Jogamos

Análise: God Wars: The Complete Legend (Switch) recria com sucesso a era de ouro dos JRPGs táticos

Título da Kadokawa Games se inspira em clássicos do estilo para narrar as crônicas mitológicas do Japão.


Considerado atualmente como subgênero de nicho, o RPG tático (ou SRPG) marcou as jogatinas da segunda metade dos anos 1990. Mesmo com Fire Emblem ainda ausente nos consoles ocidentais, vários títulos memoráveis como Final Fantasy Tactics (PS), Vandal Hearts (PS) e Front Mission 3 (PS) vieram na rabeira do clássico instantâneo Tactics Ogre (PS), combinando uma nova jogabilidade às tradicionais narrativas épicas do JRPG ao emprestar elementos dos jogos de estratégia.

De muitas maneiras diferentes, o novo lançamento da Kadokawa Games, God Wars: The Complete Legend (Switch), retoma o charme dos RPGs táticos da era 32-bits, sendo um prato cheio para quem quiser matar a saudade desta época — ou então, quem sabe, para conhecer o que o estilo tem a oferecer.

Um épico folclórico

É curioso notar que, mesmo com a ampla diversidade de mundos explorados pelos JRPGs, apenas uma minoria traz sua ambientação fundada na fantasia japonesa propriamente dita. Usualmente privilegiando gêneros como steampunk, fantasia medieval e ficção científica, o habitual das produções nipônicas é apresentar, ainda que sob seu estilo próprio, cenários fantásticos derivados de mitologias ocidentais diversas. God Wars inova neste quesito ao abordar o cenário pouco comum do folclore japonês de forma muito inspirada.

O enredo do game combina diversas lendas e figuras importantes da mitologia japonesa em uma narrativa unificada sobre as origens mitológicas da terra e do povo do Japão. A história se passa em tempos ancestrais, quando as ilhas eram divididas em três nações: Fuji, Izumo e Hyuga. Treze anos atrás, a rainha de Fuji, Tsukuyomi, se viu forçada a sacrificar sua segunda filha, Sakuya, na cratera vulcânica do Monte Fuji, como forma de aplacar a ira dos deuses. Após o sacrifício, Tsukuyomi desapareceu, deixando o comando de Fuji nas mãos do misterioso Kitsune.


A trama se inicia propriamente treze anos mais tarde, quando o aventureiro Kintaro, acompanhado do amigo divino Kuma, decidem resgatar a filha mais nova de Tsukuyomi, a princesa Kaguya, que encontra-se presa em um selo de bambu e prestes a ser oferecida como novo sacrifício ao Monte Fuji.

A partir daí, o trio parte em busca de respostas sobre a real natureza do sacrifício, o paradeiro de Tsukuyomi e sua relação com as forças que comandam essas terras. No caminho, o grupo vai recrutando a ajuda de representantes das três nações, o que inclui outras divindades (conhecidas como Myriad Gods) e figuras ilustres da mitologia nipônica, como Hanasaka, Urashima e Momotaro.



Ao longo da trama, a equipe de aventureiros se depara com a resistência de forças oficiais dos reinos, se encontra no fogo cruzado de conflitos políticos internos e externos e encara a fúria dos Tatarigamis, Myriad Gods corrompidos pelo ódio gerado pelas ações dos humanos. A narrativa é um tanto simples e sem excessos (não espere as manipulações políticas e as temáticas morais pesadas de Tactics Ogre ou Final Fantasy Tactics, por exemplo), trazendo uma trama envolvente que foca na apresentação dos personagens e na construção de mundo.

A história é contada de diferentes formas: com cenas in-game, por meio de figuras e textos interpostos numa espécie de história em quadrinhos animada e, também, com curtas cenas animadas. A dublagem em inglês infelizmente não faz jus ao material original e, embora haja a opção de utilizar as vozes japonesas, essas cenas curtas em anime carecem de quaisquer legendas.



A trama se desenvolve ao longo de quatro capítulos, cada qual subdividido em cerca de doze episódios. No início do jogo, ainda não acostumado com o ritmo das batalhas e pouco ambientado no mundo do game, tive a impressão de que a narrativa caminhava um tanto devagar demais. Não ajudou o fato de que as batalhas no início também acabaram a se arrastando um pouco, com a movimentação e opções de ataque dos heróis ainda bastante limitados.

Felizmente, dentro de poucos episódios do primeiro capítulo, a história já pegava o passo, apresentando linhas narrativas intrigantes e um ritmo variado de acontecimentos que me manteve interessado por todo o desenrolar da longa aventura. Por sua vez, conforme os personagens deixaram os levels iniciais e foram adquirindo novos poderes e habilidades, as batalhas foram se tornando mais dinâmicas e divertidas, ao passo em que o jogo se tornou a tradicional experiência viciante que se pode esperar de um bom título do gênero.

A proposta de uma aventura pelo folclore japonês é abordada de forma inventiva e deve agradar tanto os que conhecem a respeito das histórias que serviram de inspiração, quanto os que conhecem pouco sobre o tema. Os primeiros entenderão algumas das formas com que a trama vincula lendas totalmente diferentes em um crossover divertido, enquanto que os segundos encontrarão aqui uma apresentação envolvente a essas lendas — em especial para os fãs dos SRPGs.


Guerras e grades

God Wars recria um pouco dos SRPGs da era 32-bits, tanto em termos audiovisuais quanto em sua jogabilidade. A apresentação visual do jogo é simplista e retrô, remontando em grande parte aos jogos nos quais se inspirou. Os personagens e monstros são representados por modelos 3D revestidos por texturas simples, com uma paleta dessaturada que se assemelha muito mais aos clássicos do PS do que aos visuais coloridos de um Disgaea 5 (Multi), por exemplo. 

Embora os modelos sejam bastante competentes, garantindo um visual reminiscente de Rainbow Moon (Multi), a movimentação e animações seguem padrões pré-determinados pouco variáveis. Apesar de contar com uma ampla variedade de skills, sua representação visual tende a ser muito semelhante entre si, sendo que faltam indicadores visuais simples que poderiam fazer toda a diferença, inclusive em termos de jogabilidade. Por exemplo, não há indicação visual de ataques físicos elementais, que são representados com as animações padrão. 

Toda navegação pelo Japão ancestral se dá por meio de um mapa do mundo simples, subdividido em pontos que representam diferentes localidades onde cada episódio se passa. O sistema é semelhante ao visto em jogos como Tactics Ogre e Final Fantasy Tactics, e a navegação é descomplicada — por sorte, nada dos famigerados encontros aleatórios.


Alguns desses locais possuem construções especiais. Nos Shops, o jogador pode comprar equipamentos e itens diversos para sua equipe. Já os Shrines oferecem uma opção para realizar doações ao santuário (e, com isso, receber uma “benção” aleatória, que dura pela próxima batalha) e também a galeria de Requests, sidequests onde o jogador pode realizar seu grinding de levels e jobs, com missões especiais desbloqueáveis que trazem equipamentos únicos como recompensas.


A construção dos personagens é feita a partir de skill trees, em um sistema de jobs com multiclasses. O jogo não traz possibilidade de recrutamento ou criação de personagens genéricos. Os personagens jogáveis são unicamente os protagonistas da história, cada qual contando com um job próprio e fixo, e dois slots para jobs genéricos: o main job determina os stats e os equipamentos que o personagem pode utilizar, enquanto que o sub job permite o uso das técnicas aprendidas com a classe em questão.

A compra de habilidades na skill tree é feita com JP (job points), enquanto a progressão de level do personagem se dá com o acúmulo de EXP (pontos de experiência). O sistema todo é imediatamente assimilável para o jogador com experiência no estilo e consegue ser intuitivo o suficiente para o iniciante, mesmo contando com algum nível de complexidade.


As batalhas seguem a tradicional combinação entre perspectiva isométrica e movimentação em grade. Cada personagem conta com seus stats de movimentação (Move) e de pulo (Jump), que determinam sua mobilidade pelo mapa.

As etapas não são divididas entre turnos do jogador e turnos da CPU, mas sim em uma ordem de turnos individuais por personagem, convenientemente denotada graficamente no canto direito da tela. A sequência é definida de forma simples pelo stat SPD, sendo que conta-se como um turno de batalha completo cada rotação por todos os personagens em campo.

Em cada turno de personagem, o jogador pode se mover e realizar uma ação, na ordem em que preferir. Os personagens contam com os stats tradicionais de HP e MP, sendo que o padrão do MP é iniciar zerado e se preencher ao longo da passagem dos turnos segundo uma taxa de recuperação que depende da quantidade de ações tomadas pelo personagem em questão. A administração do MP é um ponto essencial, já que as Skills representam o cerne das estratégias de uso da maioria das classes. 

Esse funcionamento “invertido” da barra de MP acaba tendo como efeito um compasso mais devagar e cuidadoso às batalhas, já que não é possível partir para uma ofensiva completa já no primeiro turno, sendo que o tempo necessário para se obter energia suficiente para um ataque ou buff acaba entrando na conta de determinada estratégia. Assim, o jogo traz elementos bastante familiares aos jogadores de Tactics Ogre, com um ritmo de batalha compassado que prioriza a estratégia e a administração de skills, personagens e classes, de acordo com cada situação. 

Aperfeiçoando a arte do combate

Embora a ambientação e a história do game não deixem a desejar, as batalhas são, sem dúvida, o ponto principal da experiência. Enquanto atravessar um JRPG tradicional significa provavelmente passar por centenas ou milhares de batalhas simples e de curta duração, os jogos do subgênero SRPG usualmente trazem poucas batalhas que, por sua vez, são mais complexas e longas. God Wars não foge da regra: é muito comum que uma batalha dure mais que 40 min, e não foram poucas as pelejas da história que me consumiram por mais de 1h30..

Para os menos entusiastas do estilo, isso pode contar como um ponto negativo, mas é certo que mesmo as batalhas longas dificilmente caem na mesmice ou na repetitividade. O ganho do sistema tradicional que God Wars retoma é justamente seu balanceamento afinado: o jogador está o tempo todo avaliando situações diversas e traçando estratégias, sendo que uma posição de vantagem pode ser rapidamente revertida em um único momento de desatenção, o que acarreta um nível de dificuldade um tanto elevado, ao mesmo tempo que garante que os combates se mantenham emocionantes.

Desbloquear, evoluir e combinar classes, coletar itens raros e desenvolver estratégias para vencer uma batalha acirrada são atividades envolventes que se mesclam bem com o avanço da história. Os desafios apresentados pela trama são variados, sendo que cada capítulo traz uma estrutura própria, evitando cair em repetições.

Em um momento, sua equipe está fugindo do exército de uma das nações, no outro enfrentando como boss uma deidade corrompida superpoderosa e, em um terceiro momento, cruzando a barreira entre o mundo real e o mundo dos mortos, o Yomi, através de um corredor longo e repleto de monstros com habilidades incomuns.


Nesse meio tempo, os personagens se desenvolvem de forma orgânica. Não se trata de um game que convide o jogador a investir muito tempo em tarefas repetitivas de farming — o que não significa que essa evolução não tome muitas e muitas horas. Com batalhas longas e o ritmo lento típico dos clássicos do subgênero, é importante levar em conta que God Wars é uma experiência alongada e que deve apetecer especialmente ao jogador que não se importa em sacrificar um pouco da dinâmica e velocidade em favor das microestratégias.

O game traz uma boa variedade de mapas, os quais são revisitados ao longo da jornada e nas sidequests. Elevação e desenho do campo de batalha são elementos centrais para a estratégia de jogo, especialmente nos níveis de dificuldade mais elevados. O quanto o jogador se deterá na exploração das sidequests dependerá de suas preferências e estilo de jogo. Há um mínimo de grinding necessário, porém as batalhas longas são compensadas por um sistema relativamente rápido de progressão, com os personagens ganhando EXP e JP por cada ação executada, o que faz com que cada batalha traga efeitos observáveis no treinamento da equipe.



Assim, o grinding é uma estratégia possível — mas não a única — para se encarar os desafios no caminho da princesa Kaguya e de seu bando mitológico. O sistema multi-classes do jogo traz opções robustas de customização de maneira relativamente descomplicada. Algumas classes são evoluções completas sobre outras, mas a transição se dá de forma gradual e bem compassada.

A combinação de diferentes jobs de suporte, ataque físico e ataque mágico pode originar modos de jogar bastante diversos para cada personagem. Embora tenham alguma variação de aptitudes nos stats, cada personagem pode se aperfeiçoar em qualquer uma das classes (a exceção sendo um par de classes determinado pelo gênero), o que abre um leque de possibilidades quando levamos em conta seus jobs únicos.



O sistema conta ainda com uma grande variedade de status infligíveis, todos com a possibilidade de serem evoluídos para um estado mais agudo. Quando inflingido duas vezes seguidas, por exemplo, o status Slow torna-se Stop, e passa de uma queda na capacidade de movimentação do personagem à paralisia completa, enquanto Poison pode ser agravado para Venom, com um dano de envenenamento maior por turno. Outro ponto interessante é que as skills de ataque de um tipo de arma podem ser transferíveis para outro: por exemplo, as técnicas de espada aprendidas por um Samurai podem ser adaptadas para uso com arco e flecha de um Archer, e vice-versa.

Embora o game não traga grandes inovações ao gênero, a combinação de uma seleção vasta de skills com um conjunto de classes que se inspira em alguns arquétipos de forma original tem como resultado um sistema capaz de entreter por muito tempo, com alto fator replay.


Estendendo a jornada mitológica

Caso as centenas de horas prometidas pelo sistema de batalha do jogo-base não bastem para o jogador, God Wars: The Complete Legend inclui ainda conteúdos adicionais em relação à versão original Future Past. Mais especificamente, o game traz o conteúdo pós-game “The Labyrinth of Yomi”, que traz uma grande quantidade de desafios extras, aumenta o level cap dos personagens e adiciona mais heróis jogáveis à equipe, praticamente dobrando o tempo de jogo por mais uma centena de horas.

A adição traz novos conteúdos a um game que já garantia a perspectiva de horas e mais horas de diversão, especialmente para os veteranos dos SRPGs sedentos por um game com abordagem retrô e um ritmo menos dinâmico e hiperbólico do que a da (sempre excelente) série Disgaea. Para os novatos, no entanto, a versão traz diversas melhorias de “qualidade de vida”, incluindo a possibilidade de agilizar as batalhas, tornando a movimentação mais rápida e abreviando as animações de ataque.


Há algo de muito charmoso no estilo de jogo que God Wars: The Complete Legend se propõe a recriar, e por sorte a produção sucede o suficiente para ser uma boa pedida tanto para veteranos quanto para os não-iniciados no estilo. Mas fica o aviso: reserve um tempo na sua agenda. O Japão mitológico é cativante demais, e ele não se importa se você tem compromissos para amanhã de manhã!


Prós

  • Ambientação original inventiva e pouco explorada do folclore japonês;
  • Personagens interessantes, com personalidades e histórias marcantes;
  • Batalhas desafiadoras, enfatizando a estratégia para além do grinding;
  • Level design bem acertado, trazendo um bom equilíbrio entre exploração e velocidade;
  • Elemento estratégico bem balanceado, repleto de opções para customização e microgerenciamento;
  • Bons designs de personagens e monstros;
  • Alto fator replay;
  • Boa trilha sonora;
  • Conteúdo adicional renova a experiência, trazendo dezenas de horas de jogo.

Contras

  • Presença de alguns glitches de áudio;
  • Ausência de legendas nas cenas animadas;
  • Câmera automática dificulta a visualização durante turnos do inimigo;
  • Algumas batalhas são excessivamente longas;
  • Pouca variedade de faixas na trilha sonora.
God Wars: The Complete Legend — Switch — Nota: 8.5
Revisão: Gabriel Bonafé
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America
Giba Hoffmann é gamer pra todo jogo, mas tem predileção por títulos retrô e um bom e velho JRPG. Sonic, Donkey Kong Country, Ratchet & Clank, Final Fantasy e Disgaea são algumas das séries que formaram a paixão pelos games, desde que ganhou seu Mega Drive, muitos (nem tantos!) anos atrás. Além de escrever para o Nintendo Blast, pode ser encontrado tagarelando no Plano Crítico e no Aventurine Brasil.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook