Continuamos o nosso especial que celebra o legado de Dragon Quest e seus 40 anos de história. Até aqui, acompanhamos a criação do primeiro jogo na parte 1, a consolidação das bases da franquia na parte 2, a evolução narrativa na parte 3, o nascimento dos primeiros spin-offs na parte 4 e a transição para o 3D, somada ao triunfo no Ocidente, na parte 5. Agora, chegou o momento de explorarmos a expansão da saga nos consoles portáteis, especialmente no Nintendo DS.
Spin-offs peculiares no Game Boy Advance
Embora os dois primeiros consoles da Sony tenham concentrado grande parte dos holofotes em suas respectivas gerações, a Nintendo reinava no mercado portátil com o triunfo do Game Boy, de seu sucessor Advance e, sobretudo, do Nintendo DS. Em meio à ascensão de Dragon Quest VIII e à consolidação da recém-formada Square Enix, a franquia entrava em uma nova fase de expansão, transformando o aparelho de duas telas em uma das plataformas mais importantes de sua trajetória.
Como vimos anteriormente, a presença da marca em dispositivos móveis já crescia desde a década de 1990 com o Game Boy Color. O console recebeu remakes dos três primeiros capítulos da série principal e o nascimento da vertente Monsters, que ali teve dois jogos. Com a estreia do Game Boy Advance em 2001, a saga ampliou seu portfólio, inaugurado nesta plataforma com Dragon Quest Monsters: Caravan Heart, lançado em 29 de março de 2003.
A nova aventura de monstrinhos era protagonizada por Kiefer, o príncipe de Estard apresentado em Dragon Quest VII, embora a maior parte da jornada se passasse no mundo de Dragon Quest II. Como o próprio nome sugere, esta obra utiliza uma estrutura baseada em caravanas, na qual o jogador transporta humanos de diferentes profissões, cada um contribuindo de maneira distinta tanto nos confrontos quanto na exploração.
O projeto também introduziu elementos de sobrevivência, exigindo o consumo de alimentos durante as viagens, e abandonou o tradicional sistema de recrutamento de criaturas da subsérie em favor do uso de corações de monstros, mecânica inspirada nas vocações de Dragon Quest VII. Como resultado dessas experimentações, temos aqui a obra mais peculiar de toda essa ramificação. Infelizmente, o título jamais saiu do Japão ou recebeu relançamentos, ainda que tenha alcançado números sólidos, superando a marca de 500 mil unidades vendidas.
Outro jogo que chegou ao Game Boy Advance foi Slime MoriMori, projeto nascido do desejo dos produtores de criar uma experiência ainda mais acessível, voltada ao público infantil. Para isso, a equipe escolheu ninguém menos que um Slime, um dos mascotes mais icônicos da série, como protagonista. Diferente dos RPGs tradicionais da franquia, o produto apostava em uma estrutura focada em ação em tempo real e resolução de puzzles, utilizando o corpo gelatinoso do herói para atacar inimigos. A obra foi disponibilizada em 14 de novembro de 2003, exclusivamente no território japonês, e ultrapassou a marca de 300 mil unidades vendidas.
A derivação Joker da subsérie Monsters
Em 2004, a Nintendo lançou aquele que seria, por muitos anos, seu console mais vendido: o Nintendo DS. A estreia da franquia nesta plataforma ocorreu em 1º de dezembro de 2005 com Dragon Quest Heroes: Rocket Slime, sequência direta de Slime MoriMori. Além de preservar diversos elementos de seu antecessor, o game trouxe um sistema de combate tático utilizando tanques. O lançamento também superou 300 mil unidades vendidas no Japão e, ao chegar ao Ocidente em setembro de 2006, acumulou pouco mais de 100 mil cópias comercializadas.
Nesse mesmo período, a subsérie Monsters passava por uma importante reformulação com Dragon Quest Monsters: Joker, lançado para Nintendo DS em 28 de dezembro de 2006. Utilizando diversos elementos de Dragon Quest VIII, o título refinou sistemas que se tornariam padrão na franquia, como a síntese para a criação de novos monstros, a herança de conjuntos de habilidades e a transição para o 3D com visual cel-shading.
O sucesso da reformulação foi tamanho que garantiu uma continuação poucos anos depois para o mesmo console, com Dragon Quest Monsters: Joker 2 chegando às lojas em 28 de abril de 2010. Além de expandir as mecânicas anteriores, a aventura trouxe o conceito de monstrengos gigantes, que ocupavam mais de um espaço na equipe.
A subsérie Joker ainda receberia um terceiro capítulo em 24 de março de 2016, desta vez para o Nintendo 3DS. Como novidade, a produção eliminou restrições de combinação, permitindo que quaisquer pares fossem fundidos para gerar uma nova criatura, além de introduzir a possibilidade de montaria. Somados, estes três jogos venderam mais de quatro milhões de unidades, sendo que apenas o terceiro título não chegou ao Ocidente.
O retorno da Trilogia Zenithia
Paralelamente à expansão dos spin-offs, a Square Enix voltou suas atenções aos capítulos clássicos da série principal. Aproveitando a força do Nintendo DS e a popularidade crescente da franquia ao redor do mundo, a empresa iniciou um projeto de releituras focado na Trilogia Zenithia (IV, V e VI). Vale lembrar que, originalmente, apenas o quarto capítulo havia chegado ao Ocidente.
Desenvolvida pela ArtePiazza, a coletânea adotou uma estética similar à de Dragon Quest VII, combinando cenários tridimensionais com personagens e monstros em 2D. Nos confrontos, os títulos apresentavam sprites animados excepcionais, que faziam jus à genialidade de Akira Toriyama. Ademais, foram implementados diversos ajustes de interface e mecânicas, como a introdução do party-chat e o balanceamento de atributos e habilidades, alinhando a jogabilidade aos padrões mais modernos da série.
Dragon Quest IV: Chapters of the Chosen inaugurou essa fase, sendo lançado em 22 de novembro de 2007 no Japão e em 16 de setembro de 2008 no Ocidente, vendendo mais de 2 milhões de unidades. Vale notar que o jogo recebeu um remake anterior para PlayStation, lançado apenas no Japão em 2001, que ultrapassou a marca de um milhão de cópias.
Pouco tempo depois, Dragon Quest V: Hand of the Heavenly Bride chegou às prateleiras em 17 de julho de 2008 (Japão) e 17 de fevereiro de 2009 (Ocidente). Além das melhorias já mencionadas, a versão trouxe a inclusão de Debora como uma terceira opção de pretendente para o protagonista. Este remake também foi um êxito comercial, ultrapassando 2 milhões de unidades vendidas mundialmente. É importante destacar que, em 2004, este mesmo capítulo ganhou uma versão totalmente 3D para PlayStation 2, que somou mais de 1,5 milhão de vendas, embora tenha ficado restrita ao território japonês.
O ciclo foi concluído com Dragon Quest VI: Realms of Revelation, lançado em 28 de janeiro de 2010 no Japão e em 14 de fevereiro de 2011 no Ocidente. O projeto também obteve resultados expressivos, superando igualmente a marca de 2 milhões de cópias comercializadas. Vale destacar, ainda, que todos esses três títulos receberam posteriormente versões para dispositivos Android e iOS.
O fenômeno de Dragon Quest IX
Embora a franquia tenha recebido inúmeros títulos importantes e bem-sucedidos no Nintendo DS, nenhum alcançou tamanha popularidade quanto Dragon Quest IX. Iniciado em meados de 2005, o projeto foi originalmente concebido como um spin-off. Contudo, conforme o desenvolvimento avançava e sua escala crescia, a equipe percebeu que estava diante de algo ambicioso demais para permanecer apenas como uma derivação, promovendo-o oficialmente ao posto de nono capítulo principal da série.
Dragon Quest IX foi idealizado desde o início para aproveitar ao máximo as características do Nintendo DS. Isso porque Yuji Horii enxergava no portátil a oportunidade perfeita para criar uma experiência mais social, permitindo que jogadores compartilhassem suas aventuras, algo que o dispositivo de duas telas resolvia com facilidade, graças à conexão por proximidade. Com esse recurso, até quatro usuários podiam explorar o mundo de um anfitrião, mantendo a liberdade de movimento e podendo participar de batalhas em grupo.
Essa proposta impactou diretamente diversos pilares da obra. Pela primeira vez na franquia principal, o jogador era capaz de criar seu protagonista do zero, definindo aspectos como cabelo, tom de pele e cor dos olhos. Além disso, os demais integrantes do grupo deixaram de ser personagens fixos da narrativa, tornando-se membros totalmente customizáveis pelo usuário.
Ainda com respeito a jogabilidade, o título introduziu diversas outras mudanças significativas. Como exemplos, os encontros aleatórios foram abandonados em favor de monstros visíveis no mapa, enquanto o sistema de vocações retornou. Outro destaque foi a enorme variedade de equipamentos visíveis, garantindo que armas, armaduras e acessórios alterassem a aparência dos personagens.
Na trama, assumimos o papel de um jovem Celestrian, raça de seres celestiais responsável por observar e proteger os humanos. Após um misterioso incidente, o protagonista cai no mundo mortal, perdendo suas asas e poderes divinos. Neste contexto, iniciamos uma jornada para descobrir a origem da tragédia enquanto auxiliamos diferentes povos espalhados pelo mundo. Conforme a aventura avança, descobrimos os planos malignos de um antigo Celestrian chamado Corvus.
A aposta de Yuji Horii provou ser um movimento extremamente assertivo, e Dragon Quest IX tornou-se um fenômeno sem precedentes para a franquia. Lançado originalmente em 11 de julho de 2009, o título ultrapassou a marca de 4 milhões de cópias vendidas em poucos meses, número que aumentou em mais um milhão com a chegada do jogo ao Ocidente em julho do ano seguinte. Algumas fontes estimam que as vendas totais ultrapassam a marca de 7 milhões, um feito ainda mais extraordinário ao lembrarmos que, diferentemente de outros capítulos da série, este título não recebeu relançamentos.
Um dos períodos mais importantes da franquia
O período do Nintendo DS representou uma das fases mais importantes de toda a história de Dragon Quest. Com esse portátil, a franquia não apenas alcançou um sucesso impressionante com Dragon Quest IX, como possibilitou que o público ocidental pudesse, finalmente, aproveitar toda a Trilogia Zenithia, além de levar a subsérie Monsters para o ambiente 3D. Na próxima parte, veremos a chegada da franquia ao Nintendo 3DS e a ousada aposta no terreno dos MMORPGs com Dragon Quest X.
Revisão: Beatriz Castro
Fontes: Dragon Quest Wiki, Dragon's Den, Shmuplations, Canal Oficial de Dragon Quest (YouTube), Dragon Quest 25th Anniversary Encyclopedia Of Adventure History Book











