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Análise: Spinch (Switch) e uma fantástica psicodelia em 2D

Aventura da Queen Bee Games se destaca por sua arte e trilha sonora, entregando uma experiência singular e que merece ser conferida por fãs de jogos de plataforma.

Como muitos jogadores nascidos na década de 90, praticamente aprendi a jogar videogame com jogos de plataforma em 2D. Ainda lembro com muito carinho de quando dei meus primeiros pulos em Super Mario World (SNES) ou Sonic The Hedgehog (Multi), e por isso, não importando quanto tempo passe, sempre terei grande apreço por esse gênero e por tudo o que ele engloba.


Portanto, quando soube de Spinch (Switch) e sua proposta de mesclar jogabilidade precisa a la Super Meat Boy (Switch) com uma experiência altamente psicodélica, fiquei bastante interessado. Mas será que a produção da Queen Bee Games entrega uma experiência agradável ou é daqueles títulos que quanto antes esquecidos, melhor? Continue conosco, caro leitor, enquanto descobrimos em nossa análise.

O poder das cores

“Poucas pessoas percebem que as cores estão vivas” — é com esta frase que Spinch se apresenta ao iniciar, e logo se entende o porquê: no universo deste título, as cores são compostas de água e prótons, e o metabolismo vibrante das mesmas requer uma alimentação constante, impulsionada, por sua vez, por uma fome insaciável.

Esse fato fez com que as cores evoluíssem e se tornassem predadores naturais, e, infelizmente para o jogador, uma das presas mais desejadas são justamente os spinchs, protagonistas do game e seres em risco de extinção. De todos os spinchs, os mais jovens são especialmente procurados pelo sabor de sua carne e potencial nutritivo, o que fez com que desenvolvessem, com o tempo, um comportamento agressivo, para se protegerem e cuidarem daqueles que amam.

Embora superficial, esta história serve de pano de fundo ao título e já apresenta um dos pontos importantes do mesmo: as cores aqui são mortais, e caberá ao jogador, no controle de um espécime dos pequenos seres brancos, buscar e recuperar seus amigos enquanto tenta chegar ao final dos estágios, que apresentarão desafios cada vez mais difíceis.

Hora de aventura?

Uma das primeiras coisas que podem ser notadas em Spinch é a sua apresentação: toda a arte do jogo foi desenhada por Jesse Jacobs, premiado ilustrador canadense que trabalhou na série de animação Hora de Aventura (2010-2018) e cuja obra é caracterizada por seus tons vibrantes e múltiplos flertes com a psicodelia e realidades alternativas.

A participação de Jacobs no processo de criação é, de longe, o ponto mais forte e distinto de Spinch. Como é de praxe em jogos de plataforma 2D, em cada estágio novos inimigos, desafios ou cenários são introduzidos, e o traço marcante do quadrinista torna presenciar cada uma dessas novidades, que ora beiram o bizarro, ora o psicodélico, ainda mais interessante.
Ilustração de Jacobs presente em Crawl Space (2017). Fonte: Eye On Design
Sendo bem honesto, o que é apresentado aqui é tão fora da curva que seria até possível recomendar o título com base somente em sua arte; como fã de quadrinhos e animação em geral, confesso que fiquei bem surpreso com a qualidade da obra nesse quesito. 

Quando se põe em conta também a trilha sonora, composta pelo artista canadense Thesis Sahib em Game Boys modificados e outros instrumentos feitos à mão, temos aqui algo especial e que poderia ser definido quase que como uma experiência. Em um cenário em que muitas fórmulas prontas são repetidas à exaustão, portanto, ponto muito positivo para os desenvolvedores.

Jump'n'run

Na teoria, o objetivo aqui é simples: evitar os obstáculos e inimigos e chegar ao fim de cada estágio. Na prática, porém, essa missão não será tão fácil. De modo levemente similar à Super Meat Boy e Celeste (Switch), Spinch é um jogo de plataforma que preza pela dificuldade imposta ao jogador: alguns níveis, em especial os presentes a partir do mundo 3, irão requerer paciência, reflexos rápidos e múltiplas tentativas para serem concluídos.

Com frequência, o sucesso ou não desse tipo de proposta frequentemente repousa na precisão dos comandos e nos recursos dos próprios personagens, e nesse ponto crítico o título da Queen Bee Games felizmente não desaponta. Além do pulo normal — associado aos botões A e B —, o protagonista pode usar livremente um dash/impulso (no meu caso, preferi deixá-lo no botão ZR) e agarrrar/pular em paredes — o famoso wall jump

Dominar todas essas habilidades, em especial o uso do dash, é absolutamente necessário para alcançar o fim do jogo, pois mesmo no primeiro mundo não há moleza para com o jogador. Algo curioso aqui é que não há game over — como não há “vidas”, morrer significa apenas retornar ao último checkpoint alcançado dentro de um estágio, o que ajuda a não jogar o Switch longe depois da décima vez que se erra o pulo final de uma seção.

