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Análise: Café Enchanté (Switch) oferece uma fantástica dose de romance, drama, ação e mitologia

Otome game com temática de fantasia é uma excelente pedida para fãs de visual novels

Desde o lançamento de Hakuoki no PSP, a Aksys Games tem sido a principal empresa a lançar visual novels otome para consoles no Ocidente. Esses títulos focados no relacionamento entre uma protagonista feminina e vários pretendentes podem apresentar uma variedade de ambientações. Code: Realize, por exemplo, é focado em um mundo steampunk, enquanto Collar x Malice coloca o jogador na pele de uma policial em meio a uma série de atentados terroristas.

Enquanto a maioria dos títulos da marca Otomate traduzidos pela empresa apresentam uma clara tendência para o mistério ou ação, Café Enchanté à primeira vista pode parecer uma obra bem mais leve com sua proposta de uma protagonista que gerencia um café para não-humanos. No entanto, além desse aspecto, a obra também oferece uma excelente combinação de ação e mitologia conforme a interação da protagonista com os outros mundos revela mais sobre as suas verdadeiras naturezas.

Um café para não humanos

Café Enchanté conta a história de Kotone Awaki, cujo nome pode ser alterado caso o jogador queira. Após a morte de seu amado avô, Souan, a garota herda uma pequena cafeteria a alguns minutos de Tóquio. Cansada do seu trabalho atual, ela tem a oportunidade de assumir o negócio e mudar sua vida.

O que ela não podia contar é que, ao invés de humanos, o lugar atendia na verdade a clientes de outros mundos. Enquanto conferia a loja, ela encontra uma misteriosa porta, de onde saem um rei demônio, um anjo gamer, um garoto-lobo que pega fogo e um dullahan (famoso cavaleiro sem cabeça do folclore irlandês). Cada um com suas particularidades, eles são frequentadores habituais do café que agora está sob a direção da protagonista.

A princípio, a obra tem um tom forte de slice-of-life, conforme a heroína se adapta à nova rotina e prepara a abertura do café Enchanté. Esse momento leve é divertido, mas a obra não entra em detalhes sobre questões mais técnicas do funcionamento da loja, optando por explorar mais os momentos em que é possível conhecer melhor os personagens, que são o verdadeiro charme da obra.

Todos os interesses românticos chamam a atenção. Misyr Rex é um rei demônio que costuma agir de forma bastante exagerada, mas que acaba assumindo uma postura de líder com frequência. Il Fado de Rie é um anjo caído viciado em otome games e que, por conta disso, acaba ficando preso em seu quarto. Ele também tem muito pouco bom senso e acaba sendo muito mimado pelas pessoas à sua volta.

Ignis Carbunculus é uma fera de fogo advinda do mundo de Bestia. Apesar de seu tom um tanto agressivo, ele tem um carinho bastante genuíno por seus amigos e tem um pouco de dificuldade de expressar esse afeto, podendo ser considerado um tsundere. Já Canus Espada é um dullahan advindo de Medio, o mundo das fadas. Gentil e prestativo, ele é querido por várias pessoas na região próxima ao café e usualmente tratado como um esquisitão de capacete. Apesar de não ter uma face visível, ele é bastante expressivo graças às chamas coloridas que sobem pelo seu pescoço.


Além deles, também é possível se relacionar com Rindo Kaoru, um agente de um órgão governamental responsável por lidar com questões que envolvem o contato de humanos com os outros mundos. Ele também frequentava o café e seu papel é monitorar a todos. No entanto, ele parece ter algum problema em relação aos não-humanos.

Vale destacar que Misyr só pode ser selecionado após realizar todas as outras rotas. Além dos interesses românticos, também existe uma gama de personagens secundários interessantes, como um certo cientista louco, a fofa e curiosa rainha das fadas e uma pequena fera marinha. De acordo com a escolha de rota é possível conhecê-los mais a fundo.

Conhecendo os outros mundos por querer

No entanto, como eu disse, o tom mais cotidiano é apenas o início da obra. Conforme a história avança, Kotone tem a chance de conhecer mais a fundo os personagens e os outros mundos dos quais eles fazem parte. Junto com o romance, vem o drama e a revelação de segredos guardados a sete chaves.

