que tem seus caminhos cruzados pelas circunstâncias do enredo, levando todos os personagens a perseguir um objetivo único: salvar os cristais de poder. Esses cristais começam a rachar e quebrar, e o vilão por detrás disso se chama Exdeath. O antagonista usa o poder de um reino chamado Void, um lugar de absoluto vazio, e pretende se libertar para dominar e destruir o mundo.

Alguns elementos de jogos passados retornaram a este jogo, como os sistemas de profissão (Final Fantasy III) e o Active Time Battle (Final Fantasy IV). Isso deixou o jogo com um foco maior em estratégia, como seu terceiro capítulo. Combinar as habilidades aprendidas nas diferentes profissões (são vinte e duas no total) acaba fazendo muita diferença na hora de enfrentar um chefe difícil ou uma dungeon complicada. Aliás, o sistema de profissões desse jogo acabou influenciando o sistema do Final Fantasy Tactics, um dos mais divertidos de toda a saga.

A mesma jogabilidade de sempre

A grande novidade do jogo é o sistema de profissões remodelado, que permite que o jogador possa dominar 24 profissões. Inicialmente você começa como "Freelancer", e conforme visita os locais dos cristais, novas profissões são abertas. Novos pontos de experiência, chamados ABR, são introduzidos com o intuito de evoluir cada job, enquanto que os pontos de experiência padrão continuam centrados na evolução dos atributos de cada personagem.

O Active Time Battle também recebeu inovações e agora, pela primeira vez, o jogador consegue acompanhar quando cada personagem pode executar um comando. É a primeira vez também que os personagens podem ser equipados com acessórios, não apenas com equipamentos. Os acessórios, como viraria padrão na saga, proporcionam atributos e status específicos e podem ser usados em qualquer personagem.

Fora essas novidades listadas, o jogo contem o que existe do velho e bom Final Fantasy: batalhas em turno e encontros aleatórios. Final Fantasy V, assim como todos os jogos da saga, depende muito do griding para subir de level e ganhar novas habilidades. O jogo é basicamente batalhar e evoluir, batalhar e evoluir, o que pode se tornar tedioso, principalmente para novos jogadores por, não estarem acostumados com a mecânica. As dungeons até possuem algum puzzle aqui e ali, mas o foco é sobreviver até o chefão, com HP e MP suficiente, além de estar em um nível que possa te garantir uma vitória.

Como sempre, recursos como poções e ether são escassos, o que faz com que o jogador pense bastante antes de se aventurar em uma dungeon. A falta de recursos de cura e recuperação de pontos de magia podem te levar a morte mais facilmente do que os inimigos, pois os encontros aleatórios servem mais para drenar esses recursos e diminuir sua HP, fazendo com que a party chegue fragilizada ao chefe final da dungeon. Por isso é extremamente recomendável “gridar” perto de alguma aldeia para que você possa recarregar suas energias nos Inns.

Resumidamente, o esquema de jogo é o clássico  dos JRPGs dessa época: você tem as cidades/vilas, onde pode descansar e recuperar HP e MP nos Inns, além de poder comprar armas e acessórios e conseguir informações com os moradores, que te guiarão para as próximas etapas do jogo. Fora as cidades, existe o mapa, no qual você pode andar livremente e as dungeons, onde a ação e o desenrolar da história se passam. Os encontros aleatórios que resultam nas batalhas acontecem tanto no mapa quanto nas dungeons, e os inimigos se tornam mais fortes conforme você avança no jogo.

Encontrar inimigos mais fortes significa maiores pontos de experiência e ABP, fazendo com que seus atributos evoluam juntamente com o desenvolvimento da história. Perto do fim do jogo seus personagens vão estar fortes e com habilidades suficientes para poder enfrentar (e derrotar) o último boss do jogo e liberar o final. Esse ciclo é o “core” da experiência de Final Fantasy, e o que move o jogador nessa repetição dungeon-batalha-chefe é o engajamento que o enredo tenta oferecer. Por isso esses jogos são chamados de jogos baseados em narrativa, ao contrário de jogos baseados em gameplay, como a franquia Zelda e Super Mario.

