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Análise: Disney Classic Games: Aladdin and The Lion King (Switch) apresenta dois clássicos para uma nova geração

Coletânea da Disney, produzida pela Digital Eclipse em parceria com a Nighthawk Interactive, traz clássicos da era 16-bit para a geração atual, adicionando novos recursos e uma exclusiva versão final de Aladdin no processo.

Dentre vários aspectos que marcam a atual geração de videogames, pode-se destacar, sem dúvidas, a grande quantidade de remakes e remasterizações disponíveis. Embora a abundância destes seja, em parte, devido à ausência de retrocompatibilidade nos consoles mais vendidos atualmente - vide o caso de Mario Kart 8 Deluxe (Switch) - não é difícil ver o grande apelo de adaptações bem realizadas. Afinal, de um lado, os títulos que passam por tal tratamento recebem uma segunda oportunidade no mercado ao ficarem novamente disponíveis - muitas vezes com melhorias - para uma grande leva de potenciais consumidores. De outro, apela-se para a nostalgia e para as recordações dos jogadores que já são familiares com os mesmos, especialmente no caso de jogos mais antigos.


É principalmente nesta segunda categoria que se encaixa a coletânea Disney Classic Games: Aladdin and The Lion King. Anunciada originalmente em agosto, esta edição traz dois clássicos das gerações 16-bit para todas as plataformas modernas, em uma embalagem que também possui diversos extras bem-vindos. Mas será que a conversão final é bem-sucedida, ou é um daqueles casos em que quanto menos nos lembrarmos melhor? Volte conosco no tempo, caro(a) leitor(a), e confira nossa análise.

Que saudades da minha infância querida...

Ao começar o jogo, uma das primeiras informações que salta aos olhos é a presença da logomarca do estúdio americano Digital Eclipse, especializado no tratamento e conversão de jogos antigos através de sua Eclipse Engine. Para efeito de comparação, algumas das sólidas conversões recentes que passaram pelas mãos da produtora foram Mega Man Legacy Collection (Switch), SNK 40th Anniversary Collection (Switch) e Street Fighter 30th Anniversary Collection (Switch).

O envolvimento do estúdio, portanto, já é o suficiente para colocar de lado quaisquer dúvidas que poderíamos ter em relação à qualidade da emulação no console híbrido da Nintendo. Felizmente, não há problemas de desempenho ou os malfadados bugs devido à conversão: o que temos aqui recria fielmente a experiência que muitos jogadores tiveram na década de 90, quando as versões incluídas foram originalmente lançadas. No entanto, cabe ressaltar que esta fidelidade, por sua vez, traz consigo seus próprios problemas, os quais já serão detalhados.


Embora ambos sejam populares na atual geração de consoles, há uma diferença bem grande entre remakes e remasters. Basicamente, um remake implica que a obra original somente servirá de base e quase tudo no jogo será refeito do zero, em um novo motor gráfico, ou não, para uma nova plataforma - é o caso do recente (e excelente) The Legend of Zelda: Link’s Awakening (Switch). Já um remaster, como o próprio nome entrega, consiste em preservar a obra original, criando novas cópias (masters) e adicionando ou não melhorias no processo. É o caso, por exemplo, de New Super Mario Bros. U Deluxe (Switch) e Hyrule Warriors: Definitive Edition (Switch).

Ambos possuem espaço no mercado se bem executados, afinal títulos recentes muito raramente precisam ser refeitos do zero para figurar em plataformas subsequentes. No caso da simples remasterização de jogos antigos, porém, a história já não é tão simples, pois com o decorrer dos anos presenciamos muitos avanços em termos de level design, progressão, narrativa e tantos outros aspectos nos jogos. Logo, sob esse ângulo, o que era classificado como “bom” na década de 90 pelo público mainstream não necessariamente pode ser percebido da mesma forma em 2019, devido a diversos fatores.


Que os anos já não trazem mais...

Por serem remasterizações, Aladdin e The Lion King são retratos fiéis de sua época, o que para jogadores mais antigos não é necessariamente um problema - durante anos a maioria dos títulos disponíveis envolvia algum tipo da saudosa progressão lateral popularizada com Super Mario Bros. (NES), por exemplo - mas para jogadores mais novos isso pode causar estranheza ou uma impressão indesejada.

Há mais ainda, e explica-se: muitos dos jogos licenciados da era 16-bit eram curtos a ponto de poderem ser completados em uma ou duas horas por jogadores habilidosos. Porém, para compensar a curta duração - muitas vezes resultado de um cronograma estrito - os desenvolvedores aumentavam a dificuldade de fases ou seções selecionadas. Desse modo, o público-alvo provavelmente não conseguiria completá-las de primeira, aumentando artificialmente a longevidade do jogo.


