Jogamos

Análise: Cultist Simulator: Initiate Edition (Switch): cartas, ocultismo e uma experiência de tatear no escuro

Simulação de criação de culto opta por não explicar os seus atrativos, barrando o interesse dos jogadores.

Desenvolvido pela Playdigious, Cultist Simulator: Initiate Edition combina estratégia baseada em cartas com uma experiência narrativa roguelike. Propositalmente obtuso, o título coloca o jogador em uma busca por forças ocultas que o levará à elaboração de um culto e à busca por conhecimento e poder além da imaginação.

Aprendendo a gerenciar cartas


Em Cultist Simulator, cada partida começa com a escolha de um legado. Ele determina o tipo de personagem do jogador e, consequentemente, as suas cartas iniciais. Apesar de não haver nenhum tutorial, o jogo tem início de forma simples, introduzindo cada campo de ação aos poucos.
 
A ideia é que o jogador deve coordenar várias ações ao mesmo tempo, utilizando cartas específicas para cada uma. Uma das principais atividades é trabalhar. Colocar uma carta no campo “trabalho” levará à execução de uma tarefa para conseguir dinheiro. No entanto, há também determinadas atividades que podem render outras vantagens.

Obter dinheiro é necessário, pois há um campo de “passagem de tempo” que necessariamente o consome. Sem dinheiro, o jogador tomará penalidades. Outros campos relevantes são “sonho”, “exploração”, “estudos” e “diálogo”. Usar cartas em cada um deles renderá resultados diferentes, e o jogador precisa trabalhar na tentativa e erro para encontrar as melhores ações e aprender os seus resultados.


Todas as ações gastam um determinado tempo para serem executadas, com campos diferentes podendo ser utilizados em paralelo. Além disso, conforme o jogo avança, eventos temporários podem aparecer. Eles também são campos que consomem cartas, mas usualmente seguem o modelo da “passagem de tempo”, pegando as opções disponíveis independente do interesse do jogador e podendo servir como fontes de penalidades. Não ter formas de satisfazer esses campos é usualmente uma forma fácil de perder.
 
A ideia é que o jogador vá aprendendo aos poucos a lidar com o gerenciamento de seus recursos e como concluir essas atividades. Fazendo isso, ele terá a chance de montar um culto em algum ponto, conquistar seguidores, explorar livros e conhecimentos ligados ao ocultismo e obter determinadas cartas que podem servir como guia para as múltiplas condições de vitória.

Infelizmente, a falta de explicações acaba sendo um elemento mais incômodo ao invés de instigante. Mesmo sendo proposital, avançar pelo jogo pode exigir combinações de cartas bastante específicas e, sem um propósito claro para o progresso, o resultado é que o jogador basicamente cria mecanismos de sobrevivência, mas sua capacidade de exploração é limitada a tentar e constantemente errar.

Porém, vale destacar que alguns padrões são aprendidos ao longo das tentativas. Apesar de existirem múltiplos resultados para os usos das cartas, determinados eventos são similares. Por exemplo, é bastante provável que o personagem passe por momentos de desespero que irão consumir a carta “Dread” e poderão levar à derrota do jogador se ele não conseguir cartas “Contentment” para mitigá-lo. Uma forma de lidar com isso é aprendendo formas de obter essa carta.
 
No entanto, o jogo impede o planejamento e controle total do campo graças à mecânica de tempo. Determinadas cartas, como o “Contentment”, possuem tempo finito na mesa. Graças ao esgotamento delas, o jogador não consegue simplesmente estocar os recursos, precisando planejar e estruturar o seu gameplay de forma a fazê-los render.

Montando um culto


Um elemento curioso do jogo é que ele se vende também como experiência narrativa. Porém, os trechos de história são facilmente ignoráveis, ficando no canto esquerdo da tela e sendo alterados com o tempo. A tendência é que o jogador preste atenção apenas nos resultados e em trechos que demandem sua ação.
 
Além disso, os textos podem ser complicados de ler no modo portátil do Switch. Mesmo ativando o modo de alto contraste, o tamanho das letras é pequeno demais em algumas ocasiões.
 
 Por outro lado, o jogo é realmente bom em executar uma atmosfera mística. A trilha sonora e os pequenos lampejos visuais de imagens inspiradas em seitas históricas ajudam a dar um tom levemente macabro para a obra, cuja inspiração lovecraftiana é um dos seus principais atrativos.
 
Essa inspiração do jogo é inclusive um grande motivador das escolhas de game design que tornam a experiência em algo pouco explicado. Sofrer para aprender e ficar confuso explorando as cartas em várias tentativas é a experiência proposta para adicionar camadas de misticismo ao jogo, o que acaba sendo muito frustrante, especialmente no início.
 

De forma geral, Cultist Simulator: Initiate Edition pode ser descrito como uma combinação exótica. Misturando gerenciamento de recursos, cartas e uma experiência que tenta ser narrativa, o título tropeça ao fazer sua experiência hermética demais. Todavia, oferece uma atmosfera sombria bastante peculiar, que pode motivar os jogadores a mergulharem de cabeça no seu gameplay baseado em tentativa e erro.

Prós

  • Combinação exótica de jogo narrativo, gerenciamento e cartas;
  • Atmosfera mística.

Contras

  • Gameplay pode ser confuso na maior parte do tempo devido à falta de explicação;
  • Trechos de história facilmente ignoráveis.
Cultist Simulator: Initiate Edition – Switch – Nota: 7.0
Revisão: José Carlos Alves
Análise produzida com cópia digital cedida pela Humble Games


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


Disqus
Facebook
Google