Nintendo e filosofia: The Legend of Zelda e o mito do herói

O mito do herói, tal como descrito por Joseph Campbell, explica porque tantas narrativas diferentes se aproximam. E The Legend of Zelda segue o mesmo caminho.


Em 1949 Joseph Campbell publicou “O herói de mil faces”. Nesse livro o autor argumentava que em diversas culturas, e em épocas distintas, a figura do herói tem a mesma força, inclusive apresentando características semelhantes na forma como os mitos são construídos. The Legend Zelda, série de jogos lançada em 1986 e criada por Shigeru Miyamoto e Takashi Tezuka, aborda à sua maneira a representação do herói a partir da história de Link e da Princesa Zelda. Nesse texto, que faz parte de uma sequência de aproximações entre a Nintendo e a filosofia, procuro mostrar como as ideias de Campbell se aproximam dessa que é uma das séries mais queridas da Nintendo.

O monomito

Para Joseph Campbell (1904-1987) o mito possui, antes de tudo, uma função psicológica. Longe de seu significado pejorativo como mentira ou enganação, o mito, para o escritor norte-americano, é uma forma de conexão do ser humano com a natureza por meio da imaginação. Essa faculdade intuitiva, comum a todos nós, permite que determinadas estruturas estejam presentes em culturas e épocas diferentes.

O mito do herói, chamado por Campbell de monomito, é um dos que melhor representa essa estrutura. A necessidade da representação do herói tem relação com um desejo constante de superação dos problemas e males que nos afligem. Ao mesmo tempo, a atitude heróica não é, necessariamente, uma eliminação de todos os problemas, como mostra a utilização do heroísmo trágico em muitas sociedades e, principalmente, através das religiões. Ainda que a representação do inconsciente coletivo tenha perdido força no mundo moderno por conta da padronização de comportamentos e ações, a psique humana ainda guarda espaço para o imaginário. Por isso, a utilização do heroísmo continua gerando encanto e interesse no cinema, literatura e nos videogames.

A jornada de Link

Campbell descreve a estrutura do mito como uma passagem por contextos específicos. Guardando as peculiaridades de histórias que suprimem ou acrescentam elementos a esse esquema básico, essa é a jornada do herói:
  • O chamado da aventura: alguém recebe um chamado para uma aventura que pode mudar toda a realidade. Quantas vezes isso aconteceu com Link em The Legend of Zelda? Aliás, tente imaginar todos os outros passos em diferentes jogos da série.
  • A recusa do chamado: o herói coloca em dúvida o propósito dessa missão. Ou por não se achar merecedor, ou por não acreditar em um desfecho positivo. Ainda assim, acaba seguindo a aventura.
  • O auxílio sobrenatural: uma ajuda sobrenatural chega no momento em que a aventura parece impossível.
  • A passagem pelo primeiro limiar: o herói sai do seu mundo cotidiano, e entra em um universo fantástico, repleto de magia e de coisas que ele nem imaginava.
  • O caminho de provas: uma série de missões aparentemente intransponíveis aparecem no caminho do aventureiro.
  • A tentação e superação dela: o protagonista é tentado a sair do caminho, mas resiste. Afinal, esse é o seu destino.
  • A apoteose: a esperada vitória diante do maior desafio. Aqui é quando Link derrota Ganondorf e a história termina. Mas será que termina mesmo?
  • O retorno: a volta à vida cotidiana, depois de restaurada a ordem.

Como disse antes, pense nessa estrutura a partir de qualquer jogo da série The Legend of Zelda e você verá como ela se aplica na maior parte. Importante dizer que Campbell insere mais etapas nessa estrutura, que aqui apresentei de forma resumida. Ainda assim, o importante é perceber como ele se repete não só com Link, mas em muitos livros e filmes. Talvez hoje o uso desse esquema seja planejado, mas como Joseph Campbell mostra em seu livro, durante milhares de anos povos distintos criaram mitos com as mesmas propostas, ainda que não tivessem contato uns com os outros.

Mas como isso foi possível? A explicação está no fato de que o mito guarda uma memória coletiva, sendo uma representação inconsciente que nos acompanha desde sempre. Daí o fascínio que The Legend of Zelda gera em tanta gente. Ainda que estejamos sempre diante de variações da mesma história, ela continua nos encantando, porque faz parte de nós, porque já nasceu conosco.

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Pesquisador nas áreas de estética e cibercultura com Mestrado em Cultura e Sociedade (UFMA) e Doutorado em Comunicação (UnB). Além de escrever sobre jogos, produz o Podcast Ficções e tem um blog sobre literatura, filosofia e cotidiano.


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