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Análise: Iro Hero (Switch) prova que repetição leva à perfeição

Com nível de desafio bastante elevado, game “força” o jogador a passar pela mesma fase inúmeras vezes.

Encontrar representantes do gênero shoot 'em up (os populares “jogos de navinha”) que oferecem nível elevado de desafio é tarefa um tanto quanto simples. Geralmente com fases curtas, esse tipo de game usa a alta dificuldade como ferramenta para incentivar a progressão. Afinal, conforme se vai aprendendo os padrões de ataque e movimentação dos inimigos, mais fácil se torna a missão de concluir cada etapa. Sem a possibilidade de exploração e com avanço automatizado, o gênero precisa ser agressivo para despertar o desejo do público de continuar com a jogatina.


Iro Hero, projeto do estúdio Artax Games e distribuído pela eastasiasoft, segue adequadamente esses ensinamentos. Particularmente, é um dos shoot 'em up mais complicados que já experimentei. No entanto, o jogo acaba tropeçando em algumas outras características, falhas que o tornam cansativa a simples atividade de memorização e destreza. O exemplo mais gritante é a falta de recompensas durante as fases, não há grandes incentivos para eliminar a maior quantidade de naves inimigas ou executar manobras arriscadas.

Normalmente, os títulos semelhantes presenteiam os jogadores mais habilidosos ou ousados com melhores armas ou escudos. Já em Iro Hero, os equipamentos extras até existem, porém são extremamente raros e o esforço para conquistá-los dificilmente vale a pena. Depois de pegar um tiro mais potente, basta tomar qualquer hit para perder a conquista e como as vidas são bastante valiosas, a balança acaba pendendo em deixar o item de lado e bolar outras estratégias para chegar ao final de cada fase.
A maior parte do tempo nossa nave permanece com os tiros simples

Um mundo em caos

O plano de fundo que cerca Iro Hero é interessante, porém peca no desenvolvimento. A trama começa em 2306, quando os humanos aprendem com a raça alienígena Nyagu como transformar a energia do próprio corpo em eletricidade. No entanto, algumas empresas enxergaram nessa possibilidade uma chance de lucrar e começaram a criar fazendas de humanos para produção de energia. Quando sua mãe morre em uma dessas usinas, Iro parte em busca da maneira para mudar a situação.

O enredo vai se desenvolvendo através de cutscenes apresentadas antes de cada fase e também em diálogos que ocorrem no desenrolar dos estágios. A tela do gameplay é dividida em três blocos, com a ação concentrada na área central e as laterais servindo para passar informações sobre as armas, inimigos e também do comunicador de Iro. Como as conversas são todas escritas e não há dublagem, muitas vezes é praticamente impossível ler o que os personagens dizem ao mesmo tempo em que é preciso se concentrar nos inimigos que continuam aparecendo.

Em algumas fases, o diálogo acontece em momentos de pouca ação, possibilitando acompanhar a trama. Entretanto, essa não é a regra e as conversas que acontecem em meio aos tiroteios acabam passando batidas. É verdade que os fatos mais importantes são sempre mostrados nas cutscenes, porém perder parte das interações entre os personagens faz com que dificilmente se desenvolva algum sentimento do jogador pelo protagonista ou coadjuvantes da história.
Difícil acompanhar as conversas e desviar de obstáculos ao mesmo tempo

Repetição, repetição, repetição...

Desde os menus iniciais, Iro Hero se propõe como um jogo arcade. Na tela de título, faltou apenas a mensagem de “insert coin” para eu dizer que estava diante do fliperama. E como todo bom arcade, o game tem como objetivo consumir a maior quantidade de fichas. No início de cada fase, começamos com três vidas. Perdemos uma delas instantaneamente ao se chocar com outras naves ou obstáculos no cenário, ou então, se nosso veículo é acertado por três disparos inimigos.

Ouso dizer que é praticamente impossível passar qualquer uma das fases logo na primeira tentativa. O jogo vai “ensinando” como prosseguir através da repetição. Foi acertado em cheio por uma nave que aparece do nada? Jogue novamente e evite estar naquela região da tela na próxima vez. Como as fases são curtas, a tarefa de ir memorizando onde está cada obstáculo não é tão complicada, porém ter que passar pelo mesmo estágio inúmeras vezes até conseguir vencê-lo pode ser uma experiência bem frustrante.

Apenas como curiosidade, para conseguir terminar a primeira fase — que é a mais fácil de todas — precisei de cerca de 40 minutos. Sendo que se você conhece todas as armadilhas, consegue terminá-la em menos de cinco minutos. Motivado por essa necessidade de um replay constante, Iro Hero é bem curto, contando apenas com nove estágios. Porém, se engana aquele que imagina que conseguirá finalizar a aventura logo de cara. São necessárias horas de treino para atingir a perfeição.
Chefão da primeira fase se torna inimigo recorrente nos próximos níveis


Depois de terminado, o game não traz muitos motivos para uma segunda aventura espacial. Além do modo história, em que o progresso é salvo depois que concluímos cada fase, há ainda duas opções mais arcades, que trazem como desafio terminar a jornada com somente uma ou três vidas. Caso perca todas as chances é game over e será necessário recomeçar tudo desde o início. Para os pilotos mais habilidosos da galáxia, é possível compartilhar sua pontuação com o restante da comunidade através do ranking online.

Universo colorido

Iro Hero traz uma mecânica diferente, que até compensa um pouco a falta de power-ups. A nave que controlamos pode mudar de polaridade através dos botões ‘L’ e ‘R’ e isso afeta diretamente a jogatina. Quando estamos vermelhos, nossos tiros destroem apenas os inimigos azuis e somos capazes de absorver os disparos vindos de rivais da mesma tonalidade. Porém, quando mudamos para azul, tudo se inverte. Saber aproveitar bem essa ferramenta é fundamental para progredir.

Por exemplo, em uma sessão onde só aparecem inimigos azuis. Pode ser mais interessante deixar a nave de Iro na mesma cor para ir absorvendo energia — que é utilizada para disparar os especiais. Conforme vamos avançando na história, a mecânica de cores começa a se tornar mais desafiante, com portões de laser que só podem ser atravessados quando estamos com determinada polaridade, espelhos que refletem certos tiros e mudam sua cor, naves roxas que são destruídas por tiros que passam por lasers amarelos, entre outros.
Não precisamos desviar quando podemos absorver a energia dos tiros inimigos
Os controles respondem muito bem à necessidade de troca constante de polaridade. Em alguns momentos, é preciso alternar rapidamente entre azul e vermelho, ação que tem o nível de resposta ideal. Durante toda minha experiência com Iro Hero, não constatei nenhuma dificuldade relacionada aos comandos, tanto no modo portátil do Switch quanto nos períodos em que o console estava no dock. Assim como a mudança de polaridade, o controle da nave do protagonista também é firme.


Ressalva a ser feita é a falta de uma opção “restart” no menu de pausa. Como precisamos jogar a mesma fase várias vezes, em algumas tentativas em que vacilamos logo no início e achamos melhor recomeçar, é preciso se chocar de propósito contra outros inimigos. Depois, somos obrigados a ver a cutscene mais uma vez antes de começarmos o estágio de novo. Após a sétima ou oitava tentativa, o processo se torna cansativo — algo que seria facilmente resolvido com o restart que te colocasse no começo do nível sem precisar ver a cena de abertura.

As luzes da galáxia

Com cenários variáveis e sprites bem definidos, Iro Hero se sai bem no aspecto visual. Apesar da pouca variedade de inimigos, todas as naves contam com desenhos caprichados, mesmo com poucas animações. Já os mapas de fundo apresentam detalhes interessantes, como o efeito de lava, esteiras funcionando ou descargas elétricas, que auxiliam para criar o clima de sci-fi do game ao mesmo tempo em que não atrapalham a ação no plano principal. O grande destaque é a oitava fase, em que ocorre uma bela transição entre a base Nyagu e o espaço.
Efeitos de iluminação ao redor dos tiros mostram um pouco do capricho visual


A trilha sonora acompanha os gráficos, se tornando um charme a parte. Sempre bastante animadas, as músicas são capazes de diminuir um pouco a sensação de frustração que acomete o jogador que está repetindo a mesma fase pela vigésima vez. Elas funcionam como uma espécie de recado dos desenvolvedores dizendo: “vamos lá, você consegue!”. Já os efeitos sonoros são bem simples, com alguns sons de explosões e disparos acontecendo com frequência acima do ideal, talvez fosse mais interessante criar barulhos únicos para cada tipo de nave inimiga, eliminando assim as repetições.

Perdido na vastidão do espaço

Apesar de boas ideias e mecânicas, o game acaba se tornando rapidamente cansativo. Aqueles jogadores que não tiverem persistência para aprenderem as fases, podem abandoná-lo antes de finalizar a primeira fase. A dificuldade bastante elevada, a necessidade de ir memorizando o caminho e a necessidade de repetição quase que eliminam a sensação de progressão e evolução. Muitas vezes, senti que passei de fase mais por sorte do que pelas habilidades que desenvolvi ao longo da jornada.

Quem procura um nível alto de desafio, sem dúvidas, encontrará nesse shoot 'em up um passatempo que consumirá algumas horas. Mas, o restante do público pode acabar mais passando raiva do que se divertindo com Iro Hero.

Prós

  • Interessante mecânica de troca de polaridade;
  • Mudanças de cores permitem criar diferentes estratégias;
  • Controles respondem bem a ação rápida do game.

Contras

  • Enredo prejudicado com conversas em meio à ação;
  • Dificuldade ao estilo arcade pode afastar parte do público;
  • Pouco recompensador e sem a sensação de progressão.
Iro Hero — Switch/PC — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: Switch
Revisão: Pedro Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela eastasiasoft
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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