Resenha

The Legend of Zelda: Twilight Princess: a história do mangá enriquece a série como um todo (Vol. 1 e 2)

Aviso aos puristas: as mudanças importantes começam já no primeiro volume.


vimos antes como o mangá de The Legend of Zelda: Twilight Princess esperou sete anos até conseguir a chance de se tornar realidade sob a autoria de Akira Himekawa. Também vimos como o resultado disso foi a maior e melhor história em quadrinhos da franquia da Triforce.

É uma versão muito interessante da lenda de Zelda e Link, sem se limitar ao que está no jogo homônimo e lançando mão de desenvolvimento de personagens e algumas adições audaciosas. Como não foi publicado no Brasil (quem sabe um dia?), pensei que valia a pena apresentar aqui o conteúdo dessa obra, volume a volume. Por hoje, ficaremos com os eventos dos dois primeiros tomos da série, que li nas edições estadunidenses lançadas pela Viz Media.



Por ser a introdução geral, o primeiro volume terá uma narrativa longa neste artigo, enquanto a do sucessor será mais sucinta. Como ainda estou escrevendo os textos, não sei quantos serão ao todo, mas pretendo cobrir até o final de tudo, no volume 11. Nem preciso dizer que tudo aqui é o mais puro spoiler, não é?

Por preferência minha, empregarei termos em tradução livre, como Reino do Crepúsculo no lugar de Twilight Realm, uma vez que não há versão oficial em língua portuguesa. Ah, e lembrem que mangás são lidos da direita para a esquerda!

Volume 1

Crepúsculo

Sendo o início da história, este é um volume especialmente importante, contendo mudanças em relação ao jogo tanto na ordem do enredo quanto nas adições, com duas delas ousadas e surpreendentes.
Em vez de começar na calmaria do vilarejo Ordon, o mangá prefere dedicar seu primeiro capítulo inteiramente ao Reino do Crepúsculo, um lugar criado como uma prisão para exilar um grupo de magos que usou de seu grande poder para tentar dominar Hyrule. As deusas intervieram e selaram os golpistas no Cristal da Sombra, protegido por quatro espíritos. Outro artefato, o Espelho da Sombra, bloqueou a passagem entre Hyrule e o Crepúsculo, reinos irmãos, mas separados, como dois lados de uma mesma moeda.


Essa história aconteceu há tanto tempo que ninguém mais em Hyrule lembra da existência dos exilados, um segredo que continua a ser protegido pela família real.

Os prisioneiros continuaram a viver no Crepúsculo e, com o passar das gerações, seu poder mágico definhou. Eles viveram em paz, governados pelo mago mais poderoso entre eles. Assim, a princesa Midna reina sobre as sombras que seu pai liderou antes dela.

Um dos conselheiros do antigo rei, de nome Zant, era ambicioso e se ressentiu de não ser escolhido como monarca, mas ele era menos poderoso que Midna e buscou o antigo poder da geração que foi exilada. O que ele encontrou, porém, foi algo pior e, assim, destronou a princesa-rainha e transformou os súditos em criaturas monstruosas sob seu domínio.
No jogo, essa é uma história que só surge após a metade da campanha. A própria aparência verdadeira de Midna, revelada apenas no final. Na opinião do meu irmã, que considera este seu Zelda favorito, começar por esse ponto estraga a surpresa das revelações do que há por trás dos males que tomam Hyrule de assalto, mas acho que posso supor o motivo da mudança.

Enquanto um jogo te dá a trama completa em mãos, dependendo apenas do seu ritmo de jogatina para avançar nela, em um mangá serializado a coisa é diferente e pode demorar muito para articular o enredo até certo ponto.

De fato, após o primeiro capítulo, Midna só reaparece no mangá na última página do primeiro volume, já em seu aspecto deformado. Isso significa que, sem a introdução, os leitores levariam meses acompanhando capítulos para saber sobre a existência da coprotagonista, do Crepúsculo e dos perigos que ameaçam a vida de Link.


A vila Ordon

Como leitores, entramos no lado da luz pelo vilarejo de Ordon, no extremo sul do reino de Hyrule. É um local pacífico, conhecido pelo pastoreio de cabras e produção de abóboras. Tal qual no jogo, o mangá dá espaço aos vários personagens que habitam o local, especialmente os mais próximos a Link, como o guerreiro local Rusl e sua esposa Uli.