Aqui cabe aquela que é uma das minhas poucas críticas contudentes ao jogo: embora eu entenda e concorde com o recurso dos checkpoints e de criar o desafio em torno deles, em Spinch algumas vezes tais pontos de marcação ficam muito distantes entre si, fazendo com que certas seções sejam desnecessariamente longas e cruéis.

É algo que não ocorre com tanta frequência, o que torna essa disposição errática ainda mais perceptível quando acontece. A impressão final que fica para o jogador é que algumas seções foram devidamente balanceadas e outras não, pois não faz sentido a disparidade em espaçamentos de checkpoints dentro de uma mesma fase, por exemplo.

Não obstante, é preciso frisar que, mesmo com essa falha, Spinch é um jogo justo em sua combinação de mecânicas e level design. Quando se “morre”, é simplesmente por erro próprio, e não por fases ou proposições insanas; tudo que foi construído aqui é possível de ser vencido com mais ou menos esforço, o que é muito importante em todo jogo de plataforma, mas absolutamente fundamental em títulos que se valham de desafios ao jogador — felizmente, a máxima é cumprida neste título.

De novo e de novo?

Durante as fases, é possível coletar pequenos cubos brancos. Ao reunir cinquenta destes, o jogador recebe instantaneamente uma invencibilidade temporária, que pode ser muito útil em determinadas seções. Além disso, em cada estágio há três spinchs escondidos. Encontrá-los não é necessário para a progressão, mas além de prover um desafio à parte, fornece uma vantagem contra o boss de cada mundo — em um sistema interessante, jovens spinchs encontrados durante as fases são usados como munição no confronto final de cada mapa.

Também é possível encontrar um spinch especial rosa em algumas fases, que habilitará um bonus game idêntico ao visto em The Lion King (SNES), presente na coleção Disney Classic Games: Alladin and The Lion King (Switch), no qual é necessário recolher as frutas os spinchs arremessados. Conseguir uma pontuação acima de 75% neste evento rende uma bomba para ser usada como munição contra o chefe do mundo em questão.

Por tocar nelas, as batalhas contra chefes são um destaque à parte, e seguem o padrão estabelecido por clássicos 2D, onde é necessário decorar padrões e intercalar ataques nas brechas cedidas. Novamente, a arte de Jacobs e toda a sinergia entre os elementos in-game faz com que cada encontro desses seja memorável, e devo dizer que estas acabaram sendo uma das minhas partes favoritas do jogo.

No que tange ao fator replay, por fim, há um cronômetro em cada estágio do jogo, o que significa que, uma vez que o título tenha sido finalizado, é possível jogar novamente cada estágio para bater os próprios recordes — um prato bem servido para speedrunners ou jogadores que gostem de superar seus limites. Porém, é preciso citar que, embora haja um sistema de conquistas in-game, não há leaderboards ou qualquer outro sistema de interação local ou online. O mesmo vale para opções multiplayer. Talvez em uma eventual sequência?

Considerações finais

Quando o assunto é jogos de plataforma 2D, o Nintendo Switch possui uma grande variedade de títulos. Logo, para se destacar, é necessário não somente almejar algo novo, mas também realizar as ambições desejadas e entregar um produto final coeso e de qualidade.

Graças a uma jogabilidade precisa e uma apresentação visual e sonora fantástica, Spinch se projeta como um dos jogos independentes mais interessantes lançados recentemente. Sua dificuldade natural e seus checkpoints inconstantes podem afastar jogadores mais casuais ou impacientes, mas fãs do gênero e apreciadores de um bom desafio devem ao menos conferir esta aventura. Fica, então, a esperança que uma eventual sequência amplie ainda mais as possibilidades deste encantador universo.

Prós

  • Estética e animações fantásticas;
  • Colaborações significativas de Jesse Jacobs e Thesis Sahib elevam o patamar do título, conferindo originalidade e personalidade ao mesmo;
  • Jogabilidade precisa;
  • Dificuldade elevada, porém justa.

Contras

  • Checkpoints inconstantes;
  • Ausência de colecionáveis ou segredos significativos;
  • Ausência de leaderboards ou qualquer recurso co-op local ou online;
  • Bonus Game poderia ser mais criativo;
  • Nível de desafio e ausência de opções relativas ao mesmo podem afastar jogadores mais casuais.
 Spinch - Switch/PC - Nota: 8.0 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Diogo Mendes
Análise produzida com cópia digital gentilmente cedida pela Akupara Games

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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