Análise: Yakuza Kiwami & Dark Ties: Pacifismo e ambição se chocam em um remake extremamente eficiente

Terceiro na linha de remakes Kiwami, as desventuras de Kiryu em Okinawa e a incursão de Mine pelas trevas diverte, mas tem escolhas polêmicas.

Após um teste desastroso no Wii U e uma aparição interessante em Project X Zone 2, a franquia Yakuza encontrou um lar seguro no Switch desde 2024 com o anúncio surpresa de Kiwami, remake em HD do primeiro título da série. Depois disso, o Switch 2 foi batizado com o Director's Cut, expansão do prólogo Yakuza 0, e o lançamento muito bem feito de Kiwami 2, remake do segundo jogo.


E agora estamos com Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties, o tão aguardado e envolto de rumores da primeira aventura de Kazuma Kiryu na sétima geração, prometendo gráficos refeitos e uma nova história para contar. Sem mais delongas, pegue uma camisa havaiana, contenha sua fúria interior, prepare seus punhos para lutar e venha comigo.

Sol, praia e sangue

Após os eventos de Kiwami 2, Kazuma Kiryu está pronto para finalmente descansar da vida de violência e dor que o crime organizado só lhe causou. Antes de sair de Kamurocho e se mudar para Okinawa onde um pequeno orfanato o aguarda para ser gerenciado, ele pede seu amigo/rival Goro Majima para ficar de olho no mais novo cabeça do clã Tojo, Daigo Dojima.

Março de 2008. A vida parece estar bem para o antigo Dragão de Dojima, cuidando de nove órfãos e vivendo pacificamente à beira do mar próximo ao distrito de Ryukyu. No entanto, a calmaria é abalada quando uma das famílias locais, Ryudo, começa a ameaçar o aluguel da região, pretendendo vender as terras para construir um resort. Ao mesmo tempo, conspirações envolvendo tentativas de assassinato contra Daigo, um homem estranhamente similar ao pai adotivo de Kiryu e três suspeitos de um motim colocam as forças de Kiryu a prova.

Enquanto isso, Dark Ties se passa pouco antes dos eventos da campanha principal, colocando o foco em Yoshitaka Mine, um dos suspeitos do motim mencionado. Ao perder sua startup para seus próprios investidores, Mine tem tudo arrancado de si. No entanto, ao ver Daigo ser salvo por seus capangas em uma emboscada, ele fica intrigado em descobrir como tantos homens se sacrificaram para salvar uma única pessoa.

Com isso, vemos de camarote sua subida no Clã Tojo, entrando pela família Nishikiyama e conseguindo favores por meio de um dos membros da família, Tsuyoshi Kanda. Ele os fez subir rapidamente nos rankings da organização, ao mesmo tempo que a ambição e obsessão de Mine por Daigo aumentavam, bem como seu desprezo oculto pela sociedade e sua voracidade, inclusive abocanhando territórios e posses de outros membros do clã Tojo.

Ondas calmas, becos sombrios

Não é de se surpreender que, mais uma vez, Yakuza entrega uma história carregada de personagens carismáticos, tramóias elaboradas e um enredo poderoso e envolvente. Aperfeiçoado com a história adicional de Dark Ties, elaborando sobre a ascensão de Mine no crime organizado e trazendo um aspecto mais violento para a narrativa, ainda que contenha alguns momentos de leveza em par com o espírito da série. Tudo muito bem traduzido em legendas em português brasileiro, um trabalho que coloca a tradução recente de Director's Cut, cheia de erros de localização, no chinelo, além de ter uma performance impecável no Switch 2, em par com seus antecessores.