O destaque fica com as crianças: Colin, Malo, Talo e Beth, além de Ilia, uma jovem que, se as coisas tivessem sido diferentes, provavelmente teria se casado com Link alguns anos mais tarde.

Com sua afinidade para cuidar de animais, Link é apenas um auxiliar de rancheiro e tem uma personalidade leve e até brincalhona, mas segura de si. Ele é o único da etnia hylian a morar no local, notadamente o único de orelhas pontudas. Isso deixa implícito que Ordon não é, historicamente, parte de Hyrule, mas apenas um povo de periferia que em algum momento foi incorporado ao território.
No jogo não fica claro se Link se mudou para Ordon ou se nasceu lá, filho de imigrantes hylians. O mangá usa essa brecha para definir o passado trágico do rapaz e a forma como chegou ao vilarejo.


A história de Link

O futuro herói chegou àquelas terras remotas do sul havia um ano e meio, acompanhado apenas de sua égua Epona. Foi recebido por Ilia, filha do prefeito, e logo acolhido para viver e trabalhar ali, sem perguntas. Era óbvio para pessoas como Rusl que ele queria deixar sua velha vida para trás.

A verdade é a seguinte: Link nasceu em uma cidade de fronteira, governada pela família Rufurio. À beira do deserto, a cidade é fortificada e seus habitantes são treinados para proteger Hyrule de invasões. Por isso, ele cresceu treinando com a espada junto a seus amigos Darpa, Zeu e Rioma, com a devoção de dedicar suas vidas a proteger o reino e a famosa princesa Zelda.

No templo da cidade está a Espada de Gaurof, uma arma sagrada de inspirações arturianas, fincada em uma pedra. Ela tem o poder de vencer a magia e derrotar um deus, mas ninguém consegue removê-la da rocha. Com sua impulsividade e ambição da juventude, os garotos tentam mover a espada, mas em vão. Quando Link tenta o feito, porém, o símbolo da Triforce brilha em sua mão e ele consegue fazer o que ninguém mais conseguiu, tirando a lâmina de seu selo mágico.




As consequências foram desastrosas e, subitamente, toda a cidade é tragada para a escuridão, enquanto Link é agarrado por um guerreiro esqueleto a quem julga ser um deus da morte que estava ali para levá-lo para as trevas. Quando voltou a si, viu-se sozinho no deserto. Ele encontrou a égua de guerra Epona e passou a vagar com ela por Hyrule, buscando um lugar onde pudesse se esconder da culpa e da vergonha, até que se estabeleceram em Ordon.

Os pesadelos da escuridão daquele guerreiro esqueleto continuaram a assolá-lo e Link teme as trevas acima de tudo. De dia, é o amigo de todos da vila, mas, à noite, na solidão de sua casa, ele se encolhe de remorso e medo. Mesmo assim, passou a encomendar livros de magia, na esperança de um dia entender o que aconteceu com sua cidade natal. Ele sabe que sua vida de paz e luz em Ordon não durará para sempre.
As histórias da cidade e do esqueleto são muito importantes e serão retomadas em volumes mais à frente.


O ataque do Rei Bulblin

Confirmando os medos de Link, a vila é atacada por criaturas sinistras, e todos aqueles envoltos pela névoa que elas exalam se tornam uma delas. Além das criaturas, um bando de bokoblins atrozes invade a vida, matando a todos os que encontram. O povo foge para o Bosque de Faron, mas Link encontra Ilia e Colin desacordados na Fonte de Faron, reféns do Rei Bulblin, uma enorme criatura montada em um javali selvagem.

Empunhando a espada dada por Rusl, Link usa seu treinamento de guerreiro pela primeira vez, mas mesmo sua grande habilidade não é páreo para a força do machado da criatura, que, chocantemente, decepa o braço esquerdo do herói e o deixa sangrando na fonte, enquanto um bokoblin afoga o rosto dele na água até a morte.




Sim, Link morre. Todavia, quando as criaturas vão embora, o espírito de Ordona, um dos quatro servos das deusas, o traz de volta à vida naquela fonte sagrada, dizendo que a missão que ele carrega como um dos escolhidos da Triforce ainda não havia sido cumprida.
Essa ressurreição não é apenas um artifício de roteiro. É aqui que começa o arco de personagem que mostra Link como um escravo do destino, sem escolha a não ser tornar-se o novo herói de verde que deverá passar por provações e perdas até salvar Hyrule.
Sem entender o que aconteceu, ele parte de imediato para resgatar Ilia e Colin, até se deparar com um misterioso portão mágico e ser agarrado para dentro do Crepúsculo. As páginas finais deste volume mostram a transformação dele em lobo, sob os olhos de uma ainda anônima Midna.



Volume 2

O lobo e as princesas

A continuação também começa em referência ao reino da escuridão: é o momento em que o próprio rei de Hyrule usou o Espelho da Sombra para banir Ganondorf, o Ladrão Demônio, para o Reino do Crepúsculo por toda a eternidade. Essa cena do passado distante foi vista pela pequena Zelda em uma bacia mágica, antes de ser interrompida por seu tutor Auru, que a alerta a não demonstrar interesse pelos segredos das trevas.

As breves páginas de introdução preparam a aparição da princesa Zelda, que acontecerá pouco depois, mas demorará muito até que ela ressurja mais uma vez no conto.


Transformado em lobo e aprisionado, Link é liberto por uma criatura de jeito arrogante e olhar debochado, que flutua no ar e usa o cabelo habilmente, como se fosse um braço. Poderosa em magia, mas vulnerável à luz, ela é Midna, a rainha do Crepúsculo, que foi destituída de sua forma verdadeira como uma punição do usurpador Zant.

Pessoas comuns viram meras almas desnorteadas quando adentram o Crepúsculo, mas Link se tornou um grande lobo, o que indica que há algum poder atuando nele. É por isso que Midna o escolhe para ser seu servo na missão de recuperar os fragmentos do Cristal da Sombra espalhados por Hyrule e retomar o poder do reino.

Em troca, ela tira Link da prisão e promete ajudá-lo a voltar à forma humana. Enquanto escapam do lugar, Link percebe que o lugar onde estão é o Castelo de Hyrule, e Midna leva seu novo “cão” de estimação para a torre, onde está confinada a própria Zelda. Não há trancas nas portas, mas ela permanece ali em melancólico simbolismo de ser uma prisioneira do Crepúsculo, tal qual seu reino também o é. Ela não pode abandonar Hyrule.




Com seus poderes mágicos e como portadora da Triforce da Sabedoria, Zelda mantém sua forma hylian, sendo capaz de reconhecer a humanidade do lobo-Link e de apontar para Midna onde está o primeiro fragmento do Cristal da Sombra: no Bosque Faron, onde tudo começou.

Bosque Faron

Com o senso de dever renovado após encontrar sua soberana, o herói lupino parte de volta ao bosque nas redondezas da vila Ordon. O local está sendo oprimido por Ook, um chefe macaco que foi possuído pelos Demônios da Sombra e tem em sua posse o Bumerangue da Ventania.

Midna desperta o Olho da Sombra na testa do lobo-Link, e ele passa a enxergar os insetos demoníacos, esmagando-os em suas presas. Sem a influência maligna, o Crepúsculo que cobria o bosque é dissipado, e Faron, o espírito da luz que protege a fonte e o bosque que levam seu nome, ganha força para devolver a Link a forma humana.

Cercada por tanta luz que chega a queimar, Midna grita em desespero e Link a refugia na sombra sob seu pé. Ele está diferente, vestido como um guerreiro com uma misteriosa túnica verde, cota de malha e braçadeiras. Faron explica que a forma de lobo despertou em Link seu verdadeiro ser, agora confirmado pela manifestação das vestimentas do antigo herói escolhido pelos deuses; também Link foi escolhido.




Em seguida, o herói enfrenta Diababa, uma planta carnívora monstruosa, contaminada por um fragmento do Cristal da Sombra, que é recuperado após o monstro ser rasgado de um canto a outro.

Seguindo as indicações de Faron, Link e Midna deverão libertar os outros espíritos da luz afligidos pelo Crepúsculo na Montanha da Morte e no Lago Hylia, onde encontrarão os dois fragmentos restantes da cobiçada relíquia.
A história começa a se conectar ao mito central da série: o herói e a princesa que retornam a Hyrule em tempos de necessidade, repetindo o confronto da coragem e a sabedoria com a forma maligna do poder. O mito atravessa o passado e o presente, ligando-os e dando significados que determinarão as histórias de Link e Zelda e trarão associações memoráveis para o leitor.

 

Revisão: Cristiane Amarante

Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies.
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