Blast Test

Project Triangle Strategy (Switch) é uma das mais brilhantes joias a ser lapidada pela Square Enix

Um projeto que pode se tornar o melhor RPG exclusivo da empresa para um console da Nintendo desde The Worlds Ends with You (DS).




Project Triangle Strategy
, da Square Enix, é uma grande surpresa e, ao mesmo tempo, um título mais do que esperado para o Nintendo Switch; não só por historicamente haver um grande público de jogos táticos nos portáteis (principalmente da Nintendo), mas também porque a Square Enix está entre as desenvolvedoras third-party mais tradicionalmente ligadas à Big N. Isso muito embora suas principais franquias tenham, nas últimas gerações, estado mais associadas aos consoles da Sony (especialmente Final Fantasy e Kingdom Hearts).

Momento de combate tático por turnos em Final Fantasy Tactics Advance (GBA)
Não faltam exemplos de lançamentos exclusivos e aclamados da Square Enix para plataformas da Nintendo. Destacam-se principalmente o NES e o SNES, cujas bibliotecas estão recheadas de clássicos como Dragon Quest III, IV e V, Final Fantasy IV e Final Fantasy VI, Chrono Trigger, Secret of Mana e Super Mario RPG. Além disso, nos portáteis da Nintendo, vale destacar pelo menos Tactics Ogre: The Knight of Lodis (GBA) e The Worlds Ends With You (DS). Por fim, a versão definitiva do último Dragon Quest para o console híbrido da Nintendo: Dragon Quest XI S: Echoes of an Elusive Age – Definitive Edition (Switch).
Tactics Ogre: The Knight of Lodis (GBA)
Agora, a empresa de referência para os JRPGs desenvolve um título que, sem exageros, pode não ficar muito atrás dos clássicos mencionados. Temporariamente nomeado “Project Triangle Strategy”, pode ocupar o lugar da série tática de Final Fantasy da Square Enix que falta aos portáteis da Nintendo desde Final Fantasy Tactics A2: Grimoire of the Rift (DS), de 2008.

Mas, não se engane, o título não apenas revitaliza a jogabilidade das séries Final Fantasy Tactics e Tactics Ogre, suas mais claras inspirações. Além de fazê-lo, combina-os ao visual HD-2D de Octopath Traveler (Switch) e, mais importante, traz promissoras novidades mecânicas e narrativas para o gênero. Confira abaixo algumas delas e entenda por que você deve ficar de olho nesse lançamento para 2022.
Cena em HD-2D de um combate tradicional por turnos em Octopath Traveler (Switch)

Escolhas questionáveis de design com excelentes efeitos visuais e trilha sonora

Embora o design HD-2D não seja do agrado de todos, deve-se dar o devido mérito à equipe de Octopath Traveler pela originalidade com que reimaginaram a pixelart em um jogo moderno e pelo magnífico trabalho sobre os cenários e efeitos de luz. Creio que os mesmos méritos artísticos, ainda que não mais regados com os raios de luz da novidade, são igualmente de direito do projeto Triangle Strategy; o qual está sob desenvolvimento, aliás, da mesma equipe que concebeu tal conceito de design.

Por outro lado, as cenas de batalha de Octopath Traveler soam muito mais belas e funcionais do que em Triangle Strategy. Não por falta de esmero artístico da equipe, mas pela natureza do gameplay tático em perspectiva 3D. Com a possibilidade (e até necessidade) de girar a câmera, por vezes soa um contraste pouco agradável dos sprites dos personagens em relação aos demais objetos no cenário.

Ademais, mesmo com um show de iluminação do cenário não tão detalhado quanto do título anterior da equipe, o jogador poderá presenciar quedas de FPS quando da movimentação dos personagens em batalha durante um incêndio ou algum outro evento que requeira muitos efeitos de luz.

Outra escolha de design que merece uma certa crítica, e que pode levar a dificuldades desnecessárias, é a maneira com que o jogo sinaliza ao jogador que há algum item para ser coletado. Basicamente espera que o jogador veja um discreto brilho que acende e apaga em um determinado local, o qual muitas vezes sequer possui um vaso, saco, barril ou qualquer item que sugira haver algo coletável. Para piorar, há momentos em que tal brilho pode aparecer até mesmo próximo a uma fogueira ou alguma outra fonte de luz, o que dificulta ainda mais a identificação.




