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Análise: Code:Realize ~Guardian of Rebirth~ (Switch): romance, ação e um pouco de mistério em uma Londres steampunk

Visual novel otome é a primeira a ser publicada pela Aksys no console da Nintendo e é um bom ponto de entrada para os jogos desse estilo.


A publicadora Aksys Games já tem um histórico bem recheado com visual novels otome, ou seja, aquelas cuja história envolve o potencial relacionamento de uma protagonista feminina com vários rapazes. Desde o PSP, com o lançamento de Hakuoki, a empresa já trouxe para o Ocidente uma boa quantidade de jogos do gênero, todos desenvolvidos no Japão pela Idea Factory sob a marca Otomate, e é referência no assunto.

Code:Realize ~Guardian of Rebirth~ é o primeiro otome da empresa no Switch dentre vários que estão previstos para lançamento este ano. Lançado originalmente para PS Vita, o jogo conta uma história recheada de ação e se passa em uma Londres steampunk. Junto com um grupo de rapazes como Lupin Arsène, Van Helsing e Frankenstein, a protagonista, que sempre foi tratada como um monstro, procura por pistas sobre sua identidade.

Romance, ação e mistério se misturam

Da esquerda para a direita: Van Helsing, Victor, Impey, Lupin, Cardia e Saint-Germain.

Code:Realize conta a história da jovem Cardia, uma garota que vivia solitária em uma mansão. Um dia, guardas reais invadem o local em busca de um monstro. Mal sabiam eles que se tratava da própria garota, que possui em seu corpo um poderoso veneno que destrói tudo o que toca. Ela é capturada pelo grupo, mas é resgatada pelo ladrão Lupin, com quem parte em uma jornada para encontrar seu pai e descobrir mais sobre seu passado.

Ao todo, o jogo conta com cinco potenciais namorados para Cardia. O primeiro deles é Arsène Lupin, um ladrão famoso que diz possuir um coração justo. Mestre em ser sorrateiro, ele tenta usar suas habilidades apenas em situações justificáveis, roubando de ladrões, criminosos e pessoas de má índole. Já Impey Barbicane é um engenheiro genial, mas costuma agir como um idiota, o que faz com que ninguém o leve a sério. Ele tem um coração gigante e, apesar de seu comportamento pegajoso às vezes ser incômodo, costuma trazer alívio quando a atmosfera fica pesada.

Victor Frankenstein é um jovem alquimista que foi acusado de terrorismo, mas se comporta de forma gentil. Do outro lado, gentileza é algo que Abraham Van Helsing, o herói de guerra conhecido como “A Arma Humana” não gosta de demonstrar, o que faz com que ele mantenha uma postura hostil na maior parte do tempo. O último potencial interesse romântico do jogo é Saint-Germain, um conde que abriga o grupo em sua casa em uma área afastada de Londres, mas cujas intenções são escondidas por um sorriso frio.

Além das personalidades diferentes, cada um dos rapazes tem suas próprias habilidades, o que é bem explorado nas cenas de ação, que merecem destaque e usam alguns jogos de câmera e efeitos especiais para representar seus eventos de forma dinâmica. A história tem uma escrita muito fluída que, aliada ao uso de efeitos sonoros e uma boa dublagem em japonês, dá vida a esses momentos de uma forma muito nítida. Mesmo elementos que não aparecem na tela são descritos de uma maneira que torna fácil visualizá-los mentalmente e se sentir imerso naquele contexto.


Porém, esse foco na ação não significa que a história não trabalhe bem com seus outros elementos. O romance é bem desenvolvido, com um especial foco ao aspecto dramático, afinal Cardia tem uma tendência a ser uma heroína trágica, mas o tom pode variar bastante entre as rotas. De fato, algumas rotas chegam a ser pesadas, com a protagonista sofrendo estrangulamento, tentando suicídio ou encarando corpos de mulheres assassinadas (isso é descrito, mas só é mostrado no jogo um grande borrão de sangue). Há até mesmo um personagem com tesouras nas mãos cuja movimentação detalhada em um dado momento eleva bastante a tensão do evento.
 
