Análise: Mouse: P.I For Hire é um excelente boomer shooter com toneladas de queijo e humor

Descubra uma enorme conspiração envolvendo robôs, mágicos, cultistas e traficantes de cheddar.

Ano passado, eu analisei Bad Cheese, um jogo pífio que tenta passar uma mensagem vazia sobre abuso doméstico mas entregando de forma banal e inútil, tudo em base do Mickey Mouse ter entrado em domínio público. 


No mesmo período, Mouse: P.I For Hire foi anunciado e atraía olhos para o que seria, essencialmente, Doom com uma pincelada de desenho rubber-hose e também com inspiração no camundongo. Mas será que as desventuras de Jack Pepper tem o mesmo valor baixo que as dores de Keymick? Pegue o sobretudo, alguns quilos de queijo e venha comigo.

O som da chuva e de balas

1934. Estamos em Mouseburg, uma cidade populada por roedores antroporfórmicos vivendo no pós guerra do Grande Acontecimento. No coração da cidade, está Jack Pepper, um detetive particular que aceita casos pequenos para pagar as dívidas que ficam se empilhando em seu escritório. Um dia, ele é chamado para investigar a morte de Betty Lynch, uma atriz em ascensão que era também assistente do mágico Steve Bandel, este que fora seu amigo na polícia e no exército, agora desaparecido logo após o crime.

Ao mesmo tempo, musaranhos, refugiados de um país que foi destruído na guerra e parte da população mais pobre, têm desaparecido cada vez mais, atraindo a atenção de Cornelius Stilton, candidato a prefeito e antigo amigo das trincheiras de Jack. Com isso e outros acontecimentos envolvendo a ascensão fascista local, Jack se vê em uma conspiração que pode estar conectando todos estes eventos.

Teia de eventos

Um dos grandes trunfos de Mouse está em sua apresentação, que entrega uma trama complexa e extremamente interessante de desvendar, com referências inteligentes a cultura do início do século XX, uma excelente trilha sonora de jazz, um belíssimo mundo monocromático para meter chumbo (até mesmo com alguns filtros legais de som e imagem para deixar ainda mais retro) e com mapas muito bem feitos e que escondem diversos segredos para descobrir, revelando dinheiro e coletáveis para pegar, que ajudam a enriquecer a história e na gameplay. 

Jornais trazem mais da lore do mundo e certas edições servem como pistas para os casos; plantas de projetos funcionam como moeda para melhorar as armas; dez bonequinhos bem escondidos para colecionar; quadrinhos de revista para ler (que está disponível em formato físico para quem comprar a edição de colecionador) e cartas de baseball para encontrar e jogar em um mini jogo bastante divertido e intuitivo nos bares. Caso tenha perdido algum coletável, é possível comprá-lo na loja de armamentos (exceto os bonecos), o que é bem legal, mas uma pena que não dá para revisitar os níveis depois que eles são concluídos, especialmente para cumprir os objetivos secundários dados pelos amigos de Jack ou caso tenha a opção de procurar por alguma pista que deixamos passar.

A personalidade de Mouse também respinga em seus personagens. Jack é um protagonista muito carismático e legal, apresentando o típico “detetive durão” com longos monólogos e metáforas engraçadas, muito bem interpretadas por Troy Baker, especialmente relacionadas a queijo. No entorno de seu escritório, temos um pequeno elenco para interagir. O charme peralta da mecânica Tammy (que também é filha adotiva de Jack); a pompa e otimismo de Stilton; o cinismo e carinho oculto do barman musaranhos John Brown; e a pontualidade e determinação da repórter Wanda Fuller formam um elenco simpático e memorável, oferecendo missões secundárias para aumentar a exploração dos níveis e dando insight das relações passadas de Jack. Tudo muito bem traduzido para o português brasileiro, com pouquíssimos erros de localização.

