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Análise: Jogamos Donkey Kong Country: Tropical Freeze (Wii U) e garantimos: ele não é uma fria!

Com o dobro de primatas, inimigos mais carismáticos, ambientes aquáticos e David Wise, Tropical Freeze traz o gorilão ao Wii U na sua melhor forma!


Lembro-me de quando fazia skype com alguns amigos enquanto assistíamos à apresentação da Nintendo na E3 2013. Embora eles tivessem ficado céticos quanto ao anúncio de outro Donkey Kong, com medo de que a franquia se saturasse como atualmente ocorre com a série "New" de Mario e Cia., eu havia conseguido ver o brilho de Donkey Kong Country: Tropical Freeze. Hoje, com o jogo em mãos, tenho apenas certeza de que estava certo em ter DKCTF como o jogo que eu mais aguardava para o Wii U.

Muitas expectativas e poucas informações concretas

Como mencionado, Tropical Freeze sofreu de um fenômeno curioso no qual as pessoas encaravam-no com as mais diversas expectativas e traçavam diferentes comparações em grande parte válidas: Estaria o jogo à altura da trilogia original? Seria ele apenas um “Returns em HD”? Estaria a Big N saturando a imagem do gorilão com demasiados títulos? Todas essas questões são mais que pertinentes, mas basta segurar o gamepad por alguns minutos que, antes mesmo de derrotar o chefe do primeiro mundo, você já terá respostas para essas e outras perguntas.


 Com poucos anos e já contando com um remake, os fãs estavam apreensivos com o futuro da franquia
A justificativa da Retro para produzir mais um jogo de plataforma 2D do Donkey Kong foi que houve muitas ideias que eles não tiveram oportunidade de aplicar em Returns. Aquilo que, a princípio, parecia se resumir em fases aquáticas e uma pelugem em alta definição escondia muitas surpresas.

O que nos foi revelado na E3 2013 foi basicamente isso:
pelugem mais bonita

Nadando graciosamente… feito um chipanzé?

Logo de cara, Tropical Freeze se esforça para mostrar que não é mais do mesmo. Ainda sem contar com o retorno dos Kremlings, dessa vez os Tikis deram lugar aos Snowmads, uma tribo Viking formada majoritariamente por animais polares, que agem como antagonistas. Talvez por não se tratarem de seres inanimados, os Snowmads acabaram se tornando muito mais interessantes e carismáticos do que os incontáveis totens e instrumentos musicais enfrentados em Returns.

A introdução faz um trabalho melhor para que nos simpatizemos com os Snowmads do Returns fez para com os Tik Taks
Após a excelente animação que dá o tom da aventura, o jogo já mostra o seu trunfo: assim que percorrer um pequeno escorregador no início da primeira fase, DK já dá o seu primeiro mergulho na água. Tenho certeza de que não sou o único, mas preciso frisar o meu ódio mortal por fases aquáticas. Não importa o estilo do jogo, seja Water Temple, Coral Capers, Labyrinth Zone ou Cosmic Cove Galaxy, se tem água no meio, as chances de que eu não goste do nível são altíssimas. Ainda assim, como num passe de mágica, a Retro conseguiu fazer com que o truculento gorila se tornasse o personagem mais gracioso em fases aquáticas desde Ecco the Dolphin! O jogo foi capaz de criar um mundo inteiro envolvendo mecânicas aquáticas sem que as mesmas parecessem forçadas ou repetitivas.
Combine a graça dos movimentos aquáticos com a estética das fases de silhueta e Aquatic Ambiance tocando ao fundo.
Precisa de mais alguma prova de que videogames são uma obra de arte?

Controlado suavemente pelo direcional digital (no tradicional também funciona, mas perde boa parte da leveza e fluência), DK não consegue mudar de direção instantaneamente, sendo necessário descrever semi-círculos para fazê-lo. O que à primeira vista parece um problema, logo já se torna natural e, de certa forma, mais lógico que nos demais jogos. O medidor de oxigênio acaba sendo um tanto incômodo, em especial por começar a apitar assim que estiver abaixo da metade e não quando está próximo a acabar —  o que, em certos momentos e dependendo da frequência com que ocorre, pode ser muito frustrante.
Elevando as batalhas com chefes a outro patamar: Se o level design de Tropical Freeze é por si só maravilhoso, o prêmio principal vai para as batalhas contra os chefes de cada um dos mundos. Um mais criativo que o outro, as batalhas fogem de padrões de ataques simplórios e movimentação barata, como acontecia em algumas das lutas de Returns. Destaque para o chefe do quarto mundo, cuja batalha é completamente debaixo d'água! 

Cada macaco no seu galho e todos na mesma aventura!

