Calabouços e dragões
Em Dark Scrolls, somos apresentados a três heróis: Bruto, Esmeraldo e Colomba. Há muito tempo, o trio foi incumbido da missão de derrotar um temido dragão, protetor de um tesouro lendário.
Infelizmente para eles, porém, tal tarefa era, na verdade, uma grande armadilha. Logo após terem derrotado a criatura maléfica, os heróis foram surpreendidos por um cavaleiro que aproveitou o caminho aberto para se apossar do tesouro guardado — um pergaminho mágico com grandes poderes.
Usando um feitiço e o fator surpresa, o vilão conseguiu matar os valentes guerreiros. Mas, apesar de desfavorável, a realidade é que essa história ainda está longe de terminar, pois, misteriosamente ressuscitados, os heróis despertam para uma aventura em busca do lendário tesouro, que atualmente se encontra nas mãos erradas. Pronto para ajudá-los nessa?
E lá vamos nós de novo
A história de Dark Scrolls é extremamente simples, mas funciona como pretexto para colocar os heróis do título (e o jogador) em fases 2D de progressão lateral, nas quais o principal objetivo é chegar ao final do percurso. Mas não se engane: com inimigos aparecendo por todos os lados, chefes desafiadores e a tela avançando automaticamente para a direita, a missão é mais difícil do que parece.
Para ajudar, cada personagem possui três movimentos à sua disposição: um ataque comum, um pulo ofensivo (que também pode ser usado como pulo duplo) e um ataque especial, que é bastante poderoso, mas precisa ser carregado derrotando os adversários. Como os desafios vão aumentando conforme avançamos no jogo, é possível comprar uma série de upgrades temporários dentro de cada estágio, como melhorias na velocidade de movimento e disparo e até a possibilidade de envolver em chamas os golpes dos protagonistas.
Logicamente, sendo Dark Scrolls um roguelite, nenhuma partida é exatamente igual à anterior, com elementos como a quantidade de plataformas e a disposição dos inimigos variando sempre que iniciamos uma nova jornada. Também por isso, as melhorias compradas em cada run não são guardadas para a próxima tentativa, mas há a possibilidade de liberar alguns desbloqueios permanentes (como itens de personalização) no local que funciona como hub do jogo.
Bem, com grande foco na ação, suporte a multiplayer local e online e um charmoso toque retrô que lembra as obras 8-bit que fizeram história no NES e no SNES, é possível dizer, então, que a doinksoft reuniu aqui todos os ingredientes para um legítimo clássico moderno do gênero, correto? Infelizmente, não foi o caso, graças a múltiplas falhas na execução que impedem Dark Scrolls de realizar todo o seu potencial, mesmo para os entusiastas da proposta.
Entre pixels e projéteis, a inevitável frustração
Desde a sua primeira fase, Dark Scrolls desafia o jogador a superar situações caóticas, com inimigos que surgem de surpresa em vários cantos da tela, pedras que precisam ser quebradas para abrir caminho e baús de tesouro escondidos em plataformas difíceis de alcançar. Nos primeiros momentos, a ideia funciona e até diverte, mas, quanto mais tempo de jogo acumulamos, mais fácil fica perceber os problemas na proposta.
Começando pelo mais grave, para um jogo que exige reflexos rápidos e precisão quase milimétrica nos movimentos, a física empregada parece descalibrada. Como exemplo prático, vários oponentes se movem de forma errática e os pulos dos protagonistas são, por assim dizer, “escorregadios”, deixando quase sempre incerto o ato de tentar alcançar plataformas mais altas ou desviar de projéteis inimigos.
Falando nisso, a janela de invencibilidade que é criada após o personagem controlado ser acertado é muito pequena e vem acompanhada de uma paralisia temporária, levando a situações incômodas nas quais o jogador pode ser completamente dominado pelos adversários e obrigado a assistir a tudo sem ter tempo para reagir. Obviamente, sendo o nome “Dark Scrolls” uma piada com “Dark Souls”, eu não estava esperando exatamente um “passeio no parque” nesta aventura da doinksoft, mas quando um jogo passa a parecer mais injusto do que desafiador, é possível perceber que algo está bastante errado em seu design.
Para piorar, não há quaisquer opções de personalização de dificuldade incluídas, fazendo com que Dark Scrolls vá, curiosamente, na contramão de todos os roguelites modernos que oferecem o recurso. A salvação para quem não quer passar tanta raiva, então, seria o multiplayer — já que um jogador pode reviver o outro e dividir os desafios apresentados, em tese, tornaria a jornada menos árdua, assim como em Cuphead.
Mas também não trago boas notícias nesse sentido: menos de um mês após o lançamento do título, já não consegui encontrar outra pessoa ou sala online para jogar junto no console da Nintendo, em um cenário extremamente desanimador para quem não tem um amigo que possua o jogo. Por fim, a ausência de crossplay com a versão de PC escancara o problema, essencialmente reduzindo o multijogador (que claramente foi uma prioridade dos desenvolvedores, com um botão dedicado ao irritante uso de emojis) ao modo local ou a partidas com conhecidos online. Uma pena.
Uma aventura onde quase nada se salva?
A bem da verdade, há pontos positivos em Dark Scrolls — a pixel art elegante representa bem a temática retrô e se destaca na tela do console da Nintendo. O bom número de personagens desbloqueáveis (são nove, ao todo) também aumenta o fator replay, já que cada um tem suas particularidades em termos de projéteis e movimentação e compensa jogar com todos antes de definir um favorito.
Quem gosta de jogos arcade provavelmente também não vai questionar tanto o caráter extremamente repetitivo da jogabilidade, algo que dói notar em um roguelite. A imprevisibilidade comum aos grandes jogos do subgênero se mostra escassa aqui, com as fases seguindo os mesmos padrões visuais e mecânicos e os raros encontros com NPCs sendo mais lembrados pelo humor questionável do que por suas adições à trama ou às partidas.
No mais, para quem é entusiasta de jogos retrô e conhece amigos que topariam dividir a aventura, Dark Scrolls tem potencial de render algumas horas de diversão. Mas, se não é o seu caso, há opções muito melhores no mercado, visto que até mesmo a localização em PT-BR possui erros bizarros, como o menu de configurações ainda constando como “settings” — para dar um pequeno exemplo.
Um roguelite interessante, mas muito abaixo do esperado
Dark Scrolls infelizmente não faz jus ao seu enorme potencial, entregando uma aventura pouco polida em aspectos cruciais e que sofre muito com a repetição. Para os jogadores com amigos dispostos a embarcar em uma nova aventura de alma 8-bit, é possível se entreter com a mais recente obra da doinksoft, mas, para todos os outros, há alternativas mais consistentes e divertidas no console da Nintendo.
Prós
- A pixel art elegante representa bem a temática retrô do título;
- O bom número de personagens desbloqueáveis aumenta um pouco o fator replay;
- O suporte a multiplayer local e online tem potencial de render momentos divertidos com amigos e conhecidos;
- Localizado em português brasileiro.
Contras
- A física descalibrada do jogo contrasta com a exigência de pulos e movimentos precisos, levando a mortes desnecessárias e crescente frustração;
- Sem a possibilidade de ajustar a dificuldade, várias situações se mostram injustas;
- Menos de um mês após o lançamento, já é praticamente impossível montar partidas online com jogadores aleatórios;
- A localização para PT-BR possui erros e inconsistências;
- O caráter repetitivo da jogabilidade põe em xeque a longevidade do título, algo imperdoável para todo roguelite que se preze.
Dark Scrolls — PC/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Cristiane Amarante
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital









