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Análise: Keep Talking and Nobody Explodes (Switch) é co-op para jogar em pequenas doses

Título indie aproveita a portabilidade do console da Nintendo para criar divertidas situações de comunicação, mas regras fixas fazem com que a sensação de novidade dure pouco.

O Nintendo Switch continua sendo uma ótima plataforma para curtir títulos indies. A própria Nintendo prometeu disponibilizar de 20 a 30 jogos independentes por semana na eShop e games aclamados, como Inside, Overcooked e Hollow Knight, já estão disponíveis para fãs do console híbrido. Seguindo esta onda, mais um indie bem-sucedido se junta a esta lista: Keep Talking and Nobody Explodes.


Lançado pelo estúdio Steel Crate Games originalmente em 2015, para hardwares de realidade virtual, o jogo fez sucesso na internet devido ao seu gameplay cooperativo caótico, à sua jogabilidade assimétrica e a um criativo uso dos óculos VR. Na sua conversão para consoles tradicionais, poucas destas características foram perdidas, mantendo seu prestígio como um bom party game. No entanto, uma série de regras inflexíveis fazem com que o frescor do título suma após certo tempo, tornando-o propício para sessões curtas de jogo.

Quem não se comunica, se trumbica

Em Keep Talking and Nobody Explodes, os jogadores assumem o papel de um esquadrão antibombas, que deve desativar uma série de explosivos antes que o tempo acabe. Cada bomba possui módulos contendo quebra-cabeças que precisam ser solucionados para que o dispositivo seja neutralizado.
Uma bomba com vários módulos esquisitos.


Um jogador é o desarmador, que lida diretamente com a bomba, apertando botões e cortando fios. Porém, ele não tem as instruções necessárias para saber como proceder. Entram aqui as demais pessoas, que atuam como Experts e possuem um manual ― disponível no site do game ― que explica o passo a passo de como decifrar cada um dos módulos. O desarmador não pode ver o manual e os Experts não podem olhar a bomba. Dessa forma, todos devem falar aquilo que veem e compreendem para que juntos resolvam os desafios e não explodam.

Assim, o destaque da jogabilidade não se encontra no game em si. Ele extrapola o console e torna-se divertido de jogar devido à natureza da comunicação entre pessoas. Por causa disso, este é um título estritamente cooperativo, que necessita de pelo menos duas pessoas para ser apreciado na sua totalidade. O jogo exige que os participantes descrevam elementos da bomba, interpretem as complexas tabelas e diagramas do guia e tenham poder de síntese para passar as informações da maneira mais simples possível.
Só tem a experiência completa quem reúne os amigos para jogar.

Para alcançar o objetivo final, é comum ver uma linguagem própria nascer entre os jogadores. Durante as sessões em que fiz parte, cada grupo criou analogias e expressões próprias. É interessante reparar que diferentes partidas com diferentes pessoas podem originar contextos comunicacionais completamente distintos, fazendo com que cada momento com o game seja único. É por causa dessa característica que o game não se torna nem mais fácil, nem mais difícil quando jogado com mais pessoas. Afinal, não é a quantidade de vozes que conta, mas sim a qualidade da comunicação. Além disso, por usar a fala como elemento de jogo, é um título acessível para aqueles que não têm o costume de jogar videogames, pois é simples de participar.

Assim como aprendemos nas aulas de língua portuguesa na escola, sempre há algum erro de interpretação, confusão no uso das palavras, ou falta de clareza que pode atrapalhar a interlocução. Quando isso acontece, o caos e a tensão se instauram no jogo, provocando os momentos mais memoráveis. O ambiente de confusão que se forma é propício para risadas, algumas discussões e situações em que o trabalho em grupo é posto à prova. A necessidade de comunicação (ou a falta dela) faz esse jogo se destacar entre os demais jogos de festa no mercado.

Um portátil somente para seus olhos

Quando foi lançado, Keep Talking and Nobody Explodes criou uma experiência que aproveitava as características únicas da realidade virtual. Nesse caso, o desarmador via a bomba nos óculos VR, enquanto os Experts, fora do mundo virtual, ajudavam-no por meio do manual. Há, nesse cenário, uma incapacidade física dos jogadores bisbilhotarem o material alheio e trapacearem.

Na transição para consoles, esta barreira sumiu, já que a bomba é sempre exibida na televisão. Cabe aos jogadores serem honestos e criarem métodos para não burlar o jogo. Porém, o Nintendo Switch se sobressai às outras plataformas neste aspecto devido à sua característica exclusiva: a portabilidade.

O modo portátil do Switch é o que melhor simula o isolamento dos óculos VR, já que facilita com que o jogador com o console em mãos seja o único capaz de ver a bomba. Criar setups que impedem que amigos e familiares deem aquela olhadinha indiscreta na bomba ou nas instruções é mais natural com o hardware da Big N, mantendo o gameplay mais puro possível.

Desarmando in English

Para um título que utiliza a conversação como pilar principal, o idioma é algo que também deve ser levado em consideração. Estando baseada no Canadá, a produtora Steel Crate Games usou o inglês como língua padrão de todo o material do jogo. Enquanto para alguns isso é só mais um detalhe, para outros, pode ser um impedimento para aproveitar o game.