A última quinta fantasia

O jogo começa com uma equipe de cinco personagens. Os quatro iniciais permanecem juntos até o fim do jogo, enquanto que um deles é substituído no decorrer da história.
Logo na cena inicial, no Tycoon Castle, o rei Tycoon parte para o templo do cristal do vento. O vento está diferente, e ele precisa descobrir se algo aconteceu com o cristal. Ele pede para sua filha, Lenna, permanecer no castelo e cuidar do reino enquanto ele não retorna. Nisso, um meteorito cai perto do castelo, e Bartz Klauser, um andarilho solitário, parte em seu chocobo Boko para ver o que aconteceu. No local ele conhece Lenna e Galuf, que são atacados por Goblins. Sentindo o “chamado” do vento, Bartz parte com Lenna para o templo do cristal, em busca do rei.

Galuf, um velho viajante sem passado, diz ter perdido a memória, só se lembrando do seu nome e de sua missão: ir até o templo do cristal do vento. Como o vento simplesmente parou, navegar pelos mares se torna impossível. A não ser por um navio pirata que parece se mover graças a algum poder oculto. Faris Scherwiz, o pirata dono do navio, entra para o grupo depois de descobrir que Lenna e ele possuem algo em comum. Durante a visita aos templos dos cristais, nossos heróis são nomeados guerreiros da luz e incumbidos da missão de salvar o mundo.

Durante a jornada, Lenna explica que existe um cristal para cada elemento natural (terra, fogo, ar, água) e caso todos os cristais sejam destruídos, as forças naturais que regem o planeta vão desaparecer, deixando o planeta inabitável. Por isso os cristais escolheram nossos heróis para evitar este cenário apocalíptico e derrotar o vilão por trás de tudo: Exdeath. Como todo jogo da saga Final Fantasy, a história é cheia de reviravoltas; a novidade aqui é um tom leve de ficção científica, que iria se tornar cada vez mais presente na saga até a sétima e mais famosa entrada da franquia. O clima melodramático que acompanha a história de cada personagem e suas razões também faz parte do enredo, dando aquele ar de emoção para a jornada.

Lá e de volta outra vez

Em 1997 a Squaresoft havia rompido com a Nintendo, levando o Final Fantasy VII, que antes estava previsto para o Nintendo 64, para o Playstation. Isso azedou as relações da empresa com a Big N, sendo que o próprio Hiroshi Yamauchi pediu que a Square nunca mais voltasse para a casa do Mario, proibindo, inclusive, seus executivos de visitarem os escritórios da Nintendo. Tanto que, em 2001, a Square propôs o retorno de Final Fantasy V para um console Nintendo, na ocasião o Game Boy Advance, mas teve sua proposta recusada pela própria Big N.

Somente em 2006 Final Fantasy V Advance foi finalmente aprovado para ser lançado no GBA, sendo a primeira vez que o título viria a luz do dia em terras ocidentais. Final Fantasy IV e V também seriam lançados para o portátil, com uma tradução totalmente revisada. Apesar do visual não ser tão bonito quanto a versão do Super Famicom, muitos bugs da versão original foram consertados, além de terem sido adicionadas também 4 novas profissões, um bestiário, uma dungeon nova e a função de salvamento rápido. O jogo também se livrou de alguns lags da versão original, e por isso é tido pelos fãs como melhor port para se conhecer o jogo.

Em 2011 o jogo chegaria para o Virtual Console do Wii, mas apenas no Japão. A PSN também receberia um port traduzido da versão original do Super Famicom em 2011. Em 2013 a polêmica versão do mobile foi lançada, com o jogo todo refeito do zero. Apesar de apresentar uma nova revisão da tradução, e manter a qualidade da trilha sonora original, o estilo artístico dos gráficos causou polêmica entre os fãs, dividindo a comunidade. Esse mesmo estilo seria usado nos jogos mobile de Final Fantasy VI, além dos ports da Steam.

Final Fantasy V é um jogo indispensável para fãs da saga e de JRPG, e deve ser jogado por muitos motivos. Um deles é a fantástica trilha sonora de Nobuo Uematsu, uma das melhores de toda a franquia. A outra é que sim, Final Fantasy V é um excelente JRPG, com uma excelente história. Apesar de não ter a mesma fama de seu irmão mais novo ou do último jogo da saga no SNES, Final Fantasy V não deixa de ser uma obra prima. E não pode ser deixado de lado em sua biblioteca de grandes jogos.   
Revisão: Vinícius Fernandes

Eternally a JRPG lover, video game addicted, Rock'n'Roll listener and book eater. Fanboy of Final Fantasy, I want to be a writer somehow.

Comentários

Google
Disqus
Facebook