Existe uma preocupação muito séria em apresentar e detalhar os outros mundos, que, ao serem comparados com a Terra, revelam conceitos inesperados com implicações importantes para a história. Simplificando, trata-se de um aprendizado de mitologia. Com algumas inspirações em folclores reais, saber mais sobre essas outras realidades inclui reviravoltas que fazem com que a trama não seja apenas um romance simples.

As circunstâncias de cada personagem são de cortar o coração e é interessante ver todo mundo, incluindo a protagonista, se esforçando por um final feliz. De forma geral, o jogo concilia muito bem o romance, as cenas de ação e as reviravoltas que adicionam camadas à compreensão do jogador em relação aos outros mundos, os interesses românticos e personagens secundários.

O mesmo termo é traduzido como Hermit e Birdcage em outros pontos sem nenhum motivo.

Por outro lado, a tradução deixa a desejar. Erros de digitação são bastante frequentes, mas há também frases truncadas e pouco coerentes, inconsistências de termos, entre outros problemas. Como a obra é uma visual novel, o texto é uma parte extremamente importante e a presença desse tipo de problema pode prejudicar muito a experiência, como é o caso neste jogo.

Outro aspecto que chama a atenção é a trilha sonora, cujas composições são de autoria do grupo musical Love Solfege. As cenas mais cotidianas e tranquilas utilizam músicas mais calmas em um estilo lounge que são formas boas de acomodar o jogador na ambientação do café, por exemplo. Já momentos mais sérios contam com músicas tensas que remetem à seriedade do mistério (como A Villain’s Light ou Those Who Will Bring About the End) ou cuja energia se encaixa perfeitamente nos combates sobrenaturais, se assemelhando ao estilo de algumas das melhores trilhas de JRPG (em especial, Overflowing Light). São todas muito bem selecionadas e contribuem bastante para a experiência.

Em termos visuais, as artes de personagens são bastante expressivas e de alta qualidade, tendo uma riqueza de detalhes que faz com que nenhum deles tenha uma aparência genérica. A própria protagonista consegue demonstrar muito bem a sua personalidade usualmente calma, mas decidida nos momentos em que ela realmente precisa agir. Quando ela fala, um retrato no canto inferior esquerdo aparece mostrando suas expressões, mas também é possível omiti-lo.

Os cenários também são fundamentais, oferecendo uma boa diversidade. Além da ambientação rústica do café, as ruas e o cenário urbano de uma forma geral têm um forte tom mundano. Em contraste, o mundo coberto de neve de Bestia e a floresta exótica de Medio intencionalmente parecem completamente fora da realidade.

O título também conta com as opções esperadas de um jogo do gênero, como auto, skip, várias opções de save, possibilidade de restaurar uma fala anterior e um menu em que é possível escolher um capítulo e as condições de afinidade com os personagens. Todas elas são bem-vindas para avançar mais rapidamente pelo jogo.

Há também um dicionário de termos, o que é especialmente útil dado o contexto de fantasia. Vários jargões são utilizados e também são desbloqueados pequenos resumos sobre o que a protagonista já sabe sobre os personagens conforme a história avança. No entanto, as inconsistências de tradução fazem com que nem sempre seja possível fazer a associação entre termos. Além do menu do jogo, esse dicionário pode ser acessado na galeria, que também conta com outras seções desbloqueáveis, como a trilha sonora, as CGs de evento, os vídeos do jogo e uma seção de perguntas e respostas sobre os gostos de cada personagem.

Café Enchanté é um excelente exemplar de otome game, mostrando uma boa variedade do que seu gênero tem a oferecer e fornecendo uma história sólida e instigante cujos personagens são fantásticos. Apesar disso, uma falta de cuidado com a tradução faz com que a experiência fique bastante abaixo do que deveria. Ainda é uma obra essencial para fãs do gênero e com certeza merece ser apreciada, mas isso compromete a qualidade de leitura.

Prós

  • Personagens humanos e não-humanos interessantes;
  • História instigante que combina com maestria romance, ação e folclore;
  • Artes expressivas de personagens e cenários detalhados;
  • Trilha sonora bem executada adequada para todos os momentos da experiência.

Contras

  • Erros de escrita são comuns.
Café Enchanté - Switch - Nota: 8.0

Análise produzida com cópia digital cedida pela Aksys Games
Revisão: Icaro Sousa


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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