Outro ponto do design que cabe destacar é a arte conceitual muito bem-feita do perfil dos personagens, a qual pode ser acionada a qualquer momento durante os diálogos. Esse recurso é eficaz não só para aguçar a imaginação do jogador, mas também para ajudá-lo a decorar os nomes e títulos de nobreza do elenco, que, diga-se de passagem, é bastante vasto, trabalhado de forma complexa e não facilmente distinguível somente por suas contrapartes pixeladas.

Entretanto, muitas vezes o perfil de um personagem transparece muito facilmente sua malícia, tornando caricatos os vilões dos jogos e tirando possíveis surpresas de traições ou ações imprevistas para seu caráter. Para quem já tenha jogado Final Fantasy Tactics (PS), sabe que reviravoltas desse tipo são especialmente enriquecedoras na trama, e tenho minhas dúvidas se essa escolha de design em alguns perfis não empobrecerá essa experiência, ou seja, a sensação de lidar com pessoas cuja estética não transparece nem o bem nem o mal, tal qual dá-se quase sempre na realidade.



Felizmente, ao lado do design visual do jogo, de altos e baixos, há uma excelente e elegante trilha sonora orquestral. Nesse âmbito, acredito que as melodias mais marcantes de Triangle Strategy sejam as das músicas Main Theme, Pre-Battle e Bitter. E embora possivelmente nenhuma dessas seja tão marcante quanto as impetuosas linhas melódicas da Trisection (uma das músicas de batalha de Final Fantasy Tactics), as composições de Triangle Strategy fazem jus à tradição de ótimos trabalhos sonoros dos RPGs da Square Enix.

Ainda que não tão marcantes quanto as de Nobuo Uematsu para Chrono Trigger ou para a série Final Fantasy, as composições em Triangle Strategy de Akira Senju — mesmo compositor de Full Metal Alchemist: Brotherhood — são poderosas e sutis, às vezes criativamente acidentadas, sombrias, dramáticas sem serem genericamente tocantes e delicadas sem serem piegas. Isso muito embora várias dessas composições sigam ideias musicais já bem conhecidas.

As músicas do novo projeto da Square Enix são extremamente ricas em instrumentos de corda. Em particular tons menores e fortes sons graves em uníssono estão muito presentes, em contraste com o silêncio, gerando tensão, inquietação e suspense. Por vezes também acompanhados de percussão em combate e outras situações para gerar maior agitação.

Harmonicamente, a trilha tem típicos traços românticos e cinematográficos, mas vejo também certa personalidade própria pela forma com que emprega dissonâncias na música Blockage e constrói, sempre em um ritmo bem marcado, melodias agitadas com as cordas, interrupções melódicas com alternância de instrumento e notas bem espaçadas. Bons exemplares dessas características são algumas peças feitas para os combates, como Battle 4, Battle 7, Battle 9 e Battle 12. Caso queira conferir essas e outras peças da OST, confira o vídeo abaixo.
Já que estávamos falando em músicas de batalha, é preciso complementar que Project Triangle Strategy definitivamente não decepciona no âmbito do combate tático. Suas escolhas, imagino, vão agradar tanto a jogadores mais conservadores de RPG tático quanto àqueles interessados em verem coisas novas nesse subgênero.

Cenários pequenos com riqueza estratégica em posicionamento de diferentes classes de personagens

Diferente dos abertos campos de batalha da série Fire Emblem: Three Houses (2019), os palcos para os combates de Triangle Strategy são menores, frequentemente em caminhos estreitos cercados por escadas, casas e outras estruturas que por vezes podem ser utilizadas estrategicamente para um ataque com um salto desde um local alto ou mesmo para encurralar o inimigo em uma armadilha.





Também variáveis climáticas, como a chuva, podem ter repercussões táticas. E, de novo diferente dos jogos da série Fire Emblem, mas comum nos RPGs táticos da Square Enix, em Triangle Strategy a direção e a altura da posição das unidades importam. Um personagem, por exemplo, pode sofrer maior dano em um ataque pelas costas e, caso seja arqueiro, pode se beneficiar de estar em um local alto.

Quanto às classes do jogo, fixas para cada personagem, parecem bem balanceadas e resultam em diferentes estratégias possíveis. Enquanto um feiticeiro pode erguer uma muralha de gelo para impedir a passagem dos inimigos, um espião, por exemplo, pode se esgueirar entre a tropa inimiga sem ser visto e ser de grande valia para um ataque surpresa.




Mas o que mais me chamou a atenção na jogabilidade é que ela não alterna turnos de modo usual. Diferente de grande parte dos jogos táticos, o jogador não mexe todas suas unidades em seu turno e passa para o oponente. Em vez disso, a vez de uma unidade praticar uma ação vai depender de seu nível de velocidade (Speed). Assim, apesar desse conceito tornar mais complexo o cálculo das jogadas, ele traz uma ideia bastante interessante para tornar as batalhas mais dinâmicas em RPGs táticos.




De modo geral, o sistema de batalha já parece estar muito bem encaminhado. Não só ele, o roteiro também; o qual, aliás, ocupa a maior parte do tempo da demo do jogo e provavelmente será um de seus pontos mais fortes.

Uma dramática história político-militar recheada de decisões difíceis

A história passa-se no continente de Norzelia, dividido por rios e lutas fratricidas entre linhagens de nobreza que lutam — abertamente ou por baixo dos panos — para obterem vantagens econômicas relacionadas aos principais recursos locais: sal e ferro. Neste continente, é possível assistir cenas paralelas à história principal, engajar-se em combates e recrutar unidades opcionais.




Desde Fire Emblem: Shadow Dragon and the Blade of Light (Switch), lançado em 1990 para Famicom, o casamento entre os gêneros RPG e estratégia foi acompanhado por sérias tramas político-militares em um background fantástico e medieval. Via de regra, assim permanecem tais jogos dentro e fora da série Fire Emblem; e, como tal estrutura básica continua a funcionar muito bem, Project Triangle Strategy não parece vir a mexer em time que está ganhando.




Por outro lado, foram significativas as mudanças que o criador, diretor e roteirista Yasumi Matsuno trouxe para o mundo dos RPGs táticos nas séries Final Fantasy Tactics e Tactics Ogre, e a Square Enix não perdeu a oportunidade de reaproveitá-las em seu novo projeto. Entre essas, e a mais rapidamente notável na demo disponível desde o último Nintendo Direct, há a possibilidade de opções de diálogo que levam progressivamente o jogador a caminhos diferentes da história conforme seu alinhamento moral.

Assim como em Tactics Ogre, há em Triangle Strategy três tipos de alinhamento, mas não mais divididos à maneira clássica (Law, Neutral e Chaos), e sim por valores mais realistas em decisões político-militares. São eles: Utilidade (Utility), Moralidade (Morality) e Liberdade (Liberty). Qual deles você acha ser mais importante? Se está achando difícil de escolher agora, espere pelas situações concretas no decorrer da história…




Contudo, as suas decisões muitas vezes podem não ser suficientes para mudarem os rumos da história. Fique tranquilo, isso não significa que são “falsas escolhas” que lhe são oferecidas, mas sim que muitas vezes uma decisão precisa ser tomada coletivamente, levando em conta também a opinião dos demais personagens aliados.

Felizmente muitos personagens podem ser persuadidos por você para que mudem de posição, mas isso vai requerer que você tenha certas informações ou itens e faça boas escolhas de diálogo para convencê-los. Muitas vezes, para obter sucesso, antes você precisará obter informações com NPCs das cidades ou explorar um pouco os locais disponíveis no capítulo do jogo.




De minha parte, achei consideravelmente fácil e simples a mecânica de persuasão durante a demo do jogo, mas espero que fique um pouco mais complexa e desafiadora no jogo completo. Na ocasião de uma votação, consegui muito facilmente fazer com que todos os personagens votassem a favor de minha posição.


A história de Triangle Strategy não envolve apenas difíceis escolhas político-militares, mas muito drama e reflexão relacionados a temas mais maduros, como de economia, de nacionalismo x cosmopolitismo e da dicotomia nobreza-plebe.