E, tal como seus antecessores, Kiwami 3 contém um belo e elaborado mundo aberto para explorar. Como Kiryu, está a disposição a ilha de Okinawa, com um ambiente mais praieiro e ensolarado que os becos de Kamurocho ou as ruas de Sotenbori. Agora é possível nadar para pescar frutos do mar e fazer comidas gostosas tanto para Kiryu quanto para os órfãos. Também foram adicionadas outras formas de entretenimento como uma competição para pegar mais insetos, costurar tecidos para as crianças, ajudar no dever de casa delas, cuidar de uma pequena horta e ainda vender seus produtos para a comunidade local. Isso cria mais intimidade com os personagens adjacentes e camadas para as crianças e suas personalidades distintas. E, anteriormente exclusivo apenas no New Game+, Kiryu tem uma extensa variedade de roupas e cosméticos desde o começo para poder vestir, dando uma liberdade enorme para enfeitar o Dragão de Dojima com as melhores cores e visuais.

No lado de Mine, a exploração de Kamurocho é mais reduzida, considerando que a trama é bem mais curta que a campanha principal, mas ainda é bastante legal explorar o conhecido distrito da luz vermelha. Principalmente para cumprir as metas de melhorar a imagem de Kanda, resolvendo pequenos problemas pela cidade e mostrando mais da personalidade conflitante de Mine, vendo que ele tem a capacidade de fazer o bem, ao mesmo tempo que esconde uma escuridão gargântua.

Por fim, em ambos os modos existe também a possibilidade de jogar com o primeiro portátil da Sega, o Game Gear. Nele, é possível jogar versões emuladas de 12 clássicos lançados no pequeno hardware como Puyo Puyo, Sonic & Tails e até mesmo ports dos clássicos da Namco, Pac-Man e Mappy, inclusive optando entre a versão internacional ou a versão original nipônica. Não é a forma mais apropriada de jogar esses jogos, mas esse tipo de preservação é sempre muito legal de se ver. Nos arcades espalhados pelo jogo, temos o retorno de Virtua Fighter 2, SpikeOut (o primeiro jogo desenvolvido pelo estúdio Ryu Ga Gotoku) e o clássico Fighting Vipers (fazendo sua estreia no território da Big N), adições muito legais. Ainda tenho esperança, no entanto, de ver jogos ainda mais obscuros no futuro como Rad Mobile.

Lute como uma garota ou desça até o inferno!

Uma grande campanha adicional também foi inserida na trama de Kiryu, onde ele se vê no meio de uma guerra de gangues de delinquentes juvenis: após presenciar os assédios sofridos por uma pequena gangue de garotas, lideradas pela filha de seu novo sensei, Kiryu fica determinado em acabar com a opressão desse exército de moleques mimados. 

A progressão é extremamente divertida, fazendo Kiryu explorar oportunidades de ajudar mais garotas revoltadas a encontrar uma comunidade e outros aliados, tudo culminando em diversas lutas abertas entre o pequeno grupo e incontáveis inimigos. A narrativa adicional me fez desviar um pouco do objetivo principal por um tempo, mas isso mostra o quão efetiva foi sua execução, além de ir em coro com a temática do jogo em proteger a geração futura.

Com Mine, porém, não existe a doçura e camaradagem em encontrar uma nova família. Em sua campanha por poder, ele descobre um círculo secreto em Kamurocho de pessoas mascaradas, apostando em lutas até a morte de pessoas desesperadas como jogos de azar. Esta é a Arena do Inferno, dividida em dois modos de luta. Em Inferno de Briga, Mine deve lutar em 11 arenas diferentes, cada uma com até três rodadas diferentes, efetivamente funcionando como o Coliseu de Kiwami 1. 

Em Inferno de Sobrevivência, o sistema é similar a jogos Musou como da série Dynasty Warriors e Hyrule Warriors, onde Mine cruza labirintos e detonando hordas de inimigos para chegar até o chefão, podendo gastar dinheiro para ter um pequeno reforço com aliados ou melhorias que deixam a exploração mais dinâmica. Mesmo curto (apenas cinco dificuldades), ele é extremamente viciante e em par com a porradaria desenfreada da franquia, dando um gosto do que poderia ser um Yakuza Warriors.

Sorriam e acenem, rapazes

Um adicional bem conveniente para ambos protagonistas jaz na acessibilidade do celular, colocando mais facilmente os objetivos para serem cumpridos, opção de escutar diversas músicas enquanto explora os distritos, chamar o táxi para viagem rápida e ainda tirar fotos divertidas. Com Kiryu, no entanto, a execução é ainda maior: existe a possibilidade de configurar o aparelho e deixá-lo com a cara do jogador, além de colocar pingentes, antenas e wallpapers que causam efeitos específicos na jornada, extremamente úteis para a progressão. 

Além disso, espalhados por Kamurocho e Ryukyu estão caixas e usuários do sistema LaLaLa Phone, uma rede social dentro do jogo. Utilizando o scanner do celular, Kiryu pode identificar pessoas que estão na rede social, abrir as caixas para desbloquear itens, tirar fotos de pontos de interesse para cumprir tarefas, dando ainda mais variedade de exploração para um jogo já carregado de imersão.

Seguindo a tradição dos relançamentos, Kiwami 3 traz novas opções de dublagem, com boa parte do marketing destinado a localização em inglês. E, tal como em Yakuza 0, a dublagem deixa a desejar, mesmo tendo nomes de peso no elenco como Yong Yea como Kiryu e Daman Mills como Mine. Mesmo na versão japonesa existe uma polêmica que a RGG Studios se recusou a elaborar. Substituindo um dos atores originais, George Takahashi, por outro ator, Teruyuki Kagawa, acusado por assédio sexual, no papel de Goh Hamazaki (figura importante do lançamento original), ainda mudando o modelo do personagem para se parecer com o ator polêmico, atraindo o descontentamento de muitos fãs da série. Outros personagens também tiveram suas vozes trocadas e modelos alterados para acomodar os novos Seiyuus (além da inexplicável mudança da cor na camisa da Kiryu, de vermelho para azul), mas esta é com certeza a pior de todas e um tremendo descaso com os fãs da série.

A ira do dragão, o castigo do kirin

Se tem um aspecto que não evoluiu em par com todas as adições, no entanto, está em um dos fundamentos básicos de Yakuza: seu combate. Não que ele seja ruim; longe disso! Lutar em Kiwami 3 é divertido como em qualquer Yakuza e tem suas próprias individualidades. Com Kiryu, um novo estilo de luta foi adicionado para fazer par com o Estilo Dojima, seu moveset mais icônico que continua insano e usando de socos, chutes e qualquer coisa que possa pegar. Utilizando de diferentes armas, o novo Estilo Ryukyu almeja superar os oponentes com poderosas execuções e movimentos rápidos e imprevisíveis, muito bem executados. Kiryu também agora tem um “modo de fúria”, o Reforço do Dragão, onde seus ataques ficam mais rápidos e sua força fica nas alturas. A princípio, é um modo legal, mas desnecessário para o personagem e uma adição extremamente fraca em comparação a estilos de lutas anteriores.

Mine, por outro lado, revela sua verdadeira natureza com seu moveset violento inspirado na arte marcial Shootboxing, desferindo brutais golpes que podem atordoar e enfraquecer os inimigos, dando brechas para execuções ferozes. A princípio, é um moveset difícil de sacar, considerando limitações como não poder pegar objetos para usar como armas e o agarrão ser um mero nocaute, mas logo se revela tão intuitivo como os golpes nos jogos anteriores. Ainda mais com a ideia da mecânica Despertar das Trevas, onde Mine deixa sua fúria interior assumir e seus ataques ficam mais rápidos, fortes e brutais, encaixando muito bem com o personagem. Mesmo funcionando praticamente igual ao Reforço do Dragão, o “modo fúria” de Mine é bem mais divertido e prazeroso de executar, o completo oposto do primeiro em longo termo de uso.

“Mas onde está o problema?”, você deve estar se perguntando. Bom, está na execução da progressão de personagem e do estilo de luta. Sim, os movimentos estão ainda mais fluidos e continua satisfatório destruir tudo e todos. No entanto, a enorme variedade de execuções de Cólera (animações de finalização, icônicas na série) foram extremamente reduzidas, com pouquíssimos momentos para dar esses shows de luzes tão memoráveis da série. Além disso, a janela de tempo é minúscula e a maioria desses momentos têm a barra de cólera única e diminui drasticamente, em comparação com a liberdade anterior de execuções.

Outros problemas irritantes jazem na eterna necessidade de travar em um específico oponente para poder dar finta e desferir golpes críticos. A coisa começa a ficar feia quando tem mais de três inimigos em cena, deixando a concentração irritante e a mobilidade completamente exaustiva, algo que nunca aconteceu nos jogos anteriores, onde poder lutar contra hordas de inimigos era fluido e competente. Sem contar as vezes que os inimigos caem no chão e o jogo assinala que é um momento ideal para golpear!... Mas boa parte dos ataques simplesmente não conectam no alvo, fazendo tanto Kiryu quanto Mine ficarem socando no ar e, talvez, conseguir acertar algum golpe no pobre coitado.

Além disso, a progressão de personagem é bem inferior em comparação com os títulos anteriores, com a complexa e rica imersão de Kiwami 2 jogada no lixo. Enquanto nos jogos anteriores tínhamos diversas pontuações para melhorar os status do Dragão de Dojima e limites imersivos de cansaço e estômago que poderiam ser ampliados com o eternamente confiável Bob Utsunomiya, tais muletas de progresso (e o Yakuza maquiado de palhaço) estão absolutamente ausentes em Kiwami 3, relegando a melhoria em pagar com dinheiro (similar ao sistema de Yakuza 0, mas sem o mesmo charme e utilidade) e duas meras árvores de habilidades sem carisma ou eficiência.

Por fim, em análises passadas, eu disse que todo relançamento que se preze deve incluir rascunhos e desenvolvimento de seus jogos para fins de preservação e curiosidade. Esse meu pensamento se estende inclusive para ports de remakes, e Kiwami 3 & Dark Ties falha nesse quesito tal como os outros relançamentos, trazendo absolutamente nada para preservar a memória do desenvolvimento tanto da versão original quanto do remake. O que é extremamente frustrante, considerando as ideias legais dos emuladores que oferece, mas ignorando seu próprio legado, mais uma vez, além da polêmica decisão de remover as versões remasterizadas dos jogos originais em outras lojas digitais em prol dos Kiwami, tentando apagar seu passado.

EXTREMO 3 & LAÇOS SOMBRIOS

Sem nenhuma surpresa, Yakuza Kiwami & Dark Ties já pode ser considerado um dos meus jogos favoritos deste ano, posto que seus anikis também conquistaram. 

Mesmo com seu combate mais fraco em comparação aos seus antecessores, as lutas continuam incríveis de se encarar. Mesmo com as dúbeis alterações de modelos e manter uma voz non gratta no elenco, sua história está ainda mais envolvente, seus personagens continuam incríveis, a exploração está ainda mais imersiva e, acima de tudo, Yakuza mantém seu espírito forte e admirável. Que venham mais membros do clã para a Big N!

Prós

  • Duas histórias complexas e em par com o legado da franquia;
  • Dois distritos. Kamurocho e Ryukyu, ricos em detalhes e viciantes de explorar;
  • Enorme variedade de minigames;
  • Performance impecável no Switch 2;
  • Adições de Kiwami como LaLaLa Phone e Arena do Inferno muito bem vindas e com execuções perfeitas;
  • Campanha de delinquentes juvenis em coro com a proposta do jogo;
  • Coletáveis, coletáveis e mais coletáveis;
  • Muito bem localizado para português brasileiro.

Contras 

  • Falta de bônus especiais como artworks e comentários de desenvolvimento; 
  • Combate eficiente, mas com problemas de execução;
  • Alterações estranhas em certos modelos de personagens e mantimento de Seiyuu polêmico no elenco;
  • Progressão de personagem inferior aos títulos anteriores, sem imersão ou satisfação de conclusão.
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties — Switch 2 — Nota: 9.0
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sega
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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