A gangue se reune, cada um
com suas peculiaridades,
para derrotar os Snowmads.
Mas a fluência de DK em ambientes submarinos é apenas a ponta do iceberg de novidades que Tropical Freeze traz. Tal como a sequência do Country original trouxe Dixie Kong como personagem participante da aventura, a sequência de Returns traz não apenas a namorada de Diddy como também o próprio sobrinho de DK e o (polêmico) pai/avô do protagonista como parceiros controláveis na aventura. A ideia era que cada personagem tivesse suas características específicas para providenciar um gameplay diferenciado, da mesma forma que ocorre em Super Mario 3D World. Diddy mantém sua mochila à jato, podendo manter a altitude por alguns segundos após pular, Dixie promove uma espécie de segundo pulo e Cranky age como o Tio Patinhas em Ducktales, pulando em sua bengala e evitando alguns perigos.

Você vai acabar usando ela
muito mais do que esperava.
Entretanto, embora seja interessante na teoria, o jogo falha na implementação da diversidade entre os personagens, pois há uma grande disparidade entre a eficiência de Dixie e os demais Kongs parceiros, já que ela permite que o jogador alcance maiores distâncias e alturas do que Diddy e Cranky. O jogo por vezes é arbitrário, permitindo que o jogador escolha na maioria das fases o Kong que quer como ajudante, mas na maioria dos casos você se pega esperando o barril se tornar o da Dixie antes de libertar o macaco que está preso dentro dele. Outro pequeno deslize da Retro foi, novamente, forçar-nos a jogar com o DK e não incluir a possibilidade de alternar entre personagens como ocorria no Country original, o que poderia ter sanado o problema com o desbalanceamento dos personagens (caso Dixie fosse lenta, por exemplo).

Embora Dixie seja mais eficaz, o que pode-se perceber é que Cranky é a escolha principal no modo Time-Attack, segundo os replays da Leaderboard online

Vivacidade e detalhismo sem par

Um dos grandes diferenciais de Returns era a complexidade dos cenários ao fundo (e às vez ao primeiro plano) das fases, que por vezes interagia diretamente com DK e Diddy, então era de se esperar que o mesmo continuasse acontecendo. A Retro não falha na sua missão e faz com que Tropical Freeze apresente alguns dos mais brilhantes exemplos de level design que já vi, no geral superando o de Rayman Legends, até então um dos melhores jogos de plataforma 2D da geração.

Diversas vezes o jogo vai montando a energia através dos elementos visuais para criar o climax logo antes de você acertar o barril dourado ao final da fase
Agora os cenários não só escondem
peças de quebra-cabeça e letras KONG,
mas também saidas secretas para as fases
De uma serra que vai cortando madeira e criando pistas para o carrinho de mina a peixes bioluminescentes que fazem com que uma das fases de silhueta ganhe mais cores e volume, todos os elementos do cenário apresentam alguma forma de interação. Alguns são puramente estéticos, como as árvores dançando ao tema da fase ou pinguins discutindo ao fundo, mas os ambientes vívidos e com diversas camadas comprovam que um jogo de plataforma 2D não tem que necessariamente ser simples e que pode sim usar e abusar das tecnologias atuais para criar um clima envolvente e cenários complexos, mesmo que a jogabilidade se limite em (de forma bruta) seguir em frente ou voltar.

Os elementos do cenário interagindo com o jogador se tornam ainda mais evidentes nas caçadas pelas Puzzle Pieces espalhadas pelas fases. Em diversas ocasiões, as mesmas estão escondidas em outro plano, ou existe algo mais à frente que impede que as localizemos. Em outros momentos, elas dão pistas do que nos espera mais à frente, como quando vemos o queijo gigante rolando ao fundo em Rodent Ruckus e já sabemos que ele, cedo ou tarde, será um obstáculo em nosso caminho. Diversas vezes você se pega querendo interagir com algo que é inanimado à procura de segredos; chega a um ponto em que o cenário de fundo e o level design das plataformas e objetos se entrelaçam a tal ponto que fica difícil distinguir um do outro, principalmente devido aos novos ângulos dinâmicos de câmeras.
Flappy Bird não é nada perto das fases a bordo do Rocket Barrel