Apesar da ótima trilha sonora e da excelente atuação de dublagem, um pouco de imaginação faz-se necessária para que se possa sentir a intensidade das cenas dramáticas, dada a simplicidade do modelo e da movimentação dos personagens. Ademais, diferente de Final Fantasy Tactics: The War of the Lions (PSP), Triangle Strategy parece que não contará com nenhuma cutscene animada em gráfico superior, o que poderia ser uma boa adição para a imersão de algumas cenas.

Essa falta de imersão também pode fazer falta durante o gameplay, visto que muitos momentos de diálogo secundário não possuem dublagem. Felizmente esses diálogos sem dublagem parecem não ser tão numerosos e a história é suficientemente cativante e bem escrita para compensar sua ausência. Só espero que vilões como Gustadolph não sejam tão previsíveis quanto estão parecendo pela demo.




Por fim, algo também bastante interessante no novo RPG tático da Square Enix é a complexidade de seu elenco. Apesar de haver um protagonista (Serenoa), vários personagens parecem igualmente importantes na trama, diferente, portanto, de Final Fantasy Tactics (PS), cuja maior parte das linhas de diálogo gira em torno de dois personagens principais (Ramza Beoulve e Delita Heiral).

Um projeto muito bem escrito, desenhado e executado

Enquanto a excelência de sua trilha sonora dispensa comentários, a arte visual de Triangle Estrategy pode envolver algumas escolhas questionáveis de design, mas ainda há muita elegância e esmero em sua pixelart, em seus desenhos à mão para os perfis dos personagens e sobretudo em seus efeitos de luz, que são de encher os olhos. Ademais, ainda que o conceito HD-2D não seja mais inédito, continua fresco e distinto na indústria dos jogos, sendo mesmo uma novidade para aqueles que nunca jogaram Octopath Traveler.

De igual sorte, muitas de suas mecânicas de RPG e de estratégia são heranças dos mais bem sucedidos RPGs táticos da Square Enix, porém Triangle Strategy também introduz mecânicas muito interessantes e promissores para RPGs táticos, como da persuasão de membros da party e da ação por turno ser determinada pela velocidade (Speed) dos personagens. Por fim, a narrativa também não fica nada atrás, e é uma pena que não possa ser acompanhada em português. Pode ser que os desenvolvedores percam um pouco a mão no balanceamento da mecânica de persuasão, e pode ser também que os vilões se tornem mais previsíveis que de outros RPGs táticos da Square Enix — esse é um dos meus maiores medos —, mas estou certo do potencial de sua história.

Pelo que vi, só posso esperar diálogos muito bem escritos e dublados, um elenco de personagens rico e bem aproveitado e uma progressão de enredo nada linear e recheada de dilemas difíceis e realísticos no âmbito político-militar.

Por tudo isso, não se deixe enganar pelo amor por clássicos como Final Fantasy Tactics (PS) ou pelo alto orçamento de Fire Emblem: Three Houses (Switch), o modesto Project Triangle Strategy, principalmente considerando sua narrativa e suas mecânicas, tem sim potencial para reivindicar seu espaço entre os melhores jogos do mundo dos RPGs táticos. Siga meu conselho: se você possui um Switch e gosta de TRPGs, fique de olho nesse promissor projeto da Square Enix.

Project Triangle Strategy está previsto para 2022 e sua demo já está disponível na Nintendo eShop. Caso venha a jogá-la, recomendo modo portátil com um bom headset. E não deixe de responder ao questionário da Square Enix sobre o que achou da jogatina. A equipe de desenvolvimento levará em conta sua opinião para o polimento do jogo.

Revisão: Icaro Sousa

Doutorando em Filosofia que passa seu tempo livre com piano, livros e jogos (principalmente JRPGs). No Twitter, também conhecido como Vivi. Interessa-se especialmente por produções de maior apelo artístico e/ou narrativo e mecânicas de puzzle, stealth e RPG. Seu histórico de análises pode ser conferido no OpenCritic; suas reflexões sobre a arte e a ciência dos jogos, em thegamelogicist.medium.com (em inglês), ou em seu podcast: MetaQuestCast.
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