Uma rajada de balas

Uma ótima ideia não vale muito se sua execução não é bem feita e, felizmente, Mouse consegue apresentar-se como um efetivo boomer shooter, um subgênero do FPS em que jogos atuais emulam a sensação de shooters antigos como Quake, Duke Nukem e, no tópico de hoje, Doom. Os cenários são em 3D enquanto todos os personagens são desenhados à mão, sem profundidade e finos como papel. O estilo pode parecer datado, mas adiciona mais uma camada de personalidade ao jogo, evocando ainda mais o sentimento de “old school”.

À disposição de Jack, temos um arsenal bem extenso, variando de seus próprios punhos até armas de caldo (uma referência bem inteligente ao líquido mortal de Uma Cilada para Roger Rabbit), da icônica metralhadora tommy gun até um destrutivo canhão portátil. Todas contém seus prós e contras para serem usadas na batalha e cuja mira é muito bem feita, respondendo extremamente bem e dando o prazer de um jogo antigo, mas com roupagem nova. Entre Pepper e seu objetivo, está uma galeria de brigões, valentões e outros fora da lei para atrapalhar o caminho como mafiosos, policiais corruptos, cultistas e até algo equivalente à juventude hitlerista (Indiana Jones e B.J. Blazkowicz não são os únicos que podem ter a diversão de socar nazistas, né?). Essencialmente, são os mesmos tipos de inimigos com roupas diferentes, mas que adicionam ainda mais camadas para esse universo já expandido e interessante.

O único aspecto em que consegui encontrar algum problema foi na performance do jogo. O tempo de carregamento é rápido para começar o jogo e ele roda muito bem, mas sofri alguns leves engasgos enquanto jogava, paredes invisíveis irritantes que quebravam a imersão de vez em quando (como ver uma passarela próxima e com dinheiro, mas não ser possível acessar pulando, somente pegando um caminho mais longo). Além disso, seria legal se tivesse mira usando o giroscópio, uma vez que a versão de Switch 2 tem suporte de mouse (heh) e que funciona muito bem. Fora esses momentos esparsos, não sofri muitos empecilhos.

O cavaleiro rato da justiça 

Acompanho o desenvolvimento de Mouse: P.I For Hire desde seu anúncio. Após o sucesso de Cuphead em emular o sentimento rubber-hose, muitos jogos tentaram replicar a fórmula e falharam miseravelmente (como o já mencionado Bad Cheese e o clone embaraçoso Enchanted Portals). Mouse, por outro lado, procura e acerta forte em entregar um jogo que não apenas presta tributo, mas faz sua própria identidade.

Um universo interessante e bem imersivo, personagens carismáticos, uma chuva de balas entre a espada da justiça e pilantras malfeitores e doses cavalares (ou seria roedoras?) de humor e queijo já fazem deste um dos meus títulos favoritos de 2026. Nada mal, Jack Pepper. Nada mal.

Prós 

  • Excelente atuação de voz;
  • Mundo complexo e divertido de descobrir;
  • História muito bem escrita com referências inteligentes e ótimas piadas;
  • Mecânicas de boomer shooter muito bem apresentadas, com enorme arsenal e inimigos variados, além de suporte de mouse (heh) que funciona muito bem;
  • Ótima tradução para português brasileiro, com pouquíssimos erros de português;
  • Apresentação impecável, emanando charme retrô com trilha sonora de ponta e visuais imersivos.

Contras

  • Raros problemas de performance.
  • Impossibilidade de jogar níveis de novo;
  • Ausência de uso do giroscópio;
  • Algumas paredes invisíveis irritantes tiram a imersão em certos momentos.
Mouse P.I. for Hire — PC/PS5/Switch 2/XSX — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: Switch 2 
Revisão: Beatriz Castro
Análise feita com cópia digital cedida pela PlaySide
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Fábio Castanho Emídio (StarWritter)
Formado em Publicidade e Propaganda na USC e especializado em Marketing Digital, sou Editor de Vídeos também, meu TCC foi sobre a Guerra dos Consoles e evolução da publicidade nos games. Jogo um pouco de tudo e também escrevo. Me descrevo como um artista.
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