No site do título, o manual de desarmamento de bombas só está disponível em inglês. Enquanto é compreensível que não haja uma localização oficial em português devido ao tamanho enxuto do estúdio ― que conta com somente quatro pessoas ―, é inconveniente não poder desfrutar do material na nossa língua, principalmente depois de alguns anos em que o título já vem fazendo sucesso em outras plataformas. Felizmente, há traduções feitas por fãs disponíveis pela internet.
English. English everywhere.

Porém, não é só o manual que está na língua inglesa. O jogo inteiro também está. Alguns desafios dependem que se pronuncie termos em inglês, algo que pode desestimular alguém que possui dificuldade com o idioma a participar de uma partida. Por mais acessível que Keep Talking and Nobody Explodes possa ser ao se basear somente em conversas, o obstáculo de lidar com uma língua estrangeira pode ser intransponível para certas pessoas.

Além disso, neste choque entre o português e inglês, algumas peculiaridades dos quebra-cabeças acabaram se perdendo. O mais notável é em um módulo cujo truque é criar ambiguidade entre palavras. Nele, há um visor em que podem aparecer diferentes vocábulos, entre eles “Nothing”, “Blank”, ou uma tela vazia é mostrada. Para um falante nativo do idioma inglês, estas opções causam confusão, pois podem significar a mesma coisa. Para nós, brasileiros, porém, a ambiguidade é inexistente.

Aleatoriedade e repetição

Como forma de manter os participantes atentos, os 32 estágios do game, além de aumentarem a dificuldade gradativamente, apresentam bombas geradas de maneira aleatória. Se, por um lado, isso torna cada sessão de jogo imprevisível, por outro, faz com que os níveis oscilem entre a habilidade e a sorte, já que os explosivos podem conter atividades mais ou menos desafiadoras randomicamente.

É comum presenciar situações em que o algoritmo do software substitui módulos mais complexos, introduzidos na metade do game, pelos mais simples, que são apresentados logo no começo, ou até mesmo por quebra-cabeças mais rápidos de resolver. Quem sai em vantagem são os participantes, como aconteceu comigo, que desativei uma bomba faltando milésimos de segundos porque o último módulo era inesperadamente rápido de solucionar. Porém, esses cenários de sorte acabam impedindo que a capacidade de comunicação e interpretação, destaques do título, sejam testadas.
Sistema randômico pode interferir injustamente na dificuldade das bombas.

Ao contrário da aleatoriedade das bombas, as regras para desarmá-las são pré-determinadas e bastante rígidas. Nos primeiros minutos de jogo, quando todos ainda estão se familiarizando com elas, a novidade faz com que obedecê-las seja divertido. Porém, após alguns níveis concluídos, elas se tornam repetitivas. Em um grupo com que joguei, houve gente que memorizou as condições para inativar um módulo após desarmá-lo diversas vezes, enquanto outra pessoa classificou resolver alguns desafios como “burocrático”.

É exatamente essa a sensação que fica. Por serem muito inflexíveis, as regras provocam uma repetição de tarefas que se torna cansativa em sessões muito compridas. O jogo torna-se mais leve quando usufruído em doses homeopáticas. Basta lembrar de seu gênero de party game para perceber que ele é feito justamente para festas ou encontros ocasionais, em que cada convidado se diverte com o jogo por um curto período de tempo e já parte para outra atividade. Querer platiná-lo em uma noite só requer uma persistência que poucos possuem.

Uma bomba legal de segurar

Keep Talking and Nobody Explodes é um exemplo de como produtoras independentes estão sabendo aproveitar o potencial do Nintendo Switch. A repetição provocada por regras fixas e o desbalanceamento causado por bombas randômicas tornam o título maçante se jogado por muito tempo. No entanto, ele é uma boa e criativa experiência se degustado em pequenas porções.

Seu foco no diálogo entre jogadores é capaz de engajar até mesmo quem não é fã de games em momentos engraçados, tensos, caóticos e memoráveis, provenientes somente por meio da fala. O modo portátil do Switch auxilia que cada jogador fique focado em sua própria tarefa, reforçando as características do jogo. Para aquelas reuniões entre amigos, que tal reservar alguns minutos para impedir umas bombas de explodirem?

Prós

  • Quebra-cabeças que incentivam o trabalho em equipe;
  • Foco em comunicação cria situações e diálogos diferentes a cada sessão;
  • Jogo acessível para quem não está acostumado a jogar;
  • Modo portátil do Switch ressalta as características do game.

Contras

  • Necessidade de conhecimentos de inglês pode afugentar algumas pessoas;
  • Bombas aleatórias desnivelam a dificuldade dos estágios;
  • Regras imutáveis causam atividades repetitivas.
Keep Talking and Nobody Explodes — Switch/PS4/XBO/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Nintendo Switch
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Steel Crate Games
Daniel Morbi é jornalista, analista de mídias e entusiasta dos games desde que conheceu Pokémon Azul no Game Boy Color quando criança. De lá para cá, dedicou-se a plataformas Nintendo, apesar de se aventurar no Xbox e no PC ocasionalmente. É capaz de demorar anos para zerar um jogo e tem mais games do que consegue jogar. Você pode encontrá-lo no Facebook e, futuramente, em outras redes sociais, quando ele tiver coragem para alimentá-las.

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