Outro elemento fundamental da história é, obviamente, o mistério por trás do passado de Cardia. Os 8 primeiros capítulos de história, que são a “Rota Comum” (por ser um ponto onde a protagonista ainda não definiu com quem ficar), já trazem algumas revelações chocantes sobre isso, mas há também mais reviravoltas e descobertas depois. Com as escolhas, é definido o interesse romântico da protagonista e direcionada a história para a rota desse personagem, revelando o seu passado e desenvolvendo a história de forma geral.


Lupin não está disponível desde o início do jogo, sendo necessário realizar a história de todos os outros personagens primeiro para abrir a sua rota, que conta com o final verdadeiro da história e conclui o mistério. Porém, vale destacar que cada rota é satisfatória por si só, mesmo com esse aspecto. Um aspecto fundamental para isso é o desenvolvimento da protagonista ao longo do tempo, que, apesar de algumas variações, acontece em todas as possíveis narrativas oferecidas pelo jogo.

Mais do que uma heroína trágica


No início, Cardia vive em depressão, isolada não apenas fisicamente, mas também emocionalmente do resto do mundo. Convivendo com os rapazes, no entanto, o seu mundo se expande profundamente e ela passa a ter muito mais confiança em si mesma e acreditar que pode ser feliz. Claro, o caminho não é fácil e as revelações sobre seu passado trarão sofrimento para a moça, mas o seu crescimento é perceptível e chega a ser tocante.

Pessoalmente, também fico muito feliz em ver que a protagonista não é relegada a uma posição passiva diante dos eventos. Convivendo com os seus talentosos aliados, ela logo aprende um pouco das habilidades de cada um e se torna uma força a ser reconhecida, capaz de se defender sozinha e avaliar bem as várias situações de perigo que precisará enfrentar. Esse protagonismo torna a aventura ainda mais agradável e interessante.

Outro elemento fundamental para a qualidade do jogo são as artes. Com um contexto steampunk, o design de máquinas e ambientes de época chamam a atenção. Existe uma predominância do uso de tons terrosos, que são tradicionalmente associados a esse tipo de obra, mas com belos contrastes de cores vívidas. Há uma boa variedade de fundos, usualmente bastante ricos em detalhes, e existe um belíssimo uso de iluminação (em particular, a sutil iluminação noturna e o alaranjado pôr do sol).

O mesmo pode ser dito para as artes de personagens, feitas por Miko, que usa bem as cores e representa bem o elemento pseudo-histórico da ambientação steampunk. Os personagens são bastante expressivos e as CGs (as cenas de eventos, mais detalhadas do que o normal da obra) têm belas composições, destacando bem a dinamicidade da ação ou a efemeridade dos momentos românticos. Por outro lado, com exceção da música de abertura, a trilha sonora praticamente não chama a atenção, fazendo apenas o básico do que cada cena pede.
 
Outro aspecto negativo são os erros de escrita, que são um tanto comuns. Por sorte, nenhum deles é tão grave, sendo fácil para quem entende inglês compreender corretamente as frases e relevá-los. Entre cenas também há alguns cortes abruptos, especialmente notáveis graças ao corte seco das trilhas. Não são grandes problemas, mas podem incomodar um pouco.

Code:Realize ~Guardian of Rebirth~ é uma visual novel do gênero otome com uma história envolvente e bem escrita, marcada em particular por seus momentos de ação e pelo crescimento pessoal da protagonista. Para quem tem interesse em jogar algo do estilo e curte histórias mais focadas em ação, é um excelente ponto de entrada.

Prós

  • Escrita descritiva capaz de dar vida às cenas da história;
  • Mistério com boas reviravoltas;
  • Protagonista que assume um papel ativo e evolui ao longo da história;
  • Rotas de história autossuficientes, mesmo sendo partes do mistério;
  • Arte detalhada que trabalha bem a atmosfera steampunk;
  • Bom uso de efeitos sonoros e dublagem (exclusivamente japonesa).

Contras

  • Vários erros de escrita;
  • Trilha sonora não chama atenção;
  • Corte seco entre músicas de fundo atrapalha a transição entre algumas cenas.
Code: Realize ~Guardian of Rebirth~ - PS Vita/Switch - Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Vladimir Machado
Análise produzida com cópia digital cedida pela Aksys Games

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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