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Análise: Olympia Soirée (Switch): mitologia japonesa, preconceito e o papel do indivíduo

O otome game conta a história de uma jovem tentando encontrar uma forma de mudar uma sociedade estratificada.

Olympia Soirée
é o mais novo otome game a ser publicado no Ocidente pela Aksys Games. Desenvolvido pela Otomate, trata-se de uma visual novel cuja história tem um grande foco em apresentar um mundo ficcional cheio de problemas. Diante dessas circunstâncias, a protagonista Olympia tem a chance de ser mais do que uma simples engrenagem de uma sociedade podre.

Mais do que uma boneca

A história se passa na ilha Tenguu, um lugar marcado por uma sociedade bastante estratificada. Nela, as pessoas são divididas em castas de acordo com a cor do cabelo e dos olhos. As cores primárias - azul, amarelo e vermelho - são consideradas puras e seus líderes são as figuras mais poderosas da ilha, servindo diretamente ao grande líder, Hiruko, que é praticamente um deus para os habitantes locais.
 
Há também as castas associadas a cores secundárias, que ainda possuem grande influência na ilha, mas as combinações menos puras são agrupadas em Pied, Versi e Darkness. Os Pied ainda vivem na superfície em uma área bem isolada das demais, mas quaisquer pessoas classificadas nos outros dois grupos são obrigadas a viver no Yomi, uma espécie de grande distrito subterrâneo para onde também são enviados os criminosos.

Além de todos eles, existem as Brancas, mulheres que viviam na ilha Tennyo até uma grande catástrofe levar à morte de praticamente toda a população. Apenas uma jovem garota sobreviveu, sendo levada para a ilha Tenguu pelo líder dos Amarelos, Douma, que criou a menina.
Sem ela, todos os moradores da região estariam perdidos. Afinal, a classe das Brancas era composta por fervorosas sacerdotisas de Amaterasu, a deusa do Sol. Sem os seus rituais, o céu seria permanentemente tomado pela escuridão. Assim nasceu a figura de uma jovem que reza constantemente para trazer de volta a luz, a menina conhecida popularmente como Olympia.
 
Após alguns eventos do passado, ela optou por não sair da mansão de Douma para qualquer coisa que não fossem os rituais para Amaterasu. Ela nem mesmo olha para os lados ou esboça reações, sendo conhecida pela população como um indivíduo frio. Também em casa, a personagem vivenciou anos de tortura psicológica do seu guardião, que parecia tratá-la mais como uma boneca para sua posição política.
Após completar 18 anos, Olympia é intimada a arrumar um marido para preservar o legado da sua cor. De acordo com a lei, ela pode escolher homens de qualquer classe social como pretendentes. Membros de outras cores usualmente não têm a mesma sorte, sendo o crime de misturar cores muito distantes na hierarquia passível de pena de morte.
 
No entanto, a moça decide aproveitar as saídas de casa para conhecer mais sobre a realidade de Tenguu. Olympia entra em contato com pessoas de várias realidades sociais, visita o Yomi e pensa no que ela mesma conseguiria fazer para mudar a ilha e resolver — ou pelo menos minimizar — os seus problemas sociais. É bem interessante ver a estrutura social e o esforço dos personagens para subverter essas circunstâncias. Vale destacar que tópicos pesados como suicídio e estupro são utilizados na trama.

Seis rapazes, seis histórias

Além de toda a questão social, é importante destacar que Olympia Soirée é um otome game, ou seja, uma visual novel com protagonista feminina que pode se envolver com uma variedade de rapazes. O jogo é dividido em seis rotas, estando liberadas desde o início as de Riku (casta azul), Tokisada (casta verde), Kuroba (casta preta/darkness) e Yosuga (casta roxa). Após concluir a história desses personagens, é possível acessar as histórias do misterioso Himuka, que realiza os ritos fúnebres em Yomi, e do líder da organização Kotowari, Akaza.
 
Cada um dos personagens conta com sua própria história, detalhando certos aspectos relevantes de como a sociedade da ilha funciona. Estão inclusos os hazushi, criminosos que se envolveram em relacionamentos com castas muito diferentes; as pessoas que vieram do “mundo exterior”; a doença que causa descoloração, conhecida como haku; entre outros elementos bastante relevantes para esses indivíduos.
De acordo com as escolhas de Olympia, é possível obter finais bons ou ruins com os personagens e a corretude das decisões tomadas é indicada por uma bússola. As opções boas levam o ponteiro ao símbolo do sol, enquanto as que levarão o romance a uma grande catástrofe apontam para a lua. 

Além do passado dos personagens e do desenvolvimento romântico deles com Olympia, mais detalhes vão sendo revelados sobre o mundo em que eles vivem. Vale destacar que a ilha tem uma forte influência de elementos culturais japoneses. Além do impacto da mitologia japonesa na ambientação da história, é possível perceber a influência nas ilustrações dos cenários e em músicas que utilizam estilos tradicionais do país.
 
Outro elemento que chama a atenção é a direção de arte de forma geral. É perceptível que as ilustrações de fundo e as cenas de eventos específicos da história são marcadas por efeitos de iluminação. A ideia é simular prismas de luz, o que parece um estilo adequado para uma obra em que as cores são tão relevantes. Além disso, durante diálogos comuns, os personagens possuem movimentação labial e piscam, um efeito que ajuda a dar um pouco de vida às ilustrações.
Em termos da história em si, uma coisa que pode ser bastante incômoda é o uso excessivo de flashbacks. Existem até casos absurdos em que Olympia se lembra de uma fala que acabou de acontecer enquanto o diálogo ainda nem acabou. Há também instâncias em que a personagem se lembra de determinadas cenas com muita frequência em um curto período de tempo.
 
Apesar de ser um detalhe incômodo, gostaria de mencionar que acredito que ele faça parte da personalidade de Olympia. A garota tende a ser um tanto negativa, e esse excesso parece ser uma tentativa de refletir um pouco das suas inseguranças. Isso é particularmente perceptível nos casos mais traumáticos, como as várias vezes em que ela lembra de ser tratada com espanto por uma pessoa que estranhou a sua cor.
Outro problema é que a transição de cenas, em algumas raras ocasiões, leva a momentos em que é um pouco confuso entender o que está acontecendo. Como há alguns personagens secundários sem ilustração, certos momentos com apenas texto e arte de fundo poderiam ser mais claros e detalhados.
 
Por fim, gostaria de destacar que, ao contrário de Café Enchanté (Switch), outro otome game publicado pela Aksys, Olympia Soirée consegue manter a leitura fluida até o fim. Durante meu tempo com o jogo, notei pouquíssimos erros no texto em inglês e eles não afetaram a experiência. O único porém é que foram adicionados diálogos em japonês aos menus após eu terminar as rotas, e esses trechinhos não possuem nenhuma legenda, o que significa que é impossível entendê-los sem saber a língua original.

Um mundo envolvente

Olympia Soirée é uma boa pedida para fãs de otome games e visual novels em geral. Com sua inspiração na cultura japonesa e discussão social, o título apresenta um mundo bastante envolvente. Além disso, ele parece indicar um bom aprendizado da Aksys Games em relação à tradução de Café Enchanté, renovando as expectativas para futuros títulos de alta qualidade.

Prós

  • A inspiração em elementos culturais japoneses perpassa com maestria a história, as ilustrações e as músicas;
  • Direção de arte sólida, que brinca com efeitos de iluminação para destacar cenas e cenários;
  • Discussão social instigante;
  • Poucos erros óbvios, que não prejudicam a leitura fluida do início ao fim;
  • Movimentação labial e piscadas ajudam a dar um tom de vida aos personagens.

Contras

  • Uso excessivo de flashbacks;
  • Algumas cenas poderiam ser desenvolvidas de forma mais clara;
  • Trechos de fala em japonês sem legenda após terminar as rotas.
Olympia Soirée - Switch - Nota: 8.0
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Aksys Games

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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