Melodia para os olhos e colírio para os ouvidos… ou quase isso

Outro avanço em relação ao seu predecessor é como os temas de cada um dos seis mundos principais que compõem o jogo foi retratado. Se em Returns a sensação de unidade através do tema de “ilha tropical” era exacerbada ao ponto de quase sofrer o mesmo mal de Sunshine,Tropical Freeze, por outro lado, consegue dar uma certa individualidade para cada um dos mundos e, principalmente, para suas fases sem se distanciar demais do tema central.
O bom símio à casa torna:  Tropical Freeze não se passa na DK Island, na realidade o jogo trata de uma jornada de retorno dos Kongs à sua terra natal, que foi tomada e está coberta de neve. Por não se prender a uma única ilha e seu ecossistema, a Retro Studios conseguiu explorar uma variedade de ambientes muito maior que em Returns 
Pegue o terceiro mundo, Bright Savanna, como exemplo. Ao pensar em uma savana, o que nos vem à mente são alguns animais exóticos, vegetação rasteira e, no geral, uma paisagem africana, correto? Mas ocorrem muito mais coisas em uma savana do que conseguimos relembrar no esteriótipo que se monta em nossas mentes. No verão, por exemplo, a savana é vítima de incêndios naturais e ocasionalmente até de tornados. Ela também apresenta cânions e plantas espinhosas em suas paisagens. Todos esses elementos foram inteligentemente incorporados em quatro diferentes fases do terceiro mundo, que ao mesmo tempo reflete diversidade e o princípio de união.

 Cenários muito diferentes mas todos condizentes com o seu ecossistema
Além de amarrar o game e envolver o jogador através dos visuais (que tiraram muito proveito das tecnologias HD), o outro elemento que exponencia a imersão e agrega carisma ao título é sua excelente trilha sonora, que deixa a do seu predecessor aos seus pés. Com a volta de David Wise — o músico responsável pela trilha sonora dos três primeiros Donkey Kong Country — à equipe de sound design que cuidava de Tropical Freeze, os jogadores foram agraciados com composições da qualidade das vistas no SNES mas com todo o glamour providenciado pelos sintetizadores de instrumentos muito mais avançados que os da época.

Com a volta de David e das fases aquáticas, Aquatic Ambiance não podia deixar de retornar ao jogo do Gorilão 
A forma com a qual David ambienta suas composições adicionando diversos sons naturais — como farfalhar de grama ou cigarras — ajuda a intensificar as informações visuais que nossos olhos captam. A equipe de level design, por sua vez, não ficou atrás e criou elementos que interagem de acordo com as batidas da música, como os shofares (os chifres de sopro dos Vikings) em Horn Top Hop, que soltam rajadas de ar toda vez que eles são escutados na música de fundo.
O efeito de sinergia que ocorre em Horn Top Hop é sem igual!

Dificuldade desmedida na medida certa

Já que tocamos no assunto do level design, caso você seja algum desavisado já fica o conselho: Donkey Kong Country: Tropical Freeze é um jogo difícil. Não digo somente difícil para os padrões atuais, mas difícil de uma forma geral. O texto do Gabriel Vlatkovic sobre o fenômeno do Flappy Bird comenta sobre um dos principais fundamentos do Game Design, a teoria do Flow. De forma rápida, é o conceito que há uma zona de conforto entre a dificuldade oferecida pelo jogo e a habilidade do jogador, sendo que ambas devem continuar se desenvolvendo e aumentando ao longo do tempo.

Tropical Freeze constantemente põe essa teoria em cheque, andando sempre no limiar da frustração, na qual é fácil perder vidas, ao mesmo tempo em que você raramente poderá colocar a culpa no jogo; a culpa geralmente é sua, ou melhor, da sua falta de habilidade. Sim, o jogo inegavelmente demanda que você possua uma habilidade maior que a de costume, mas ainda assim é você quem está falhando ao não completar os objetivos apresentados.
As fases com o foguete já são naturalmente difíceis,
mas com a mudança de perspectiva fica ainda mais complicado

Para contra-balancear o alto nível de dificuldade e tornar o título um pouco mais abrangente, o jogo conta com algumas das melhorias vistas na versão do 3DS de Returns e as expande um pouco mais. Agora que Cranky faz parte do grupo de aventureiros, Funky é o responsável por comercializar os itens que te ajudam nas fases. Além dos já conhecidos balões vermelhos, banana juice e extra heart, também temos os balões azuis e verdes (lhe dão oxigênio e salvam de um precipício, respectivamente), o Crash Guard (que permite mais esbarrões à bordo dos karts de mineração ou do foguete-barril) e a possibilidade de comprar os barris dos ajudantes Diddy, Dixie e Cranky, para garantir que você irá começar a fase com aquele poder que você necessitava.
Funky deixa os Spin-offs de lado e volta a aparecer em um jogo da série principal.
Preste atenção nas falas dele, pois são cheias de referências!

A pequena parte podre do cacho de bananas

Mas como nem tudo é um mar de rosas (nem de bananas), Tropical Freeze ainda apresenta algumas falhas herdadas de seu predecessor que ainda não foram sanadas. Nominalmente, a falta de uma maior variedade de áreas bônus. Aparecendo em média uma ou duas vezes por fase e com cerca de apenas dez variações, você já vai estar cansado de coletar bananas antes de chegar na metade do jogo. A Retro poderia ter aprendido com as Mystery Houses de Super Mario 3D World e diversificado os desafios, contando com, por exemplo, uma sequência de inimigos a serem derrotados ou um trajeto a ser superado num limite de tempo. Ainda que o modelo fosse somente a coleta de bananas, caso apresentasse um cenário aquático a bordo do carro de mineração, a mesmice já seria quebrada.

Além disso, uma das principais  e mais adoradas características da série original eram os animais que ajudavam Donkey, Diddy, Dixe e Kiddy em suas jornadas. Os seus diferentes propósitos modificavam significantemente o gameplay do jogo além de demonstrar que não são todos os animais que odeiam a família Kong. Rambi marca o seu retorno, mas para por aí. Nem mesmo Enguarde (o peixe-espada) dá as caras sendo que ele seria uma escolha óbvia dado o contexto das novas fases aquáticas. Embora no original o peixe ajudasse a proporcionar um locomoção mais ágil nas fases aquáticas (algo que os Kongs realizam por si só em Tropical Freeze), seria interessante ver mais alguns rostos familiares adaptados aos contextos dessa nova geração.
Com tanta gente à disposição, somente Rambi volta como controlável
(além de Squawks, que ajuda a localizar itens escondidos)

A evolução natural de Returns

Donkey Kong Country: Tropical Freeze serve para aplacar o medo que afligia o coração de vários nintendistas quanto à saturação dos jogos de plataforma 2D (sim, New Super Mario Bros. 2/U, eu estou falando de vocês). Sem sair da sua zona de conforto, a Retro intensificou o que havia dado certo em Returns e adicionou uma série de mecânicas novas que fica até estranho imaginar como havíamos jogado o jogo do gorilão no Wii sem as mesmas. A desenvolvedora ainda aprendeu com seus erros e removeu mecânicas falhas, como o sopro, e nos brindou com os cômicos e interessante Snowmads no lugar da insossa Tik Tak Tribe. Com excelentes doses de desafios, level design soberbo e trilha fantástica sensacional (David Wise, nós te amamos), as pequenas falhas de Tropical Freeze são tão insignificantes que a olhos menos atentos passam despercebidas e não tiram nenhum brilho de seu esplendor. Se Tropical Freeze começou como uma coletânea de mecânicas que não entraram em Returns, mal posso esperar pelo próximo jogo do Donkey Kong com as mecânicas que não entraram neste.

Prós


  • Cenários interativos e riquíssimos em detalhes;
  • David Wise;
  • Batalhas criativas contra chefes;
  • Inimigos carismáticos;
  • Excelente ambientação dos mundos e das fases;
  • Mecânica aquática é fluida e prazerosa;
  • Leaderboard para os Time Attacks aumenta a longevidade do título;
  • Dificuldade elevada pode ser um prazeroso elemento desafiante.


Contras


  • Rambi continua sendo o único animal ajudante a dar as caras;
  • Há um desbalanço entre a efetividade dos personagens secundários;
  • Bonus Rooms sem criatividade alguma e repetitivos;
  • Dificuldade elevada pode ser um elemento frustrante.
  • Consideravelmente mais curto que Returns

Donkey Kong Country: Tropical Freeze - Wii U - Nota: 9.0
E continue ligado no Blast para o nosso guia das letras KONG e das peças de quebra-cabeça, bem como outra análise de Tropical Freeze que será publicada na edição de março da nossa revista digital gratuita!
Revisão: Luigi Santana
Capas: Hugo Henriques e Diego Migueis


Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

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  1. É muito bom saber que é um excelente jogo, aliás, vocês viram? A Gamespot só deu 6 pontos para Tropical Freeze, que na minha opinião é tão ridículo quanto dar 7,5 para Skyward Sword, poxa GameSpot :(

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  2. DK é incrível mesmo! Se a bigN aparecer com mais um New Super Mario Bros, igual os anteriores diga- se de passagem, seria muita sacanagem. Em relação as críticas é normal (hoje em dia) o cara jogar só o começo do game e falar que é ruim ou bom, lembram quando o cara escalado para um review tinha que DETONAR o jogo em no máximo 3 dias, grudado no console, para então tomar uma posição, o negócio é analisar a explicação do cara e tirar sua própria conclusão.

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  3. A.L Freire, mas foi isso mesmo que eu fiz :v repara na foto mais recente do meu instagram: http://instagram.com/hugoh2p

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