Funcionava na época, mas não há como negar que hoje o infame estágio dos macacos em The Lion King é um pouco obtuso ao exigir uma sequência de pulos perfeitos do jogador, por exemplo. Isso para não falar do puzzle inicial da fase envolvendo os tais mamíferos e o rugido de Simba, que poderia demorar horas ou até mesmo semanas para ser solucionado, posto que a única pista estava no nome da fase.

Cabia ao jogador, então, aprender enquanto jogava. Isso valia tanto para a ausência de tutoriais como para os atalhos e mecânicas mais escondidas, e configurava parte da diversão dos jogos. Ainda assim, são características de uma outra década de desenvolvimento que acabam por datar os dois jogos e suas diversas versões aqui presentes.


Recordar é viver

Como forma de compensar tais mecânicas e torná-las mais palatáveis para a geração atual, temos uma série de bem-vindas adições, como a opção de rewind pelo botão L. Aquele pulo traiçoeiro não saiu como queria? Basta “rebobinar” o jogo em tempo real como uma saudosa fita de vídeo e tentar novamente. Não sabe como passar por determinada parte? É possível assistir o título ser jogado e assumir o controle a qualquer momento - quase um equivalente daquele irmão ou primo mais velho te ensinando como progredir na década de 90. A fluidez desses recursos impressiona e certamente é um grande ponto a favor da coleção. Além disso, é possível salvar e continuar a qualquer momento e mapear os controles como desejado.

No que tange aos jogos em si, estão aqui as versões de Super Nintendo e Mega Drive de The Lion King, além da versão japonesa e a versão de Game Boy - uma grata surpresa. No caso de Aladdin, estão as versões do console da SEGA e portátil, além da oriental. Infelizmente, a versão de Super Nintendo não está presente, provavelmente devido a problemas de licenciamento com a Capcom. Em seu lugar, temos a versão demo, que circulou em eventos na época anterior ao lançamento, e uma exclusiva final cut, que soluciona alguns dos problemas da rendição original, como a câmera e os saltos de dificuldade. Particularmente, acredito que Aladdin envelheceu melhor que The Lion King em diversos aspectos, mas ambos ainda valem a visita em 2019.


Como de praxe em coleções do tipo, é possível escolher entre três tipos de filtros visuais (LCD, TV e monitor), além de ser possível usar bordas ou esticar a imagem, forçando uma resolução 1080p. Durante a maioria do tempo me vi usando as opções básicas (4:3, bordas e sem filtros) tanto para o modo portátil quando o modo TV do Switch, mas sem dúvidas é bom ter a possibilidade de escolha.

Como extras ainda temos a opção de visitar um pequeno museu de cada jogo, contendo entrevistas (em inglês) com os produtores de cada título e algumas peças conceituais; e de acessar o modo soundtrack, onde é possível escutar as principais faixas dos títulos. Destaque especial aqui para a adaptação de Hakuna Matata em The Lion King, e as peças Friend Like Me e Turban Jazz em Aladdin.


Época de ouro

É bem claro que a Disney quis aproveitar o embalo das adaptações em live-action recentes de Aladdin e O Rei Leão para o cinema e capitalizar em cima de seu rico catálogo passado no mundo dos jogos eletrônicos. Nesse sentido, fica a sensação de que há uma oportunidade perdida, no sentido de não recebermos um remake propriamente dito dos dois títulos escolhidos em paralelo às suas versões originais.


Ainda assim, mecânicas ultrapassadas à parte, temos aqui dois clássicos das gerações 16-bit em uma embalagem que certamente demonstra carinho e respeito para com os protagonistas. Nesse ponto, a coleção cumpre o papel que lhe foi confiado, com a única ausência notável sendo a versão de Super Nintendo de Aladdin.

Tendo em vista a flexibilidade oferecida pelo Switch e as bem-vindas adições desta adaptação, como o instant rewind e a final cut de Aladdin, tem-se aqui uma excelente recomendação, especialmente para os jogadores mais saudosistas, e os entusiastas do meio e dos seus marcos históricos. O público mais novo também encontrará divertimento, bastando ter primeiro em mente que aqui estão obras representativas de outra época, cada vez mais distante.

Prós

  • Emulação sem falhas ou bugs;
  • Opção de rewind é bem-vinda e ajuda em momentos traiçoeiros;
  • Watch Mode permite ao jogador assistir e assumir o comando quando desejado;
  • Museu traz entrevistas e insights sobre o processo criativo por trás dos jogos;
  • Final Cut de Aladdin oferece melhorias sobre o jogo original;
  • Achievements na versão de Switch, embora superficiais, aumentam o fator replay.

Contras

  • Jogos são curtos, podendo ser finalizados em uma ou duas horas;
  • Mecânicas ultrapassadas começam a evidenciar a idade dos títulos;
  • Versão de SNES de Aladdin não está presente;
  • Entrevistas não possuem legendas ou dublagem em português.
  Disney Classic Games: Aladdin and The Lion King - Switch/PC/PS4/XBO - Nota: 8.0 
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nighthawk Interactive

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.

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